Aventura com tons políticos encerra saga do Espelho

Sinopse

Data estelar: 1834.2.

Liberto e a bordo da ISS Charon, Lorca inicia sua ofensiva para derrubar a Imperatriz. Sua primeira ação é soltar seus seguidores, presos num imenso hangar repleto de câmaras da agonia, e procurar o tenente Stamets de seu universo — lá, ele é responsável, entre outras coisas, pela criação de uma arma biológica de destruição em massa. Lorca consegue capturá-lo e faz com que ele ceda a arma, que então é usada para rapidamente assassinar a maior parte da tripulação da Charon. A Imperatriz está sob risco cada vez maior.

Michael ainda é prisioneira de Georgiou. Ela tenta persuadi-la a deixar que se comunique com a Discovery, mas a Imperatriz ainda está decidida a puni-la. Não lhe resta alternativa então senão fugir. Michael escapa dos tiros dos soldados e se esconde pelos tubos Jefferies da nave capitânia do Império Terráqueo. De lá, ela consegue contatar a Discovery e explica que Lorca na verdade é deste universo e se fingiu de oficial da Federação para tomar o comando do motor de esporos e com isso saltar de volta a seu mundo de origem.

Michael sugere que a Discovery fuja e a deixe para trás, mas Saru informa que isso não será possível. Não só porque ele se recusa a deixar sua colega para trás, mas porque Stamets determinou que o reator que dá energia à Charon é baseado em tecnologia micelial: ele extrai sua força da própria rede micelial, que por conta disso está sendo paulatinamente sendo destruída. Se ela morrer, diz Stamets, a devastação levará ao fim da vida em todo o multiverso. A Discovery precisa destruir o reator da Charon a todo custo. Diante disso, Saru e sua tripulação ficam de bolar um plano, e a nave é instruída a vir para a Charon, mas permanecer em dobra, para evitar ser abordada por forças imperiais, até que Michael possa desabilitar os escudos que protegem o reator.

Lorca e Georgiou finalmente se enfrentam na sala do trono, e a Imperatriz só escapa da derrota graças a um transporte de emergência. A partir deste momento, o Stamets-Espelho perde sua função para Lorca e é vaporizado por uma de suas seguidoras, a Landry-Espelho. Georgiou, por sua vez, se esconde na sala em que havia saboreado um guisado de kelpiano com Michael. Seus sinais vitais são ocultados dos sensores internos, mas a oficial da Discovery usa seus instintos para encontrar a Imperatriz.

Reunidas, elas discutem suas respectivas agruras em seus universos, e Michael revela que tem um plano para derrotar Lorca e destruir a Charon. Para isso, terá de baixar os escudos do reator. Georgiou diz que isso só pode ser feito da sala do trono, e então as duas concordam em fazer um plano em que Michael finge entregar a Imperatriz a Lorca — o ex-capitão está ansioso por se reunir com a oficial da Discovery, considerando ser isso parte de seu destino.

Na Discovery, uma reunião da tripulação chega à conclusão de que a única maneira de destruir o reator é colocar todos os esporos remanescentes nos torpedos fotônicos e dispará-los, uma vez que os escudos estejam baixados. De início, imagina-se que a Discovery não vá resistir à explosão, que dirá voltar para casa. Mas Tilly tem uma ideia: a nave poderia “surfar” nas ondas geradas pela explosão micelial, que ativaria o motor de esporos, enquanto Stamets, já recuperado, guiaria a Discovery de volta a seu universo. Stamets conclui que, com o motor de dobra também ativo, a ideia pode funcionar.

Na Charon, Michael leva a Imperatriz até Lorca. Lá, ela precisa render seu feiser, mas persuade seu ex-capitão a permitir fazer uma última comunicação com a Discovery, que finalmente sai de dobra. Lorca se despede de sua antiga tripulação, mas Saru só quer ouvir o que Michael tem a dizer. Ela informa que vai ficar neste universo e que está no lugar onde deveria — código sutil para que Saru saiba que pode iniciar o ataque à Charon. O kelpiano entende na hora do que se trata, e inicia a batalha.

