Segmento exagera na metáfora, apesar
de dar boa dica a cientistas humanos

Publicado originalmente por Salvador Nogueira

 Nota do TB: 2.5 /4.0

Sinopse:

Data Estelar: 2713.5.

A Enterprise responde a um velho pedido de socorro proveniente de um planeta que tem incrível semelhança com a Terra do século 20. Um grupo avançado com Kirk, Spock, McCoy, a ordenança Rand e mais dois seguranças desce para investigar e descobre que os nativos do planeta conduziram experimentos para prolongar a vida, mas conseguiram, em vez disso, criar um vírus mortal. O microrganismo matou todos os adultos ao provocar envelhecimento acelerado e loucura. Nas crianças, o vírus reduziu absurdamente o processo de envelhecimento natural, fornecendo uma infância de séculos.

A essa altura, não há mais adultos vivos no planeta, apenas crianças, que sobrevivem da melhor maneira possível sem quem os ajude. O grupo de descida acaba contraindo o vírus, que começa imediatamente a deteriorar todos, menos Spock. A fisiologia do Vulcano impede que ele seja afetado pelo vírus, mas ainda assim ele é um portador, ficando impossibilitado de voltar à nave.

Até que uma cura para a doença possa ser encontrada e desenvolvida, o grupo de descida está confinado ao planeta. Retornar à Enterprise implicaria contaminar todos os tripulantes a bordo.

O grupo de descida tenta fazer amizade com as crianças através de Miri, uma menina que eles encontram e que fica junto deles por ter se apaixonado pelo capitão Kirk. Mas os demais estão muito assustados pelas coisas horríveis que os adultos do planeta fizeram para confiar nos tripulantes da Enterprise. Para piorar as coisas, Miri tem um acesso de ciúmes por causa da ordenança Rand e resolve ajudar as crianças a prejudicar o grupo de descida.

Jahn, o líder das crianças, primeiro as instrui a roubar todos os comunicadores dos tripulantes, deixando-os sem comunicação com a nave. Depois, eles sequestram a ordenança Rand, por sugestão de Miri. Kirk tenta conversar com as crianças e convencê-las de que é vital que elas o ajudem, mas a única coisa que ele consegue é levar uma surra delas.

Uma das crianças mais velhas começa a exibir sintomas da doença e Kirk tenta convencê-las de que isso irá acontecer com todos eles eventualmente, quando atingirem a puberdade. Quando Miri vê que ela também está se deteriorando, ela ajuda Kirk a convencer Jahn e os outros de que ele está falando a verdade.

Enquanto isso, McCoy desenvolveu uma possível cura para a doença. Sem os computadores da Enterprise para verificar o resultado, o médico está impossibilitado de inocular o grupo de descida. Com o tempo se esgotando para eles, McCoy decide se fazer de cobaia e injetar em si mesmo a substância. Após alguns momentos de tensão, Spock e Kirk verificam que o medicamento funcionou.

Todos são inoculados e o grupo de descida volta à Enterprise. A Federação, ao ser informada da situação do planeta, decide enviar pessoal para colonizar o planeta e tomar conta das crianças, que agora poderão ter uma vida normal.

Comentários:

“Miri” parte de uma premissa extremamente interessante e sempre atual. A discussão básica gira em torno dos perigos da terapia genética e do quão longe se deve ir na busca pela imortalidade ou por métodos de prolongamento da vida.

“Miri” parte de uma premissa extremamente interessante e sempre atual. A discussão básica gira em torno dos perigos da terapia genética e do quão longe se deve ir na busca pela imortalidade ou por métodos de prolongamento da vida.

O tema é quente na ciência contemporânea: vírus são considerados hoje vetores competentes para “infectar” células de organismos com o material genético que se deseja incluir nele. Em compensação, os perigos de tais estratégias geralmente são difíceis de estimar. É exatamente isso que vemos no episódio.

