Episódios de hoje…
“Cause and Effect” (“Causa e Efeito”; TNG 5×18, 1992)
Onde assistir: PlutoTV*
“Magic to Make the Sanest Man Go Mad” (“Magia para Fazer o Homem Mais São Ficar Louco”; DIS 1×7; 2017)
Onde assistir: Paramount+
“Timescape” (“Tempo, Tempo, Tempo”; TNG 6×25, 1993)
Onde assistir: PlutoTV*
“Shattered” (“Quebra-Cabeça”; VOY 7×11, 2001)
Onde assistir: PlutoTV*
*Somente dublado
Há momentos em que a gente sente como se vivesse o mesmo dia de novo e de novo, como se nada mudasse a não ser por pequenos detalhes na nossa rotina. Já em outros aspectos, o tempo parece se mover rápido demais: as crianças, por exemplo, crescem num piscar de olhos. Em Star Trek também mas, para os oficiais da Frota Estelar, os fenômenos se apresentam de forma bem mais aguda: eles ficam presos em loops intermináveis ou se veem pisando entre bolsões temporais onde os minutos passam em ritmo alucinado ou tão devagar que parece que o universo está em pausa.
Um dos episódios mais divertidos nessa linha é “Cause and Effect” (“Causa e Efeito”; TNG 5×18, 1992), executado de uma forma que chega a causar estranheza ao telespectador no primeiro contato com a história, com a repetição dos acontecimentos a cada reinício do loop.
A nave do capitão Picard detecta uma anomalia temporal. Ao tentar se afastar dela, percebe-se que outra nave está saindo do fenômeno em rota de colisão. Picard pede opções para evitar a batida: Riker sugere descomprimir o hangar das naves auxiliares e Data dá a ideia de usar um raio trator. A ideia de Data é a escolhida pelo capitão, mas não dá certo e a nave explode. Só que a cena seguinte volta ao começo daquele dia, e todas as ações dos tripulantes passam a se repetir, desde o jogo de pôquer dos oficiais, até a dra. Crusher ouvir barulho de vozes em seu quarto, a reunião de equipe e a súbita detecção da anomalia. A nave torna a explodir e tudo se repete de novo mas, a cada iteração, os tripulantes parecem estar percebendo cada vez mais que estão vivendo um fenômeno estranho. A sensação de déjà vu se intensifica a ponto de a dra. Crusher adivinhar as cartas que seus colegas vão apresentar no pôquer.
Quando a equipe debate com o capitão sobre o que fazer, é interessante ver a posição dele sobre isso: enquanto Worf já pensa no que fazer de diferente para evitar repetir o mesmo destino, sugerindo que mudassem de trajetória imediatamente, Picard prefere se manter firme no caminho atual. Se eles ficarem duvidando das próprias decisões, vai ser mais difícil ainda sair de qualquer encruzilhada.
A situação da Enterprise lembra muito o filme “Feitiço do Tempo”, mas não se baseou nele: o longa foi lançado em 1993 e o episódio veio um ano antes disso. Na história, um repórter muito mal-humorado acaba preso no “dia da marmota”, um feriado local no qual um roedor da cidade de Punxsutawney deve ver ou não sua própria sombra para prever se o inverno ainda se prolongará. Phil, o protagonista, só sai do loop temporal depois de anos vivendo o mesmo dia, ao finalmente conquistar o amor de sua vida.
A solução para quebrar o ciclo da Enterprise é bem menos romântica e vai vir justamente do fato de os tripulantes entenderem que, se é possível reter alguma memória de um ciclo para outro, talvez fosse prudente esconder uma mensagem de uma repetição para a próxima para que eles ajudassem a si mesmos a sair dessa situação. O problema é: o que dizer?
Data mata a charada e sinaliza a si mesmo que a solução de Riker para evitar a colisão é a correta (ou ao menos não havia sido tentada ainda), enviando uma mensagem com o número três para seu “eu” do próximo ciclo de repetição, porque o comandante tem três “pips” em sua insígnia de posto. Enfim, eles evitam a explosão e conseguem fazer contato com a nave que havia saído da anomalia, oriunda de 90 anos no passado.
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A equipe da nave Discovery também fica presa num loop em “Magic to Make the Sanest Man Go Mad” (“Magia para Fazer o Homem Mais São Ficar Louco”; DIS 1×7; 2017). Aqui, a anomalia se repete em ciclos de apenas 30 minutos e não se trata de um fenômeno acidental: é controlada pelo criminoso Harry Mudd. O personagem, originalmente criado na Série Clássica, é bem mais perigoso nessa nova encarnação.
