Luiz Castanheira analisa “Into the Forest I Go”

Discovery trouxe em sua última semana em 2017 o seu melhor episódio até aqui, com uma execução fantástica em todas as frentes e com uma história que faz a melhor limonada possível e imaginável com os limões plantados ao longo do caminho, avançando grandemente a situação do conflito klingon (e decididamente sem medo de sacudir o seu status quo), fazendo os personagens brilharem individualmente e em conjunto e abrindo ao menos três caminhos de dúvidas legítimas sobre: Voq/Tyler/L’Rell (e a verdadeira linha de tempo dos “três?”, as suas táticas e os seus objetivos), Lorca (e a sua agora obviamente existente agenda própria que aparentemente nada tem a ver com o resto do Quadrante Alfa) e o mistério do último salto da nave (onde eles foram parar? Será que foi na casa do Lorca? Onde ela fica?).

Já não havia dúvida que estávamos frente a um episódio especial quando antes de chegarmos à sequência de abertura já tínhamos Lorca desobedecendo uma ordem direta de Terral (no melhor estilo Kirk!) com a cumplicidade de toda a tripulação. Com confiança e convicção absolutas, seguimos em frente sem olhar para trás.

(Pahvo torna-se meramente objeto do discurso e sua órbita cenário da batalha. Saru começa a interceder pela defesa do planeta com vocalizações e maneirismos específicos remetendo a aventura anterior mas se cala quando nota que a insubordinação de Lorca se alinha com tal defesa.)

Não existem dúvidas que Lorca é (em uma primeira camada) um personagem de inspirações maquiavélicas e que sofre de traumas de guerra análogos aos de Tyler (lembrando que os numerosos anti-heróis pós-revolução televisiva não são, via de regra, maquiavelistas perfeitos, tendo inúmeras falhas e vulnerabilidades, por vezes infames e humilhantes). Uma segunda camada é a de explorador vista em “Context Is For Kings” e aqui. Camada essa complementada por um viés de cientista aqui também. Fica a eterna dúvida da sinceridade em qualquer um desses certames (e além) ou se ele simplesmente manipulou Burnham e Stamets (entre outros), dizendo o que eles precisavam ouvir. Ele conhece a fundo a sua tripulação e sabe como motivá-los (com direito até a um memorável discurso estilo Henrique V). Eis que surge uma terceira camada, de alguém que por sete episódios (que acompanhamos) e crise após crise, compartimentalizou uma agenda própria, estudando os saltos do motor de esporos, querendo aparentemente “voltar para casa”. Neste ponto fica difícil ignorar o óbvio que nove episódios parecem apontar… Será uma camada demais para a maioria dos fãs? Será que essa camada extra é uma boa explicação para as duas outras camadas, frente boa parte do fandom? Será que poderemos perder Lorca ou Isaacs ou ambos? Será que Jornada precisa e vai crescer junto com os seus fãs?

Burnham fez um círculo completo de volta a nave sarcófago, não se amotinando mas convencendo Lorca. Não obedecendo cegamente ordens mas respeitando o espírito da missão, salvando a almirante, lidando com os traumas de Tyler e desafiando Kol para um absurdo duelo, quando a missão já ia para o brejo, tudo com a cuca aparentemente fresca e calculando o risco. O mais incrível é que conseguimos enxergar um pouco da sua nova tripulação em suas atitudes. Enxergamos a evolução da personagem.

E por falar em convicção…

Tentemos resumir agora o nível da direção de Chris Byrne no segmento com uma pequena recapitulação da inesquecível sequência final da destruição da nave sarcófago, talvez o clímax da redenção de Burnham até aqui: o colírio de Lorca, o “Fogo!” de Lorca, seguindo sem palavras, detonações fotônicas, Burnham e Tyler entram na ponte, reação de Detmer, Lorca começa a andar de costas para a tela principal (Bye Bye Sarcófago!) com Detmer olhando com cumplicidade para Owosekun, Lorca troca olhares com Burnham, Tyler deixa a ponte, Burnham e Saru trocam olhares, vemos a insígnia de Georgiou nas mãos de Burnham em ângulo baixo e depois em câmera subjetiva, ela se lembra de Tyler, olha pra trás e não o acha.

