DSC 1×05: Choose Your Pain

Dinâmico e profundo ao mesmo tempo, episódio explora a ‘dor’ da tripulação da Discovery

Sinopse

O sofrimento aparente do tardígrado está literalmente dando pesadelos a Michael Burnham. Ela acorda no meio da noite depois de sonhar que está na Discovery, vazia, e ao mesmo tempo está operando o motor de esporos e dentro do cubo de reação, no lugar do tardígrado. Quando o motor é acionado, ela grita de dor… e acorda.

Burnham então decide procurar o doutor Hugh Culber e dividir com ele o problema, pedindo que ele investigue com ela se o animal está mesmo sofrendo, como parece ser o caso.

Enquanto isso, longe dali, na Base Estelar 28, uma estação espacial da Federação, o capitão Lorca se apresenta diante do almirantado e enumera os resultados recentes obtidos pela Discovery: nas últimas três semanas, o motor de esporos permitiu impedir a destruição das minas de dilítio em Corvan II, cortou o recebimento de suprimentos klingons em Benzar e espantou um ataque no sistema Ophiucus.

A almirante Cornwell não está particularmente animada — ela indica que a prioridade tem de ser a replicação do motor de esporos para outras naves e que informações de inteligência dão conta de que o segredo da Discovery já foi descoberto pelos klingons. Em razão disso, Lorca tem ordens de não usar o motor de esporos e priorizar a busca por tardígrados capazes de dar suporte a mais naves equipadas com a tecnologia. O capitão, claro, não fica nada feliz.

Mais tarde, de forma privada, a almirante Cornwell pressiona Lorca ainda mais, criticando sua iniciativa de recrutar a única amotinada condenada pela Frota Estelar, Michael Burnham, para sua tripulação. Mas o capitão é irredutível: “Minha nave, meu jeito.”

Em seguida, ele parte, via nave auxiliar, para se reencontrar com a Discovery. No meio do caminho, um cruzador de batalha klingon D7 aparece e imobiliza o veículo com um raio trator. O piloto é morto, e Lorca, capturado.

Na Discovery, Saru — agora no comando temporário — recebe da almirante a informação da abdução de seu capitão, acompanhada por ordens de resgatá-lo a qualquer custo, o mais depressa possível, antes que os klingons possam arrancar dele segredos estratégicos da Federação. Saru inicia um plano de busca e avisa à engenharia que pretende fazer múltiplos saltos com o motor de esporos.

Burnham, naturalmente, se opõe, argumentando que o tardígrado está sendo ferido no processo. Saru diz que não há evidências concretas disso e que, na falta delas, ele deve priorizar o resgate do capitão e a proteção de 134 almas a bordo da Discovery.

Apesar disso, por dentro, Saru está inseguro. No gabinete do capitão, ele inicia um protocolo para que o computador da nave contraste suas ações como comandante interino com a dos capitães mais condecorados da história da Frota, com um algoritmo que avalie seu próprio desempenho.

Na nave prisão klingon, Lorca descobre que não está sozinho em sua cela: há também um certo Harcourt Fenton Mudd, um civil da Federação, e um oficial da Frota Estelar muito abatido. Um guarda então entra, para na frente de Mudd e comanda, em inglês: “Escolha… sua… dor!”

Mudd aponta para o oficial da Frota Estelar, que apanha violentamente e depois é arrastado para fora, provavelmente morto. Ele então explica a Lorca que essa é a estratégia dos klingons para impedir que os prisioneiros se tornem parceiros — vira e mexe um deles precisa escolher qual colega de cela deve apanhar.

Em mais algumas horas, Lorca descobre que há mais alguém com eles — um oficial da Frota chamado Ash Tyler, que diz ter servido com o capitão Steven Maranville, da USS Yeager, uma das naves da Federação que participaram da Batalha das Estrelas Binárias. Lorca fica meio desconfiado dessa história, uma vez que seria incomum um oficial sobreviver por sete meses como prisioneiro klingon. Tyler diz que só foi possível porque a capitão klingon parece ter “se apegado” a ele.

