Com ingredientes certos, mas receita errada, episódio tem sabor de oportunidade perdida


Sinopse

Data estelar: 1308.9.

A USS Gagarin está numa batalha desesperada contra os klingons e recebe assistência da USS Discovery. São as duas contra seis naves inimigas — todas elas com dispositivos de camuflagem que tornam a luta ainda mais complicada. A despeito de todos os esforços, a Gagarin é destruída, forçando o capitão Lorca a bater em retirada.

Ele confirma ao almirante Terral o que relatórios da inteligência da Frota Estelar já sugeriam — o general Kol está no comando da reabilitada Nave dos Mortos e distribuiu a tecnologia de camuflagem entre casas aliadas, em seu esforço de governar um unificado Império Klingon. A Federação está sob risco de perder a guerra, o que torna a atual missão da Discovery ainda mais importante: um grupo de descida composto por Saru, Michael Burnham e Ash Tyler está no misterioso planeta Pahvo, local onde há um transmissor emite sinais subespaciais que, se ressintonizado, poderia servir como uma espécie de radar para detectar naves camufladas.

Até onde se sabe, o planeta só tem vida vegetal, e a missão do trio é caminhar até o transmissor e fazer as modificações necessárias. Saru se mostra impaciente para concluir a missão, mas Burnham e Tyler se sentem revigorados pela caminhada na floresta — o teletransporte só conseguiu colocá-los a 30 km do transmissor, por conta de interferência no sinal.

Durante a jornada, o trio é abordado por uma estranha nuvem brilhante de partículas que, a despeito de registrar no tricorder como parte da floresta, parece ter intenções e uma espécie de consciência, como que convidando os visitantes a segui-la — na direção oposta à do transmissor. Saru consegue estabelecer um contato inicial, que fica clara a presença de uma consciência. Isso muda os parâmetros da missão: será necessário convencer os pahvanos a deixarem que a Frota Estelar use seu transmissor.

O grupo segue a nuvem de partículas luminosas até uma espécie de cabana. Lá, enquanto Burnham e Tyler se sentem acolhidos pelo ambiente romântico, Saru tenta aprofundar o contato. Mas a verdade é que o kelpiano está muito perturbado. O que aos humanos soa como um suave sussurrar da floresta pahviana a ele soa como a ameaça constante e ruidosa de perigo, por conta de seus sentidos aguçados.

Quando o grupo se recolhe para dormir, Saru está torturado. Ele sai da cabana e pergunta se a nuvem brilhante não pode fazer o barulho parar. A nuvem então entra em sua mente e o deixa em um estado alterado de consciência — subitamente, ele está em paz.

No dia seguinte, Burnham e Tyler percebem a mudança de humor de Saru. Mas se apavoram quando o kelpiano esmaga seus comunicadores e anuncia que a missão mudara: eles agora vão viver lá, em Pahvo, abençoados pela harmonia do planeta. O comandante então sai para dizer a seus anfitriões que eles aceitarão o convite, dando a deixa para que Tyler e Burnham planejem uma ação alternativa — ela vai para o transmissor, enquanto ele distrai Saru.

E assim eles procedem, numa estratégia que funciona por algum tempo. Mas, quando o kelpiano percebe que está sendo enganado, ele parte em disparada atrás de Michael. Uma luta corpo a corpo se segue, em que Saru tenta destruir o equipamento da Frota Estelar. Burnham, contudo, consegue tonteá-lo com um feiser, enquanto ele, aos prantos, a acusa de sempre tirar as coisas dele — uma velha ferida se abrindo.

Os pahvanos se manifestam, e Michael faz um apelo desesperado para que eles os ajudem a colocar um fim no conflito com os klingons e cooperem com a Frota Estelar. Saru ainda os adverte de que o planeta será destruído, caso eles antagonizem os klingons, mas os pahvanos parecem decidir cooperar e acionam seu transmissor cristalino interestelar. O grupo de descida então é transportado à Discovery, mas Saru está desolado. Na enfermaria, ele pede desculpas por suas ações e confirma que estava consciente de tudo, mas nunca havia experimentado paz como a que sentiu em Pahvo.

Na ponte, o clima não está para festejos. O transmissor pahvano, em vez de transmitir apenas na frequência subespacial da Federação, mandou sinais também para os klingons — um convite, na tentativa de harmonizar as partes em conflito. Mas ninguém está apostando que uma solução diplomática é possível.

Com efeito, a nave de Kol detecta o sinal e se prepara para marchar a Pahvo. Por lá, também houve ação. L’Rell apareceu e ofereceu sua lealdade a Kol, destacando suas habilidades como interrogadora. O general então ordena que ela torture a almirante Cornwell. Mas a conversa toma um rumo inesperado, quando L’Rell diz à oficial da Frota Estelar que quer desertar. Ambas ensaiam uma fuga, mas, quando são flagradas, têm de lutar para disfarçar a aliança. Cornwell fica desacordada, e L’Rell diz que vai se desfazer do corpo — nisso, ela descobre que Kol matou todos os seus antigos aliados da casa de T’Kuvma. Sobre seus corpos, ela jura vingança.

