Série Clássica
Temporada 2

Análise do episódio por
Carlos Santos



 









 

MANCHETE DO EPISÓDIO

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Sinopse:

Data Estelar: 3451.9.

Kirk  lidera uma equipe em uma expedição a um planeta que parece ser um paraíso tropical no sistema Gama Trianguli VI, entretanto ocorrências desastrosas começam a acontecer, como o surgimento de plantas venenosas, explosões inexplicáveis, e mudanças climáticas imprevisíveis, matando os homens da tripulação, um a um. Ao mesmo tempo a Enterprise, em órbita, começa a sofrer uma estranha perda de potencia que Scotty não consegue explicar. Ainda assim o grupo fica em terra conduzindo as pesquisas de superfície. Eles percebem que estão sendo observados, mas não conseguem identificar por quem.

Pouco tempo depois Scotty informa que a situação na Enterprise vai piorando, deixando Kirk preocupado. O engenheiro afirma ter identificado algum tipo de feixe de energia vindo da superfície em direção a nave, mas não consegue definir exatamente como. Pouco tempo depois Spock á atingido por espinhos venenosos ao se colocar na frente de Kirk quando uma das plantas tenta atacá-lo.

Kirk decide voltar, mas o transporte não consegue tirar o grupo do planeta, deixando o grupo ilhado. Apesar disto, Spock volta a si e Kirk decide tentar descobrir o que está interferindo com o funcionamento da Enterprise, porem mais duas mortes acontecem, deixando Kirk transtornado.

Nesta hora Spock percebe que o observador oculto está de volta. Eles criam uma distração e conseguem surpreender o observador, que descobrem se chamar Akuta, o sacerdote de Vaal. Segundo Akuta, Vaal é uma espécie de Deus, que controla tudo no planeta e prove os recursos necessários a existência de seu povo. Akuta tem aparelhos implantados que permitem que Vaal se comunique com as pessoas através dele.

A condição da Enterprise se deteriora, sem que Spock possa fazer nada para interromper a perda de Energia, o que fará que a Enterprise caia no planeta em dezesseis horas, o que o torna ainda mais urgente encontrar o que quer que esteja causando o fenômeno.  Akuta concorda em levar o grupo até Vaal, e eles descobrem que este é uma maquina provavelmente alienígena. O mecanismo, que se encontra cercado por algum tipo de campo de força,.parece ser a causa dos problemas da Enterprise, sendo capaz de transformar a matéria das oferendas trazidas pelo povo do planeta em energia da qual se alimenta.

Uma vez que a condição não permitia nenhuma ação de momento, o grupo se retira para a aldeia do povo de Vaal. Lá eles começam a descobrir que eles vivem com marionetes. Eles são protegidos por Vaal, mas trata de prover todas as necessidades das pessoas, controlando tudo na planeta, desde prevenção de doenças até mesmo as variáveis ambientais, impedindo até contato físico entre eles.

Enquanto aguardam uma chance para agir, o grupo da Frota Estelar inicia um debate sobre a forma como Vaal controla aquelas pessoas. Com a situação da nave cada vez pior Kirk esta disposto a destruir Vaal mesmo que isto custe interferir na vida dos habitantes locais.

Pouco tempo depois, um casal nativo assiste Chekov e a ordenança Marta se beijarem e embora achem estranho, experimentam fazer o mesmo. A experiência não passa desapercebida por Akuta, e por extensão por Vaal, que decide que o grupo da Enterprise deve morrer. Vaal fornece o conhecimento ao nativos para executar a tarefa, mas estes falham, embora tenham causado mais uma baixa no grupo avançado.

Scotty realiza uma ultima tentativa de salvar a nave, mas falha, então Kirk ordena que ele dispare os fasers contra Vaal, que parece enfraquecido. O ataque tem sucesso e Vaal é destruído. Os nativos se mostram totalmente desorientados com a nova situação, mas Kirk os encoraja, e coloca a Frota Estelar a disposição para ajudá-los, e após a conclusão dos reparos o grupo deixa o planeta e a Enterprise segue seu caminho.

 

Comentários:

Diz o velho ditado que de boas intenções o inferno está cheio. Se isto é verdade, “The Apple” é um bom exemplo disto. O segmento tenta abrir uma vez mais a discussão (recorrente em Jornada) “Homem x Maquina”, mas consegue apenas ser um episodio desajeitado. A começar pelo argumento reciclado de “The Return of the Archons”, entre outros, onde um computador também dirigia o destino das pessoas.