Durante a conversa, Lorca conta que sua nave poderia resgatá-los, mesmo em território klingon, e um pequeno mascote de Mudd (um inseto ou artrópode de algum tipo chamado Stuart) rouba um pedaço de comida que Tyler havia oferecido ao capitão. Claramente é “cada um por si” na prisão klingon.

Na Discovery, Culber e Burnham determinam de forma conclusiva que o tardígrado está sendo prejudicado pelo uso no motor de esporos e apresentam o caso a Stamets, para que possam juntos encontrar uma solução. Uma revisão do funcionamento da tecnologia sugere que, para substituir o tardígrado, seria preciso alguma outra criatura consciente que tivesse a genética apropriada — dentre os requisitos, havia o de ter algum grau de parentesco evolutivo com os esporos. A única espécie conhecida na base de dados da Federação com todas as exigências é o Homo sapiens — o ser humano. Uma injeção de manipulação genética é preparada, mas apenas como último recurso — afinal, engenharia de DNA desse tipo está proibida desde as Guerras Eugênicas, no fim do século 20.

Saru é o primeiro a recordar isso e ordenar que o tardígrado continue a ser usado, até que o capitão Lorca seja resgatado.

Enquanto isso, na nave klingon, o comandante da Discovery está em maus lençóis: ele é levado para um interrogatório/tortura com a capitão, ninguém menos que L’Rell. Lorca repara que ela se refere à Discovery do mesmo modo que ele, o que o faz suspeitar que o mascote de Mudd fez mais que roubar alimento — ele estava servindo de escuta para os klingons.

De volta à cela, Lorca passa por mais uma sessão de “Escolha sua dor”. Ele está pronto para apontar para Mudd, quando é surpreendido por Tyler, que pede para ser escolhido. O klingon parte para bater nele, mas desta vez ele reage, nocauteando o guarda. Então ele e Lorca fogem da cela, deixando Mudd para trás — que promete vingança ao capitão.

Depois de enfrentar alguns soldados inimigos usando disruptores que tomaram dos guardas derrubados, os dois oficiais da Frota Estelar conseguem chegar a uma pequena nave incursora klingon, com a qual vão executar sua fuga. L’Rell enfrenta Tyler num combate corpo a corpo e um tiro de disruptor a atinge de raspão, queimando sua face.

Na Discovery, as buscas localizaram a nave que provavelmente está retendo Lorca, e Saru ordena o salto. O tardígrado não aguenta o tranco e entra num estado de “criptobiose”, inerte. O capitão interino não quer nem saber e ordena que o doutor Culber reidrate a criatura e a recoloque no cubo de reação. O médico se recusa, e a ordem recai sobre Stamets, que relutantemente concorda. Eles precisarão de um salto para escapar do espaço klingon após o resgate.

Na ponte, Saru nota que cinco incursoras klingons estão voando na direção da Discovery. Contudo, o padrão de voo indica que a primeira está em fuga, enquanto as outras quatro parecem estar em perseguição. A observação perspicaz permite deduzir que o capitão Lorca está no comando da primeira. Ele e Tyler então são transportados a bordo da nave estelar, e em seguida Saru dá a ordem para o salto.

A Discovery desaparece no subespaço e retorna ao território da Federação. Mas da engenharia só se ouve silêncio. Stamets está caído dentro do cubo de reação — ele se injetou os genes do tardígrado e usou a si mesmo como parte do motor de esporos. Em princípio, temiam que ele tivesse morrido. Mas ele então desperta e, diante do sucesso, apenas dá uma gargalhada.

Antes de devolver o comando a Lorca, Saru ainda tem uma última ação a fazer — pedir a Burnham que salve a vida do tardígrado. Os dois têm uma conversa sincera, em que o primeiro oficial reconhece que não a vê como uma ameaça, mas tem mágoa dela por ter tirado dele a oportunidade de aprender com a capitão Georgiou como ela o fez por sete anos. Burnham então decide dar a ele o telescópio que Philippa havia deixado para ela.

Tilly e Burnham reanimam o tardígrado com esporos e o libertam para o espaço, onde ele rapidamente sai de seu estado criptobiótico e viaja para o subespaço.