Aproveitando-se da deixa, Michael e Georgiou enfrentam em combate corpo a corpo Lorca e seus defensores. Uma longa luta se segue, em que Lorca deseja apenas imobilizar Michael, mas não matá-la. Acaba que ele é morto pela Imperatriz.

A Discovery se prepara para seu ataque final contra a Charon, enquanto Georgiou segue acuada, com a sala do trono prestes a ser invadida por mais seguidores de Lorca. Ela diz que ficará para trás para morrer onde é o seu lugar. Michael se teletransporta para a Discovery, mas não consegue aceitar a morte de Georgiou em outro universo — e assim se agarra à Imperatriz, envolvendo-a no feixe de transporte.

Saru ordena o disparo contra o reator, e a Discovery consegue escapar no último instante, surfando na onda micelial. Stamets precisa operar o milagre de navegá-la pelo multiverso até seu local de origem, o que ele consegue ouvindo a voz de Culber, que o instrui a procurar a clareira na floresta. A Discovery está de volta a seu universo, mas nove meses depois de ter saído.

Sinais da Federação não são detectados, e uma atualização do mapa da guerra sugere que o Império Klingon venceu o conflito.

Comentários

“What’s Past is Prologue” encerra a incursão pelo universo do Espelho em uma aventura frenética e bem executada, ainda que não esteja entre os episódios mais brilhantes desta temporada.

Lorca revela sua verdadeira persona e vemos a materialização de algo que já era dito pelos produtores de Discovery desde antes da estreia: seguindo na melhor veia de Jornada nas Estrelas, a série se propõe a fazer crítica social, voltada para os tempos em que vivemos.

E vivemos em tempos estranhos, em que o nacionalismo, a xenofobia e o discurso populista parecem ganhar cada vez mais espaço. Com o universo do Espelho, foi possível contrapor os valores de inclusão, diversidade e globalização, que estão na base da Federação Unida de Planetas, e os valores de agressão, violência e segregação do Império Terráqueo.

A principal lição a ser tirada é que ambas as realidades vivem mais próximas do que se imagina, tornando a transição de uma para outra natural e sutil — como o sucesso de Michael em viver a vida de sua contraparte do Espelho e o sucesso de Lorca em viver como um federado por quase um ano atestam.

O discurso de Lorca em particular pode ser considerado tudo menos exagerado. Ele remete, é claro, a Donald Trump, o presidente americano que se elegeu prometendo “fazer o Império glorioso de novo”, mas não só a ele. O roteirista Ted Sullivan também pinça alguns outros políticos americanos do passado, como Ronald Reagan, que defendia “a paz por meio da força”, ao rejeitar a estratégia MAD (sigla inglesa para destruição mútua assegurada) como maneira de lidar com a Guerra Fria.

Ou seja, longe de ser raso e gratuito, temos aí um bom apanhado de ideias que são para lá de realistas — elas já se manifestaram em nosso universo no passado e andam particularmente na moda no presente. Como disse Sullivan, “nós vivemos hoje no universo do Espelho”.

O episódio propõe essa discussão sem ser impositivo ou forçado; o discurso de Lorca é perfeitamente consistente com o que se espera de um aspirante ao trono no Império Terráqueo. E Jason Isaacs dá o seu melhor encarnando o vilão que estava escondendo de nós desde o início. Uma pena que tudo termine com a morte do personagem, mas ainda assim foi uma jornada que valeu a pena ser feita.

O contraste entre Império e Federação se faz muito claro também nos dois ambientes em que o episódio se desenrola. Saru, a bordo da Discovery, tem seu melhor momento como capitão interino, galvanizando o potencial de sua tripulação para que trabalhem juntos e encontrem uma solução contra um “cenário sem vitória possível”. É a união preconizada por Star Trek, manifesta no enredo.

Já a bordo da Charon, a desunião conduz a história, numa disputa desenfreada por poder, com muitas batalhas de feiser e lutas corpo a corpo, todas bem executadas. E finalmente os talentos de Michelle “O Tigre e o Dragão” Yeoh são explorados na série.

A direção de Olatunde Osunsanmi não brilha, mas também não compromete, e tem o mérito de manter o episódio num bom ritmo de forma uniforme. Aliás, parece ser um dos pontos fortes da série como um todo — mesmo quando o enredo não está segurando a onda como deveria, raras vezes a execução deixa a gente coçando a cabeça e pensando se é o caso de ir à cozinha pegar alguma coisa.