De volta à ponte da nave-sarcófago, ela pede para ser aceita na casa de Kor, e Kol parece de início concordar, mas depois da a entender que sabe das mentiras dela e ordena que seja torturada e punida. Enquanto isso, a frota klingon viaja para Pahvo…

Comentários

“Si Vis Pacem, Para Bellum” tem todos os ingredientes de um episódio clássico de Jornada nas Estrelas. E, ao mesmo tempo, prova que não bastam os ingredientes; é preciso também ter a receita correta.

Numa primeira olhada, ele faz o serviço designado a ele — conduzir a trama geral de Discovery do ponto A ao ponto B, que, no caso em questão, é um confronto importante entre a Frota Estelar e o Império Klingon, tema que ficou “pendurado” para ser abordado no episódio seguinte.

Porém, numa análise um pouco mais detida, o que faltou foi a sensibilidade certa, sobretudo naquela se se apresenta como a trama principal do segmento — a aventura do grupo de descida no misterioso planeta Pahvo.

Muita expectativa foi criada em torno desse episódio, com membros da produção e gente que leu o roteiro original de Kirsten Beyer apontando-o como um ponto alto da temporada, Star Trek clássico capaz de arrancar lágrimas com o drama de Saru.

Houve, contudo, grande diferença entre a expectativa e a realidade. A distância entre ambas veio, em grande parte, da execução, em especial a edição, que mais uma vez prioriza o ritmo acelerado e acaba deixando o quebra-cabeça com peças faltando. Entende-se que é uma decisão estética, uma vez que tempo não faltava para executar a história. Do jeito que ficou, ele terminou com apenas 41 minutos, o segundo mais curto da temporada, perdendo apenas para “Battle at the Binary Stars”.

Aí a gente bate olho no que restou e fala, bem, temos um “estranho novo mundo”, à moda de Star Trek clássica, temos uma trajetória trágica e dramática para Saru, temos socos e pontapés no desfecho, no melhor estilo da série original, temos uma espécie alienígena que lembra muito as criaturas de energia superiores encontradas por Kirk e cia. dali a dez anos — os pahvanos são uma versão suavizada e mais misteriosa dos organianos, que também forçaram um confronto entre a Federação e o Império Klingon no clássico “Errand of Mercy”. Com todos esses ingredientes, o que poderia dar errado?

Bem, “errado” não é a palavra. O que mais me chama atenção aqui é o “potencial perdido”. Virando a pergunta de ponta-cabeça, como foi possível, com todos esses elementos, não gerar um episódio clássico, apaixonante, de Jornada nas Estrelas?

Fazendo uma aposta, diria que faltou profundidade — em tudo. Os pahvanos começam e terminam como um mistério, mas a mística do planeta e de seus habitantes não é desenvolvida. Em vez de vivenciarmos os efeitos de Pahvo sobre Saru, o que temos é “Saru fica doido e explica no final o que rolou”. Durante a história, jamais entramos na mente do kelpiano para sacar o que o planeta fez com ele. Nem uma pista. E, com uma explicação sumária, sem essa vivência (substituída por uma sequência rápida de cenas recicladas de outros episódios), acabamos ficando no raso — Saru é de uma espécie que não está no topo da cadeia alimentar em seu planeta e, como boa presa, tem uma sensação aguçada de perigo. Saru vive apavorado e tentando controlar seu pavor — meio como Spock tentava controlar suas emoções. Mas tudo isso nós já sabíamos. O episódio perde a oportunidade de aprofundar o tema ou dar novas nuances a ele. Começa a preocupar o fato de Saru soar como um “samba de uma nota só”.

A relação entre ele e Michael — a noção de “irmãos rivais” — é explorada aqui novamente e é consistente com o que vimos antes. Mas, de novo, ela não avança muito os dois personagens. Para uma série que se propõe a serialização, temos uma oportunidade perdida aqui de fazer o relacionamento deles evoluir.

Isso talvez tenha acontecido pela opção de levar Tyler junto para o grupo de descida e, com isso, desenvolver o relacionamento amoroso entre ele e Michael. OK, as cenas deles funcionam, mas, fora isso, Tyler parece supérfluo na história.

Enquanto o grupo de descida tem sua aventura em Pahvo, a bordo da Discovery vemos vários desenvolvimentos interessantes — um sinal de que Stamets, agora de volta ao seu estado ranzina, está de fato sofrendo efeitos adversos da fusão de seu DNA com o do tardígrado. Ele parece vagarosamente estar perdendo a sanidade, o que certamente aponta na direção de problemas mais adiante. A cadete Tilly é usada de forma efetiva como personagem nessa trama, indo além da função habitual de “sidekick” de Burnham. Bom para ela.

