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por Gustavo Leão
Se
você leu a primeira coluna que escrevi para este site, sabe da
minha profunda decepcão com o atual estado criativo e
administrativo do franchise hollywoodiano conhecido como Jornada
nas Estrelas, por conta do todo-poderoso produtor Rick Berman.
Apesar dos preparativos (nada bons, na minha opinião) de um novo
filme e uma nova série para o ano que vem, a verdade é que
Berman está cansado e estressado, após 15 anos vivendo no século
24. E se ele não mudar sua atitude ou tomar um calmante, deve
levar o franchise ao colapso e ao abandono em um futuro não muito
distante.
Ou, pelo menos, irá levar ao final o seu reinado como o
"poderoso chefão" de Jornada, um cargo que caiu em seu
colo quase por acidente após a aposentadoria de Gene Roddenberry
(por problemas de saúde) e de Maurice Huxley (um ex-produtor de
"Miami Vice" e criador dos Borgs, que queria mais ação
na série e acabou em conflito com os "ideais"
pacifistas de Roddenberry) em 1989.
Sozinho no comando e com a autonomia dada pelo estúdio, Berman
contratou gente de talento, aumentou a audiência e a aceitação
dos trekkies que torciam o nariz para uma Enterprise sem Kirk ou
Spock, barateou os custos de produção da série e começou a
dominar o franchise em todos os fronts: de produtor-executivo de A
Nova Geração a partir do terceiro ano, passando por co-criador e
produtor das séries Deep Space Nine e Voyager, e acabando com um
contrato milionário como produtor e co-roterista dos últimos três
filmes de cinema (um baita de um salário que ele espera continuar
a receber ao assumir, no ano que vem, essas mesmas posições, no
próximo filme e na nova série de TV).
Não se pode negar que Berman é a peça principal na transformação
de Jornada, que passou de série cult e fenômeno pop à galinha
de ovos de ouro da Paramount e principal fonte de renda do estúdio.
Foi graças a Berman que talentos como Michael Piller, Jeri
Taylor, Ron Moore, Ira Behr, Robert "Andromeda" Wolfe e
Brannon Braga se juntaram ao franchise e a revitalizaram
criativamente. Mas note que todos esses talentos acabaram por se
desentender com Berman e abandonar Jornada e a Paramount, restando
para titio Rick apenas a companhia do seu pupilo menos criativo,
Brannon, apelidado por seus colegas de "Mini-Rick".
Coloque a culpa em Xena e Arquivo-X, na super-exposição de
Jornada na TV (quatro séries sendo reprisadas ao mesmo tempo,
fora os episódios inéditos), na falta de popularidade da UPN ou
simplesmente admita que os roteiros de Voyager não são mais
nenhuma Brastemp.
De uns anos pra cá as coisas mudaram no galinheiro e a galinha
está colocando cada vez menos ovos de ouro. Ou seja, a audiência
despencou, as bilheterias não são mais as mesmas e até os
trekkies mais fanáticos pelas novas gerações passaram a
criticar os novos seriados, pedindo a cabeça de Berman numa
bandeja de prata e uma mudança na equipe de produção da série
(leia-se: uma volta dos talentos que se foram e não voltam mais).
Os
mais saudosistas e afoitos pedem a volta de dois nomes que
qualquer trekkie ou simples fã desavisado conhece: William
Shatner e Leonard Nimoy. Justamente as duas últimas pessoas no
mundo com quem Berman gostaria de fazer negócio --nem que a vida
de Jornada (para não dizer seu salário) dependesse disso. Mas
por quê? Essa, caro leitor, é uma longa história.
O ano era 1991 e parecia o começo de uma linda amizade: Leonard
Nimoy produzia o último filme da série original no cinema,
"Jornada nas Estrelas VI - A Terra Desconhecida",
enquanto Berman produzia o quinto ano da Nova Geração, então no
pico de sua popularidade.
Os dois, famosos e bem-sucedidos, acabaram por ficar amigos e
fizeram uma parceria, no intuito de um ajudar no projeto do outro.
Berman cedeu a Nimoy o ator Michael Dorn (ator que interpreta Worf)
para uma participação especial no filme, que fazia diversas
referências à nova serie, e Nimoy cedeu a si mesmo e ao ator
Mark Lenard (Sarek, que também estava no filme) a Berman,
aparecendo como o embaixador Spock em dois episódios especiais,
que por sua vez faziam diversas referências ao roteiro do filme,
que estava prestes a estrear.
