GRANDES JORNADAS | Quatro episódios de Star Trek em que religião e política se confundem

Episódios de hoje…
“In the Hands of the Prophets”
(“Nas Mãos dos Profetas”; DS9 1×20, 1993)
Onde assistir: PlutoTV*
“Accession” (“Aceitação”; DS9 4×17, 1996)
Onde assistir: PlutoTV*
“Chosen Realm” (“Reino Escolhido”; ENT 3×12, 2004)
Onde assistir: Paramount+
“Bread and Circuses” (“Pão e Circo”; TOS 2×25, 1968)
Onde assistir: DVD/Blu-ray

*Somente dublado

Até a estreia de Deep Space Nine, as séries de Star Trek não colocavam as questões religiosas no centro dos enredos com muita frequência. Às vezes, havia episódios em que costumes ou crenças religiosas eram mostrados, mas com aquele enfoque de algo exótico. Por vezes, algum fenômeno aparentemente sobrenatural era “desmascarado” como causado por alguma raça alienígena diferente ou alguma tecnologia mal compreendida.

Mas em Deep Space Nine os roteiros vão bem mais a fundo, mostrando como a religião e as disputas políticas se confundem. Por lá, os “profetas do templo celestial” desempenham um papel central. Os bajorianos, que governam a estação espacial junto da Federação, acreditam que o buraco de minhoca ali próximo é a morada dos profetas, que escolheram o comandante Benjamin Sisko como seu emissário. Esse papel central de Sisko na religião local causa desconforto em parte do clero bajoriano, em especial na vedek Winn (que depois seria eleita como líder dos sacerdotes, passando a ser kai Winn). Interpretada por Louise Fletcher, a enfermeira intransigente do filme Um Estranho no Ninho (1975), Winn aparece pela primeira vez no episódio “In the Hands of the Prophets” (“Nas Mãos dos Profetas”; DS9 1×20, 1993). 

A especialista em botânica Keiko, casada com o chefe O’Brien, havia montado uma escola na estação espacial. Winn aparece de repente durante uma aula na qual a professora está explicando para as crianças por que o buraco de minhoca perto da DS9 é tão especial: ele é o único cuja entrada e saída sempre se abrem nas mesmas coordenadas, diferentemente dos outros fenômenos semelhantes, que são instáveis. A sua previsibilidade transforma esse buraco em uma passagem segura entre os quadrantes Alfa e Gama da nossa galáxia, transpondo uma distância enorme em poucos minutos. O motivo por trás dessa estabilidade, diz Keiko, é que este buraco específico foi construído pelos alienígenas que o habitam em vez de ser um fenômeno natural. Pronto, a vedek Winn já interrompe a professora ali mesmo e passa a retrucar a cada frase que ela diz. Buraco de minhoca, não. É templo celestial. Alienígenas? Não: são Profetas. 

A vedek Winn na escola da DS9 em “In the Hands of the Prophets”.

O debate acalorado sobre o fenômeno espacial na sala de aula reflete outra discussão da vida real, que começou nos Estados Unidos no começo do século passado: a polêmica criada em torno do ensino da teoria da evolução. Naquele país, uma parcela mais radical dos cristãos protestantes rejeita a ideia de que a vida da Terra, incluindo o surgimento do homem, se desenvolveu por meio da evolução das espécies, e também condena a menção dessa teoria em sala de aula. Em vez disso, eles advogam pelo ensino do criacionismo, que defende que os seres vivos existem como são hoje porque foram assim criados por Deus. A questão motivou ações judiciais nos EUA por muitos anos, já que se argumentava que o ensino do criacionismo era uma divulgação religiosa e não poderia estar em salas de aula laicas. Na década de 1990, época da transmissão de Deep Space Nine, os criacionistas passaram a dar uma roupagem científica para a crença, que passou a ser chamada de “design inteligente”. 

A polêmica levantada pela vedek Winn divide opiniões na estação. É surpreendente ver a major Kira defendendo os pontos de vista ortodoxos da sacerdotisa, mostrando que a abordagem puramente científica adotada por Keiko em suas aulas tem sido mal vista pelos bajorianos. Muitos acabam tirando as crianças da escola por pressão de Winn. Sisko tenta ser equilibrado e compreensivo com a posição da religiosa, mas a contemporização acaba quando um atentado a bomba ocorre na escola. 

O vedek Bareil, rival de Winn na futura eleição para chefe dos sacerdotes de Bajor, chega à estação depois do atentado para tentar pacificar a situação. E aí fica claro por que Winn havia feito tanto barulho contra a escola: era tudo uma armação para atrair Bareil, favorito à eleição, para a DS9. A vedek havia planejado um atentado contra a vida dele, realizado por uma bajoriana que trabalhava na estação. Por sorte, ele escapa com vida. 

Quantas demonstrações públicas de fervor religioso não são, na verdade, uma cortina de fumaça para encobrir a busca por poder político?