A analogia com a situação humana é reforçada pelo fato de que estamos vendo ali uma outra “Terra”, uma versão alternativa, mas ainda assim extremamente similar a nosso planeta. Mais uma vez, a Série Clássica opta pela falta de acurácia científica (quais são as chances de haver um planeta exatamente igual à Terra, mesmo levando em conta a vastidão do Universo?) para transmitir com maior força uma metáfora que relacione o episódio com a humanidade. Sem dúvida, é uma das marcas do criador Gene Roddenberry, que foi perpetuada ao longo de toda a série original. É também uma escolha totalmente desnecessária e não-recomendada.

O fato de termos uma cópia da Terra é ruim não só por tornar a tal “mensagem da semana” óbvia demais, mas por ser apenas uma forma fácil de se produzir um teaser interessante para o episódio (“Outra Terra?”, Fade Out) e de elevar à enésima potência a falta de verossimilhança da já forçada “teoria do desenvolvimento paralelo dos mundos”, criada por Roddenberry para baratear a série usando sempre essa desculpa para apresentar alienígenas com aparência e cultura humanas (essa bobagem seria parcialmente redimida e legitimada com o excelente episódio “The Chase”, da sexta temporada de A Nova Geração).

E se pelo menos o tema central é bastante contemporâneo, a estrutura do episódio é bastante datada. O tratamento que Miri recebe do capitão Kirk, que pede que ela limpe mesas e aponte lápis, é digno do machismo imperante nos anos 1960. A mesma coisa se vê no comentário da ordenança Rand, que confessa em dado momento que fazia de tudo na nave para que o capitão olhasse para as pernas dela.

Outro tema bastante incômodo do episódio (e que marcaria aSérie Clássica, voltando a aparecer no horroroso “And the Children Shall Lead”, da terceira temporada) é a premissa de que crianças, sob má ou nenhuma influência, são inerentemente malévolas e cruéis. Certamente era outra idéia em voga na época em que o episódio foi produzido (a educação das crianças era extremamente rígida e impositiva, como se pessoas jovens fossem incapazes de raciocinar civilizadamente) e que já está há muito ultrapassada.

Apesar disso, o episódio tem um andamento bastante agradável e algumas cenas memoráveis, não só do ponto de vista das atuações, mas também do trabalho de câmera do diretor Vincent McEveety. Dois exemplos são dignos de nota: um deles ocorre quando Kirk está para levar uma surra dos moleques. A câmera sai de uma tomada bem geral para vagarosamente fechar em Kirk e depois no rosto de uma menininha com cara de “malvada”, sorrindo enquanto o bom capitão leva uns bons tabefes da meninada. O outro é quando McCoy injeta a droga e cai inconsciente. O ângulo da câmera, de cima para baixo, adiciona tensão e dramaticidade à já competente interpretação de DeForest Kelley.

E por falar em atores, William Shatner tem um bom desempenho com seu capitão Kirk, chegando a demonstrar toda a sua preocupação e descontrole ao atirar crianças para os lados e afastá-las de si, quando elas primeiro tentam agredi-lo. Foi incômodo ver o capitão Kirk maltratando criancinhas (por mais que fossem criancinhas malvadas de 300 anos e Kirk estivesse sob efeito de uma doença que leva eventualmente à insanidade), e por isso a cena ganha um valor especial.

Mas quem realmente impressiona é Kim Darby, com sua convincente e intensa interpretação da jovem Miri. Aliás, como nota de rodapé, vale destacar a escolha das duas principais crianças do planeta, Miri e Jahn, que certamente são corruptelas de Mary e John, dois nomes extremamente comuns. Claramente a idéia era reforçar o fato de que essas crianças perderam seus pais muito cedo e cresceram sem adultos para guiá-las e dizer qual era a real pronúncia de seus nomes.

 

Citações:

Kirk – “I think children have an instinctive need for adults; they want to be told right and wrong.”
(“Acho que as crianças têm uma necessidade instintiva de adultos; eles querem que lhes digam o que é certo e errado.”)

Kirk – “No more blah, blah, blah!”
(“Sem mais blá, blá, blá!”)

