Short Treks 1×03: The Brightest Star

Com valores de produção de cinema, curta revela origem de Saru

Sinopse

Cerca de 17 anos antes da Batalha das Estrelas Binárias, Saru era apenas um jovem kelpiano do planeta Kaminar, parte de uma civilização pré-dobra que leva uma vida pacata, colhendo algas, e que, quando olha para o céu, só encontra o medo. Isso porque é de lá que chegam os ba’ul, seus predadores. Reunidos em pequenas aldeias, os kelpianos se entregam voluntariamente aos ba’ul quando chega a hora do Vahar’ai.

Aradar, o pai de Saru, é o pastor da aldeia, responsável pela condução das cerimônias de “colheita” dos kelpianos, realizadas ao redor de um tótem flutuante de alta tecnologia deixado pelos ba’ul. Saru e sua irmã Siranna aguardam apreensivos o retorno do pai depois de mais uma dessas cerimônias, enquanto olham pelas frestas da porta de sua cabana o que transcorre do lado de fora.

Ao retornar, Aradar traz um artefato tecnológico que se desprendeu da nave ba’ul durante a última colheita. Ele instrui Saru a se livrar da peça, ao que ele aquiesce. Mas Saru é uma alma inquieta e inquisitiva, que vive a perguntar ao pai por que as coisas têm de ser como são. Aradar oferece em resposta os dogmas que são ensinados a gerações — o respeito à colheita é necessário para manter o Grande Equilíbrio, e assim permitir que os próprios kelpianos remanescentes tenha uma vida confortável, além de fornecer subsistência aos ba’ul. O responsável pela gestão desse equilíbrio é o Olho Que Tudo Vê.

Saru não concorda com nada disso. Rebelde, ele não se desfaz do artefato ba’ul. Em vez disso, desmonta-o e cuidadosamente, ao longo de muito tempo, investiga seu funcionamento. Acaba por transformá-lo num transmissor/receptor capaz de enviar mensagens ao espaço. Saru manda uma mensagem para o vazio, na esperança de encontrar uma resposta.

Um dia, ele recebe um sinal — um simples olá. Com isso se inicia uma série de comunicações que culmina com o convite para um encontro, codificado pela palavra “hoje”. Depois de perguntar qual seria a reação de seu pai caso chegasse a hora do Vahar’ai para ele, e ouvir que ele seria entregue para a colheita, como exige “a ordem das coisas”, Saru decide partir. Ele se aventura pela floresta com sua irmã Siranna, que vê a noite caindo e está apreensiva para retornar para casa. Saru sugere que ela volte primeiro, sob o pretexto de observar um pouco mais as estrelas. Mas os dois sabem perfeitamente que se trata de uma despedida mais definitiva. Siranna corta uma flor e a entrega a Saru, junto com uma faca, instruindo o irmão a enxergar a beleza que há “aqui embaixo” de vez em quando, e então se afasta.

Saru caminha na direção do cume de uma montanha, onde ele é visitado por uma nave auxiliar da Frota Estelar. Sua parceira de comunicação interestelar finalmente se revela — é a tenente Philippa Georgiou, servindo na USS Shenzhou. Ela se oferece para levar Saru com ela, mas adverte: sua cultura tem leis que impedem o contato com civilizações pré-dobra, e Saru jamais poderá voltar a seu planeta. Após hesitar por um instante, ele decide partir com ela e escolher o valor pelo qual ele sempre prezou mais: a esperança.

Comentários

“The Brightest Star” é uma tocante e sofisticada história de origem para Saru, o primeiro kelpiano a servir à Frota Estelar. Aqui aprendemos muito sobre a cultura e o estado tecnológico de seu povo, mas tudo isso quase tangencialmente — o curta-metragem não perde de vista em nenhum momento que se trata, acima de tudo, de uma história pessoal.

Por isso, ficamos ainda sem algumas respostas: quem são os ba’ul? Eles são nativos do mesmo planeta? Eles são os antigos caçadores que incutiram nos kelpianos todos os instintos de preservação exemplificados pelos gânglios de perigo e pelas habilidades excepcionais de Saru demonstradas no episódio “Si Vis Pacem, Para Bellum”, antes de finalmente “domesticá-los”, usando para isso os dogmas em torno da crença no Grande Equilíbrio?

Essas são algumas das perguntas que ficam sem resposta, mas que provavelmente estão guardadas para a segunda temporada de Discovery, onde, segundo os produtores, haverá uma visita a Kaminar. E, apesar de deixar tantas perguntas em aberto, “The Brightest Star” é uma pequena gema, por redefinir nossa compreensão do personagem Saru, tão belamente interpretado por Doug Jones sob uma densa máscara de silicone.

Enquanto a série em si apresentava um personagem naturalmente inseguro e trepidante, aqui entendemos não só o significado dessa luta pessoal que Saru trava o tempo todo contra seus instintos e sua cultura, mas encontramos também em suas ações grandes atos de bravura, curiosidade e esperança — algumas das qualidades essenciais do clássico humanismo trekker.

