« Atores da Série Clássica: carisma vs. desempenho | Principal | Trailer de Jornada poderá sair em novembro »
Quase uma semana com Nicole Janeway
Por Fernando Penteriche | 10 de Outubro, 2008
A história de Geneviève Bujold, a atriz que foi contratada às escuras pelos produtores para viver a capitã da USS Voyager.
No segundo semestre de 1994, durante o período de pré-produção de Voyager, série que lançaria a UPN, novo canal de televisão da Paramount, os produtores Rick Berman, Michael Piller e Jeri Taylor estavam à caça de uma atriz que pudesse personificar a capitã Nicole Janeway, comandante da USS Voyager, uma nave que se perderia em um setor distante da galáxia e passaria a série toda tentando retornar para casa.
Depois de dezenas de audições com diversas atrizes, aparentemente a intérprete de Janeway havia sido escolhida por Jeri Taylor. Seria a atriz franco-canadense Geneviève Bujold, então com 52 anos, já indicada ao Oscar e com uma grande bagagem na área da atuação. “Eu já havia visto seu trabalho no cinema e convidei-a para uma audição. Tinha certeza de que era a pessoa correta para o papel, vide seus trabalhos anteriores, cheios de paixão e intensidade”, conta Jeri. “Porém ela revelou que não fazia audições, não era a maneira como trabalhava. E assim foi contratada, pelo nosso instinto de que daria certo.”
Winrich Kolbe, o diretor do episódio-piloto “Caretaker”, advertiu que talvez Bujold não estivesse muito por dentro de como funcionaria fazer uma série semanal de televisão, já que a atriz havia construído toda a sua carreira no cinema. Sabendo do rigor de horários e do planejamento sempre pré-estabelecido e modificado em cima da hora, Kolbe ficou receoso quanto a produtividade da atriz. Rick Berman chamou Geneviève em seu escritório e explicou exatamente como funcionava o processo, e ela ficou de pensar melhor antes de dar uma resposta definitiva. E deu, dias depois. Geneviève estava dentro e a série começaria a ser filmada.
O primeiro encontro do recém-selecionado elenco foi em um tour comandado por Winrich Kolbe pelos cenários da nova série. Garret Wang, o alferes Harry Kim, disse que “Geneviève era muito reservada e nunca falava nada. Sua presença era fria e cordial apenas”. Porém Bujold, tentando se aproximar de seus novos colegas, distribuiu flores para todo o elenco e produção no primeiro dia de gravações. Mesmo assim havia uma certa tensão no ar durante as filmagens. Geneviève havia desistido de tentar aproximações com os outros atores depois do primeiro dia e tudo andava muito quieto, algo nada normal para Wang. “Ela fazia suas cenas e depois sumia em seu trailer”, conta o ator.
Alguns dias depois de iniciadas as filmagens, mais precisamente em uma sexta-feira, Geneviève aproximou-se do diretor Kolbe e disse que não queria ser a capitã Janeway arrojada e decidida, como pedia na “bíblia” da série. Ela queria interpretá-la como se fosse exatamente uma cientista, apoiada na lógica e com atos friamente pensados. Bujold disse ainda que aquela Janeway parecia um personagem de desenho animado e ela não queria ser um cartoon. Queria ser Geneviève Bujold.
Kolbe explicou que a capitã era de fato uma cientista, mas como comandante da nave tinha muitas obrigações e deveria mostrar um pulso firme, uma personalidade decidida e objetiva, mas com emoção e intensidade. Devia ser algo “além da vida”, como todos os protagonistas das séries de Jornada foram. Nessa mesma sexta-feira, lá pela hora do almoço, aconteceu o que muitos já estavam prevendo. Bujold aproximou-se mais uma vez de Kolbe e disse que não estava se sentindo bem fazendo o papel de Janeway e iria largar tudo. Segundo Kolbe, sua reação foi de pedir que ela não dissesse isso na frente da equipe de produção e resolveu então fazer uma pausa para almoço e decidir que atitude tomar. “Veja bem”, conta Kolbe, “há muita, mas muita pressão sobre a equipe de produção. Recebemos muito dinheiro do estúdio para fazer a coisa funcionar, e há muito mais dinheiro envolvido nisso tudo. Iríamos lançar um canal de televisão de um dos maiores estúdios de Hollywood e estavamos fazendo a mais nova encarnação de um dos maiores (se não o maior) franchise de todos os tempos do ramo do entretenimento”. Kolbe foi ao trailer de Bujold e ficou lá por meia-hora conversando com a atriz. De nada adiantou. Rick Berman foi chamado ao set de gravação e informado que Voyager não tinha mais sua capitã.