***

Ainda em Deep Space Nine, o episódio “Accession” (“Aceitação”; DS9 4×17, 1996) mostra a sociedade bajoriana dando um verdadeiro cavalo de pau após a revelação de um novo emissário dos profetas em vez do capitão Sisko. Uma nave de quase 300 anos de idade de repente sai do buraco de minhoca perto da estação. Seu ocupante é Akorem Laan, um lendário poeta bajoriano cuja obra, inacabada, é conhecida por todos no planeta. Chegando à estação, ele diz que se perdeu e achou que havia morrido, mas na verdade havia sido salvo pelos profetas e devolvido naquele momento, já que os habitantes do buraco de minhoca não ligam muito para o conceito de tempo. 

O poeta Akorem avalia o “pagh” do capitão Sisko em “Accession”.

Akorem se espanta ao conhecer a major Kira, já que, segundo seu sobrenome, ela deveria ser uma artista e não parte das forças armadas. Ela explica à equipe da DS9 que, antes da ocupação cardassiana em Bajor, um sistema de castas era usado para dividir a sociedade, então cada família tinha sua função já pré-definida. Essas castas, chamadas de “d’jarras”, foram abandonadas quando Cardássia invadiu o planeta porque todos precisaram lutar, não importando sua origem familiar.

As “d’jarras” lembram bastante o sistema de castas ou varnas da Índia. Apesar de não chegar a ser tão específico quanto à ligação obrigatória entre a casta e a profissão, o sistema indiano acabou sendo usado para fundamentar a exclusão social, em especial dos chamados “intocáveis”, e até hoje é observado em regiões mais conservadoras do país. 

Imaginem então a confusão que seria a reintrodução de um sistema como esse em pleno século 24 em Bajor. O capitão Sisko, que havia ficado aliviado a princípio, ao perder o posto de enviado dos profetas, fica muito preocupado quando Akorem faz um discurso inflamado defendendo a volta das “d’jarras”. Segundo o poeta, os profetas deviam tê-lo devolvido justamente naquele momento porque os bajorianos teriam perdido seus costumes e, com o fim da ocupação cardassiana, seria hora de retomar as tradições e “cicatrizar as feridas”. “Os monges precisam voltar aos templos, os fazendeiros à suas fazendas. Será como se a ocupação nunca tivesse acontecido.” 

Mas havia um problema enorme: adotar uma sociedade discriminatória de castas tornaria impossível a inclusão de Bajor na Federação. Isso agrada muito à kai Winn, que sempre foi contra essa integração, mas coloca em risco a missão de Sisko. 

A adoção das castas também tem implicações diretas na política interna de Bajor. O primeiro-ministro, Shakaar, é de uma casta de fazendeiros. Segundo o novo emissário, ele não precisaria renunciar de imediato, mas na eleição seguinte poucos votariam nele, preferindo alguém de uma família “certa” para esse cargo. Kira informa ao capitão que vai sair de seu posto militar para se mudar para a província dos artistas em Bajor, ainda que suas tentativas de esculpir deixem clara a sua falta de aptidão manual. E ainda piora: uma bajoriana, ao ver Kira procurando assento no refeitório, deixa a major sentar-se em seu lugar porque a casta da major seria superior à dela. A coisa chega ao ponto em que um vedek mata outro porque supostamente seu “d’jarra” era impuro e a vítima havia se recusado a sair de seu posto como sacerdote. 

Diante desse caos, Sisko chama Akorem para a estação e o desafia quanto à posição de verdadeiro emissário. Ambos embarcam rumo ao buraco de minhoca para falar com os Profetas. Eles querem respostas, mas os Profetas gostam de falar da forma mais indireta possível, como sempre. O mais importante é que eles entendem que as castas são algo do passado, que eles aprenderam com Sisko são as coisas que não podem voltar a ser. Akorem é então devolvido ao seu próprio tempo e termina sua obra, o “Chamado dos Profetas”. Sisko retoma seu posto como emissário e percebe que já está mais à vontade nesse papel do que ele mesmo poderia imaginar. 

***

A série Enterprise também se aventura um pouco no campo do uso político da religião em um episódio sobre um grupo missionário bem radical. Em “Chosen Realm” (“Reino Escolhido”; ENT 3×12, 2004), o capitão Archer está naquela parte do espaço onde existem anomalias que causam bastante dano às naves e também misteriosas esferas, estruturas que, até ali, eles ainda não haviam desvendado. 

Archer recebe um pedido de socorro de uma nave do planeta Triannon, cujo capitão, D’Jamat, lidera um grupo de peregrinos religiosos que procuram as esferas metálicas. Para eles, as esferas são feitas pelos Criadores. As anomalias espaciais causadas por elas seriam o “sopro” dos Criadores – e que sopro forte, não? Vários dos religiosos exibem cicatrizes pelo corpo por conta de encontros passados com as anomalias. A Expansão Délfica, a região do espaço onde eles estão, para eles é o “Reino Escolhido” e vai se tornar o paraíso de todos os que creem nos Criadores. Já de imediato a subcomandante T’Pol se mostra contrariada com a interpretação dada por D’Jamat para os fenômenos espaciais que eles encontram por ali, mas religião não se discute. 

O radical D’Jamat na ponte de comando da Enterprise em “Chosen Realm”.