Uma vez mais Jornada nas Estrelas finca sua bandeira no tema da substituição do homem pela maquina, e mais, defende desesperadamente o direito do homem a liberdade de escolha. O contra censo é que Kirk e McCoy desejam de qualquer maneira impor este direito de escolha ao povo do planeta que mal conhecem, a partir do seu (pré) conceito de que o paraíso de Vaal é vazio, uma vez que seu povo é desprovido de propósito.

Vaal é como um Deus para os simples habitantes deste planeta. Por algum motivo, a maquina foi deixada com a missão de proteger aqueles seres de agentes externos, e por muito tempo, isto foi feito com sucesso. Vaal manteve aquelas pessoas em segurança, saudáveis, alimentadas e longe dos perigos de seu planeta. O preço disto é a ignorância, que os membros da Frota Estelar chamam de “estagnação”.

O que tenta fazer este segmento diferente é o tema da procura do paraíso. Não que este seja novidade, pois isto também é recorrente em Jornada, mas nunca a analogia foi tão obvia. A questão aqui não é se o paraíso existe ou não, mas o que é o paraíso? Vamos descobrir que esta definição varia muito, dependendo da percepção que se tenha do assunto. Para Chekov, por  exemple, o Jardim do Éden é logo saída de Moscou.

Pode um homem ser governado por uma maquina? Que tipo de sociedade surgirá deste tipo de associação? Terá esta maquina condições reais de gerir a vida destes seres humanos? E se isto fosse possível, poderia Kirk, ou a Federação ter o direito de decidir por aquelas pessoas, a partir de sue conceito do que é certo ou errado? Tais questionamentos são sugeridos, mas logo abandonados. Estrategicamente a Enterprise é colocada em perigo, não dando a Kirk outra opção senão destruir Vaal, para poder salvar a nave, situação que sepulta todo o debate de forma abrupta.

Muitos (como Spock) se perguntam de que vale a primeira diretriz ? Não muito. Apesar de fãs de Jornada nas Estrelas passarem anos discutindo a tão falada lei máxima da Federação dos Planetas Unidos, pelo menos na Série Clássica tal lei nunca foi levada muito a sério e “The Apple” é um mais exemplo disto, onde novamente vez Kirk chuta a lei máxima da Federação sem reservas. 

De forma intencional ou não, o segmento abre uma outra perspectiva de leitura. Fica claro que existe um culto a Vaal, e mostrar Akuta como um sacerdote só reforça esta idéia. Pela lógica do segmento, tal influencia é negativa. Impossível não fazer um paralelo com o pensamento de muitas pessoas de que a religião pode ser usada como uma forma de controlar as pessoas. Vaal mantêm o povo na ignorância e ao mesmo tempo se apresenta como Deus, tornando fácil a tarefa de mantê-los dentro daquilo que se considera certo, pelo menos para os padrões de quem construiu Vaal.

A metáfora do “paraíso” só complementa esta idéia. Por este prisma, o culto a Vaal (a religião) tornou os habitantes daquele planeta (uma representação da humanidade) pessoas sem propósito, incapazes de realizar algo por elas próprias, logo é necessário se livrar de Vaal para progredir, é necessário provar a maça, e deixar o paraíso. Karl Marx dizia que “ A igreja é o ópio do povo”,  e sendo Roddenberry ateu, é bem provável que o “grande passaro da galáxia” tivesse o mesmo pensamento.

A favor da trama, a de se dizer que estas questões não passaram desapercebidas por seus mentores. Ao longo do segmento Spock está sempre lá, ora ao lembrar a Kirk a diretriz de não interferência ou ao tentar mostrar uma visão diferente e favorável da situação dos locais, mas tal ação é feita de forma muito pontual, resultando em pouco suporte para tornar tais momentos realmente importantes. Por fim, a discussão entre Spock e McCoy tenta enfiar goela abaixo algum tipo de significado filosófico no debate, que tem até algum sentido, mas não encontra eco no conjunto do episodio.

“The Apple” fracassa por justamente por propor demais e realizar quase nada. O tema (ou temas) que poderiam ser tratadas aqui são levados de forma ingênua e superficial, e no fim do episodio, a conclusão simplista está longe de atingir e considerar de forma mais correta as suas implicações. Kirk e sua tripulação uma vez mais interferiram na vida da sociedade que encontraram, de forma aguda e significativa. Onde fica a responsabilidade sobre isto ?