Quanto a Stamets, ele parece estar recuperado da arriscada operação a que se submeteu, pelo menos com base na avaliação de seu marido, o doutor Culber. Os dois comentam os eventos do dia enquanto escovam os dentes, mas quando os dois saem do banheiro para o quarto, o reflexo de Stamets no espelho fica para trás, indicando efeitos colaterais imprevistos da alteração genética a que se submeteu…

Comentários

“Choose Your Pain” é o episódio mais “redondo” de Discovery até agora. Mantém o nível de excelência narrativa que tem sido mais ou menos constante na série e consegue criar um segmento com começo, meio e fim, produzindo arcos para vários dos personagens, além de enfatizar que os diálogos preponderam sobre o espetáculo visual. Em muitos momentos, por sinal, apesar do dinamismo, ele lembra mais uma peça de teatro, ao enfatizar os atores em detrimento da ação.

Duas tramas paralelas sustentam o episódio, e é curioso notar como elas são respostas diretas a duas supostas “falhas” de “The Butcher’s Knife Cares Not for the Lamb’s Cry” — uma é o dilema do uso ético do tardígrado e outra é o porquê da rápida missão a Corvan II, que termina sem que a Discovery sequer preste assistência imediata aos mineiros. Temos as duas respostas aqui: a bordo da nave, Burnham move a trama do tardígrado adiante, enquanto Lorca, em reunião com almirantes da Frota Estelar, expõe a necessidade de segredo para as operações da Discovery — algo que, ao que parece, a despeito de todos os esforços, já teria sido descoberto pelos klingons, segundo a almirante Cornwell.

Dito e feito, Lorca é sequestrado enquanto está em trânsito entre a Base Estelar 28 e a Discovery, e o objetivo dos klingons parece ser descobrir o segredo da Discovery. Ou seria outra coisa?

Essa trama a bordo da nave klingon permite que travemos contato com dois personagens esperados — o bom e velho Harry Mudd, revivido por Rainn Wilson, e o jovem (e talvez não tão bom) tenente Ash Tyler, interpretado por Shazad Latif. Seria ele Voq, cirurgicamente alterado para parecer humano?

Há razões extra-universo ficcional para acreditar que Tyler não é quem diz ser, e a principal delas é o fato de que o ator que supostamente interpreta Voq é creditado como Javid Iqbal — um nome que até tem um perfil próprio no site de cinema IMDb, mas com esse único crédito na carreira e sem fotos de si mesmo sem a maquiagem de Voq. Por outro lado, e veja que coincidência, Shazad Latif é um nome artístico; o nome de nascimento do ator de Tyler é Shazad Khaliq Iqbal. Quer mais? Ele originalmente foi apresentado, em dezembro de 2016, como o ator que viveria um protegido de T’Kuvma chamado Kol. Depois, anunciaram que, numa troca de papéis, Kol seria vivido por Kenneth Mitchell, e Latif viveria o humano Ash Tyler. Só que Voq, nas primeiras versões do roteiro do piloto, se chamava Kol. Fecha-se o círculo. Shazad Latif é Voq e Tyler. Sou capaz de cortar meu braço direito (sou canhoto, então não se preocupe tanto!) se o ator não estiver por trás da máscara do albino klingon.

Agora, mesmo sem saber de tudo isso, só com base na história, dá para perceber que a conversinha que Tyler passa em Lorca na prisão klingon não cola. Ele diz estar lá há sete meses, desde a Batalha das Estrelas Binárias, e só ter sobrevivido pelo fato de que a capitão klingon “adquiriu uma certa apreciação” por ele. Poderia até ser, se não fosse esta capitão a notória L’Rell, que passou seis desses sete meses morrendo de fome na nave-sarcófago ao lado de Voq. Ou seja, a história de Tyler é mentirosa.

O fato de as inconsistências estarem aparentes, tanto nos roteiros como nos bastidores, nos leva a crer que nunca houve o plano de tornar a natureza de Tyler um grande segredo. Pelo contrário, essa parece ter sido uma ideia gestada meio de improviso, depois que a escalação de Latif para viver um klingon já havia sido publicamente anunciada. E foi boa enquanto durou, nos levando até o momento em que Voq, nas palavras de L’Rell, seria obrigado a sacrificar “tudo”. (Em retrospecto, é incrível que tenhamos passado quatro episódios sem nos perguntarmos quem era Javid Iqbal, ator que, apesar de viver um personagem proeminente na série, jamais participou de ações de publicidade ou teve sequer uma foto divulgada. Um ato de ilusionismo muito bem executado pela CBS.)