Jeri Taylor assumiu então que contratá-la foi um erro. Geneviève Bujold estava acostumada a trabalhar em filmes para cinema, onde há mais tempo e onde o ator pode se isolar do mundo. Na televisão ela teria de dar entrevistas à Imprensa com frequência e posar para fotos publicitárias, sendo que Bujold não gostava nem de fotógrafos no set de gravações.
Assim estava decretada a morte da capitã Nicole Janeway, que não teve sequer uma semana de vida. As tomadas de Bujold como a capitã de Voyager nunca foram divulgadas, ou se foram, apenas para um número limitadíssimo de pessoas. Isso, claro, não impediu que os fãs fizessem sua própria concepção de como seria essa fria capitã cientista.
Mas Voyager precisava seguir em frente com uma nova Janeway, desta vez chamada Kathryn, e Kate Mulgrew poderia ser a pessoa certa para vivê-la.
Artigo originalmente publicado no conteúdo clássico do Trek Brasilis em 21 de outubro de 2002.
Categorias: Star Trek, Voyager |
16 comentários a “Quase uma semana com Nicole Janeway”
Comente
Use esta ferramenta para fazer seus comentários sobre os artigos e postagens no Trek Brasilis.
Quaisquer opiniões divergentes não são apenas permissíveis como encorajadas, mas certifique-se de que aquilo que posta seja realmente isto: opiniões. Pois qualquer colocação sem boa argumentação, sem evidências que a suportem e sem conhecimento do que se fala não pode ser classificado como opinião, mas sim como mero pitaco.
Os comentários são passíveis de moderação pela equipe do TB, aplicando para isto as Normas de Uso gerais do Fórum Trek Brasilis. Xingamentos gratuitos e quaisquer outras atitudes nocivas que podem ser classificadas com trollismo será algo que a equipe de colaboradores pode bloquear.












10 de Outubro, 2008 às 10:07 am
Este é o primeiro de três artigos que abordam a respeito da capitã de Voyager.
10 de Outubro, 2008 às 11:18 am
Novamente essa me pegou de surpresa, não sabia disso. Assisti vários filmes com ela, entre eles: Coma, terremoto e Ana dos Mil dias, contracenando com Michael douglas, Charlton Heston e Richard Burton. Foi uma tocada arrojada por ser uma atriz de mais categoria e nome, mas cuja personalidade se mostrou errada. Gostaria de ver algumas das filmagens…. pena que não colocam isso em um dos boxes. Não seria o caso de fazer uma requisição à Paramount…?
10 de Outubro, 2008 às 11:28 am
Eu já havia visto essa matéria anteriormente. Legal!
Geneviève Bujold é um nome no cinema.
Se ela tivesse permanecido como capitã da Voyager, aos poucos ela mudaria o modo de ver a Janeway.
Acho que, no decorrer da série, ela acabaria se soltando e testemunharíamos uma capitã dura e fria se converter em uma capitã amiga, comandando a esperança de uma tripulação inteira rumando para uma casa distante.
Kate Mulgrew foi uma espécie de “Shatner/Kirk”, Geneviève foi um tipo de “Hunter/Pike” que também não foi pra frente.
Minha esposa acha que Kate Mulgrew comanda muito bem a Voyager! É frágil, mas tem a tal da autoridade mesclada com carisma.
(E minha esposa nem liga muito pra StarTrek, hein!:)
10 de Outubro, 2008 às 11:31 am
Salvo engano, veio alguma coisa nos extras do primeiro box de Voyager (?). Em todo o caso, dá pra assistir no YouTube. Digite “first Captain Janeway”. Tem pelo menos uns dois vídeos dela disponíveis no site. Evidentemente, não dá pra saber como ela desenvolveria o personagem, se ficasse no papel, mas com certeza é muito diferente da Kate Mulgrew.
10 de Outubro, 2008 às 12:00 pm
todas as cenas de bujold como nicole janeway estao disponiveis como extras no box set do primeiro ano de voyager em DVD
10 de Outubro, 2008 às 12:18 pm
HÉLIO/FÁBIO
Obrigado pela informação, não sei como me escapou…
10 de Outubro, 2008 às 2:20 pm
Com certeza ela seria uma capitã muito melhor, eu assisti as primeiras cenas dela em Voyager pelo youtube e notei que ela tem presença e força. Com certeza a série perdeu muito com sua saída…
Por outro lado, ela fez uma boa escolha, Voyager foi certamemte a pior série de toda a franquia, ela ficaria marcada como a capitã de uma série medíocre.