Ou seja, um ajudou a fazer propaganda do produto do outro, algo
raro na época, já que Série Clássica e A Nova Geração até
então permaneciam como entidades distintas uma da outra. A partir
daí, referências aos personagens clássicos apareceram aos
montes na Nova Geração (até James Doohan fez uma participação
em um episódio do sexto ano chamado "Relics") e até os
personagens de Kirk e do embaixador Spock foram citados de forma
importante e reverencial em diversos episódios da Nova Geração
("Face of the Enemy", "Lower Decks") e até de
Deep Space Nine ("Crossover").
Foi o começo de uma linda parceria entre as duas gerações de
produtores, que, como tudo em Hollywood, não ia durar muito,
acabando vitíma dos egos e das maquinações que pupulam neste
lugar mágico e fétido chamado Los Angeles. O que nos leva ao ano
de 1993.
Chegou a vez de Berman produzir um filme de cinema de Jornada.
Devido a essa simbiose que nesse ponto as duas séries (e seus
respectivos produtores) já possuíam, Berman decidiu fazer um
filme que incluísse o máximo de personagens da série original,
criando assim uma transição da velha para a nova geração.
Esperto, ele chamou seu amigo Nimoy para dirigir o filme, além de
lhe oferecer uma ponta como Spock nos primeiros quinze minutos. O
resto dessa história todo mundo sabe: Nimoy leu o roteiro, não
gostou de como os personagens da Série Clássica eram tratados
como coadjuvantes, além de repudiar a maneira como Kirk morria no
final. Resultado: ele deu de ombros a seu amigo Berman.
Na época, Nimoy deu em diversas entrevistas a desculpa de que não
queria dirigir ou participar do filme porque o papel de Spock era
pequeno demais e suas sugestões para a melhoria no roteiro na
agradaram a Berman-- conta outra, Spock! Em Jornada III ele topou
aparecer só em um minuto e meio, em um filme cujo roteiro não
era nenhuma obra-prima, mesmo assinado pelo talentoso Harve
Bennett.
É logico que Nimoy não queria dar sugestões no roteiro de Moore
e Braga, ele queria é reescrever a coisa toda. Como William
Shatner conta em suas segunda autobiografia, "Jornada nas
Estrelas - Memórias dos Filmes", todas as suas sugestões
--como o personagem de Antonia e o modo como Picard convence Kirk
a sair do Nexus-- foram aprovadas por Berman e seus roteristas. E
todo mundo sabe que Shatner é bem menos diplomático que Nimoy.
Desesperado e com data marcada pra começar as filmagens (tendo
que aproveitar os cenários da série de TV antes que eles fosses
demolidos), Rick Berman (com a ajuda de Ron Moore e Brannon Braga)
substituiu Spock e McCoy por Scotty e Chekov (na verdade, DeForest
Kelley recusou a participação por problemas de saúde) e a direção
foi entregue ao diretor da série de TV, David Carson.
O resultado todo mundo conhece: o filme "Jornada nas Estrelas
- Generations", amado pôrouns, odiado por outros (ok, eu
adorei o filme, mas não olhe pra mim, eu não sou um trekkie).
Daí pra frente, a relação Berman/Nimoy foi se deteriorando a
cada passo. Para o filme seguinte, até então chamado de
"Jornada nas Estrelas - Ressurection" (mais tarde
alterado para "First Contact"), Berman chamou Nimoy para
o cargo de "consultor criativo" (algo que Roddenberry
foi nos filmes, do II até o V), mas de novo Nimoy teve problemas
com o roteiro e com a produção (dizem que Nimoy achou o tom do
filme muito violento, não aprovou o uso dos Vulcanos no final e
ainda queria de novo a inclusão de personagens da Série Clássica
na história --o cara é teimoso).
Assim sendo, mais uma vez uma quase-parceria entre os dois
veteranos produtores foi para o brejo. E para piorar a situação,
com a aproximação dos 30 anos da série, Nimoy começou a
criticar veementemente tanto Voyager quanto Deep Space Nine (e
suas respectivas faltas de popularidade) na imprensa.
E parece que a falta de homenagens que a Série Clássica recebeu
nesse aniversário irritou não só Nimoy mas também outros
atores da série original, que achavam que parecia a festa dos 30
anos das novas séries e não da clássica, essa sim com 30 anos
de idade.
