Concluindo a entrevista do Star Trek.com com o ex-produtor de Jornada, Rick Berman, em sua terceira parte, temos os seus comentários a respeito do longo tempo na franquia, das produções dos longametragens baseados na  série A Nova Geração, da controvertida morte do capitão James T. Kirk (interpertado por William Shatner), além dos pensamentos sobre o novo filme Star Trek sob o comando de J. J. Abrams.

Se você ainda não leu veja a primeira parte e segunda parte dessa entrevista concedida pelo site oficial Star Trek.com. Abaixo a terceira e última parte. 

Você produziu quatro filmes de A Nova Geração. Por favor, dê-nos os seus pensamentos e/ou memórias dos conceitos por trás deles, as produções individuais e os resultados finais. O primeiro é Star Trek VII:Generations …

“Foi uma espécie de ingenuidade minha, de Brannon (Braga) e de Ron (Moore) entrar no negócio de filme com muito pouca experiência realmente sobre como isso funcionava. Tivemos um pouco de briga com o (potencial diretor  do filme) Leonard Nimoy, em retrospectiva, sobre os elementos processuais de como o desenvolvimento, redação, produção e direção de um longa-metragem são diferentes da televisão. Como resultado, foi selecionado David Carson para dirigir. Tivemos uma série de críticas pela forma como Kirk foi tratado, no qual senti que foi infeliz. No que diz respeito aos fãs de A Nova Geração, Kirk tinha morrido há anos. Foi um século depois. Nós pensamos, “Não seria ótimo ter alguma forma de passar a tocha, de certa maneira? De alguma forma trazer Kirk e Spock e os demais para isso, encontrar alguma maneira de casar com os dois?”.

“E daí veio a idéia do Nexus e da faixa e tudo isso, e que Kirk não tinha, na verdade, morrido, que ele voltava para uma última grande aventura com Picard. Isso foi algo que significou a nossa maneira de prestar o respeito e honrar a série original. Mas isso foi considerado por um monte de gente como indo contra o cânon da série, e sobre a nossa matança de Kirk, quando na verdade Kirk estava morto por décadas, muito provávelmente, até o ponto em que alguém soubesse. Cenas que foram escritas para a sua morte foram um tanto tristes e fracas, e acabamos voltando e fazendo o melhor que pudemos para torná-las mais dramáticas. Foi uma primeira vez para muitos de nós, e isso fez dinheiro e acabou sendo, para a primeira vez fora da área específica, um filme não tão ruim.”

Star Trek VIII: Primeiro Contato …

“Tudo o que talvez deu errado no primeiro filme deu certo no segundo filme. Eram exatamente as mesmas pessoas. Em vez de trazer de volta David Carson, nós contratamos Jonathan Frakes para dirigir o filme. Era um tipo de escolha arriscada. Ele era alguém que nunca tinha feito um filme antes, alguém que tinha, basicamente, passado quatro ou cinco anos dirigindo episódios de televisão, juntamente com a atuação em A Nova Geração. A história foi desenvolvida pelas mesmas três pessoas – Ron Moore, Brannon e eu próprio – e o roteiro foi escrito pelas mesmas duas pessoas (Moore e Braga). Mas ele simplesmente funcionou em um grande número de níveis. Foi emocionante. Havia algumas coisas muito memoráveis. Pessoas como James Cromwell (Zefram Cochrane) trouxe um elemento para toda a história de Jornada que eu achei fascinante. Alice Krige fez um trabalho incrível como a Rainha Borg. Foi a viagem no tempo e a história de voltar e salvar a Terra, mas isso funcionou e rendeu uma grande quantidade de dinheiro para o estúdio, então eles ficaram muito felizes.”

Star Trek IX: Insurreição não se saiu tão bem, mas tem havido um crescente sentimento entre os fãs de que foi subestimado e que foi o filme de A Nova Geração  mais próximo do espírito da série. Seus pensamentos?