A questão que se coloca agora é: Ash Tyler sabe que é Voq? Se sim, ele vai dar na vista? Se não, quando descobriremos? Tem alguma coisa aí nessa história que ainda vai nos surpreender? Como será a interação dele com a tripulação da Discovery? O drama naturalmente deve vir daí, de sabermos quem ele é, mas a tripulação não. Se bem explorado, pode ser um arco muito interessante — e perigoso. A conferir.

Retornando à cela da nave-prisão após essa longa digressão, nos deparamos com Mudd — ou melhor, com a nova versão de Mudd, repaginada com relação ao personagem da Série Clássica. Rainn Wilson faz um ótimo trabalho em resgatar alguns dos trejeitos de Roger C. Carmel, o ator original, mas dá um ar muito mais ameaçador ao personagem. Houve quem achasse que essa foi uma violação, mas, convenhamos: Mudd era retratado de forma simpática em Jornada nas Estrelas porque era o único modo de fazê-lo em 1966. Na prática, olhando nas entrelinhas, Mudd foi pego por Kirk, em “Mudd’s Women”, cometendo crimes terríveis, como tráfico de mulheres, promoção da prostituição e distribuição de drogas. Apesar do tom divertido que se dá a ele (única maneira de vencer a censura das redes de televisão na época), Mudd é um personagem nada ambíguo — é um vilão na melhor acepção da palavra.

Lorca, por outro lado, não é o melhor capitão que Mudd poderia ter encontrado pela frente. Neste episódio, descobrimos mais uma faceta dele — o fato de que não só ele sobreviveu à abordagem de sua nave anterior, a USS Buran, como a destruiu, com toda a tripulação dentro, para evitar que eles fossem feitos prisioneiros. Isso explica, a um só tempo, o comportamento dele diante da guerra e o fato de ele se sentir meio como “peixe fora d’água” na tripulação da Discovery — uma nave que ele assumiu só depois da perda da Buran, um mês após o início da guerra.

Tendo isso em conta, Lorca não é alguém de quem você deva esperar compaixão. Natural, portanto, a decisão dele de deixar Mudd para trás durante a fuga. Àquela altura, já estava claro que o traiçoeiro humano estava ali na cela em conluio com os klingons, espionando os oficiais que eram presos com ele com a ajuda do pequeno Stuart — um “bug” em pelo menos duas acepções da palavra inglesa. Um traidor e possivelmente um espião klingon. Não é o tipo de pessoa que eu levaria para a minha nave num tempo de guerra. Lorca muito menos.

O abandono de Mudd, claro, terá repercussões no futuro da série, uma vez que pelo menos mais uma aparição de Rainn Wilson está programada para esta temporada. Então, como ele mesmo promete a Lorca, esta não foi a última vez que vimos Harcourt… Fenton… Mudd! O que é boa notícia. O novo Mudd é divertido e perigoso na medida certa, de modo que não vejo a hora de reencontrá-lo.

Enquanto isso, no “lado A” do episódio (colecionadores de vinil entenderão), encontramos a Discovery sob o comando do capitão interino Saru. Foi o primeiro episódio a realmente envolver o personagem na ação de maneira mais significativa, o que expõe as qualidades dele como oficial da Frota Estelar. De novo, houve quem criticasse sua decisão de usar o tardígrado a todo custo, mas a responsabilidade primária dele era com a tripulação da Discovery e com o capitão Lorca.

Por sinal, Saru cumpre aqui sua promessa de fazer um trabalho melhor em defender seu comandante do que Burnham fez com a dela. Lorca volta são e salvo graças à perspicácia de seu primeiro oficial, que lançou mão de seus instintos naturais de “luta ou fuga” para perceber que uma das incursoras klingons estava escapando das demais, e não voando em formação com elas. Foi uma solução inteligente e orgânica no resgate — em todo o resto, fácil demais para o meu gosto — que valorizou a natureza do personagem.

