Com corte disruptivo e problemas no desfecho, episódio apresenta uma bela batalha à la Trek

Sinopse

Enquanto 24 naves klingons — presumivelmente das 24 Casas com assento no Alto Conselho do império — chegam ao sistema das estrelas binárias, atendendo ao chamado de T’Kuvma, a USS Shenzhou enfrenta uma crise interna: após retomar o comando da nave, a capitão Georgiou ordena que sua ex-primeiro oficial, Michael Burnham, seja levada à detenção. É o triste fim de uma relação de amizade e confiança que começou sete anos atrás, quando Michael veio pela primeira vez a bordo, acompanhada por seu tutor vulcano, Sarek. O embaixador pediu a Georgiou, a quem já conhecia, que tomasse a jovem humana sob sua asa e a guiasse nos caminhos da Frota Estelar.

Fora um primeiro encontro muito estranho. Acostumada à frieza vulcana, Michael não entendia as sutilezas do comportamento humano. Georgiou comparou o retorno dela ao convívio com outros de sua espécie a um primeiro contato, mais ou menos. “Menos”, retorquiu Burnham. Mas mesmo ali, enquanto conversavam no turboelevador a caminho da ponte, a despeito da esquisitice da conversa, ficou claro o espírito de admiração mútua que nutriam. “Este é seu novo lar”, disse Georgiou à jovem xenoantropóloga.

Sete anos depois, um motim, e Burnham está confinada à detenção, enquanto uma guerra ameaça irromper lá fora.

Georgiou quer evitar isso a todo custo, mas os klingons recusam qualquer tentativa de comunicação, bloqueando todos os sinais da Shenzhou. A ação faz parte da estratégia de T’Kuvma para ganhar a atenção dos líderes das Casas klingons. Numa reunião por hologramas, eles questionam o uso espúrio do farol sagrado e desprezam Voq, o Portador da Chama designado por T’Kuvma. O chamado é justificado, alega o capitão da nave-sarcófago, pois estão eles diante de uma grande batalha, destinada a selar seu destino: permanecer klingon. T’Kuvma diz que as palavras da Federação são enganadoras, mas sua intenção é clara: arrastar a raça klingon para o mesmo chiqueiro onde convivem humanos, vulcanos, telaritas e andorianos imundos. Questionado sobre a pequena ameaça que a Shenzhou representa, T’Kuvma assume um tom profético, que se confirma quando diversas naves da Federação saem de dobra: Clarke, Shran, T’Plana Hath, Kerala, Sue, Rye, Earhart, Dana, Edison e Yeager. A Europa, com o almirante Brett Anderson a bordo, está ainda a 800 unidades astronômicas de distância, mas os klingons começam a levar a sério as palavras de seu autoproclamado messias.

T’Kuvma então permite a recepção de uma mensagem da Shenzhou, em que a capitão Georgiou explica que os klingons estão em espaço da Federação e têm apenas duas opções: se retirar ou abrir um canal diplomático. Ela ressalta que prefere a segunda opção e diz que agora, como sempre, a Federação vem em paz. São exatamente as palavras dissimuladas que T’Kuvma atribui aos federados, e ele responde a mensagem à moda klingon, abrindo fogo contra as naves federadas.

A Shenzhou sofre muitas baixas. Na ponte, o painel do alferes Connor explode e ele fica gravemente ferido. O jovem oficial é ordenado a ir à enfermaria, mas está tão desorientado que vai parar na detenção. Burnham pergunta o que está acontecendo, mas Connor não consegue se concentrar. “Você deveria estar na ponte”, ele diz. “Por que estamos lutando? Nós somos a Frota Estelar, não somos soldados.” Burnham tenta encaminhá-lo à enfermaria, mas não há tempo por isso. Em mais um ataque klingon, há uma brecha no casco e Connor é atirado no espaço antes que campos de força pudessem ser ativados. A oficial amotinada é a única sobrevivente ali, isolada do resto da nave pelos campos de força da sua cela.