A serialização realmente foi a grande marca deste arco do Espelho. Tanto que, a essa altura, parece injusto tentar avaliar individualmente cada um dos episódios. Eles claramente contam uma grande história num telefilme de 3 horas, e desconfio que é assim que deveriam ser assistidos.

E há de se destacar que finalmente Discovery conseguiu apresentar uma surpresa que eu pelo menos não vi nenhum fã sugerir. Muita gente apontou que Voq e Tyler eram a mesma pessoa, muita gente sugeriu que Lorca era do Espelho, muita gente sugeriu que o Imperador seria Georgiou, mas ninguém achou que ela fosse parar no universo principal ao final deste episódio.

O desfecho é eletrizante, com a revelação de que os klingons praticamente venceram a guerra. Certamente os dois episódios finais terão de resolver esta trama, e sabemos pelo cânone que ela não pode terminar com vitória klingon. Resta descobrir então como a Discovery promoverá esta virada e o que isso vai significar para a tapeçaria mais ampla da história de Jornada nas Estrelas.

Avaliação

Citações

Saru – It is well-known that my species has the ability to sense the coming of death. I do not sense it today. I may not have all the answers. However, I do know that I’m surrounded by a team I trust. The finest a captain could ever hope to command. Lorca abused our idealism. Make no mistake. Discovery is no longer Lorca’s. She is ours. And today will be her maiden voyage. We have a duty to perform and we will not accept a no-win scenario. You have your orders. On your way.
(“É bem conhecido que minha espécie tem a habilidade de sentir a chegada da morte. Eu não a sinto hoje. Posso não ter todas as respostas. Entretanto, eu sei que estou cercado por uma equipe em que confio. A melhor que um capitão poderia esperar comandar. Lorca abusou de nossa idelaismo. Não se enganem. A Discovery não é mais de Lorca. Ela é nossa. E hoje será sua primeira viagem. Temos um dever a cumprir e não aceitaremos um cenário sem vitória. Vocês têm suas ordens. Executem-nas.”)

Lorca – I was just thinking about everyone who’s ever said that victory felt empty when it was attained. What a bunch of idiots they were.
(“Eu estava pensando sobre todo mundo que já disse que a vitória parece vazia quando obtida. Que bando de idiotas eles eram.”)

Trivia

  • Mais um episódio de Discovery sem teaser, saltando direto da recapitulação para o primeiro ato.
  • Episódio marca o primeiro uso de um “Diário do Capitão” na série, ainda que feito pelo interino Saru. Até então, o recurso havia sido usado diversas vezes, mas sempre na voz do diário de Michael Burnham.
  • Descobrimos que Lorca saltou entre universos por uma falha do transporte ocasionada por uma tempestade iônica. Esse foi o mesmo modo que levou Kirk e cia. ao universo do Espelho no episódio “Mirror, Mirror”, da série original.
  • O ator Jason Isaacs trabalhou em parceria com o roteirista Ted Sullivan para ajustar o discurso de Lorca.
  • O título do episódio foi extraído de uma citação da peça “A Tempestade”, de William Shakespeare.
  • Este é o primeiro episódio de Discovery em que Shazad Latif não aparece, seja como Voq ou Tyler.

Ficha técnica

Escrito por Ted Sullivan
Dirigido por Olatunde Osunsamni
Exibido em 28/01/2018
Produção: 113

Elenco:

Sonequa Martin-Green como Michael Burnham
Jason Isaacs como Gabriel Lorca
Doug Jones como Saru
Anthony Rapp como Paul Stamets
Mary Wiseman como Sylvia Tilly

Elenco convidado:

Michelle Yeoh como Philippa Georgiou
Rekha Sharma como Ellen Landry
Emily Coutts como Keyla Detmer
Jeremy Crittenden como lorde Eling
Patrick Kwok-Choon como Rhys
Sara Mitich como Airiam
Oyin Oladejo como Joann Owosekun
Ronnie Rowe Jr. como Bryce

TB ao VIVO: