Todo dia 28 de setembro temos de comemorar o aniversário de uma espécie de milagre do show business. É a data de estreia nos Estados Unidos de Jornada nas Estrelas: A Nova Geração, que ocorreu há 31 anos com “Encontro em Fairpoint”.  O nome do santo é Gene Roddenberry, e seu milagre foi ter conseguido criar uma série tão bem sucedida como o fenômeno Jornada nas Estrelas original, sendo que o fez numa época em que não havia séries derivadas de outras com sucesso, shows de ficção científica de qualidade na televisão eram inexistentes, e também não era conhecida uma série que estreando no sistema de exibição em syndication (saiba aqui) havia tido um êxito relevante. A Nova Geração, com muita criatividade, trabalho duro e persistência, conseguiu vencer tudo isso com o passar de suas temporadas. A ponto de ter seu protagonista, Jean-Luc Picard (interpretado por Patrick Stewart) no local mais alto do pódio trek, ao lado dos amados Kirk e Spock.

Batizada como Star Trek: The Next Generation já no dia de seu anúncio oficial em outubro de 1986, a série chegou em nosso país apenas um pouco depois de sua estreia em 1987. Entre 1988 e 1989, as antigas videolocadoras recebiam os VHS com os episódios da primeira temporada, sendo dois deles por fita. Porém, nem todos os segmentos do ano inicial foram lançados. Já traduzida por aqui como A Nova Geração pelo jornalista Paulo Gustavo Pereira, na época funcionário da CIC Vídeo, empresa que distribuiu as fitas no Brasil, um dos primeiros registros da série na imprensa foi numa edição especial da revista SET, chamada Terror & Ficção (veja aqui).

Essa situação durou por um tempo considerável, até que em 1991 a Rede Manchete trouxe de volta para a programação a Série Clássica de Jornada, que estava fora da grade da televisão brasileira há quase 10 anos, e junto com ela o primeiro ano de A Nova Geração. A antiga emissora exibiu as duas primeiras temporadas da série original (mas não todos os episódios) na Sessão Espacial, que ia ao ar às segundas, quartas e sextas no final da tarde, e as aventuras do capitão Picard e da Enterprise-D, aos sábados.

Como já é costume no Brasil, os trekkers ficaram na mão. Com a Clássica, não assistiram os episódios finais da segunda temporada, e da Nova Geração, também não viram o desfecho da temporada de estreia.

Durante anos, a temporada incompleta foi reexibida até cansar. Em 1994, A Nova Geração terminou lá fora, com 178 episódios em sete anos, e os fãs brasileiros eram dependentes de eventos como os organizados pela Frota Estelar Brasil, em São Paulo, ou pelo Jetcom, no Rio de Janeiro, para conseguir assistir alguma coisa inédita, que era gravada lá fora e legendada para os eventos.

Nessa época pré-internet e pré-TV por assinatura, uma boa maneira de acompanhar o que rolava, além dos eventos, era por meio das revistas em quadrinhos publicadas pela Editora Abril entre 1991 e 1992. As edições, que tinham Sérgio Figueiredo como editor, contavam com explicações sobre a presença de Whoopi Goldberg no elenco, as promoções de patente de LaForge e Data, o novo posto de Worf, a ausência da dra. Crusher no segundo ano e a nova barba de Riker. Fanzines, como o Trekker Report ou o ENPE… (editado por Roosevelt Garcia e Leonardo Bussadori) ajudavam também a entender o que estava acontecendo no exterior.

Foi em 1997 que apareceu a esperada notícia. A Rede Record passaria a exibir A Nova Geração, a partir do seu terceiro ano. E o segundo? Foi parar no canal a cabo USA, no seu “sábado scifi”. Um programa especial na Record, apresentado por Luiz Navarro, que era presidente do fã-clube Frota Estelar Brasil na época e atualmente é o comandante de sua sucessora, a NovaFrota BR, didaticamente apresentou tudo o que ocorreu desde 1987, e preparou o trekker brasileiro, atrasado em quase 10 anos, para a sequência de histórias que viriam. E mais uma vez o fã brasileiro se deu mal. O terceiro ano não foi exibido por inteiro, sendo que o episódio final, “The Best of Both Worlds”, aguardado com ansiedade por trazer a chegada dos Borgs e o rapto de Picard, que se transformaria em Locutus, não passou na Record. Naquele esperado sábado já em 1998, os fãs se reuniram, compraram pizza, fizeram pipoca… e na hora em que começou a exibição, era de novo “Evolution”, o primeiro do terceiro ano, e não o que aguardavam. Tristeza geral.

Enquanto isso, o canal USA continuou exibindo a série. Na nossa TV aberta, a terceira temporada teve algumas reprises, mas depois A Nova Geração desapareceu das telinhas que não tivessem canais a cabo.

Anos depois, em 2006 o mercado começou a receber os boxes de DVDs da série, e em 2008 os trekkers brasileiros enfim a tinham completa, em sete boxes de DVDs, muitos sem o material extra que a distribuidora nacional tirou da autoração, e não deu explicações. Mas ao menos A Nova Geração saiu completa por aqui em DVD, ao contrário de Deep Space Nine (apenas três temporadas) e Voyager (duas). As séries Clássica, Animada, e Enterprise foram lançadas no Brasil também de maneira completa (e o primeiro ano de Discovery vem aí, com toda a cara de anos 2000: apenas em DVD, e não em blu-ray…).

Desde 31 de dezembro de 2016, a Netflix disponibiliza em seu catálogo todas as séries de Jornada, e com dublagem. Um sonho dourado para o fã que acompanhou as desventuras da exibição de A Nova Geração em nosso país. Graças à tecnologia, constantemente aprimorada, há a facilidade de ver qualquer coisa das séries Trek quando queremos, até mesmo na rua, pelo celular. A Nova Geração então, nunca esteve tão bonita, como em sua versão remasterizada em Full HD, com efeitos especiais aprimorados e uma imagem que parece ter sido filmada ontem, e não há décadas.

Você que tem Netflix, que importou os blu-rays da série, ou que a tem nos DVDs dos anos 2000, aproveite para reassistir os episódios. Com sua audácia e ineditismo em várias frentes, eles não apenas mudaram a história da franquia ou da televisão, mas sim de todos nós, fãs de Jornada nas Estrelas.