Lorca, mais uma vez, tem a chance de brilhar onde ele mais brilha — como um capitão combatente. A cena que abre o episódio, com o esforço para salvar a USS Gagarin do ataque dos klingons, é certamente a mais efetiva da série até agora em retratar uma batalha. E ajuda a ilustrar o fato de que Kol está distribuindo dispositivos de camuflagem para seus aliados, tornando bem menores as chances de a Federação vencer a guerra com facilidade.

E temos também uma sequência no “núcleo klingon” da série, em que vemos L’Rell interrogando a almirante Cornwell e tecendo suas mentiras, enquanto Kol consolida seu poder sobre o império na nave-sarcófago.

Todas esses elementos são apresentados quase como “marcos” que o episódio precisa atingir para manter a trama mais ampla de Discovery em andamento. É um jeito meio apressado e curioso de desenvolver o enredo — um que não permite que saboreemos o universo ficcional. Não estão faltando vozes klingons entre os klingons? A nave-sarcófago quase totalmente desabitada, na atabalhoada cena de “quase fuga” de L’Rell e Cornwell, serve de metáfora para os klingons. Onde está o Império? Onde estão as lideranças? As casas? O que eles estão fazendo?

Discovery se propôs a dar atenção ao “lado klingon”, o que é uma boa ideia. Mas ela parece viver uma crise de identidade quando não vai fundo o suficiente, mantendo apenas o mínimo necessário para seguirmos o enredo. Falando concretamente, até agora tivemos quatro personagens klingons principais: T’Kuvma, Voq, L’Rell e Kol. E tudo que podemos dizer sobre eles cabe em uma linha. T’Kuvma, o messias passional martirizado; Voq, o seguidor plebeu ungido à liderança; L’Rell, a trapaceira mentirosa; e Kol, o líder militar impiedoso.

Por um lado, já é mais variedade cultural do que costumávamos ver nos klingons em encarnações anteriores. Por outro lado, ainda fica longe de desenvolver esses personagens como “pessoas” em quem você possa acreditar. Suas motivações são todas muito simples, salvo talvez por L’Rell, o que é compatível com o tempo de tela que se devota a eles, mas incompatível com a ideia de que teríamos realmente uma visão profunda do Império Klingon e sua diversidade cultural.

É algo que não faria falta se os roteiristas não estivessem colocando os pés na água. Ou seja, se não tivéssemos cenas klingons independentes da trama a bordo da Discovery, não precisaríamos nos preocupar com a motivação deles. Mas, como temos, não basta por os pés na água — é preciso nadar.

A sensação geral é que falta respiro. E “Si Vis Pacem, Para Bellum”, justamente por se escorar numa premissa introspectiva — é o efeito que um planeta consciente e em harmonia tem sobre o perturbado Saru –, traz à tona a superficialidade com que certas linhas narrativas estão sendo tratadas na série.

Fica a admiração por tentarem ir mais longe, mas faltou coragem para apostar nisso para valer. Por que não fazer um episódio inteiro só com o grupo de descida em Pahvo, que explorasse mais o conceito e a mitologia desse planeta misterioso, assim como seus efeitos sobre a tripulação? E por que não um episódio inteiro para lidar com a trama de L’Rell e Kol, entrelaçada com o aprisionamento da almirante Cornwell e o sumiço de Voq, talvez temperado pela crise de Stamets e os esforços da Discovery para tentar equilibrar os rumos da guerra num momento em que os klingons parecem estar mais perto da vitória?

Uma das premissas básicas de um programa serializado é que a trama precisa servir aos personagens. Note como “Lethe”, apenas duas semanas antes, fez isso por Michael Burnham e Sarek, explorando esses personagens de forma profunda, refletida, fazendo evoluir a relação entre eles e lançando luz sobre o contexto de suas vidas.

Agora faça o contraste com “Si Vis Pacem, Para Bellum”, com todo o seu potencial inexplorado, invertendo essa lógica fundamental. Aqui, os personagens é que servem à trama, e nem mesmo Saru sai muito diferente do que começou.

Os ingredientes estavam todos lá. Com mais cinco minutos de duração distribuídos nos lugares certos e um cadinho mais de inspiração e reflexão, o episódio poderia nos ter oferecido uma receita bem diferente — e certamente mais apetitosa.

Avaliação

Citações

Lorca – There will be time to grieve. This is not that time.
(“Haverá uma hora para sofrer. Esta não é a hora.”)