A especialista Michael Burnham começa o loop em uma festa e rapidamente é chamada à ponte porque a nave havia encontrado um enorme animal ameaçado de extinção, um gormagander. A baleia espacial exibia sinais de sofrimento e, ao ser transportada para o hangar, revela conter Harry Mudd, que sai atirando e tenta tomar a nave. Mudd havia saído de uma prisão klingon com o objetivo de roubar a Discovery e entregá-la para seus antigos carcereiros, dando a eles uma vantagem considerável na guerra contra a Federação.
Mudd já sabe que o que torna essa nave especial é seu sistema de propulsão, mas ele não conhece o segredo para ativá-lo. Por isso ele repete aquele período de tempo até se inteirar de tudo sobre a Discovery. Naquela época, o motor a esporos era ligado diretamente ao corpo do cientista Paul Stamets, que havia se injetado com DNA de um tardígrado. Esses animais invertebrados existem na vida real, mas em Discovery eles conseguem estabelecer uma ligação com uma rede micelial (de fungos) que interconecta o espaço, permitindo as viagens instantâneas à nave. Não é à toa que Mudd não sabe de nada disso: quem iria imaginar algo tão complicado?
O criminoso, no entanto, não contava com o fato de que essa hibridização feita em Stamets lhe daria a capacidade de se lembrar de tudo o que acontecia de um ciclo para o próximo. O próprio Mudd também era imune aos efeitos do loop por meio de um bracelete usado por ele para controlar um cristal temporal. O restante da tripulação tinha sua memória totalmente reiniciada a cada 30 minutos, cabendo a Stamets a tarefa de convencê-los, a cada repetição, do que estava se passando ali. Aos poucos, o cientista vai entendendo como conquistar a confiança de Burnham e, por meio dela, recruta a ajuda de Ash Tyler, o chefe de segurança e, enfim, o capitão Lorca.
O laboratório particular do capitão, aliás, fornece a Mudd uma arma que causa a morte de uma forma impressionante e dolorosa, levantando muitas perguntas sobre por que Lorca teria semelhante artefato guardado consigo. Ao longo do primeiro ano de Discovery, ainda iríamos descobrir muito mais esqueletos no armário de Lorca. Na penúltima iteração do loop, Burnham é obrigada a se matar ingerindo uma dessas bolinhas de gude com matéria escura, se desintegrando diante de Mudd para forçá-lo a reiniciar o loop uma última vez.
A tripulação, enfim, consegue reprogramar a nave para que o criminoso, em vez de chamar os klingons, chamasse seu sogro. Mudd havia fugido do casamento levando todo o dinheiro do dote e termina sem opção a não ser se reconciliar com a noiva, o que acaba sendo um final até leve demais para ele, depois de ter cometido tantas atrocidades, como assassinar o capitão Lorca em praticamente todas as mais de 50 repetições de seu loop temporal, agora finalmente acabado.

Paul Stamets tenta convencer Burnham a ajudá-lo contra Harry Mudd em “Magic to Make the Sanest Man Go Mad”.
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De volta em A Nova Geração, a equipe de Picard precisa lidar com uma bizarrice temporal um pouco diferente em “Timescape” (“Tempo, Tempo, Tempo”; TNG 6×25, 1993). Ao voltar de um congresso numa nave auxiliar, Picard, a conselheira Troi, o comandante Data e o engenheiro-chefe LaForge conversam em torno de uma mesa quando subitamente todos menos a conselheira aparentam estar congelados por alguns segundos. Eles mesmos não percebem isso, só Troi. Logo depois ela é que fica congelada no tempo. Ao tentar navegar de volta para a Enterprise, outras anomalias temporais continuam a atingir a nave auxiliar, fazendo um prato de frutas apodrecer em minutos e uma das mãos do capitão Picard envelhecer violentamente.

A conselheira Troi examina a mão do capitão Picard, que havia envelhecido em poucos segundos, em “Timescape”.
LaForge e Data então percebem que existem bolhas de anomalia temporal cercando a nave e em cada uma o tempo passa em um ritmo diferente. Ao finalmente encontrar a Enterprise, eles veem o que aparenta ser uma cena de batalha congelada contra uma nave romulana, que parece estar atirando. Um raio também está saindo da Enterprise em direção à ave-de-guerra.
