TNG 3×13: Deja Q

Em comédia, Q descobre em primeira mão o que significa ser humano

Sinopse

Data estelar: 43539.1

A Enterprise está em órbita de Bre’el IV, numa tentativa de ajudar o planeta a lidar com uma lua que está em queda e pode ocasionar uma catástrofe global. Nisso, Q aparece na ponte e diz ter sido punido pelo Continuum e transformado em humano. Picard ordena que ele seja colocado na detenção.

Por sugestão de La Forge, a nave tenta usar o raio trator para deslocar a lua, mas o efeito é desprezável. Picard conversa com Q e o ex-onipotente convence o capitão de que ele pode ajudar com seu conhecimento. Data é designado para levá-lo à engenharia, onde ele sugere uma solução: reduzir a constante gravitacional.

Isso, claro, está além das possibilidades da Enterprise. Mas a sugestão inspira La Forge a tentar estender o campo de dobra da nave para englobar a lua e torná-la mais manobrável. Enquanto isso, a nave é sondada. Aparentemente, há uma criatura gasosa de uma espécie conhecida como calamarain, que foi atormentada por Q no passado e agora busca vingança.

A Enterprise tenta estender o campo de dobra e usar o raio trator para deslocar a lua, mas um ataque calamarain põe tudo a perder. Eles tentam levar Q, mas Data o defende, sendo seriamente danificado no processo. Q decide que não pode mais permanecer a bordo e parte numa nave auxiliar. Picard tenta protegê-la, mas nada funciona. Outro Q impede a Enterprise de intervir. Por seu ato altruísta, o ex-onipotente recebe de volta seus poderes e faz um retorno triunfal à ponte, ao som de mariachi. Antes de partir, ele presenteia Data com uma gargalhada, e a população de Bre’el IV agradece pelo fato de sua lua ter voltado ao lugar, sem saber que foi por obra de Q.

Comentários

“Déjà Q” é a primeira comédia com o icônico personagem criado para o piloto de A Nova Geração. Nesse sentido, é o segmento mais leve e inconsequente até este ponto da série a trazer o ser onipotente, embora se mantenha fiel à temática estabelecida desde o início para ele. Mais uma vez, Q coloca a humanidade em teste, só que agora esse teste por meio dele mesmo, que se torna um de nós.

É curioso como o episódio oferece a Q uma chance de evoluir, no melhor estilo do humanismo de Star Trek. Ao se tornar humano, ele acaba adquirindo sentimentos e percepções humanas, entre elas altruísmo, culpa e responsabilidade.

Tudo isso, é claro, de uma maneira bem divertida, como convém a uma comédia. John de Lancie brilha, dando vida a esse algoz de Picard e da Enterprise. Ele sempre foi muito bom em trazer humor ao personagem, mas até então apenas em meio a situações sombrias, como em “Encounter at Farpoint”, “Hide and Q” e “Q Who”. Aqui o roteiro mais leve ajuda, e a hora passa num piscar de olhos. Claro que há os perigos e o tique-taque requeridos para se encaixar ao padrão de aventura da série (fornecidos pela lua em queda e pela ameaça dos calamarains), mas ambos permanecem 90% do tempo como pano de fundo, e a história principal é “Q aprende a ser humano”.

A temática oferece oportunidades preciosas para a comédia, com o ex-onipotente experimentando nossas dores e sensações mais básicas, como a fome. A cena entre Q e Guinan é excelente, e impossível não cair na gargalhada quando ela crava o garfo na mão dele para testar se ele é humano. A série nunca mostrou o que houve no passado entre os dois personagens, mas aqui eles retomam de onde pararam em “Q Who”, só que com um tom mais descontraído, menos ameaçador.

Também vale destacar a qualidade dos efeitos visuais salpicados ao longo do episódio, enquanto a Enterprise tenta recolocar a lua em sua órbita original e os calamarains fazem seus ataques contra Q. Vê-se até uma pitada de ousadia, com a cena final em que um charuto aceso aparece na mão de Picard e Q surge da fumaça… certamente haveria modos menos sofisticados (e menos interessantes) de executar a cena, se fosse preciso economizar. Felizmente, a produção optou pela rota mais desafiadora, e a escolha compensou.