Outros detalhes se somam para atrapalhar o andamento do episodio. Primeiro, ele tem gosto de comida requentada, pois os temas abordados aqui já p foram em outras ocasiões, como o já citado “The Return of the Archons”,  ou em “Court Martial”, “A Taste of Armageddon”, “This Side of Paradise”, entre outros.

Segundo, por “The Apple”, abusa em reunir uma série de clichês da Série Clássica, como as mortes idiotas dos red shirts, tratadas com a sensibilidade de um rinoceronte,  o descaso com preparativos de segurança mínimos para uma missão a um planeta desconhecido, e hostil (é ridículo ver aquele grupo de pessoas andando por um lugar estranho e potencialmente perigoso como se fossem crianças em um piquenique), o capitão, o primeiro oficial e medico da nave fazendo parte de um grupo avançado,etc, etc.

Nem os temas recorrentes e nem as situações citadas antes causam estranheza a quem acompanha a série, mas o excesso, agrupados em um mesmo espaço, em período tão curto, aliados a cenas vexatórias como o namorico de Chekov e da alferes Landon  (Celeste Yarnall), os cenários pobres excesso, situações forçadas, como por exemplo, o fato de  ninguém pensar em usar uma nave auxiliar para buscar o povo em terra quando o. transporte parou de funcionar, aliados a uma trama mal elaborada e mal conduzida, fazem um estrago enorme na tentativa do enredo de funcionar.

 

Citações:

Spock: "Doctor McCoy's potion is acting like all his potions -- turning my stomach. Other than that, I am quite well."
("A poção do Doutor McCoy está agindo como todas as poções: revirando meu estomago. Fora isto, eu estou bem.")

Kirk: "You'll learn something about men and women -the way they're supposed to be. Caring for each other, being happy with each other, being good to each other. That's what we call love. You'll like that a lot."
("Você aprenderá algo sobre homens e mulheres – do jeito que tem que ser. Importando-se um com o outro sendo felizes um com o outro. O que nos chamamos de amor. Você irá gostar muito.")

McCoy: "There are certain absolutes, Mister Spock, and one of them is the right of humanoids to a free and unchained environment. The right to have conditions which permit growth."
("Há certos determinantes absolutos, senhor Spock, e um deles é o direito dos humanóides a um ambiente livre e não acorrentado. O direito a ter condições que permitem o crescimento.")

Spock: "Another is their right to choose that system which seems to work best for them."
("Outro é seu direito a escolher o sistema que funciona melhor para eles.")

Kirk: "You'll learn to care for yourselves, with our help. And there's no trick to putting fruit on trees; you might even enjoy it. You'll learn to build for yourselves, think for yourselves, and what you create is yours. That's what we call freedom. You'll like it. A lot."
("Vocês aprenderão a importar-se com vocês mesmos, com a nossa ajuda. E não há nenhum truque a pôr a fruta sobre árvores; você pôde gostar disto. Vocês aprenderão a construir por vocês mesmos, pensar
por vocês mesmos e tudo o que vocês criarem será seu. Isto é o que nós nos chamamos liberdade. Você gostarão muito.")

Kirk: "Discard the warp drive nacelles if you have to and crack out of there with the main section but get that ship out of there."
("Solte as naceles de dobra, se precisar, a arranque fora a seção principal, mas tire a minha nave daqui.")

 

Trivia:

David Soul, que fez o papel de “Mekora”, viria a se tornar o popular "Hutch", da série "Starsky e Hutch.".

Outra curiosidade a respeito de Soul é que o ator participou da serie de TV  "Here Come the Brides" (1968-1970), conhecida no Brasil com “E as Noivas Chegaram”, baseado no filme Sete noivas para Sete irmãos. Nessa série, Soul contracenou com Mark Lenard.

 

Ficha técnica:

Escrito por Max Ehrlich
Direção de Joseph Pevney
Música de Gerald Fried
Exibido em 13 de outubro de 1967
Produção: 38

Elenco:

William Shatner
como James Tiberius Kirk
Leonard Nimoy
como Spock
DeForest Kelley
como Leonard H. McCoy
Nichelle Nichols como Uhura
George Takei como Hikaru Sulu



Elenco convidado:

Keith Andes como Akuta
Celeste Yarnall como Martha Landon
Shari Nims como Sayana
David Soul como Makora

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