“Eu tive uma situação interessante. Ron e Brannon estavam muito envolvidos com Voyager e Deep Space Nine e não estavam realmente interessados em escrever um outro filme. Eu fui a Michael Piller, que havia se afastado de Jornada, mas era um amigo muito próximo e alguém que eu achava que tinha estado nas trincheiras comigo há muitos anos. Michael concordou em escrever o próximo filme. Ele desenvolveu uma história que foi a coisa mais obscura que eu já li. Era o tipo de coisa que você iria querer encontrar uma pistola e matar-se, depois de lê-lo. Ele imaginou algo como “Apocalypse Now” ou o livro que é baseado, “Heart of Darkness”. Ele queria contar uma história de Picard que acabou sendo despojado de tudo, perdendo a nave, sua tripulação, a sua comissão na Frota Estelar, perdendo tudo, execeto seu senso do que era certo e sua integridade, e ficando apenas com isso. Quando o estúdio leu a história, eles tiveram a mesma reação que eu tive, de que era que era simplesmente nada perto do que um filme de Jornada deveria ser, que era muito escuro e deprimente. Este era o feitio de Michael, de certa forma. Ele queria contar uma história profundamente dramática e obscura.”

“Então, o que aconteceu foi que começamos a consertá-lo. O script acabou tendo a entrada de Patrick Stewart, do estúdio, de mim e, lentamente, a história começou a mudar. Acho que é um pouco com aquela velha história do camelo que é um cavalo desenhado por uma comissão. Em vez de deixá-la de lado e chegar com uma outra história, nós tomamos essa história e começamos a dobrá-la e torcê-la e mudá-lo e torná-la mais otimista, e eu não acho que o roteiro ficou bastante solidificado. Jonathan foi trazido novamente para dirigi-lo. Ele fez um trabalho lindo. Tivemos F. Murray Abraham, que foi uma coisa muito maravilhosa no elenco, na época, e alguns outros atores maravilhosos. Mas foi menos que Primeiro Contato, que tinha sido pra cima e tão emocionante.”

Nemesis …

Nemesis será sempre incompreensível para mim. Patrick e Brent (Spiner) entraram em meu escritório um dia. Isso é algo que eu realmente nunca discuti antes … O chefe do estúdio tinha realmente tentado me convencer a fazer um filme sem o elenco de A Nova Geração. O sentimento era “Esses caras ficaram mais idosos. É hora de introduzir um pouco de sangue novo e fresco”. Houve uma atitude em que eu deveria sair e encontrar um novo Tom Cruise. Senti-me fortemente contra isso por duas razões. Um dos motivos foi que quando estávamos desenvolvendo o filme, a série Enterprise estava entrando. Assim, a platéia de Jornada estava prestes a ser introduzida a todo um elenco novo de personagens jovens na televisão. Para nós, ao mesmo tempo, introduzir todo um elenco novo de personagens jovens em um filme parecia ser loucura para mim. A outra razão foi que eu senti depois de uma ausência de quatro anos longe das telas, os fãs realmente queria ver o Patrick, Brent, Jonathan e companhia novamente. Eu poderia ter errado em uma ou ambas as crenças, mas eu senti fortemente que deveria haver um outro filme de A Nova Geração.”

“Patrick e Brent chegaram em meu escritório um dia com um jovem chamado John Logan, que desde então se tornou um amigo muito próximo. John era um grande escritor. Ele havia escrito alguns filmes importantes. Havia sido indicado no ano anterior para “Gladiador”. Ele foi contratado para escrever mais coisas ao longo do ano seguinte. Brent, Patrick e Logan vieram com algumas idéias que trabalhamos e alteramos. Eu achei que isso seria excitante. Ao invés de ir com alguém como Ron ou Brannon ou Michael, pessoas que tinham se envolvido com Jornada na televisão por tantos anos, aqui nós teríamos algo fresco, uma celebridade, o escritor de Hollywood que passou a ser um fã gigantesco de  A Nova Geração. O estúdio chegou para mim e eles … não exigiram que eu usasse Stuart Baird (para direção), mas estavam bastante persuasivos sobre mim para usar Stuart Baird. Stuart era um diretor inglês. Ele fez dois bons filmes. Ele era um editor de filmes de classe mundial.”

