Existem algumas coisas na vida que a gente tem a certeza de que ficaram no passado, e jamais voltarão. Mas, de vez em quando, essa tal certeza é pulverizada pelo imprevisível. Quase quatorze anos após seu último evento, não é que o fã-clube Frota Estelar Brasil ressurge e realiza uma nova convenção, apropriadamente chamada de The Phoenix?

Muita coisa aconteceu nesse hiato sem o fã-clube de Jornada nas Estrelas mais importante do Brasil, que desde 1989, ano de sua criação, já havia realizado 124 convenções estelares nos mais diversos espaços em São Paulo (de cineclubes a grandes salas de cinema centrais, chegando em auditórios bem estruturados e enormes como os do Anhembi), que trouxe atores de Jornada ao Brasil (Takei, Koenig e Nimoy), que já colocou 3 mil pessoas num evento (e que você relembra lendo aqui), e que ajudou na formação de milhares de fãs ao longo dos anos.

Luiz Navarro abrindo o evento

Redes sociais, transmissões ao vivo, smartphones que são um estúdio de TV, Netflix com todos os mais de 700 episódios da franquia… no comecinho dos anos 2000 isso era um futuro digno de séculos seguintes. Como um clube como a Frota Estelar iria se encaixar nos novos tempos? Seu próprio comandante, Luiz Navarro, já havia dito numa entrevista há muitos anos que “a tecnologia suplantou a Frota”.

Mas não foi preciso episódios inéditos no Brasil, algo impossível atualmente, ou a presença de nomes consagrados de Hollywood para fazer a 125º Convenção Estelar um sucesso e extremamente prazerosa para as cerca de 300 pessoas (entre pagantes, convidados, staff e expositores) que estiveram em São Paulo no auditório do Hotel Meliá, Avenida Paulista, no último sábado (8/04). Um clima de reunião de amigos, e talvez até mesmo de família, permeava o ambiente. Pessoas que não se viam há muitos anos voltaram a se encontrar, rostos conhecidos que tanto nos entreteram no passado subiram ao palco, novas pessoas foram apresentadas, e assim, num misto de nostalgia e esperança para o futuro, o evento prosseguiu durante todo o dia, mas para quem lá esteve passou rápido como uma nave em dobra espacial.

Todas as peças funcionando novamente, movendo as engrenagens que fazem o amor por uma série de televisão continuar como já é há 50 anos. E no caso da Frota Estelar Brasil, essas peças têm nomes: Luiz Navarro, Roosevelt Garcia, Amaury Simoni, Marcos Kleine, grupos de teatro Alpha (com uma homenagem trekker ao cinema mudo) e Assimilação Borg (que trouxe os klingons mais bem produzidos já vistos por aqui), as presenças nobres de Sérgio Figueiredo (o Figa) e Paulo Gustavo Pereira, e novíssimas peças, mas já conhecidas da galera por meio das novas mídias que dominaram o cenário do fandom nestes anos. Thiago Maldonado, do Diário do Capitão, Fernando Augusto, do Star Trekkers, Luciano Marzocca, do Calendário Geek, e Salvador Nogueira, aqui mesmo do Trek Brasilis, fizeram sua estreia no palco da Frota, e as novidades foram bem recebidas pela família estelar, que eles mesmos fazem parte há muitos anos.

 

Até um “alienígena” muito querido, mas que não faz parte do cânon de Star Trek, de nome Elvis Presley, tomou de assalto os trekkers na pele do fã de Jornada e do Rei, Djalma Penedo. A inauguração da Galeria dos Heróis da Frota, com seis nomes de integrantes valiosos que já passaram para o lado de lá: Edson Goto; Christiano Nunes; prof. Mário Sérgio Galvão Bueno; Zé Rodrix; Luiz Carlos de Souza, o “Geordi”; e o carismático professor Pierluigi Piazzi, arrancou lágrimas de meio mundo.

 

Se antigamente era necessário levar rolos de filme de 36 poses para não perder uma cena do evento, ou uma câmera analógica de VHS e suas derivações, agora é só sacar do bolso o celular e mostrar pro mundo os séculos 23 e 24 acontecendo em plena Avenida Paulista. Com mais uma entre incontáveis vantagens: a certeza que ninguém teria esquecido de tirar a tampa da lente na hora de clicar o momento, pois tudo ocorre instantaneamente e qualquer falha é reversível na hora, e não dias depois na revelação das fotos e posterior frustração também por não ter levado o filme certo para um ambiente escuro ou, pior ainda, tirar foto com flash da tela para tentar pegar uma nave passando, e depois ver que ficou o registro de uma tela em branco.

E sem episódios novos, como entreter os fãs? Palestras com muitos casos engraçadíssimos do passado com Navarro, Roosevelt, Figa, Paulo Gustavo e Kleine. As músicas da série em hits do próprio Kleine, atualmente guitarrista do Ultraje a Rigor e trekker dos mais fanáticos; documentários recentes como o Vault de Roddenberry (que o TB já comentou aqui), peças de teatro, e especialistas falando de maneira divertida sobre o que mais sabem em suas áreas, caso de Salvador e Paulo Gustavo. Além do sorteio de muita coisa, até, literalmente, pedaços do cenário do evento. Do lado de fora, as costumeiras lojinhas de memorabília, os fãs no cosplay, cadeira do capitão e teletransporte para fotos, e a boa resenha entre os amigos trekkers.

 

Como já foi divulgado ontem aqui no TB, por solicitação da CBS, detentora da propriedade intelectual da marca Star Trek, a Frota Estelar Brasil vai mudar de nome. A partir de agora e num primeiro momento, Starcon é como será conhecido o grupo. Além disso, a Netflix elegeu o fã-clube para receber em primeira mão no País as novidades sobre a série Discovery, que deverá estrear em setembro e imediatamente chegar aos lares dos trekkers do Brasil via o próprio serviço de streaming. A vinda de um ator do elenco para um futuro evento do agora denominado grupo Starcon é uma possibilidade real. E novos fãs estão prontinhos para surgir a partir do novo seriado.

Como foi visto no sábado sem dúvida os trekkers estão de volta, e como é de praxe, não vão deixar a história esquecer o nome Enterprise.