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por Gustavo Leão
Você
me conhece ou já ouviu falar coisas ótimas de mim: Gustavo Leão,
o algoz dos trekkies. Aquele que sabe tudo de Jornada nas
Estrelas, mas nada da vida (quisera eu isso ser verdade). O Paulo
Francis da sci-fi, como me apelidou o webmaster desse site. O
co-editor e colaborador de sites norte-americanos importantes e
famosos (oh, a fama!). O cara das fontes secretas na Paramount (ou
o cara que conhece o cara que conhece o cara que é primo do cara
das fontes secretas na Paramount). O crítico arrogante e
filhinho-de-papai (bom, pelo menos eu tenho pai e mãe e eles estão
enxutos!). Freqüentador do news Trek da UOL. O centro de polêmicas
sem fim no fandom nacional (da qual não faço nem nunca fiz
parte, chamei o padre Karas e fiz um exorcismo, briguei e
critiquei muita gente, mas eles ainda não largam do meu pé).
Polêmicas
que vão da minha opinião sobre a falta de qualidade da dublagem
e tradução de Jornada nas Estrelas feita por trekkies na VTI-Rio
(que até melhorou com Voyager, sejamos justos), até a falta de
sites de qualidade brasileiros sobre a série (que mudou com a
criação do Trek Brasilis e do Voyager Brasil, sejamos justos),
passando pelo fanatismo e pelas neuroses que abafam o
discernimento e personalidade de vários trekkies nacionais (que,
sejamos justos, nunca vai mudar). Mas tudo isso já foi e ainda
será criticado ad infinitum em fóruns e listas trekkies por aí
--então por quê aqui de novo, não?
Por isso tudo e mais algumas razões, quando o Mr. Nogueira me
chamou pra colaborar com uma coluna para esse excelente site eu
decidi aceitar. Depois de meu aceitamento ser aceito pela cúpula
do site (complicado, né?), decidi poupar a todos e não escrever
sobre nenhum desses assuntos (mas peraí --foi isso que eu acabei
de fazer. Droga!) . Esse meu desdém e atitude já são lendários
(levando trekkies a querer me processar ou fazer sites a meu
respeito, mais, ei, toda publicidade é boa publicidade!), então
vamos falar (ou criticar) outra coisa: o futuro nada promissor de
Jornada nas Estrelas nos cinemas e TVs americanas (apesar de nas
TVs brasileiras, a coisa estar até indo bem, não?).
A
maior ameaça que enfrentará o futuro de Jornada nas Estrelas 10
e da nova série de TV não são nem os Romulanos (que, dizem as más
línguas, farão parte do épico que será o próximo filme de
cinema, um boato que acaba de ir pro brejo junto com a reputação
de Berman, a julgar pelas informações e a repercussão da última
entrevista de Rick), nem Q e nem os Borgs, e nem mesmo os
produtores, que desejam que os trekkies não se lembrem de nada
sobre Kirk, Sulu ou qualquer coisa ligada à série original.
O verdadeiro inimigo é algo muito mais real e perigoso: dinheiro.
Money. Bufunfa. Salários pesados. Contratos complicados.
Politicagem de estúdios e redes de TV. Egos de atores, produtores
e executivos, cada um com sua própria agenda e querendo tirar o
maior proveito da situação. Ou seja, o maior obstáculo para o
futuro da franquia de Jornada nas Estrelas é o próprio sistema
hollywoodiano que a criou e nutriu pelos últimos trinta anos.
Pelo menos a nutria até agora --ou até os executivos olharem o
faturamento do último filme de Jornada nas Estrelas e a audiência
da série Voyager em 1999.