“Portanto, o pensamento foi: “Isso é ótimo. Nós vamos fazer um filme com um diretor de fora, um escritor de fora, top, celebridade, que realmente conhece e ama Jornada”. Por isso, foi o escritor que conhecia Jornada e o diretor que não sabia muito sobre Jornada, mas sabia muito sobre ação. Um roteiro foi escrito e foi muito longo e demasiado prolixo. Havia sempre um pouco de Shakespeare. A idéia de um clone de Picard … passou de filho de Picard para um clone de Picard que foi da mesma idade que Picard, onde Patrick iria interpretar os dois personagens. Finalmente, ele acabou sendo o personagem de Tom Hardy, que foi um clone de Picard, mas não um sósia. Havia muita suspensão de descrença na escolha do ator. Obviamente, Tom não parecia exatamente como Patrick, de modo que era meio difícil de comprar. Mas nós trabalhamos muito duro. Houve alguns problemas com Stuart e o elenco. Houve alguma tensão e um pouco de stress envolvido na produção. Foi um caminho muito longo, e foi o que derrubou. Foi um pouco prolixo, e o fez diluído.”

“Mas todos do estúdio para mim pensaram que havíamos criado um filme realmente bom. E ninguém chegou a vê-lo. Não era mesmo uma questão de não receber boas críticas. Qualquer de filme de Jornada que estreava tinha uma grande abertura de fim de semana, mas este não o fez. Agora, por quê? Eu entendo e aprecio as críticas à produção ou script, mas eu, até hoje, tenho alguma dificuldade em entender porque encontrou-se com uma recepção tão ruim.  John (Logan) passou a escrever filmes enormes. Ele está escrevendo o novo filme de James Bond. Ele acabou a produção de um outro filme de Martin Scorsese, ele escreveu. Ele é tão quente quanto possa ser. Mas o tiro saiu pela culatra e há certamente muito espaço para a discussão do porquê. Foi triste e um pouco frustrante para mim.”

Muita gente aprecia o trabalho que você, Piller e Braga fizeram, mas há um sentimento entre uma seção da base de fãs que vocês ficaram por muito tempo e/ ou esperaram demasiado tempo para deixar Ira Behr e Manny Coto, etc executarem as séries. O que você diria a esse contingente de fãs?

“Há um monte de coisas diferentes que estão sendo lançadas lá fora. No que diz respeito a Deep Space Nine, Ira levou a série. Houve momentos, como já falamos antes, onde a minha opinião e o envolvimento com a série me permitiram fazer algumas mudanças que talvez Ira e sua equipe de roteiristas não concordassem, mas eles eram muito poucos e distantes entre si. Ira era o príncipe de Deep Space Nine a partir do terceiro ano, quando Michael destravou-se dele. Enterprise … a equipe de roteiristas era dirigida por Brannon. Certamente nos dois últimos dois anos da mesma, Manny ficou muito, muito envolvido. Brannon e eu nos envolvemos com o desenvolvimento de outra série, e na quarta temporada, Manny teve uma maior participação no desenvolvimento do enredo. Mas Manny sempre trabalhou em conjunto com Brannon e eu. Toda essa idéia de “Uma vez que Manny assumiu a série …”, isso nunca aconteceu. Manny nunca assumiu o espetáculo. Manny começou a comandar reuniões sobre as histórias quando Brannon e eu ficamos envolvido com outras coisas, mas não havia nada de Brannon e eu não darmos a nossa contribuição para isso. Então, esses são apenas tiros dado a esmo, penso eu, pelas pessoas.”

“Quanto a saber se ficamos na exposição por muito tempo? É possível. É muito possível. Eu fiz isso por 18 anos e dos 18 anos, sete deles, tivemos duas séries no ar. Deep Space Nine nunca iria ao ar, por si só. Seus primeiros anos foram com A Nova Geração e seus últimos anos foram com Voyager. Tão logo Voyager entrou no ar, para os próximos sete anos, estávamos fazendo filmes, um após o outro. Então havia muito envolvimento. Será que ficamos por muito tempo? Talvez. Houve também uma série de críticas sobre o fato de que Brannon e eu não tínhamos respeito para com a série original, o que é um disparate absoluto. Eu não sei de onde veio isso. Eu certamente fui citado como tendo dito que não era fã da série original na época. Isso não significa que eu não gostei. Isso significava que eu não assisti. Como eu lhe disse, o fato de que eu não estava envolvido com a série original quando criança, como espectador, foi uma das coisas que atraiu Gene para comigo e eu com Gene. Aquela sensação de que Brannon e eu não tínhamos respeito pela série original, de que não nos preocupávamos com o cânon, com as regras, com as transições da série original, que tínhamos desprezo ou ridículo pela série original, é tudo, para mim fofoca, doloroso e nenhuma delas era de forma alguma verdadeira.”