Resignada, ela espera pelo pior, que não deve tardar. Mas então sente algo que nunca experimentara antes — Sarek estabelece um elo telepático com ela. Ela julga impossível, mas Sarek explica que, ao salvá-la no ataque terrorista ao Centro de Aprendizagem Vulcana quando ela era apenas uma criança, ele transferiu parte de seu katra para ela, e é isso que permite o contato — ainda que a um grande custo físico para ele. Sarek a encoraja a não desistir e a ajudar quem precisa dela, e Burnham renova suas forças para sobreviver. Usando sua lógica, ela convence o computador a abrir uma brecha no campo de força que a atire até um corredor pressurizado da Shenzhou — sua única chance de sobreviver, ainda que o computador estime as chances de sucesso em 43%.

Na ponte, a situação é desesperadora. As naves federadas estão apanhando feio, e a Shenzhou está a deriva, avançando por inércia na direção do disco de acreção de uma das estrelas, onde encontrará um impacto fatal. Georgiou está pronta para ordenar a evacuação quando um raio trator captura a Shenzhou — é a USS Europa que chegou para o resgate.

O almirante Anderson abre um canal de comunicação com T’Kuvma e propõe um cessar-fogo, que surpreendentemente é aceito. O klingon instrui o federado a esperar seu enviado, mas é mais um golpe. A real intenção do klingon é demonstrar aos líderes das 24 Casas que ele de fato possui a tecnologia para camuflar suas naves. O “enviado” é uma outra nave camuflada que estava no sistema e faz um ataque kamikaze, chocando-se com a Europa enquanto camuflada.

A tripulação da Shenzhou vê em choque a nave líder da frota federada ser partida ao meio e, para desferir um golpe no inimigo, desligar a contenção da antimatéria do motor de dobra para se autodestruir numa explosão que engolfe ambas as naves. Funciona, mas a um custo terrível. “Perdemos muito”, diz T’Kuvma, “mas a Federação perdeu mais.” Dada a batalha por terminada, T’Kuvma transmite aos líderes das 24 Casas que retornem ao império e espalhem a boa nova: a raça klingon está novamente unida, sob a liderança de Kahless, renascido em T’Kuvma.

Restam no campo de batalhas apenas as naves federadas e seus módulos de fuga, além da nave-sarcófago de T’Kuvma. O klingon então manda um recado à Federação: voltem e contem a todos o que aconteceu aqui, sejam os arautos da supremacia do Império Klingon. Georgiou não está nessa “vibe”, contudo. Ela planeja com Saru um modo de atacar a nave-sarcófago, enchendo uma pequena cápsula operária com torpedos fotônicos, que ela planeja pilotar até a nave-sarcófago para destrui-la.

E então acontece o reencontro entre Burnham e Georgiou. A ex-primeiro oficial diz que eles não podem matar T’Kuvma, pois tudo que ele quer é virar um mártir da causa klingon. A melhor estratégia é humilhá-lo, capturando-o. O clima de animosidade entre as duas não se dissipou, contudo. Georgiou está arrasada pela traição de Burnham, que por sua vez alega que fez o que fez somente para salvar a vida de sua capitão e sua tripulação. No gabinete de Georgiou, as duas notam que a nave-sarcófago está recolhendo os corpos de seus guerreiros caídos, e a capitão tem uma ideia para atacar os klingons — usar o transporte para plantar uma ogiva fotônica em um dos corpos e detoná-la só depois que ela estiver dentro da nave.

O plano dá certo e o pescoço da nave é quase rompido por completo. Ela está desabilitada. Chega o momento de tentar a parte mais difícil: capturar T’Kuvma. Georgiou e Burnham se transportam perto da ponte, num lugar com poucos sinais vitais klingons, e mantêm seus fêiseres em tonteio. Mas o plano começa a fazer água quando as duas entram em combate corpo a corpo com Voq e T’Kuvma. Burnham consegue se desvencilhar de Voq, mas T’Kuvma leva a melhor sobre Georgiou e crava seu met’leth no coração da capitão. Burnham tem um acesso de fúria e, numa fração de segundo, passa o feiser para a configuração para matar e dispara um tiro fatal contra T’Kuvma.

Sem captar os sinais vitais de Georgiou, Saru transporta Michael de volta à Shenzhou, onde ela tem de encarar a morte de sua amiga, mentora e capitão. Na nave klingon, Voq promete a um T’Kuvma moribundo continuar o que ele começou. E assim termina a Batalha das Estrelas Binárias.

Michael Burnham é levada à corte-marcial pela Frota Estelar, onde é condenada a prisão perpétua por abandono do dever, ataque a um colega oficial e motim.