Além disso, temos também a problemática clássica envolvendo a Ordem Geral Um — a famosa primeira diretriz. Poderíamos considerar uma violação da norma máxima da Frota Estelar o contato inicial entre Saru e Georgiou? Provavelmente sim, mas inadvertida, afinal Saru estava usando tecnologia mais avançada que a de seu povo, e não havia como Georgiou saber disso de antemão. Uma vez estabelecido o contato, o que fazer? O dilema aqui lembra muito o visto no episódio “Pen Pals”, da segunda temporada de A Nova Geração, e as próprias roteiristas, Bo Yeon Kim e Erika Lippoldt, admitiram terem discutido esse segmento enquanto escreviam “The Brightest Star”.

Em favor da decisão tomada por Georgiou, pode-se argumentar que ela fez dois bens de uma vez só: não só atendeu ao pedido de asilo por um ser sensciente ameaçado de morte em seu próprio planeta como, ao levá-lo, retirou do planeta o único afetado pela contaminação cultural que o contato causou. Uma decisão que, do ponto de vista da Frota Estelar, pareceu bem acertada. Muito mais difícil deve ter sido para Saru, que se viu obrigado a deixar seu planeta natal sem olhar para trás.

Além de requalificar o personagem na série, o conto ainda aprofunda a relação de mentoria e admiração que havia entre Saru e Georgiou. Sabemos desde o início de Discovery que Saru tinha grande apego por sua capitão, mas agora esse laço se torna muito mais forte: Georgiou foi a pessoa que lhe estendeu a mão e permitiu que ele realizasse todo seu potencial. A perda dele, quando da morte de Georgiou, fica mais doída após este episódio.

Não bastasse a incrível história, tão bem contada em apenas 15 minutos, ainda temos valores de produção assombrosos para o que deveria ser um curta-metragem de baixo custo. A sinergia com a própria segunda temporada da série — que bancou a viagem a Kaminar — foi fundamental para tornar a jornada ainda mais impressionante e especial. Não se vê sinal de economia aqui, o que é ótimo.

Como única ressalva, talvez a tinta esteja um pouco carregada na narração. Não sei se a presença de Saru como o narrador de sua própria história não acaba tornando o segmento “didático” demais, e se algo mais minimalista não teria produzido algo ainda melhor. Essa é, naturalmente, uma crítica menor.

No geral, roteiro, direção, produção e atuações de alto calibre se encontram para produzir uma excelente adição ao cânone de Jornada nas Estrelas. Por sinal, a cena de despedida de Saru e Siranna é de partir o coração, graças à incrível capacidade de transmitir emoções através da pesada maquiagem prostética. Doug Jones, já sabemos, é um mestre. Mas Hannah Spear, como Siranna, é uma grata surpresa.

Agora resta aguardar o que nos espera em nossa próxima visita a Kaminar.

Avaliação

Citações

Siranna – “Look down every now and then. There’s beauty there as well.” (“Olhe para baixo de vez em quando. Há beleza lá também.”)

Saru – “I saw hope, in the stars. It was stronger than fear. And I went towards it.” (“Eu vi esperança, nas estrelas. Era mais forte que o medo. E fui na direção dela.”)

Trivia

  • A época em que se passa o episódio foi revelada pelas roteiristas Bo Yeon Kim e Erika Lippoldt em entrevista. Elas disseram que “The Brightest Star” ocorre dez anos antes da chegada de Burnham à Shenzhou, que por sua vez foi sete anos antes da Batalha das Estrelas Binárias, que abre a primeira temporada de Discovery. No calendário terrestre, final dos anos 2230, provavelmente 2239.
  • As roteiristas também indicaram que tiveram extremo cuidado ao desenvolver a história pregressa de Saru e de seu povo, e Bo Yeon Kim em particular diz ter extraído inspiração para a relação entre os ba’ul e os kelpianos da ocupação da Coreia pelo Japão, que foi se estabelecendo de forma gradual até 1910 e só terminou após a II Guerra Mundial, em 1945.
  • O ator Doug Jones comentou a criação da história pregressa de seu personagem neste episódio em entrevista: “Quando falamos disso na temporada um, eu imaginei mais como gado num rebanho, mais uma situação de pecuária que meu povo aceitou… Eu olhei para o roteiro e vi que era mais ritualístico. Foi um pouco surpreendente, mas uma boa surpresa, que faz sentido. Somos seres senscientes; somos seres inteligentes, imaginativos e emocionais que podem se conectar e ter famílias. Então não faria sentido que nos comportássemos como gado. Aceitamos o aspecto ritualista religioso de que há um Grande Equilíbrio a ser atingido, e somos parte disso.”
  • O episódio foi filmado parcialmente em estúdio, e as cenas externas foram gravadas no Parque Scarborough Bluffs, em Toronto.
  • O criador da fonética da linguagem kelpiana usada no fim do episódio foi Marc Okrand, o mesmo linguista responsável pela criação da língua klingon.

Ficha Técnica

Escrito por Bo Yeon Kim & Erika Lippoldt
Dirigido por Douglas Aarniokoski
Exibido em 6/12/2018
Produção: 103

Elenco

Doug Jones como Saru
Hannah Spear como Siranna
Robert Verlaque como Aradar
Michelle Yeoh como tenente Philippa Georgiou

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