Os demais tripulantes da Discovery também são usados de maneira efetiva, num episódio que equilibrou muito bem todos eles. O doutor Culber teve importante papel ao investigar a situação do tardígrado, Stamets e Tilly ajudaram a descobrir uma solução alternativa, e Michael Burnham, claro, serviu de âncora narrativa para a coisa toda, fechando em grande estilo o paralelo construído pelos roteiristas entre ela e o tardígrado nos últimos dois episódios.

Em “Context Is for Kings”, o tardígrado era o monstro, e Burnham era o monstro. Em “The Butcher’s Knife Cares Not for the Lamb’s Cry”, o tardígrado era o incompreendido, e Burnham era a incompreendida. Em “Choose Your Pain”, o paralelo é manifesto até mesmo na sequência de sonho que abre o episódio — nela, Burnham é o tardígrado. E, ao fim, ambos encontram sua redenção — a criatura ao ser libertada, e Burnham ao achar alguma medida de paz em sua relação com Saru e promover a libertação da criatura.

Isso mostra a multiplicidade de texturas e leituras que Discovery, como um programa serializado, oferece. Outro ótimo exemplo é o próprio título do episódio: “Choose Your Pain”, ou “Escolha sua dor”. A leitura óbvia é que é a citação à frase que os klingons usam para controlar seus prisioneiros. Mas é isso mesmo? Ou é a dor de Lorca de ter perdido sua tripulação na Buran e ter ferido os olhos por causa disso? Ou é a dor do tardígrado, torturado para fazer o motor de esporos funcionar? Ou é a dor de Michael Burnham, de se sentir tão isolada e alienígena quanto o próprio tardígrado? Ou é a dor de Saru, inseguro acerca de sua capacidade de comandar? Bem, siga o título: “Escolha sua dor.”

E note que deixei de fora aí a dor de Stamets, porque essa merece um comentário à parte. Ele basicamente apresenta sua solução particular para o teste do Kobayashi Maru, se é que você me entende, e a cena em que descobrimos o que se passou é, em termos de tom e mesmo diálogo, bastante similar à da morte de Spock em A Ira de Khan — um “parabéns a todos aí na engenharia”, seguido pelo silêncio, seguido por “tem alguma coisa muito errada”.

Stamets, contudo, não morre. E, em vez disso, tem uma gargalhada histérica após acordar no cubo de reação. O que foi isso? Na minha modesta opinião, ele também exorcizou sua dor ali. Não só por poupar o tardígrado, algo que claramente o comoveu (como podemos ver por sua expressão quando a criatura entra em estado criptobiótico após o primeiro salto), mas por poder entrar em contato direto com seus esporos — algo que ele desejava ardentemente fazer e chegou a dizer ao ver o tardígrado interagindo com os cogumelos na floresta artificial da Discovery, no episódio anterior. O fato de que deu certo, e a surpresa de seu contato com o sublime, levou à gargalhada.

Então repare a riqueza deste episódio, que certamente merece múltiplas assistidas. Ele entrelaça de forma perfeita as tramas A e B, e todas as histórias pessoais dos personagens, a ponto de você nem sentir que está o tempo todo num pingue-pongue entre o núcleo Lorca e o núcleo Discovery. As duas histórias caminham juntas e têm conexão entre si, algo que faltou no episódio anterior, em que a trama klingon ficou como algo à parte. Temos um roteiro realmente incrível de Kemp Powers. Antes de ser integrado à equipe da série, ele era escritor de teatro e mostrou a que veio aqui. Bravo!

Ela acertou todas as notas certas em momentos delicados, como na cena final do episódio — a interação adorável entre os “maridos” Culber e Stamets — e no uso inédito do palavrão “fucking” no diálogo entre Tilly e Stamets. Em ambos os casos, funciona. No primeiro, a situação é retratada de acordo com a tradição de Jornada nas Estrelas, como uma “não questão”. No segundo, toda a doideira do motor de esporos realmente é “fucking cool”. O que une esses dois exemplos é a constante humanização dos personagens, algo que não canso de destacar em Discovery: é refrescante encontrar uma série de Star Trek em que os personagens humanos são tão ricos e interessantes quanto os alienígenas.