Comentários

Televisão, não nos enganemos, é acima de tudo um negócio. Gene Roddenberry já sabia disso quando escreveu a “Bíblia” da Série Clássica: “Construa seu episódio numa estrutura de ação e aventura”, recomendava aos roteiristas. “Temos de atingir, manter e entreter cerca de 20 milhões de pessoas, ou simplesmente sairemos do ar.”

Claro, muita coisa mudou entre 1967, quando isso foi escrito, e 2017, quando Discovery teve sua estreia. Uma audiência média de 20 milhões de pessoas para uma série de ficção científica virou coisa do passado. Em compensação, um novo objetivo surgiu para esta terceira era televisiva de Star Trek: ela precisa convencer pelo menos uns 2 ou 3 de milhões de pessoas a pagar por um serviço de streaming para vê-la. Isso levou a uma decisão incomum. Enquanto todos os pilotos das séries da segunda era televisiva trekker (composta por A Nova Geração, Deep Space Nine, Voyager e Enterprise) foram episódios duplos exibidos de uma vez só, para Discovery a decisão foi fatiar a história que abre a série em dois episódios — um exibido de graça na TV aberta americana, e outro no esquema “pagar para ver” do serviço CBS All-Access.

Por conta disso, embora seja, em termos de roteiro, a segunda parte do episódio-piloto, “Battle at the Binary Stars” é, para todos os feitos práticos, o segundo episódio de Discovery. O que nos obriga a, de cara, responder à seguinte pergunta: ele funciona como um segmento independente?

A resposta é, pura e simplesmente, não. Claramente “The Vulcan Hello” e “Battle at the Binary Stars” são uma só história e o ideal é vê-los juntos, emendados, como foram exibidos numa pré-estreia fechada no cinema em Los Angeles, dias antes da exibição na TV. Mesmo que você assista um após o outro, o pulo entre episódios é disruptivo. Claramente não há um daqueles cliffhangers por excelência, como vimos no clássico “The Best Of Both Worlds, Part I”, que nos deixa na ponta da cadeira com o “To be continued”. “The Vulcan Hello” termina num corte esquisito, seco, e “Battle at the Binary Stars” começa com um replay da última cena (com algumas tomadas diferentes), seguido por um flashback (!). Se você se permite usar a primeira cena nova depois do cliffhanger para ir para um flashback, ele não era um grande cliffhanger para começo de conversa, certo?

Acho importante fazer essa ressalva porque é um daqueles casos em que os negócios realmente entraram no caminho da arte. Nada imperdoável, mas, do ponto de vista artístico, ficou estranho. A quebra é muito sentida e não só pela interrupção da fluidez da narrativa. Toda a linguagem muda. Sai o diretor David Semel, com seus ângulos inclinados de câmera, e entra Adam Kane, que não se incomoda em filmar as coisas na horizontal. Sai o ritmo mais mastigado da primeira parte, entra um ritmo mais frenético de direção e edição da segunda parte, que levou o episódio a ter apenas 39 minutos. Nunca antes na história desta franquia tivemos um episódio live-action tão curto!

O fio da meada que impediu o trem de descarrilar foi o argumento de Bryan Fuller, co-criador de Discovery e co-roteirista do primeiro episódio, “The Vulcan Hello”. E aí chegamos finalmente à parte boa desta resenha: abstraindo o bizarro corte em duas partes, “Battle at the Binary Stars” é um suculento filé mignon (pedindo perdão aos trekkers veganos pela expressão).

Se a temática de “The Vulcan Hello” se concentra numa discussão de princípios (quem atira primeiro?), “Battle at the Binary Stars” é a perfeita refutação do ditado “quando um não quer, dois não brigam”. Se um desses dois é um klingon, ah, pode apostar que brigam. E as cenas klingons mostram claramente isso. Como bom estrategista (além de messias de plantão), T’Kuvma move as peças do tabuleiro, manipulando tanto os líderes klingons quanto as ações (previsíveis) da Frota Estelar, a fim de levar ao embate que o consagrará como grande líder.

Isso coloca a tripulação da Shenzhou numa situação claramente atípica para a Frota Estelar deste período. Do que podemos depreender até o momento, os klingons, assim como os romulanos, passaram por um longo período de isolamento, deixando a Federação livre para expandir sua mensagem de cooperação e exploração pacífica do espaço. Os oficiais comandados pela capitão Georgiou não pareciam ter o menor cacoete para batalhas, embora, como enfatizou Burnham na primeira parte, eles estivessem treinados e prontos para isso.