A tripulação de peregrinos está bem baleada fisicamente, mas eles não permitem que o dr. Phlox os examine usando todos os seus instrumentos. Eles seguem restrições quanto a tratamentos médicos, lembrando um pouco o que ocorre com as Testemunhas de Jeová. Os seguidores dessa religião não permitem o uso de transfusões de sangue retirado de outras pessoas, por conta de sua interpretação da Bíblia. 

No caso dos seguidores de D’Jamat, descobrimos que existe um motivo bem objetivo para esse veto aos exames médicos: eles carregam dentro de si um explosivo orgânico e podem acioná-lo a qualquer momento, virando homens-bomba. Um exame mais profundo com certeza revelaria a presença e o modo de funcionamento do explosivo, e é o que acaba acontecendo depois. 

Não demora muito para D’Jamat colocar seu plano em ação e tomar a Enterprise de assalto, ordenando a um de seus seguidores que acionasse sua bomba interna. E então descobrimos qual é a missão real desses peregrinos: vencer uma guerra. O planeta deles, Triannon, está muito atrás da Federação em termos de tecnologia. Por lá, existem dois grupos religiosos em conflito há muito tempo. A ideia deles é levar a Enterprise até seu planeta natal e usar suas armas para detonar o outro lado, os “hereges”. É a velha guerra santa, como as Cruzadas cristãs e a Jihad islâmica. 

Phlox e Archer conseguem desativar os explosivos internos dos peregrinos e tomam a nave de volta. Ao chegar a Triannon para desembarcar D’Jamat e seu grupo, a Enterprise encontra somente devastação. O final da história ecoa o clássico episódio “Let That Be Your Last Battlefield” (“A Última Batalha”; TOS 3×15, 1969). Ali, como em Triannon, os dois lados de uma guerra destroem o planeta todo. No fim, não havia mais nada pelo que lutar. 

***

Mas será que a religião pode se tornar uma força transformadora a partir das bases da sociedade em vez de estar nas mãos de líderes radicais? Em “Bread and Circuses” (“Pão e Circo”; TOS 2×25, 1968), na Série Clássica, a Enterprise está buscando uma nave que havia se perdido e encontra somente destroços próximos a um planeta bem similar à Terra. Uhura consegue captar sinais de TV vindos de lá e, para a surpresa de todos, os programas são ao estilo do século 20 da Terra, só que exibem lutas de gladiadores, como na Roma antiga. 

O trio Kirk, Spock e McCoy desce ao planeta, sempre se relembrando de manter a Primeira Diretriz e não revelar sua verdadeira origem – curiosamente eles não se vestem como os habitantes locais para tentar se integrar e não escondem seus instrumentos. Chegando lá, eles são abordados por moradores meio maltrapilhos que se dizem “Filhos do Sol”. O grupo é composto de escravizados que haviam se refugiado longe da cidade para não serem pegos pelos guardas. Um deles era um ex-senador que foi para o lado dos servos ao se converter ao culto do Sol. 

Spock e McCoy são obrigados a lutar na arena televisionada em “Bread and Circuses”.

Apesar de ser bem parecido com a Terra, neste lugar o Império Romano nunca acabou, e com ele permaneceram também a escravidão e as lutas entre gladiadores. Ao longo do tempo, como conta Flavius Maximus, um ex-gladiador, o império foi fazendo pequenas concessões aos escravos, como uma aposentadoria para os mais velhos e atendimento médico. Esses pequenos ganhos acabaram arrefecendo as revoltas dos escravizados, explicando o motivo de o sistema não ter caído até então. Só que havia começado a se espalhar entre eles a religião dos “Filhos do Sol” (“Children of the Sun”), e as revoltas ganharam força novamente.

A exemplo do que ocorreu no Império Romano da Terra, no qual o cristianismo começou a se disseminar pelas camadas mais baixas da sociedade até chegar aos próprios imperadores, os “Filhos do Sol” também estão crescendo, só que com o um atraso considerável, pensando que eles já estão no que seria o século 20 da Terra. A ideia de igualdade e solidariedade entre os homens dessa religião seria devastadora para uma sociedade baseada no escravismo e na humilhação pública dos gladiadores na TV. 

Kirk, Spock e McCoy acabam presos e obrigados a lutar contra gladiadores em frente às câmeras de TV, depois de descobrirem que o capitão da nave que eles estavam procurando havia se transformado em um dos líderes do Império Romano alienígena. Eles são salvos da execução por Scotty, que consegue abalar a rede de eletricidade do planeta e permite a fuga dos tripulantes. 

No final, Uhura desenha para quem ainda não entendeu: os seguidores do Sol (“Sun”) podem ser também os seguidores do filho (“Son”) de Deus. A similaridade das palavras em inglês faz parecer que o eco da Terra possa ter sido ouvido um pouco errado pelo planeta distante. A equipe da Enterprise já sabe que as coisas estão bem perto de mudar por ali. 

 

Escrita pela jornalista Débora Mismetti, Grandes Jornadas é uma coluna semanal publicada às sextas-feiras no Trek Brasilis, destacando tematicamente segmentos de Star Trek e convidando a uma revisita desses episódios por um ponto de vista diferente.


Descubra mais sobre Trek Brasilis

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.