Por isso, talvez, Nimoy também tenha resolvido furar com Berman
em outras ocasiões: quando, em fevereiro de 1996, o ator (e
trekkie) Jimmy Smitts (de "Nova York Contra o Crime" e
"Star Wars - Episode 2") entregou a Berman e a Majel
Barrett Roddenberry, ao vivo na rede TNT, o premio Sindicato dos
Atores pela comemoração dos 30 anos do "legado de
Gene", lá estavam no mesmo palco todo os elencos da Nova
Geração, Deep Space Nine e Voyager (até Will "Wesley"
Wheaton e Avery "Sisko" Brooks, aversos a esse tipo de
coisa, compareceram).
Da Clássica estavam apenas George Takei (fazendo o sinal de
"vida longa e próspera", é logico), Nichelle Nichols e
Walter Koenig. Em setembro do mesmo ano, no especial de gala
"Star Trek 30 Years and Beyond" (disponível em vídeo
nos EUA e exibido ao vivo pela UPN com apresentacao de --ugh!--
Ted Danson), Nimoy foi o único ator das quarto séries (além de
Patrick Stewart) a não comparecer na comemoração (mandando um
recado ao vivo da França, recado esse que foi sabotado por
interferência subespacial. Seria Berman?).
Depois de tanto "toma-lá-dá-cá", era lógico que lá
por 1998, Mr. Berman que já estava de saco cheio de Mr. Nimoy e
nem queria ver suas orelhas, pontudas ou não. E Rick soube dar o
troco.
Quando
Nimoy criou uma empresa chamada "Alien Voices", com o
ator John de Lancie (Q) para a produção de vídeos e CDs usando
os atores de Deep Space Nine e Voyager em dramatização de clássicos
da ficção científica (além do CD especial "Spock Vs
Q"), de repente, de Lancie, que até o momento fazia o papel
de Q em aparições especiais em Voyager, nunca mais apareceu na série
(ou em qualquer produção de Jornada, seja DS9 ou os filmes pra
cinema).
Dizem as más linguas que Berman não gostou nada de de Lancie ter
se tornado sócio de Nimoy, e resolveu boicotá-lo em Voyager.
Agora, após passar cinco anos na geladeira, o personagem Q vai
voltar, no sétimo ano de Voyager, em um episódio intitulado
"Q Two" (falam por aí que o afastamento de Berman e
Braga de Voyager e o novo regime imposto por Ken Biller tem algo a
ver com o retorno de Q, ou melhor, de Lancie. Coincidência?)
E quanto ao boicote de Berman à pessoa de Nimoy (sem falar no
personagem Spock), tudo ficou ainda mais claro em 1998, durante a
última temporada de DS9: Ron Moore, fã de carteirinha da Série
Clássica e um dos melhores (senão o melhor) roterista de DS9,
resolveu escrever o último episódio da saga do "Mirror
Universe" (que já havia rendido a DS9 quatro episódios
passados naquele universo paralelo visto pela primeira vez no
episodio "Mirror Mirror", da Série Clássica) e
convidou Nimoy a reprisar o papel do Spock de barba do universo
alternativo, um final de ouro para mais uma das sagas de DS9.
Nimoy aprovou a idéia, o produtor-executivo Ira Behr aprovou a idéia
e... Berman cancelou tudo, obrigando a equipe a terminar a saga
com um episódio de Quark lidando com o Grande Nagus no universo
paralelo. Uma grande decepção para Moore (que ventilou toda a
sua frustração com Berman, com seu desdém pela Série Clássica,
numa entrevista recente ao Fandom.com). No caso de Nimoy, foi o último
prego no fim de sua relação com Berman.
Já no caso de Bill Shatner, a história do surgimento e do fim da
amizade dos dois é muito mais simples. Durante as filmagens de
Generations, Shatner (com medo de perder seu maior ganha-pão)
bolou uma história em que Kirk era ressuscitado pelos Borgs e
vinha se vingar do capitão Picard e da Federação. Shatner levou
essa historia a Berman e o produtor disse ter gostado. Pediu que
Shatner escrevesse um roteiro da história, o que foi a primeira
coisa que Shatner deve ter feito ao voltar do deserto de Nevada,
onde se filmou (duas vezes) a cena da morte de Kirk.
O ator contou, em uma entrevista que deu à revista "Cinescape",
que levou seu roteiro à Paramount e todos lá --de Berman a
Sherry Lansing-- gostaram da idéia e prometeram retornar um
telefonema a Shatner logo que possível. Eu não preciso dizer que
Bill está esperando esse telefonema até hoje.