Pois bem. Os klingons decidiram colocar esse treinamento à prova, e isso também colocou a produção à prova: como fazer um episódio de batalha espacial à moda de Star Trek? A resposta está aqui.

Francamente, eu dou risada de quem diz que “Battle at the Binary Stars” lembra Star Wars. Basta uma olhada atenta para ver o esforço consciente dos produtores em seguir as regras trekkers de batalha: temos painéis explodindo na cara de tripulantes, temos ordens como “ação evasiva, padrão xyz” e temos um retrato do confronto em si que se assemelha muito mais a uma batalha naval — com submarinos “invisíveis” e navios pesados lutando contra a inércia para manobrar — do que a uma batalha aérea — com aviões de caça fazendo piruetas arrojadas em perseguições alucinantes. Basta ver a cena que dá início à batalha, depois do “baH!” de T’Kuvma, para notar o que estou falando. (Dica: batalhas em Star Wars costumam seguir o padrão aéreo, batalhas em Star Trek seguem o padrão naval. 50 pontos para Grifinória!)

É admirável, por sinal, o nível de restrição que os produtores se impuseram, em termos de efeitos visuais e tomadas de câmera, para esta batalha. E nada disso é acidental: a ideia é se concentrar no efeito que a batalha causa nas pessoas, e não nos malabarismos da batalha em si. Repare a atuação da Michelle Yeoh, nossa capitão Georgiou, quando ela se dá conta de que a USS Europa decidiu lançar mão da auto-destruição para derrubar uma nave klingon. A perda e a dor ficam transparentes. É o espelho do que ela disse a Burnham em “The Vulcan Hello”: “Batalha não é uma simulação. É sangue, e gritos, e funerais.”

Burnham, por sinal, também sente na pele essa lição, ao ver Connor, desnorteado, desaparecer diante dela e ser cuspido para o espaço. Toda a confiança que ela demonstrava na primeira parte, antes do motim, se foi. Prestes a morrer, sozinha, na detenção, ela é o retrato da toalha jogada. Isso até Sarek aparecer e injetar uma dose extra de determinação nela, no que possivelmente é a cena mais controversa do episódio em termos do palavrão preferido dos fãs de Star Trek: cânone.

Vulcanos podem travar contato telepático a distâncias interestelares? É uma pergunta honesta. A resposta honesta é dada pelo comandante Morrow em Jornada nas Estrelas III: À Procura de Spock: “Francamente, eu nunca entendi o misticismo vulcano.”

É complicado mesmo. Já vimos Spock — que é só meio vulcano — sentir a morte de uma tripulação inteira de vulcanos a anos-luz de distância em “The Immunity Syndrome”, o que dá alguma validade à noção de telepatia interestelar. Até porque Sarek diz que sentiu Michael profundamente perturbada. E, vamos combinar, essa história de katra sempre foi um conceito meio coringa. Em sua concepção original, ele é algo como a “alma”, a “essência individual” dos vulcanos. Mas mesmo seu uso em Jornada II é confuso: Spock transfere o katra a McCoy antes de morrer, mas não vira um zumbi acéfalo depois disso: claramente a “alma” de Spock ainda está nele, até sua morte na câmara de mixagem. Isso sugere que o famoso “Remember” pode ser meramente um backup da mente, provavelmente combinado a alguma descarga de energia que liga as duas pessoas envolvidas.

Se esse é o caso, ao dar uma injeção de katra (não confundir com Mr. Catra, pelamor) na menina Michael após o ataque ao Centro de Aprendizagem Vulcana, efetivamente cedendo um pouco de sua energia vital para que ela não morresse (ou ressuscitasse), podemos presumir que (1) isso cria um elo entre os dois, e (2) há uma parte da mente de Sarek nela. Então talvez a conversa tenha sido real (por 1) ou talvez não tenha havido comunicação num sentido convencional (por 2), mas sim um papo entre Burnham e o Sarek que existe dentro da mente de Burnham. Vai saber. Comandante Morrow nunca soube. O que sabemos é que, se há algo que o katra pode fazer, Sarek saberia a respeito. Afinal, ele solicitou a T’Lar, em Jornada III, o Fal-tor-pan, um ritual de refundição do katra que não era realizado havia séculos e já tinha virado lenda.