E a essa altura isso dá um gosto de “quero mais”. Espero que, ao longo da série, tenhamos tempo de conhecer também a tripulação secundária: Keyla Detmer, Joann Owosekun, Airiam, Milton Richter e o recém-apresentado tenente Rhys. Todos eles podem ter histórias pessoais fascinantes, só esperando para serem reveladas.

Avaliação

Citações

Mudd – Ouch!
(“Ai!”)
Lorca – Who are you?
(“Quem é você?”)
Mudd – The name is Mudd. Harcourt Fenton Mudd. Harry for short. I reiterate: ouch.
(“O nome é Mudd. Harcourt Fenton Mudd. Harry para encurtar. Reitero: ai.”)

L’Rell – Mm, you suffer from extreme photosensitivity.
(“Mm, você sofre de fotossensibilidade extrema.”)
Lorca – Well, we all have something, honey. And you’re seeking solace in the arms of a human male. We don’t even have the right number of organs for you. Why so hard up?
(“Bem, todos temos alguma coisa, querida. Você procura consolo nos braços de um macho humano. Nós nem temos o número certo de órgãos para você. Por que essa dureza?”)

Tilly – Guys, this is so fucking cool! …I’m sorry.
(“Pessoal, isso é muito foda! …Desculpe.”)
Stamets – No, cadet. It is fucking cool.
(“Não, cadete. É mesmo muito foda!”)

Saru – Dr. Culber believes the tardigrade is sentient. It remains in a state of cryptobiosis. We have no claim on its soul. Go save its life, Burnham. That’s an order.
(“O doutor Culber acredita que o tardígrado é consciente. Ele ainda está em estado de criptobiose. Não temos direitos sobre sua alma. Vá salvá-lo, Burnham. É uma ordem.”)

Trivia

  • Descobrimos que o capitão Lorca foi o comandante da USS Buran durante o primeiro mês da guerra, até ela ser perdida com toda a tripulação. O nome da nave é uma homenagem ao ônibus espacial soviético, Buran, que fez um único voo ao espaço, sem tripulação, em 1988.
  • Quando Saru pede ao computador uma lista dos capitães mais condecorados da Frota Estelar, vários nomes familiares aparecem: Robert April (primeiro capitão da USS Enterprise, que figurou na Série Animada, mas só se tornou um personagem do cânone agora), Jonathan Archer (capitão da Enterprise NX-01), Matthew Decker (comodoro visto em “The Doomsday Machine”, da Série Clássica), Philippa Georgiou (capitão da USS Shenzhou) e Christopher Pike (capitão da USS Enterprise durante a época de Discovery).
  • No roteiro original, havia mais um capitão condecorado listado: Robert Wesley, que é visto como comodoro e comandante da USS Lexington em “The Ultimate Computer”.
  • L’Rell aparentemente comanda um cruzador de batalha da classe D7 — embora eles não se pareçam em nada com os vistos antes em Jornada nas Estrelas.
  • A cadete Tilly menciona o Instituto Daystrom, confirmando que ele já existe no século 23 e foi provavelmente fundado por Richard Daystrom, o grande especialista de computadores visto em “The Ultimate Computer”.
  • A almirante Cornwell fala de uma instalação secreta da Frota Estelar em Jefferson, Iowa. Na versão original do roteiro, era Riverside, Iowa — cidade onde teria nascido o capitão Kirk e onde vemos a própria USS Enterprise ser construída no universo alternativo criado pelo filme Star Trek (2009), a famosa (e, para alguns, infame) linha do tempo Kelvin.
  • Ash Tyler diz ter servido com o capitão Steven Maranville, da USS Yeager, morto durante a Batalha das Estrelas Binárias.
  • Lorca menciona as missões realizadas pela Discovery nas últimas três semanas, que envolvem, além de Corvan II, Benzar (planeta natal dos benzaritas, vistos em A Nova Geração) e Ophiucus (sistema estelar com colônias humanas, notoriamente mencionado em “Mudd’s Women”).
  • O mapa da fronteira entre o Império Klingon e a Federação visto nesse episódio foi tirado do livro “Star Trek Star Charts”, de Geoffrey Mandel, e tem várias localidades conhecidas pelos fãs. O setor Mempa foi palco de uma das batalhas da Guerra Civil Klingon de A Nova Geração, a estação K7 foi visitada pela Enterprise em “The Trouble With Tribbles”, da Série Clássica, tanto Kirk (Jornada nas Estrelas VI: A Terra Desconhecida) quanto Archer (“Judgment”) tiveram temporadas na colônia penal klingon de Rura Penthe, o sistema Morska abrigava a estação de comunicação klingon que a tripulação da Enterprise teve de enganar em A Terra Desconhecida, e por aí vai.
  • O bichinho de estimação de Mudd era chamado de Bugsley antes de ganhar o nome de Stuart, segundo os produtores.
  • Nos planos originais dos produtores, o tardígrado seria um tripulante da ponte da Discovery chamado Ephraim, em homenagem ao zoólogo alemão que o descobriu, Johann August Ephraim Goeze. A ideia foi descartada, entre outras razões, pelo alto custo que envolveria.