E deixamos o melhor para o final…

Stamets emerge como o mais tridimensional personagem de toda a série, com a voz mais segura, com a caracterização mais consistente. Na cena do hangar com Lorca, instantaneamente uma cena clássica para a franquia, Stamets diz que ter navegado pela rede de esporos é algo suficiente para toda uma vida, provavelmente mais do que qualquer humano jamais sequer sonhou. E concorda com apenas mais um salto para deixar todos em segurança e dai ser tratado pelos melhores médicos da federação para sobreviver a sua condição seja ela qual for. E ter tempo livre para viver longe disso tudo. Obviamente essa ópera terá que esperar ou dar lugar a outra, com o que vimos no final do segmento.

(O que Lorca estava pensando? “O que de fato me aguarda na base estelar 46?” “Será a minha última chance de voltar para casa?” “Será que devo ficar aqui?”)

Mais algumas pitadas:

─ Em um comentário que ficou caprichosamente de fora do review da semana passada (já tão negativo, poderiam alguns assim o classificar), falávamos talvez da necessidade de termos um diretor com mais peso entre os produtores-executivos da série Discovery, talvez para servir como uma espécie de supervisor de todos os diretores do programa e além. Nesse tipo de papel já tivemos (entre tantos outros possíveis exemplos): Michael Rymer em Battlestar Galactica, Mimi Leder em The Leftovers e David Slade em Hannibal. Rymer deveria ter recebido crédito de co-criador (junto com Ron Moore) em BSG devido ao seu dedo no estabelecimento da assinatura visual e no modelo de apresentação dramática adotado naquela série. Leder elevou The Leftovers de uma atração promissora ao topo do drama televisivo após a sua entrada. E Slade encantou (e horrorizou) a todos com o programa visualmente imbatível do refinado canibal. Com o afastamento de Fuller de Discovery, Slade acabou não se envolvendo nessa nova jornada. Seria inevitável que ele dirigisse o piloto e além. Perda nossa… Dizemos isso pois julgamos Discovery não tão bem resolvida e interessante visualmente até aqui, como o seu belo orçamento talvez automaticamente garantisse. Ou seria melhor dizer que assim julgávamos? Nesta semana, Chris Byrne, curiosamente um colega de Fuller e Slade e ainda com um pequeno currículo (basicamente segunda unidade), fez o seu dever de casa de maneira primorosa e deu outra vida a série de Burnham e companhia, como em um divisor de águas. Parece inevitável que ele cresça pelos postos da produção de Discovery daqui por diante;

─ Os traumas de Tyler por ter sido continuamente torturado e estuprado por L’Rell vêm à tona brutalmente aqui. Tyler fica inoperante em missão e exibe imensa vulnerabilidade em seus aposentos com Burnham, cortesia de um ótimo Latif. A grande ironia é que a especialista se apoiou na fachada que Tyler projetava para seguir em frente com as suas tragédias pessoais, mas o aceitou quando ela soube da verdade sobre a situação psicológica do chefe de segurança (o que parece germinar em uma espécie de tema global para a série: fachada versus aceitação);

(O estupro cometido por uma mulher sobre um homem ainda é um tema muito menos lugar-comum na televisão do que um beijo entre um casal homoafetivo.)

(É claro que a última pitada deve ser lida à luz de toda a questão Voq/Tyler/L’Rell. Dúvidas abundam, sendo uma das poucas certezas o sofrimento de Burnham.)

(Ter L’Rell na Discovery nessa viagem ao universo do espelho (?) foi surpreendente e promete aumentar a pressão ao máximo.)

(E o que dizer da lágrima solitária de Sonequa Martin-Green?)

─ Lorca referencia o segundo piloto de Jornada nas Estrelas (“Where No Man Has Gone Before”) na sua conversa com Stamets em sua cabine e quando Stamets colapsa, após o último salto da Discovery, seus olhos ficam “brancos” numa aparente referência ao mesmo segmento;

(Essa referência, especificamente ao personagem Gary Mitchell, pode indicar um desenvolvimento perturbador e potencialmente trágico para Stamets. E seria algo incrivelmente orgânico em termos de cânone por falar nisso, dada a situação do tenente.)

─ Fascinante como Stamets comenta que o sistema de alimentação do motor de esporos não foi projetado para suportar a quantidade de esporos necessários aos 133 saltos propostos por Lorca e logo mais, durante o discurso de Lorca, vemos (sem palavras necessárias) Tilly implementando algum tipo de algoritmo de compressão para satisfazer tais condições extremas. BRAVO!

