Short Treks 1×01: Runaway

Curta explora a insegurança de Tilly e suas origens familiares

Sinopse

Alguns contêineres de carga chegam à Discovery pouco antes de um intervalo de troca de turno. No interior de um deles, em meio a um hangar vazio, uma criatura com capacidade de invisibilidade se revela, mas sofre um corte na mão, e o sangramento se torna um problema para o invasor.

Enquanto isso, Tilly conversa com sua mãe por holografia subespacial, e temos uma boa noção do tratamento abusivo (embora provavelmente inadvertido) que a jovem alferes, recém-promovida e aceita no Programa de Treinamento de Comando, recebeu em casa. A mãe questiona a decisão de Tilly de abraçar mais este desafio, remetendo a situações do passado em que as ambições da filha estiveram além de suas habilidades e citando a meio-irmã da alferes como alguém mais consciente e sábia.

Frustrada, Tilly vai ao refeitório tomar um café expresso, e então é “assombrada” pela criatura invisível, que usa sua habilidade para interagir remotamente com equipamentos eletrônicos (foi assim que ela abriu o contêiner onde veio a bordo) e fazer o sintetizador de alimentos cuspir furiosamente todo tipo de comida na direção de Tilly.

A alferes vê uma substância estranha no chão e usa o tricorder para identificar que se trata de sangue xaheano (pronuncia-se “zarreano”). O invasor então se revela como uma adolescente de Xahea, planeta que recentemente adquiriu capacidade de dobra e teve seu primeiro contato com a Federação.

Usando o comunicador como tradutor universal, Tilly inicia um diálogo, de início um pouco hostil, com a invasora: Me Hani Ika Hali Ka Po. Ou, para os íntimos, Po. A alferes diz que tem de reportar a presença dela a seus superiores, mas a xaheana implora para que ela não a delate. Nisso, chega um pessoal ao refeitório, totalmente bagunçado. Po usa sua invisibilidade, e resta a Tilly falar algo desconexo sobre um coelho espacial hormonal que escapou do laboratório e causou a bagunça…

Mais tarde, as duas estão nos aposentos de Tilly. Uma consulta ao computador da nave revela que Po é procurada pelas autoridades xaheanas. A adolescente então explica que fugiu. Os xaheanos acreditam que sua espécie nasceu junto com seu planeta, fazendo-os irmãos gêmeos. Po passava muito tempo nas minas de Xahea, ricas em dilítio, e queria criar algo para restituir o que a mineração estava extraindo de seu mundo. Então, inventou um recristalizador de dilítio. Ela teve os pais e o irmão mortos, e está em fuga desde então, revoltada com a ganância que tomou conta de seu planeta após a descoberta da tecnologia de dobra.

Numa conversa que parece beneficiar a ambas, Tilly convence Po de que o melhor modo de ajudar seu planeta é voltando para lá e lutando por ele, em vez de fugir. E então leva a adolescente à sala de transporte, de onde ela iniciará a jornada de volta a Xahea. Po presenteia Tilly com um fragmento de cristal de dilítio de seu planeta e revela que seu irmão era o rei de seu mundo. Com sua morte, caberá a ela assumir o trono como rainha. E então se despede, se desmaterializando na plataforma de transporte…

Comentários

“Runaway” é uma história íntima que fornece detalhes da vida pessoal de Tilly, ajudando-nos a entender de onde vem toda a insegurança e inabilidade social da alferes. Nesse sentido, são 15 minutos valiosos, que mostram em tela o que apenas havia sido dito durante a primeira temporada de Discovery, sobre o comportamento abusivo de sua mãe e o contraste entre as reais capacidades da ambiciosa oficial e a percepção que sua família tem dela.

A história é toda sobre confiar em si mesmo para implementar mudanças, seja na própria vida (caso de Tilly), seja na sociedade em que se está imerso (caso de Po). Os momentos de humor, como seria de se esperar num curta-metragem focado em Tilly, são o ponto alto, com Mary Wiseman mais uma vez demonstrando seu talento para comédia e sua identificação com o papel que interpreta.