Burnham – The needs of the many…
(“As necessidades de muitos…”)
Tyler – …are worth fighting for. Are worth dying for. But so are the needs of the few.
(“…merecem que lutemos por elas. Merecem que morramos por elas. Mas também as necessidades de poucos.”)
Burnham – Or the one.
(“Ou de um.”)

Saru – You won’t stop taking!
(“Você não para de tirar!”)

Trivia

  • O título do episódio é um antigo adágio em latim, que significa, “se você quer paz, prepare-se para a guerra”. É o nono episódio com título em latim na franquia.
  • Este é o terceiro episódio da franquia, e o segundo de Discovery, a não ter um teaser e começar diretamente no primeiro ato. Além dele, “Encounter at Farpoint”, de A Nova Geração, e “Magic to Make the Sanest Man Go Mad”, de Discovery, não tiveram um teaser.
  • Kirsten Beyer, roteirista do episódio, é conhecida do fandom por ter escrito vários romances de Star Trek: Voyager. Este é seu primeiro trabalho televisivo para a franquia.
  • Ted Sullivan, roteirista e co-produtor executivo, contou como Beyer teve a ideia para o episódio e especificamente o conceito do planeta Pahvo. “Ela queria explorar a ideia de paz em meio à guerra”, diz. “Ela escreveu uma bela história. Ela pega ideias e vira-as de ponta-cabeça, e acho que foi isso que ela fez tão belamente aqui. Acho que foi singular ver as coisas do ponto de vista de Saru.”
  • No roteiro original, Michael Burnham conta que o misterioso sinal subespacial emitido por Pahvo a encanta desde criança. Sua mãe adotiva, Amanda, ligava o rádio subespacial para que ela pudesse ouvi-lo em Vulcano. No episódio final, o diálogo é trocado pelo diário de bordo.
  • A atriz Jayne Brook revelou que a cena de interrogatório de sua personagem, a almirante Cornwell, por L’Rell era bem mais longa do que a que foi ao ar.
  • O romancista David Mack, que escreveu o primeiro livro de Discovery, também elogiou o roteiro original de Beyer antes da exibição. “Se o episódio ficar tão bom quanto o roteiro… quer dizer, o roteiro dela era incrível. O roteiro dela me fez chorar, era lindo. O final do roteiro é de partir o coração. Espero que a equipe de produção e de edição e de pós-produção e todo mundo, espero que eles executem o roteiro na tela tão bem quanto ela o escreveu na página. Se eles fizerem seu trabalho tão bem quanto ela, não haverá um olho seco na casa no 108.”
  • A tentativa dos pahvanos de trazer paz à Federação e ao Império Klingon lembra a atitude dos organianos em “Errand of Mercy”, da Série Clássica. Já sua influência sobre Saru lembrou o efeito que os esporos de Omicron Ceti III tiveram sobre Spock em “This Side of Paradise”.
  • A almirante Cornwell diz a L’Rell que a Federação não tem pena de morte. Se isso for verdade, sabemos que em 2256 a Frota Estelar ainda não instituiu a Ordem Geral Sete, que prevê pena de morte para quem desafiar a proibição de visitar Talos IV — planeta originalmente visitado pela Enterprise, sob o comando do capitão Pike, em 2254 (“The Cage”).
  • O romance de Tyler e Burnham começou numa linha do tempo alternativa, em “Magic to Make the Sanest Man Go Mad”, a exemplo do que aconteceu com o curto romante entre Worf e Troi em A Nova Geração, que foi visto primeiro em uma realidade alternativa em “Parallels”.
  • As cenas em Pahvo foram gravadas em locação em Hilton Falls e nas Kelso Conservation Areas, em Milton, Ontário, no Canadá. O clima estava chuvoso e quente, o que dificultou bastante a produção.

Ficha técnica

Escrito por Kirsten Beyer
Dirigido por John S. Scott
Exibido em 5/11/2017
Produção: 108

Elenco:

Sonequa Martin-Green como Michael Burnham
Jason Isaacs como Gabriel Lorca
Doug Jones como Saru
Anthony Rapp como Paul Stamets
Mary Wiseman como Sylvia Tilly
Shazad Latif como Ash Tyler

Elenco convidado:

Jayne Brook como Katrina Cornwell
Mary Chieffo como L’Rell
Wilson Cruz como Hugh Culber
Kenneth Mitchell como Kol
Michael Boisvert como Kovil
Conrad Coates como almirante Terral
Emily Coutts como Keyla Detmer
Anthony Grant como oficial de comunicação klingon
Julianne Grossman como computador da Discovery
Patrick Kwok-Choon como Rhys
Sara Mitich como Airiam
Oyin Oladejo como Joann Owosekun
Ronnie Rowe Jr. como Bryce
Tyler Evan Webb como guarda klingon

Confira o TB ao VIVO falando sobre o episódio

E leia a opinião do colunista Luiz Castanheira aqui.