(Também imagino que por falta de demanda… quanto vulcanos moribundos tiveram seu corpo regenerado e a mente apagada, como Spock? Por outro lado, esse ritual sugere que a transferência do katra pode prejudicar quem por acaso acaba não morrendo. Suponhamos: você é um vulcano e está morrendo. Aí resolve transferir seu katra para o seu melhor amigo, para ele levá-lo ao Monte Seleya para armazenamento eterno. Beleza. Então, numa tentativa final de viver, você para de tomar pílulas de farinha do Lair Ribeiro — altamente ilógico — e resolve tomar uns novos antibióticos romulanos contrabandeados por um capitão de cargueiro que visita frequentemente a Zona Neutra. E aí você se recupera e não vai mais morrer. Ou seja, você vai querer de volta aquela energia vital do katra que você passou ao seu amigo, porque ela lhe faz falta. Solução? Fal-tor-pan, a refundição. É arriscado, como diz T’Lar, mas não mais arriscado que tomar pílulas de farinha do Lair Ribeiro! Se esse for o caso, o fato de Sarek ter salvo a vida de Michael passando um golinho do seu katra para ela pode explicar por que o embaixador é o vulcano com mais problemas de saúde desde que T’Pol pegou síndrome de Pa’nar e depois ficou viciada em trellium-D.)

Independentemente da explicação (repita comigo: é só uma série de TV, é só uma série de TV!), o fato é que a cena entre Sarek e Michael é linda e funciona muito bem em seus próprios termos — papai dando aquele chute na bunda para ela se levantar e voltar para a luta. Lembra o Alfred em Batman Begins: “Por que caímos, senhor? Para que possamos nos levantar de novo.”

E aí Michael e Philippa se encontram novamente — e não é uma reunião feliz. A capitão está aliviada de descobrir que Burnham não morreu, mas ao mesmo tempo segue profundamente magoada. Michael explica suas ações — foi tudo para salvar vocês! –, mas não cola. A quebra de confiança dói demais. Com sua nave desabilitada, Georgiou está pronta para uma morte heróica num ataque suicida aos klingons. Com remorso até o tampo, Burnham quer ir no lugar dela. Poderia virar um campeonato de quem quer morrer mais, mas isto é Star Trek, a franquia que transforma a morte numa chance para a vida (inventei essa agora!). E o que temos a seguir, na verdade, é um momento “Não xadrez, Sr. Spock. Pôquer. Conhece o jogo?”. Georgiou vê a nave-sarcófago recolhendo os cadáveres no espaço e bola um plano para ferir de morte os klingons sem cometer suicídio e aí implementar a sugestão de Michael para capturar T’Kuvma.

Parece que estamos nos encaminhando para um final feliz. O plano vai indo bem, a dupla dinâmica capitão-imediato, apesar das mágoas, está trabalhando em parceria novamente, e o tempo do episódio está acabando. Mas isto não é só Star Trek; isto é Discovery. Ações têm consequências. E o primeiro roteirista escalado por Bryan Fuller para este episódio foi Nicholas Meyer, o cara que teve a ousadia de matar Spock no cinema. Oh-oh.

Temos uma sequência de luta corpo a corpo entre Burnham e Voq, e Georgiou e T’Kuvma, e mais uma vez a restrição da produção é admirável: a luta passa longe daquelas coreografias de filme de super-herói. Parece real. É curta, é violenta, é minimalista, e não acaba bem para a capitão, que é morta por T’Kuvma de forma brutal. Sem últimas palavras, sem discurso… facada no peito, e você já era. A cena é boa.

E aí, o momento apoteótico do episódio chega como um escorregão numa casca de banana. A ideia é: Michael vê sua capitão morrer, fica furiosa e decide, sob violenta emoção, matar T’Kuvma — e com isso acabar com qualquer chance de encerrar a guerra ali, como ela mesma havia apontado. A ideia de fazer Michael subverter seu próprio plano — sua própria lógica — é perfeita.