Eles decidem se transportar para a Enterprise usando um aparelho no braço para se isolarem da perturbação temporal e encontram uma situação preocupante na ponte de comando: os romulanos estão por todo lado, como se tivessem invadido a nave. Mas, ao investigar a situação na seção de Engenharia e depois na nave romulana, começa a ficar claro que a Enterprise estava tentando transferir energia para os inimigos e algo deu errado, causando falhas nas duas naves. O motor de dobra da Enterprise está explodindo, mas o tempo passa tão devagar dentro da anomalia, que levaria mais de 9 horas para que a nave fosse consumida.
Ao menos isso dá tempo para que os únicos membros da tripulação não congelados no tempo resolvessem a questão, que no fim não era culpa de nenhuma das duas naves: uma forma de vida estranha estava usando a singularidade quântica do motor romulano como “ninho”, causando a bagunça no tempo. Ao emitir ondas do tricorder para ler o fenômeno no motor, Data consegue fazer o tempo ir para frente e, depois, para trás, permitindo retirar todos os tripulantes da ave-de-guerra e evitar que o motor de dobra da Enterprise explodisse. A solução criativa para o caso mostra que a compreensão da causa do problema foi fundamental para achar a melhor saída. Se eles tivessem se guiado somente pela aparência de um ataque romulano, as duas naves teriam ido para as cucuias.
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O tempo também sofre uma fragmentação complexa em “Shattered” (“Quebra-Cabeça”; VOY 7×11, 2001). O episódio faz parte da última temporada de Voyager e é uma espécie de homenagem aos eventos que transcorreram ao longo dos sete anos do seriado. De forma similar ao que ocorreu em A Nova Geração, a nave se divide em diferentes regiões temporais mas, no caso da Voyager, cada seção se encontra em um momento histórico diferente.
O comandante Chakotay serve como elo entre os diferentes tempos e é obrigado a transitar entre o seu presente, o ponto em que a Voyager nem havia sido jogada no quadrante delta ainda, um período em que os kazons haviam invadido a nave e até um futuro no qual ele e a capitão Janeway já estariam mortos e os jovens Icheb e Naomi Wildman estavam crescidos e atuando como oficiais.
As diferenças entre o estado do relacionamento de Chakotay com a tripulação marcam essas mudanças de período. No passado mais distante, Janeway se surpreende com a presença dele na nave, porque, afinal, ela estava justamente numa missão para capturá-lo e seu grupo de rebeldes Maquis. No futuro, ele precisa interagir com os jovens oficiais que, na cabeça dele, são crianças. E ainda tem no meio do caminho uma personagem que foi uma grande pedra no sapato de todos: Seska, que traiu a Voyager para se aliar aos kazons, aliens briguentos do quadrante delta dotados de penteados esculturais.
Outro obstáculo é uma diferença de objetivos entre Chakotay e a Janeway do passado. Depois do choque inicial de ver Chakotay em sua nave, essa versão de Janeway aceita se aliar a ele para solucionar o problema temporal. Porém, ao percorrer a nave com o comandante, ela vai se inteirando sobre todas as maluquices que enfrentaria junto com sua tripulação no quadrante delta nos anos seguintes: macrovírus, borgs, aliens que dominam o sono, kazon e, claro, o fato de que ficariam presos do outro lado da galáxia. Janeway começa então a querer evitar o acidente que joga a Voyager no quadrante delta, para poupar sua equipe de tanto sofrimento. O comandante pondera que, apesar de todos os percalços, a tripulação da Voyager conseguiu unir Maquis e oficiais da Frota Estelar, resgatou Sete de Nove e devolveu sua humanidade, reabilitou Tom Paris, ajudou diversas espécies e ainda viu nascer a menina Naomi. A única coisa que não aconteceu foi a promoção do alferes Kim, mas nada é perfeito.
Com essa explanação, a capitão se convence e ajuda o comandante a executar o plano, que envolve injetar as bolsas do gel biológico que interliga os circuitos da nave com uma cura milagrosa de partículas temporais desenvolvida pelo Doutor, devolvendo Chakotay para o seu presente e remendando as quebras temporais ao longo de toda a nave. Antes de terminar o serviço, Janeway indaga a Chakotay: já que eles parecem ter se tornado tão amigos ao longo dos anos, quão próximos eles acabariam ficando no futuro? Parece que a capitão estava pronta para abraçar a causa dos defensores do “JC” (relacionamento entre Janeway e Chakotay). Mas Chakotay, muito comportado, esclarece que certos limites nunca seriam ultrapassados.
Escrita pela jornalista Débora Mismetti, Grandes Jornadas é uma coluna semanal publicada às sextas-feiras no Trek Brasilis, destacando tematicamente segmentos de Star Trek e convidando a uma revisita desses episódios por um ponto de vista diferente.
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