Trivia:

 A primeira versão do roteiro de “Miri” mostrava muito mais a relação entre Miri e Jahn, num ambiente distorcido do tipo “Peter Pan”, em que Jahn era Peter, Miri, Wendy, e os meninos, os “garotos perdidos”. A sociedade das crianças era cheida de ritualismos: quando era descoberto que a infância de Miri estava no fim, os garotos individualmente anunciavam que não podiam mais considerá-la como sua amiga.

 A rua cenográfica pertencente à Desilu usada neste episódio foi modificada para parecer mais velha e abandonada. O mesmo cenário foi utilizado (de forma menos debilitada) em “The Return of the Archons” e “The City on the Edge of Forever”, ambos da primeira temporada.

 A cena em que McCoy caía após injetar o antídoto contou com uma ajuda do cenário. Parte do set do “laboratório” foi construída em uma plataforma erguida, para que a câmera pudesse filmar a cena de forma a destacar a figura do médico.

 A técnica para fazer as manchas sumirem do rosto do médico foi filmar o ator DeForest Kelley em várias passagens, cada vez com menos maquiagem, e editando o filme e incluindo “fades” de modo a suavizar as transições. A mesma técnica mostrou a real aparência de Vina em “The Cage”.

 A terminologia da série ainda não estava muito estabelecida nesse momento: há uma referência à “Central Espacial”, em vez do padrão escolhido a posteriori, “Comando da Frota Estelar”.

 Entre as crianças que figuraram neste episódio estavam os dois filhos de Grace Lee Whitney e as filhas de William Shatner –uma das quais ele está segurando no colo no fim do episódio.

 O ator Leonard Nimoy comentou sobre o tema básico do episódio. “No começo desse episódio, descobrimos que estamos nos aproximando não da nossa Terra, mas da Terra. Isso nos dá a primeira de nossas histórias de universo paralelo, em que podemos tirar uma analogia direta entre o que está acontecendo lá e o que poderia acontecer conosco. Acho que chamaria essas de histórias de alerta: Cuidado para não deixar que aconteça conosco. E há um elemento de pecados paternos visitados pelas crianças tematicamente nessa história e nós fizemos um bocado desses e alguns deles muito bons. Cuidado com o que você está fazendo em sua geração para não passar os resultados negativos a seus descendentes.”

 O episódio foi um presente para os atores, segundo Nimoy. “Claro, um dos benefícios de fazer uma história onde descemos em outra Terra é que os cenários, os prédios e assim por diante poderiam se parecer com os da Terra. Logo, poderíamos usar cenários existentes, ruas cenográficas em Los Angeles e assim por diante. A cena do teleporte acontece em uma cidade cenográfica em Culver City, que era propriedade da Desilu Pictures na época. Para nós foi uma experiência muito libertadora estar em ruas abertas em vez de nos palcos fechados e nos cenários construídos no qual estávamos confinados a maior parte do tempo. O trabalho no exterior foi um presente para nós. Um pouco difícil para o departamento de produção porque as condições do tempo poderiam variar enormemente e criar problemas de produção e gastos e estávamos em uma agenda e em um orçamento bem apertados.”

 Nimoy também transfere parte dos créditos para os atores Kim Darby e Michael J. Pollard. “Eles merecem menção aqui. Eles são fortes atores coadjuvantes nesse episódio, e eles tiveram grandes carreiras em outroas projetos, incluindo alguns grandes filmes. Kim Darby em ‘True Grit’, com John Wayne.”

Ficha técnica:

Escrito por Adrian Spies
Direção de Vincent McEveety
Exibido em 27/10/1966
Produção: 12

Elenco:

William Shatner como James Tiberius Kirk
Leonard Nimoy 
como Spock
DeForest Kelley 
como Leonard H. McCoy

Elenco convidado:

Kim Darby como Miri
Michael J. Pollard como Jahn
Grace Lee Whitney como ordenança Janice Rand
Jim Goodwin como tenente John Farrell
David L. Ross como tenente Galloway