A execução, hmmm… digamos que você precisa prestar muita atenção para (1) reparar que ela muda a regulagem do feiser de tonteio para matar, e (2) perceber que foi um ato de descontrole emocional, o que só se vê pela cara dela após o tiro. Poderia ter sido melhor. Não que fosse necessário ela gritar “KHAAAAAN!” ao atirar. Mas precisávamos sentir o desespero dela *antes* do tiro fatal no klingon, para que não houvesse dúvida de que ela saiu dos trilhos — de novo — e para que pudéssemos, nós, a audiência, reagir e pensar “não, Michael, não faça isso!”. Do jeito que ficou, pareceu mais uma ação de reflexo que de intenção. Esvaziou o conteúdo dramático do ponto nevrálgico do episódio.

Apesar desses pesares, no fim das contas, descobrimos do que realmente se trata o piloto duplo (que não é bem um piloto) de Discovery: ele se presta a mostrar que Michael Burnham não sabe quem é e está dividida entre dois mundos. Ela tenta combinar suas emoções humanas à lógica vulcana, mas, numa situação de alta pressão e sem a guiagem segura de Sarek ou Georgiou, ela simplesmente buga. O que, por sua vez, é uma releitura interessante do personagem Spock. Ele, como ela, tem enorme dificuldade em integrar suas emoções com a lógica. Mas, como meio vulcano, ele reprime esse conflito, e só o vemos em situação de extrema fragilidade (“The Naked Time”, “This Side of Paradise”, Jornada nas Estrelas: O Filme, e por aí vai). Já Michael é como um nervo exposto. Você encosta e dá choque, porque ela não tem a carapaça vulcana onde se esconder. Ao que tudo indica, a história de Discovery é a história de uma pessoa que, por força das circunstâncias, precisa parar de fugir de si mesma e encarar quem — e o quê — ela é.

A cena final do episódio, a corte marcial de Burnham, expõe isso de maneira muito clara. Ela diz, textualmente, que perdeu todas as referências que tinha. Ela não tem mais nave, não tem mais patente, não tem mais tripulação, não tem mais posto, não tem mais capitão, de modo que ela não pode usar mais essas muletas para definir sua identidade. Quem ela é? A conclusão a que ela chega é assustadora: ela queria protegê-los do inimigo e acabou se tornando o inimigo. Menos, Michael, menos. Reflete, contudo, o estado de resignação da personagem.

Houve quem reclamasse da cena, sombria demais para uma corte-marcial da Frota Estelar. A mim não incomodou, por uma razão muito simples: ela obviamente não representa a realidade do momento. Ninguém vai achar que as cortes-marciais da Frota são assim. A cena é claramente uma expressão do que Michael está sentindo ali. O holofote sobre ela, os arredores escuros, seus julgadores nas sombras… ela está sozinha. Sem referências. Sem arredores. E agora não pode mais fugir de si mesma.

Assim termina a desconstrução da personagem, e entendemos que tudo não passou de um prólogo do que está por vir. A verdadeira jornada de Burnham começa agora, com a reconstrução. Não sei quanto a você, mas eu quero descobrir quem ela é.

Avaliação

Citações

T’Kuvma – Members of the Federation, what you call your most remote borders, I call too close to Klingon territory. You only live now to serve as witnesses of Klingon supremacy, to be my herald. We do not desire to know you. But you will know our great houses, standing as one under Kahless, reborn in me, T’Kuvma.
(Membros da Federação, o que vocês chamam de suas fronteiras mais distantes, eu chamo de perto de mais do território klingon. Vocês apenas vivem agora para servirem de testemunhas da supremacia klingon, para serem meus arautos. Não desejamos conhecer vocês. Mas vocês conhecerão nossas grandes casas, unidas sob Kahless, renascido em mim, T’Kuvma.)

Georgiou – When you first came on board, seven years ago, I worried your Vulcan training might someday trump your humanity. Do you know why Sarek asked me to take you on? I was a human who had seen a life of loss, but still chose hope. What an ego I had… thinking I could pick away the shell the Vulcans had put around you. I was so sure I could do it, even convinced that you were ready for the captain’s chair. To think I knew you so little.
(Quando você veio a bordo pela primeira vez, há sete anos, eu temia que seu treinamento vulcano pudesse algum dia vencer sua humanidade. Você sabe por que Sarek pediu que eu a acolhesse? Eu era uma humana que tinha vivido uma vida de perdas, mas ainda assim escolhido a esperança. Que ego eu tive… pensar que eu poderia arrancar a casca que os vulcanos colocaram sobre você. Eu tinha tanta certeza de que podia fazê-lo, até convencida de que você estava pronta para a cadeira de capitão. Pensar que eu a conhecia tão pouco.)