─ Quem será o cadete Decker?

A guerra klingon não terminou e a Discovery não teve tempo de enviar o código anulador de camuflagem para a Frota Estelar. Quem ocupará o lugar de Kol? A nave se encontra no universo do espelho (?). Como sobreviver a tal lugar? Como voltar para casa? O que acontecerá com Stamets? Como desenvolver Burnham além do seu arco (inicial) de redenção aparentemente findado? Como desenvolver a terceira camada de Lorca de forma intrigante e sem alienar completamente a sua audiência? Qual é a real importância de Burnham para Lorca? Como trazer a inescapável reviravolta e extrair o derradeiro pathos de toda a situação de Voq/Tyler/L’Rell? Tudo isso (e esperamos muito mais) a partir de janeiro. Por hora, saboreemos mais uma vez esse novo clássico de Jornada nas Estrelas.

Star Trek Discovery

EP 01X09 “Into The Forest I Go”

Grau: A (4/4)

 

29 Comments on "Luiz Castanheira analisa “Into the Forest I Go”"

  1. “E o que dizer da lágrima solitária de Sonequa Martin-Green?”

    Nada. Só aplaudir.

  2. Tive o mesmo sentimento que você ao assistir à abertura antes dos créditos. Opa, o que é isso aqui, pensei me aprumando no sofá. A certeza de de estar diante de algo especial foi tanta que quase postei um comentário no TB já elogiando o episódio antes de vê-lo inteiro, mas me segurei.

  3. Caraca, vi o episódio 4 vezes sem preceber o motivo do seu BRAVO! Vou ter que ver a quinta vez.

  4. Eu tenho certa dúvida se este Lorca explorador de fato exista, ou seja mais munição para construir o caminho para a vitória. Veja que quando Stamets citou “não sabia que você se importava”, Lorca respondeu com “precisamos vencer esta guerra”.

  5. Tenho um certo receio de que a citada terceira camada de Lorca seja desnecessária e possa atrapalhar um personagem tão interessante e já tão querido. Mas, considerando que ele seja um capitão espelho, e se o capitão de nosso lado já não exista, tendo este Lorca como única opção, será uma experiência interessante termos um personagem transitando entre dois mundos e quem sabe até utilizando isso como recurso para seus propósitos seja lá quais forem estes.

  6. Os Klingons estiveram ótimos neste episódio. Qapla’

  7. Você sugere que Chris Byrne, depois deste excepcional trabalho, irá crescer na produção e poderá servir como uma espécie de supervisor de direção dando o tom da série daqui por diante. Amém.

  8. Mauricio Silva de Moura | 19 de novembro de 2017 at 2:32 am |

    Os olhos de Stamets lembraram os dos 2 últimos da serie continues….

  9. O cadete Decker é Easter Egg!

  10. David Gaertner Curitiba | 19 de novembro de 2017 at 5:37 pm |

    Idem

  11. Luiz Castanheira | 19 de novembro de 2017 at 9:40 pm |

    É a mesma referência… Gary Mitchell..

  12. Luiz Castanheira | 19 de novembro de 2017 at 9:45 pm |

    Pode ser… Ou pode ser só gozação (risos)..

  13. Luiz Castanheira | 19 de novembro de 2017 at 9:46 pm |

    Pescou não… Capacidade 2000%

  14. Luiz Castanheira | 19 de novembro de 2017 at 9:49 pm |

    É um risco tremendo… Mas vamos ver…

  15. Ainda não entendo um homem pode ser estuprado por uma mulher klingon! Se não há desejo como satisfazer a agressora e seus impulsos sexuais doentios? Só se a vítima tem desejos sexuais reprimidos, se esses desejos são do Voq! Será que a L’Rell tem um comando subliminar algo que possa ligar e desligar o Voq? Hum….

  16. Excelente critica Luis Castanheira, esse episódio para mim rivaliza com o episódio “Escolha a Sua Dor”. É que Discovery me ganhou completamente com aquele episódio. Não canso de revê-lo até hoje. Mas esse último não fica atrás. 🙂

  17. Luiz Castanheira | 20 de novembro de 2017 at 7:16 pm |

    Dá uma pesquisada no tema… É meio bizarro mesmo mas é um fato.