Com apenas alguns episódios fizeram jus à franquia, pois no geral os roteiros eram péssimos, Voyager desgastou tanto a franquia que a série Enterprise, sua sucessora, colheu os frutos amargos deste desgaste.
10 de Outubro, 2008 às 2:43 pm
Eu já vi também alguma coisa no YT. A interprtação dela é muito boa, de gente que sabe o que faz. Foi uma pena, mas….
10 de Outubro, 2008 às 8:39 pm
Mesmo levando em conta que estamos comparando, no fundo, meros copiões com a versão final do piloto, acho que está clara a atitude dela, Bujold, no melhor estilo “que diabos estou fazendo aqui?” Não tinha condições dela ficar.
10 de Outubro, 2008 às 9:01 pm
Só uma coisa, ele não é Francesa, ela é Canadense. Digo isto, porque de tempos em tempos eu sinto que as pessoas falam dela no mesmo nível de musas como Irène Jacob, Julie Delpy e Juliette Binoche. O que é, basicamente, loucura!
10 de Outubro, 2008 às 10:34 pm
Em uma das cenas que ela contracena com Paris, nitidamente, ao fim da cena, ela faz uma cara de insatisfação.
Eu não consigo ver Bujold virando lagartixa. Ela desistiria antes.
10 de Outubro, 2008 às 11:09 pm
É, devo ter visto outra Voyager com outra Bujold.
…
Desculpem os que gostaram do que assistiram, mas…
Com toda a pressuposta ruindade de Voyager, vituperada por muitos, e em havendo eu assistido os traillers disponíveis, depois de ter assistido a Sr.ª Bujold interpretando uma capitã de uma nave da Federação, pensei em convidar o Robo Gigante para substituí-la, para dar mais emoção às tomadas.
Mais uma vez, desculpem os apreciadores…
A-koo-che-moya, Gene…
11 de Outubro, 2008 às 9:26 am
Eu não assisti todos os episódios da Voyager e concordo que há alguns elementos estranhos, mas gostei muito de alguns episódios e achei o remake “A BLINK OF AN EYE” muito bom. O episódio final tb achei muito legal, melhor final que o TNG e DS9 e, nem precisaria dizer, o ENT.
Enfim, gosto é gosto…
Quanto à Bujold, precisarei ver para opinar, mas ainda não tive tempo.
11 de Outubro, 2008 às 10:34 am
A Capitão Kathryn Janeway é, na verdade, Catherine Hepburn!
Um dos recursos mais usados por atores que precisam fixar um mesmo personagem para várias atuações (uma longa temporada de teatro, uma série televisiva, ou filmes), além das amarrações dos roteiros, evidentemente, é a invocação de um ícone cujas características principais delimitem um “envelope” dentro do qual o ator exercitará sua interpretação. Faço votos que os atores do filme “XI” tenham recorrido a este engenho quando da encarnação dospersonagens clássicos.
É muito evidente que Kate Mulgrew lançou mão deste expediente, invocando o ícone de Madame Hepburn para construir seu personagem, e o fez com bastante competência, ao menos na 1ª temporada de “Voyager”.
A excelente atriz Cate Blanchet encarnou Madame Hepburn em “O Aviador”, de Scorcese, e foi premiada com o Oscar de Coadjuvante pelo feito. No entanto, pareceu-me excessivamente caricata e exagerada (Blanchet é ótima, e recomendo com insistência o “Vida Bandida”, de Barry Levinson, que lhe valeu o Globo de Ouro de melhor atriz cômica).
A presença de Madame Hepburn na Capitão Janeway é muito mais consistente e natural, para quem conhece bem um dos grandes mitos dos anos de ouro de Hollywood, e emprestou carisma e força ao personagem. Merece todos os elogios.
11 de Outubro, 2008 às 3:57 pm
Jorge
Excelente comentário, parabéns.
12 de Outubro, 2008 às 8:37 pm
“Post 11:
… Eu não consigo ver Bujold virando lagartixa. Ela desistiria antes.”
Concordo plenamente.
A LAGARTIXA/SALAMANDRA desistiria antes, ao saber que seria interpretada pela Bujold.
A-koo-che-moya, Gene…