Burnham – You wanna know how I turned on you? I believed saving you and the crew was more important than Starfleet’s principles. Was it logical? Emotional? I don’t know.
(Você quer saber por que me voltei contra você? Acreditei que salvar você e a tripulação era mais importante do que os princípios da Frota Estelar. Foi lógico? Emocional? Eu não sei.)

Burnham – From my youth on Vulcan, I was raised to believe that service was my purpose. And I carried that conviction to Starfleet. I dreamed of a day when I would command my own vessel, and further the noble objectives of this great institution. That dream is over. The only ship I know in ruins, my crew gone, my captain – my friend – dead. I wanted to protect them from war… from the enemy. And now we are at war… and I am the enemy.
(Desde a minha juventude em vulcano, fui criada para acreditar que servir era meu propósito. E levei essa convicção para a Frota Estelar. Eu sonhei com o dia em que eu comandaria minha própria nave, e expandiria os nobres objetivos desta grande instituição. Esse sonho acabou. A única nave que eu conheci em ruínas, minha tripulação se foi, minha capitão — minha amiga — morta. Eu queria protegê-los da guerra… do inimigo. E agora estamos em guerra… e eu sou o inimigo.)

Trivia

  • De acordo com Aaron Harberts, produtor executivo e co-showrunner de Discovery, “The Vulcan Hello” e “Battle at the Binary Stars” não são propriamente um piloto, mas uma espécie de “prólogo” da série.
  • O episódio mostra diversas naves federadas. Além da Shenzhou, vemos:

– USS Europa, presumivelmente batizada em homenagem à lua de Júpiter;
– USS Clarke, homenagem ao escritor Arthur C. Clarke;
– USS Shran, homenagem ao membro da Guarda Imperial Andoriana visto em Enterprise;
– USS T’Plana Hath, homenagem a uma filósofa matriarca vulcana;
– USS Kerala, provável homenagem a um dos estados da Índia;
– USS Sue,
– USS Rye,
– USS Earhart, homenagem à aviadora Amelia Earhart;
– USS Dana;
– USS Edison, homenagem ao inventor Thomas Edison ou ao veterano Balthazar Edison, veterano das guerras xindi e romulana, conforme visto em Star Trek: Sem Fronteiras.
– USS Yeager, homenagem ao aviador Charles “Chuck” Yeager, que quebrou a barreira do som com o X-1 em 1947.

  • Além da Casa de T’Kuvma, ouvimos menções à Casa de D’Ghor e à Casa de Mókai. O líder da casa D’Ghor, mais de um século depois, aparece em “The House of Quark”, de Deep Space Nine.
  • T’Kuvma menciona o último conflito entre a Federação e o Império Klingon antes deste episódio: a Batalha de Donatu V, que aconteceu 11 anos atrás, em 2245, e foi mencionada no episódio “The Trouble With Tribbles”. Considerando que Georgiou afirma que quase ninguém vê um klingon em cem anos, temos de presumir que este combate terminou sem um contato entre os dois lados.
  • Michael Burnham menciona o Grupo Expedicionário Vulcano, indicando que os vulcanos no século 23 têm sua própria agência de pesquisa espacial, à parte da Frota Estelar.
  • A primeira versão do roteiro do episódio foi escrita por Nicholas Meyer e entregue no final de 2016. A história era basicamente a mesma, delineada originalmente por Bryan Fuller, mas havia diferenças de ambientação, cenas e alguns diálogos, com relação ao episódio final.
  • A versão original de Nick Meyer em muitos pontos se aproxima do roteiro final, assinado por Gretchen J. Berg e Aaron Harberts, mas há algumas diferenças interessantes:

– O primeiro encontro entre Georgiou e Burnham, intermediado por Sarek, se dá em Vulcano. Muito do diálogo nela é igual ao que foi filmado, mas ele explora mais a simpatia da capitão, que faz um sinal de joia para Michael e diz “vamos nos dar muito bem”, deixando a jovem e fria humana intrigada.