Agora que o tempo passou, você acredita que os fãs mais velhos estão revisitando Jornada e os filmes que você produziu e visualizando-os sob uma nova luz? E se você acha que os fãs mais novos, cujo ponto de partida é o filme de Abrams, estão descobrindo A Nova Geração, Deep Space Nine, Voyager e Enterprise?

“Eu não sei. Embora eu adoraria dizer que eu não leio nos sites, isso seria uma mentira. Eu descobri que ao longo dos últimos anos, o feedback para as quatro séries em que eu estive envolvido com ficou mais amável. Eu gostaria de pensar que quando as pessoas revisitarem Deep Space Nine e Voyager e Enterprise, que elas venham começar a ver algumas coisas com olhos frescos. Quando eu começar a ver que o feedback é mais positivo sobre essas séries, será uma sensação boa.”

Falando do filme de Abrams, o que você vê acha disso?

“Eu achei que foi um filme maravilhoso. Foi muito, muito incrível. Você tem que lembrar, que eu fiz quatro filmes com orçamentos extremamente restritivos. A filosofia, quando eu fiz filmes era: “Nós sabemos que podemos ganhar um número X de dólares com um filme de Jornada, para não gastar mais do que o número Y de dólares”. A quantidade de fita que o filme (de Abrams) gastou com seus efeitos visuais e valores de produção foram surpreendentes para mim. Eu achei a história maravilhosa e muito da atuação foi excelente. Eu só cheguei a um ponto em que estes grandes filmes de ação, cheios de coisas geradas por computador do começo ao fim estão começando a desgastar-me um pouco. Para mim, o filme, como Homem de Ferro ou qualquer um desses grandes incrivelmente caros lidam com dezenas de dezenas de milhões de dólares em efeitos visuais … é um filme muito, muito emocionante. Em termos de ter o coração de Jornada, acho que talvez  pudesse ter um pouco mais do que isso. Mas eu gostei muito.”

Você mencionou que está trabalhando em um livro de memórias sobre seus 18 anos na produção de Jornada. Quão longe você está e quanto profunda vai a sua experiência?

“Não é vale-tudo! Não, estou brincando. É a minha tentativa de comunicar minhas lembranças de um monte de coisas que se passou durante esses 18 anos – relacionamentos, anedotas, algumas pessoas muito estranhas, algumas pessoas muito maravilhosas, e também combatendo a idéia de que um livro de memórias é o que você lembra ao contrário do que necessariamente aconteceu. Às vezes eu vou lembrar de alguma coisa e então eu vou sentar com Patrick ou Jonathan ou Brent, para discutir o assunto e eles dirão: “Não, não, não foi isso que aconteceu. Isto é o que aconteceu … “. Quando ouço as suas memórias ou suas lembranças de um evento específico que ocorreu em um dia específico anos atrás, eu penso comigo mesmo,” Santo Deus, você está certo! Não era o jeito que eu lembro. É a maneira que se lembra”. Isso acontece com todos nós. Então, eu estou tentando ser o mais honesto possível em termos de contar as histórias da melhor maneira que posso me lembrar delas. Há um monte de coisas que não havia sido dita. Não há nada que vá ser mal intencionado. Não tenho nenhum interesse em desclassificar alguém ou divulgar segredos, e eu não tenho interesse em escrever algo como um escritor fantasma. Então, eu estou trabalhando para isso e cada ano um grupo mais de páginas são escritas. Esperemos que em algum momento isso vá ser transformado em um livro que vai ser muito divertido de ler para pessoas que estão interessadas neste período.”