Avaliação

Citações

“Perhaps there is a… residue of Humanity in Q after all.”
“Don’t bet on it, Picard.”
(Talvez haja um… resíduo de humanidade em Q afinal.)
(Não aposte nisso, Picard.)
Picard e Q

Trivia

  • O showrunner Michael Piller contou sobre a gênese do episódio. “Nossa primeira ideia era que Q havia perdido os poderes, vinha a bordo e desenvolvemos toda uma história do como estávamos prestes a entrar em guerra com os klingons. Acaba que Q não perdera seus poderes afinal, ele estava apenas jogando com a gente e puxando as cordas para que ele pudesse se fazer de herói, se tornar um oficial e provar seu valor. Não era uma história ruim, mas no fim nos sentamos com Gene e Rick, e Gene disse: ‘Se você vai fazer uma história — onipotente trazido ao chão –, então faça. Faça uma história sobre o que é perder tudo que você é e ter de descobrir sua própria humanidade.’ Ele meio que jogou água fria na gente e sugeriu que fizéssemos de forma direta e foi o que fizemos. Fizemos dela uma comédia, fizemos divertida, mas acho que ela tem algumas coisas extraordinárias a dizer sobre a humanidade.Episódio maravilhoso e bem difícil de colocar de pé, mas, quando chegou lá, ficamos muito orgulhosos dele.”
  • A roteirista Melinda Snodgrass comentou: “Semprei pensei em Q como Loki. Ele é caos. Maury Hurley sempre pensou que o Q estivesse aqui para nos ensinar uma lição, nos guiar e nos instruir. Posso entender isso até certo ponto, mas eu realmente o vejo como um travesso. Ele realmente só quer bagunçar a cabeça do Picard.”
  • John de Lancie considerou as cenas da ponte deste episódio bem difíceis de filmar. A cena em que ele finge tocar trompete levou várias tomadas, e ele realmente teve de ficar nu para gravar a sequência inicial em que ele aparece suspenso, na ponte. O supervisor de efeitos visuais Dan Curry relembrou a situação. “É uma das poucas tomadas que fizemos que saiu exatamente como o storyboard. Eu havia escolhido o local da câmera adiantado, e a cena se desenrolou exatamente como eu a desenhei. O roteiro dizia: ‘Q aparece nu’. Nós havíamos planejado ter John de Lancie numa tábua de madeira que não poderia ser vista pela posição do Patrick Stewart na tomada. Conforme nos preparávamos para filmar, John apareceu no set com seu roupão de banho. Quando estávamos prontos para rodar, ele derrubou seu roupão e estava peladão. Isso causou… ummmm.. um pouco de tumulto.”
  • O efeito dos calamarains foi criado por Curry usando uma plataforma de laser sofisticada alugada por um dia. Várias filmagens foram produzidas naquele dia, que ele descreveu como um dos investimentos mais duradouros que já fez: elas se tornaram elementos para coisas como nebulosas e tiros de feiser, transportes e criaturas alienígenas, bem como parte do raio trator usado em A Nova Geração, Deep Space Nine e Voyager.
  • Uma rápida tomada de reação de Troi na sala de reuniões quando Q fala sobre os calamarains foi tirada de “Evolution”.
  • Wesley Crusher (Wil Wheaton) não aparece neste episódio.
  • A banda de mariachi toca a música “La Paloma”, que tem uma versão em inglês chamada “No More”, popularizada por Elvis Presley no filme Feitiço Havaiano (1961).
  • A reação de Picard a Q neste episódio é a fonte da variação mais comum do meme em que o capitão coloca a mão no rosto.
  • O episódio menciona raios Berthold, radiação fictícia primeiro apresentada em “This Side of Paradise”, da Série Clássica.
  • Este episódio foi indicado a dois Emmys, um por melhor edição de série em produção de câmera única (Robert Lederman) e outro por realização em efeitos visuais especiais.

Ficha Técnica

Escrito por Richard Danus
Dirigido por Les Landau

Exibido em 5 de fevereiro de 1990

Título em português: “Déjà Q”

Elenco

Patrick Stewart como Jean-Luc Picard
Jonathan Frakes como William Thomas Riker
Brent Spiner como Data
LeVar Burton como Geordi La Forge
Michael Dorn como Worf
Marina Sirtis como Deanna Troi
Gates McFadden como Beverly Crusher

Elenco convidado

John de Lancie como Q
Whoopi Goldberg como Guinan
Richard Cansino como dr. Garin
Betty Muramoto como cientista
Corbin Bernsen como Q2 (não creditado)

Enquete

Edição de Maria Lucia Rácz
Revisão de Susana Alexandria

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