Para aqueles que não entendem os mecanismos da indústria de
filmes, salários pesados ou "above the line salaries"
referem-se ao custo do talento envolvido na produção de filmes e
televisão à frente e atrás das câmeras. Por exemplo: Patrick
Stewart recebeu em Insurrection um salário pesado de dezoito milhões
de dolares (dez milhoes de dólares above-the-line). Brent Spiner
recebeu, pelo mesmo filme, um salário de dez milhões de dólares
(cinco milhões de dólares above-the-line) e só os advogados de
Rick Berman sabem ao certo quanto ele teria levado. Se Berman
recebeu mais que Spiner (e é lógico que recebeu, astuto esse
Riquinho!), isso coloca quarenta milhões de dólares de um orçamento
de setenta milhões na mão de apenas três pessoas. Três
pessoas. E você ainda pergunta por quê a ILM ou mesmo a
Foundation não se envolveram nos efeitos de Insurrection, indo o
trabalho pra empresas de terceira categoria (e baratíssimas) como
a Santa Barbara?
Insurrection não faturou mais de 80 milhões, não pagando o seu
próprio orçamento. E se você acha que Jornada nas Estrelas 10
vai ser mais barato que Insurrection, com melhores valores de
produção, entao você também deve achar que Voyager é "first
class drama" e que Patrick Stewart ama os trekkies e Jornada
nas Estrelas mais que o bonachão do Bill Shatner.
Infelizmente
os faturamentos dos filmes de Jornada nas Estrelas, mesmo depois
que a bilheteria internacional e as vendas de homevideo são
somadas, sempre estão abaixo do esperado, nunca atingindo um nível
desejado pelo estúdio. Isso se reflete na televisão, onde a
atual série de TV, mesmo usando de episódios com reviravoltas e
crossovers, tem obtido uma audiência cada vez menor.
Assim como o Império Klingon após a explosão de Praxis, Jornada
nas Estrelas, na televisão e num cinema perto de você, parece
ter apenas poucos anos a mais de vida. Como fazer um Jornada nas
Estrelas 10 épico e com grandes efeitos e produção e tudo mais
nessa situação? A resposta: não fazer, ou enganar que faz até
o último instante (leia as verdades sobre Jornada 10 abaixo, se
tiver coragem e peciência de chegar até lá). Como fazer uma
nova série, com ou sem Enterprise, nessa situação? E você
ainda se pergunta por quê John Logan está trabalhando a mais de
8 meses no script de Jornada nas Estrelas 10 (um recorde, visto
que Brent Spiner está ajudando no script muito mais do que se
imagina - para o terror dos fãs) e Brannon Braga está
trabalhando a mais de ano na premissa e no piloto da nova série
(opa, isso sim é um recorde!).
Isso não tem nada a ver com o fato de querer acertar a história,
com o fato da série ir pra CBS (we wish...) ou NBC (haha, essa é
boa) ou o fato do agora contratado Stewart como sempre estar
metendo sua colher no roteiro do filme (ele fez isso com First
Contact e Insurrection, a ponto de Michael Piller jurar nunca mais
pisar na Paramount. Mesmo assim, os filmes não foram atrasados).
Tem a ver com uma certa confusão lá nos corredores da Viacom,
uma confusão que nem o sistema de imprensa da Paramount (que
parece ser bem menos efetivo do que o da VTI-Rio) não está
conseguindo segurar. Esperem só até o anúncio da 5ª série
sair em janeiro de 2001 (se sair) ou as filmagens de Jornada nas
Estrelas 10 começarem em março de 2001 (se começarem) para o
mar de fofocas e confusões que vão pintar nos seus sites
preferidos (esse aqui incluído).
Nem Kate Mulgrew (ver uma de suas últimas entrevistas, onde
Janeway jogou muita coisa, incluindo Chakotay e Seven, no
ventilador) eles estão conseguindo controlar mais. E com essa
maneira de se lidar com atores, alguém ainda se pergunta por quê
Leonard Nimoy jurou nunca mais respirar o mesmo ar que Berman, após
o jeito que foi tratado por ele na pré-produção de Generations
(que Nimoy iria dirigir) e First Contact (que Nimoy iria servir
como consultor). A situação entre os atores da Série Clássica
e Berman chegou a um ponto de conflito tão grande em 1996 que Mr.
Nimoy foi o único ator de Jornada além de Patrick Stewart a não
participar da festa de gala de 30 anos do franchise, organizado
por (adivinhem) Berman (e até disponível em vídeo nos EUA).