Também é interessante a ligeira expansão do universo de Star Trek com a apresentação, em rápida sucessão, dos xaheanos (numa maquiagem que, incrementada com efeitos visuais de pós-produção, remete bastante ao estilo das criações “alienígenas da semana” de Michael Westmore na segunda era televisiva da franquia), de Xahea, sua história, sua cultura e seu atual estágio tecnológico e social. É o tipo de informação que faz a alegria dos trekkers.

As qualidades de “Runaway”, contudo, acabam aí, e os defeitos saltam aos olhos com grande facilidade. É pouco crível que toda a história pudesse se passar sem que Tilly comunicasse nada a seus colegas e oficiais superiores, e mesmo supondo que Po tivesse habilidade suficiente para desligar os sensores internos ou se tornar indetectável para eles, ainda assim haveria alguém ativando o teletransporte sem autorização.

Para a trama parar em pé, é preciso imaginar cenas que simplesmente não estão lá (como Tilly pedindo ajuda a Michael ou mesmo a Saru). Até porque no começo vemos a Discovery no espaço, aparentemente distante de qualquer planeta ou nave. Considerando o alcance do teletransporte, para onde Po foi enviada? De novo, não tenho problemas em supor que há uma nave por perto, ou mesmo um planeta, mas é preciso entrar com a imaginação para completar o que o roteiro não entrega. Não seria um grande problema, se essas conveniências não fossem empilhando ao longo de parcos 15 minutos.

Dramaticamente, a falha maior é que Tilly consegue convencer muito facilmente Po de que ela deve voltar a seu planeta, uma mudança brusca de direção que o diálogo não justifica de forma plena.

Por fim, também parece ser difícil “encaixar” essa história da linha do tempo de Discovery. Quando exatamente se passa “Runaway”? É outra pergunta que fica sem resposta, e a única coisa que dá para dizer é que se passa depois da promoção de Tilly em “Will You Take My Hand?”.

No fim das contas, trata-se de um esforço apenas mais ou menos bem-sucedido de demonstrar as potenciais qualidades de um episódio de curta-metragem, com uma história que lembra, em forma, uma trama B de um segmento clássico de Jornada nas Estrelas. Só não cai totalmente em desgraça porque as atrizes envolvidas (Wiseman como Tilly, Mimi Kuzik como a mãe dela, e Yadira Guevara-Prip como Po) elevam o roteiro tanto quanto possível.

Avaliação

Citações

Tilly – “I will remember to expect nothing… even from this espresso. Espresso – I release you.” (“Eu vou me lembrar de não esperar nada… até desse expresso. Expresso – eu o liberto.”)

Tilly – “There was a hormonal space rabbit. He escaped from the lab and then he got loose in here… He’s got mood swings.” (“Havia um coelho espacial hormonal. Ele escapou do laboratório e ficou à solta aqui… Ele tem humor instável.”)

Trivia

  • “Runaway” é o primeiro curta-metragem oficial de Jornada nas Estrelas.
  • O episódio forneceu o primeiro vislumbre do novo formato de tela (2,39:1) e de novos cenários fixos da segunda temporada de Discovery. O refeitório foi expandido para o segundo ano; na primeira temporada, era um alojamento da tripulação redecorado.
  • Em uma das cenas no quarto de Tilly, a câmera atravessa uma janela para o espaço que na verdade não existe no cenário.

  •  Recristalização de dilítio é um tema quente no cânone de Star Trek. Sabemos que a Federação, no século 23, não detém essa tecnologia, como evidenciado por Spock em Jornada nas Estrelas IV: A Volta Para Casa. Daí o entusiasmo de Tilly quando Po revela que inventou algo assim. No século 24, contudo, o processo virou lugar-comum, e a Enterprise-D recristaliza seu próprio dilítio.

Ficha Técnica

Escrito por Jenny Lumet & Alex Kurtzman
Dirigido por Maja Vrvilo
Exibido em 4/10/2018
Produção: 101

Elenco:

Mary Wiseman como Sylvia Tilly
Yadira Guevara-Prip como Me Hani Ika Hali Ka Po
Mimi Kuzyk como Siobhan

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