  18. Luiz Castanheira | 20 de novembro de 2017 at 7:18 pm |

    Vou rever todos no seu devido tempo mas não vejo como esse pode deixar de ser o maior vencedor dentre os 9 primeiros…

  19. Luiz Castanheira | 20 de novembro de 2017 at 7:20 pm |

    Ele vai crescer na produção da série creio eu…

  20. João Luiz Silva Cruz | 21 de novembro de 2017 at 12:53 am |

    Pior que existe mesmo, obviamente não tão frequente (infelizmente) quanto praticados sobre as mulheres, mas existe. No primeiro momento quando você comentou no TB ao vivo e pensei que fosse algo sem importância, mas não eu estava errado. Parabéns por ser o único (pelo que vi das resenhas até agora), a tocar sobre assunto.

  21. Aqui Luiz Castanheira, entendi não tem a necessidade da conjunção carnal propriamente, só constranger o outro, independentemente do sexo da vítima a ato libidinoso já é considerado estupro para a nossa legislação vigente, pelo menos desde 2009.

    Encontrei essa notícia aonde uma vítima do sexo masculino foi estuprada por uma mulher!

    http://g1.globo.com/sp/santos-regiao/noticia/2016/11/policia-procura-mulher-que-estuprou-homem-em-sp-apos-terminar-com-ex.html

    “Antes de 2009, o termo estupro era utilizado apenas para crimes de violação sexual envolvendo mulheres. A Lei Ordinária Federal n. 12.015, de 7 de Agosto de 2009, fez com que o crime de estupro se transformasse no ato de constranger alguém, independente do sexo, mediante violência ou grave ameaça, a ter conjução carnal ou a praticar ou permitir que com ele se pratique outro ato libidinoso.”

  22. Esse aqui coitado aqui foi estuprado por três mulheres!!! “Um homem na África do Sul disse que ficou traumatizado depois de ser capturado e estuprado por três mulheres durante três dias.”

    https://extra.globo.com/noticias/mundo/homem-se-diz-traumatizado-depois-de-ser-estuprado-por-tres-mulheres-na-africa-do-sul-rv1-1-21406996.html

  23. Esse aqui foi vítima de quatro mulheres! (sério, eu tô tentando não rir!!!)

    http://br.blastingnews.com/mundo/2017/02/homem-e-raptado-drogado-e-estuprado-por-4-mulheres-001491277.html

  24. De fato, o Castanheira foi o único que se ateve a esse tema importante.

  25. Nossa, o Brasil tem de tudo… bom, tinha! Não temos relato de uma gangue de mulheres sequestradoras/colhedoras de esperma por aqui! Que destino horrível! kkkkk

  26. Luiz Castanheira | 21 de novembro de 2017 at 6:20 pm |

    É certo que eu iria falar de qualquer jeito mas uma das roteiristas (a Boe) fala sobre isso no After Trek…

  27. Ricardo Pinheiro | 23 de novembro de 2017 at 7:39 pm |

    Pra uma sociedade como a nossa (sejamos francos, somos uma sociedade machista), estupro de um homem por uma (ou várias) mulher(es) é bem estranho. Mas pelo visto não é incomum.

    E tivemos mamilos! Que são muito polêmicos.

  28. Para uma sociedade machista, um homem jamais poderia ser vítima de uma violência sexual praticada por uma mulher e isso, é uma quebra de paradigma, pois admitir tal violência é fragilizar a imagem do homem perante a mulher, segundo os machistas de plantão.

    Uma coisa é certa, os valores machistas estão em franco declíneo, pelo menos no mundo ocidental. Eu penso que DIS incorpora esse movimento muito bem.

    A série tem mulheres fortes como protagonistas (empodeiradas assim por dizer), o Tyler foi vítima de um estupro cujo “o algoz” era uma mulher, a série apresentou uma casal homoafetivo e fez isso de forma tão natural que o beijo gay nem repercutiu de forma polêmica (tirando alguns poucos idiotas que sempre reclamam).

    A igualdade de gênero, os direitos civis dos homossexuais e transsexuais, as questões de identidade de gênero, ao poucos estão destruindo os pilares da cultura machista, e DIS felizmente é parte disso! (OK, ainda não abordou a questão da identidade de gênero que envolve transsexualidade, mas isso pode ainda ser abordado).

    PS: não achei os mamilos polêmicos. kkkkkkkkkkkkk

  29. Indutores de ereção

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