A
resposta pra tanta mentira, discórdia, non-sequiturs e
politicagem é uma só: medo. Medo dos executivos de cometerem um
erro que vai matar a galinha dos ovos de ouro. Medo de Berman e
Braga de perderem seus empregos. Medo do "the man" de
Jornada nas Estrelas, a toda poderosa e verdadeiro braço direito
de Berman, Merri Howard, de perder seu emprego de executiva. Medo
do inimigo de Jornada nas Estrelas que não vai atacar as naves
Enterprises que vem por aí: o dinheiro, seja em bilheteria ou
dividendos pra UPN (onde a Série V vai aterrissar, não importa o
quanto a CBS e a NBC blefem com os trekkies desavisados). Ou seja,
um futuro negro, não importa como você olhe pra situação. Mas
tenha certeza de que por esse mesmo motivo (money), Jornada nas
Estrelas 10 sai ano que vem, nem que seja em 31 de dezembro:
afinal em 2001 comemoram-se os 35 anos da série e a Paramount
sempre lançou um filme pra comemorar os aniversários, por um
simples motivo: o merchandise vende mais. E quem quer lançar um
filme que não venda merchandise? (lembram-se de Batman &
Robin e Godzilla?) A própria Playmates cancelou seu contrato com
a Paramount porque os brinquedos de Jornada nas Estrelas não
vendiam mais. Cruzes, que raio de karma, hein Berman?
E pra piorar a situação e o status de Mr. Berman, ele provou
numa entrevista dada à revista Communicator e postada semana
passada com exclusividade no site TrekWeb.com que além de ser
descendente do Barão de Mulchalssen, ficou totalmente senil. Após
falar nos últimos meses que Jornada 10 seria uma "saga épica
e dramática" nos moldes de First Contact, Berman revelou que
na verdade o filme será "uma aventura para cima, com muito
humor" e com "um novo vilão de uma nova raça alienígena"
(lá se foram os romulanos, que talvez apareçam só numa pontinha
"morta" como em Generations). Isso mesmo, Jornada 10 será
um remake de Insurrection, o maior fracasso do franchise no
cinema.
Ou Berman não sabe aprender com seus erros ou ficou doidinho da
silva. E isso repercutiu de modo péssimo na mídia americana.
Steve Krutzler, editor do TrekWeb, disse em seu site ter ficado
extremamente decepcionado e pessimista a respeito do novo filme,
após as novas declarações de Berman. E Frank Kurtz, editor da
revista Cinescape, talvez a mais importante revista do gênero
sci-fi nos EUA, me disse por e-mail: "[...] o que Berman me
disse me preocupa também... não que eu vá perder o sono, face
à situação das eleições presidenciais."
E se Berman se porta assim com relação a Jornada 10, imagina
como não está a situação da Série 5, um projeto muito mais
complicado na criação do que o novo filme.
Já foi dito no fórum do Trek Brasilis por um dessas dezenas de
trekkies nacionais que caíram nas minhas garras que talvez eu
gostaria de ser um produtor da série ou teria desejos enrustidos
de me aventurar a me envolver com Jornada nas Estrelas de verdade,
seja como jornalista ou escritor (duas coisas que, assim como um
trekkie, eu não sou também e nunca vou ser, obrigado --co-editor
de sites americanos é apenas uma ego trip e um hobby divertido, não
um emprego). Seria azar demais estar no lugar desse povo --stress
pra político brasileiro não botar defeito. Por isso eu prefiro
ser o Gustavo Leão mesmo. Irônico, mas verdadeiro (pelo menos na
maioria das vezes). Não tenho que me preocupar com Jornada nas
Estrelas ou os trekkies e nem com repercussões na Internet, só
com a vida real de mulher, chopp, trabalho, família (Leões andam
em bandos) e amigos. Só assistir à série com uma boa companhia
(e não estou falando de pipoca) e de vez em quando. Com o senso
crítico ligado e o senso de importância desligado. Mas minto,
com uma preocupação: rezando pra não jogar dinheiro fora no próximo
filme ou nos próximos episódios.
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