Ficha técnica

História de Gretchen J. Berg & Aaron Harberts & Kemp Powers
Roteiro de Kemp Powers
Dirigido por Lee Rose
Exibido em 15/10/2017
Produção: 105

Elenco:

Sonequa Martin-Green como Michael Burnham
Jason Isaacs como Gabriel Lorca
Doug Jones como Saru
Anthony Rapp como Paul Stamets
Mary Wiseman como Sylvia Tilly
Shazad Latif como Ash Tyler

Elenco convidado:

Jayne Brook como Katrina Cornwell
Mary Chieffo como L’Rell
Wilson Cruz como Hugh Culber
Rainn Wilson como Harry Mudd
Conrad Coates como Terral
Emily Coutts como Keyla Detmer
Julianne Grossman como computador da Discovery
Patrick Kwok-Choon como Rhys
Sara Mitich como Airiam
Simon Northwood como piloto da nave auxiliar
Oyin Oladejo como Joann Owosekun
Christopher Russell como Milton Richter
Kirk Salesman como klingon da nave auxiliar 2
Tyler Evan Webb como klingon da nave auxiliar 1

Mais análises do Trek Brasilis

E você pode baixar o MP3 para ouvir offline aqui.

6 Comments on "DSC 1×05: Choose Your Pain"

  1. Eduardo Henrique Chagas | 24 de outubro de 2017 at 7:44 am |

    Nas forças armadas lusófonas não se usa essa flexão.

    Fato que descobri num making of do antigo USA Network, de quando foram fazer a dublagem de Voyager. “Capitão Janeway”.

  2. O episódio DSC 1×06: Lethe, mostrou q vcs estavam certos.

  3. Realmente, FSpock.

    Alguém poderia argumentar que o almirante poderia ter entrado para a Frota depois de Spock que, durante o presente arco de Discovery, já é um tripulante na Enterprise de Pike.

    Porém, esse almirante Vulcano teria tido uma carreira meteórica na Frota (mais eficiente que o Spock). Talvez tivesse ingressado na frota já como almirante (pistolão intergalático !!!).

    Brincadeiras à parte, também fiquei incomodado com essa aparente desatenção dos roteiristas e produtores. Desde a série clássica estamos acostumados com a ideia de Spock ser o primeiro vulcano na frota (algo coerente com a postura apresentada pelos vulcanos no episódio Lethe).

  4. Salvador Nogueira | 24 de outubro de 2017 at 7:26 pm |

    É isso. Até tentei emplacar “capitã” com a Netflix, uma vez que é o termo recomendado pela Academia Brasileira de Letras, mas a CBS estava determinada a manter o padrão “capitão”, baseado nas Forças Armadas Brasileiras e estabelecido em Voyager. Então, ficamos com “capitão” comum de dois gêneros.

  5. Será que a Federação de Planetas Unidos tem uma “presidenta”?

  6. Jotape Ferreira | 26 de outubro de 2017 at 2:15 pm |

    Salvador e Eduardo, valeu pelas explicações.

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