– No confronto entre Burnham e Georgiou na ponte, após o motim, a capitão volta a insistir: “A Frota Estelar não atira primeiro.” Burnham retruca: “Se isso é verdade, você não vai atirar em mim.” E então se volta para os consoles para disparar sobre os klingons. E então Georgiou efetivamente dispara contra ela e em seguida deixa o feiser cair no chão, nas palavras de Nick Meyer, “sua arma agora tão pesada quanto seu coração”.

– Quando T’Kuvma menciona as espécies federadas em seu discurso, os “imundos” são os telaritas, não os andorianos, como na versão final.

– Não havia referência ao isolamento de cem anos entre os klingons e a Federação, e a menção à Batalha de Donatu V, referenciada em “The Trouble With Tribbles”, é feita pelo almirante da Frota (então chamado Rainsford, e não Brett Anderson), e não por T’Kuvma.

– No flashback do ataque ao Centro de Aprendizagem Vulcana, Amanda aparece em cena e é ela que exige que Sarek traga Michael de volta. “Traga-a de volta. Eu não me importo com o que seja preciso. Você traga ela de volta.”

– Na batalha, há um destróier klingon chamado Mogh, nome conhecido entre os fãs por ser o do pai de Worf.

– Após a citação a Sun Tzu na ponte da Shenzhou, a capitão Georgiou faz seu papel de líder e inspira um desolado Saru a bolar um plano para atacar T’Kuvma. Ela diz: “Nenhum inimigo vai me dizer que história eu devo contar. Eu tenho a minha própria história. Uma em que a Frota Estelar derruba um fanático xenófobo explodindo sua nave capitânia. Como você faria isso? Como você revidaria, Saru? Como você mostraria a seus compatriotas kelpiens o que significa ser predador em vez de presa?” Saru resiste: “Capitão, nós, por procedimento padrão, nunca revidamos, e eu sou um oficial de ciências…” E Georgiou de pronto o interrompe: “Você é o meu primeiro oficial.”

– O reencontro entre Burnham e Georgiou é mais energético e tenso. Burnham volta a insistir que seu “olá vulcano” era a coisa certa a fazer e teria encerrado o conflito ali. “Era o que devíamos ter feito.” Georgiou então deixa claro para Burnham (e para a audiência) por que ela estava errada. “Não, o que devemos fazer é encontrar um meio de trabalhar com as expectativas culturais deles sem sacrificar as nossas. De outro modo, o preço para chegar às estrelas não vale a pena. Nós fizemos o que tínhamos de fazer. Nós nos mantivemos fieis a nós mesmos e à Frota Estelar. Nós não atiramos primeiro.”

– Nesta versão, Georgiou e Burnham chegam a apreender T’Kuvma na nave-sarcófago, que se mostra desorientado pela incompreensão da Frota Estelar. Ele diz: “Klingons não são violentos. Nós simplesmente temos mais valor pelo que lutar.” As duas estão para levá-lo de volta à Shenzhou quando a coisa degringola: Michael é atacada por Voq (que nesta versão do roteiro se chamava Kol). Na distração, T’Kuvma tem a chance de golpear a capitão de morte. Burnham reage. “Não!” E então sussurra: “Philippa?” E só aí é tomada pela fúria e atira contra T’Kuvma para matá-lo.

– O episódio terminaria com a morte de T’Kuvma e o grito gutural de Voq. Não há a cena da corte-marcial.

Ficha técnica

História de Bryan Fuller
Roteiro de Gretchen J. Berg & Aaron Harberts
Dirigido por Adam Kane
Exibido em 24/09/2017
Produção: 102

Elenco:

Sonequa Martin-Green como Michael Burnham
Doug Jones como Saru
Emily Coutts como Keyla Detmer

Elenco convidado:

Michelle Yeoh como Philippa Georgiou
Sam Vartholomeos como Danby Connor
Maulik Pancholy como Dr. Nambue
James Frain como Sarek
Kenneth Mitchell como Kol
Terry Serpico como Brett Anderson
Mary Chieffo como L’Rell
Chris Obi como T’Kuvma
Chris Violette como Britch Weeton
Romaine Waite como Troy Januzzi
Arista Arhin como a jovem Michael Burnham
Ali Momen como Kamran Gant
Tasia Valenza como voz do computador
Javid Iqbal 
como Voq
Clare McConnell como Dennas
Thamela Mpumlwana como jovem T’Kuvma
Damon Runyan como Ujilli

TB ao Vivo a respeito do episódio:

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