Inconformado,
Shatner se uniu aos super talentosos escritores Judith e Garfield
Reeves-Stevens e adaptou as idéias do roteiro em uma série best
seller de seis livros, que narram a saga de um capitão Kirk
ressuscitado no século 24 e se unindo aos já centenários Spock
e McCoy, junto com a tripulação da Enterprise-E.
Os livros foram um sucesso absoluto e são o pivô dos
descontentamentos de Shatner com Berman. Parece que apesar de não
querer adaptar os livros de Shatner para TV ou cinema, Berman é
um tremendo fã de Bill, porque diversos elementos dos livros começaram
a aparecer em episódios de Voyager e nos filmes da Nova Geração
para cinema, fato que não passou em brancas nuvens para Shatner.
E antes que alguém soletre a palavra "plágio", vamos
dar uns exemplos. No episódio "Mortal Coil", Neelix
morre e é ressuscitado de uma maneira idêntica à de Kirk nos
livros: através da inserção de nanossondas Borgs em suas
corrente sangüínea e em seu cérebro.
Já em "Dark Frontier", a cidadela espacial que a Rainha
Borg usa como quartel-general dos Borgs é uma copia deslavada da
descrição de Shatner do mundo Borg no quadrante Alfa em "O
Retorno do Capitão Kirk" ("The Return"), o mesmo
livro que Berman e a Paramount recusaram como o nono filme da série.
E
como se tudo isso já não bastasse, vamos comparar o roteiro do
primeiro livro de Shatner com o enredo do último filme da Nova
Geração. Em "Star Trek - Ashes of Eden", que Shatner
(e os Reeves-Stevens, sejamos justos) escreveu em 1995, o capitão
Kirk desobedece ordens da Frota Estelar e vai defender o planeta
Chal, que guarda o segredo da juventude eterna, contra o
comandante da Frota, o almirante Drake, que se uniu aos Klingons
para tomar o planeta à força. Mas Kirk se une a Teilani, uma líder
nativa do planeta por quem ele se apaixona (e com quem casa no
quinto livro da saga). Teilani, apesar de aparentar ser bem mais
nova, é bem mais velha que ele. Junto dela e de sua velha tripulação,
Kirk derrota Drake e liberta Chal.
Em "Jornada nas Estrelas - Insurreição", roterizado
por Berman e Michael Piller em 1998, o capitão Picard desobedece
ordens da Frota Estelar e vai defender o planeta Baku, que guarda
o segredo da juventude eterna, contra o almirante Dougherty, que
se uniu aos Son'a para tomar o planeta à força. Picard se une a
Anij, uma líder dos Baku por quem ele se apaixona, que apesar de
aparentar ser mais nova é bem mais velha que ele, e junto com sua
tripulação, derrota os Son'a. Coincidência? Não para Shatner,
já que em seu livro "Star Trek - Dark Victory", lançado
um ano após a estréia de "Insurreição", Picard
compara como essas duas missões foram bem... ahammm... similares.
Pra quem conhece os livros de Shatner (e a maneira como ele trata
o relacionamento Kirk/Picard), o recado de Bill estava bem dado.
E pra não perder o hábito, Shatner topou estrelar a comédia
independente "Free Enterprise", um filme divertido no
qual ele, além de mais uma vez fazer o seu famoso discurso "get
a life... it's only a TV show" (dessa vez seriamente),
aproveitou para dar um toque nos novos rumos do franchise. Uma das
melhores cenas fica a cargo de um dos personagens principais, que
grita para a namorada: "I fucking hate the next generation!!!"
E
a vingança final de Bill chegou este ano, em sua última
biografia best seller, intitulada "Get A Life". No último
capítulo, ele critica o estado atual de Jornada e comenta
ironicamente a tão falada decadência do franchise.
Por isso, apesar das várias campanhas para trazer Kirk, Spock ou
Sulu, ou das preocupações dos trekkies com a recente falta de
criatividade no franchise (que depois dos recentes rumores sobre
Jornada X e a nova série parece ter aumentado consideravelmente),
não contem em ver atores da Série Clássica na frente ou atrás
das câmeras na comemoração dos 35 anos de Jornada em 2001. E não
convidem as duplas Rick "Doctor Evil" Berman e Brannon
"Mini-Rick" Braga pra mesma festa que Kirk e Spock.
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