GRANDES JORNADAS | Quatro episódios de Star Trek sobre encontrar uma cópia de si mesmo

Episódios de hoje…

“The Enemy Within” (“O Inimigo Interior”; TOS 1×5, 1966)
Onde assistir: DVD/Blu-ray e Oldflix
“Time Squared” (“Tempo ao Quadrado”; TNG 2×13, 1989)
Onde assistir: PlutoTV*
“Second Chances” (“Segunda Chance”; TNG 6×24, 1993)
Onde assistir: PlutoTV*
“Faces” (“Duas Faces”; VOY 1×14, 1995)
Onde assistir: PlutoTV*

*Somente dublado

O último episódio da quarta temporada de Strange New Worlds, “Tomorrow’s Enterprise” (“A Enterprise de Amanhã”; SNW 4×10, 2026) que estreou em 24 de setembro de 2026, mostra a tenente Uhura tendo de trabalhar com uma segunda versão de si mesma, só que um ano mais velha, para desatar um nó gigante: parir um bebê espacial (como é?), evitar a morte de Scotty e ainda restaurar a linha do tempo. De fato, há dias em que seria excelente ter um duplo de si mesmo para adiantar as tarefas, mesmo que elas não incluam realizar um parto cósmico num buraco negro. Mas essas cópias muitas vezes criam mais problemas do que resolvem, principalmente pela estranheza de ter que conviver com uma outra versão de si próprio, algo que parece saído dos piores pesadelos.

O primeiro “doppelgänger” a aparecer em Star Trek foi do capitão Kirk em “The Enemy Within” (“O Inimigo Interior”; TOS 1×5, 1966), que não só foi o primeiro episódio a ter um duplo sinistro como também inaugurou a categoria de anomalias causadas pelo teletransporte. O próprio conceito do transporte, que decompõe a pessoa em suas moléculas constituintes e as rearranja em outro ponto do espaço, pode ser visto como uma fábrica de duplos: afinal, a pessoa que entra no transporte é a mesma que sai do outro lado ou é uma cópia? O dr. McCoy achava uma loucura viajar pelo espaço espalhando seus átomos por aí, e não se pode negar a validade de seu receio com essa tecnologia. 

O acidente com Kirk dá mais um argumento para a desconfiança do médico: um defeito no transporte divide o capitão em dois indivíduos, cada um com uma face de sua personalidade. Um deles é educado e racional, manso até demais. O outro é hostil e violento, filmado sempre com alto contraste de luz e sombra para deixar bem clara sua disposição para fazer o mal. 

A princípio, ninguém da tripulação sabe que isso aconteceu. O Kirk “do bem” se materializa e sai cambaleando com Scotty da sala de transporte. Só um pouco depois, o segundo Kirk, a “sombra”, surge e toma os corredores da nave. William Shatner, ainda no início de sua longa carreira à frente da Enterprise, aproveita para performar com os exageros característicos de sua atuação, mas que caem muito bem para informar ao telespectador quem é quem a cada momento em que suas duas cópias estão em cena.

Aos poucos, a equipe da Enterprise começa a perceber que algo está errado. O Kirk malvado tenta se fazer passar pelo outro, mas tem dificuldade de interagir com os tripulantes, bebe conhaque e assedia a ordenança Rand, que escapa por pouco de sua investida. Ao ouvir a jovem relatar o ataque, já na Enfermaria, Spock começa a compreender que pode tratar-se de um impostor. 

Um ponto negativo importante nesse episódio é a forma como Rand é tratada. Não só ela sofre a tentativa de estupro pela sombra do capitão Kirk, mas seu relato só é levado a sério quando outro tripulante confirma ter visto o ataque. No final da história, Spock ainda se refere ao ocorrido de forma jocosa, tirando sarro de Rand. Esse é um momento em que a idade pesa para o seriado.

A cópia mansa do capitão se mostra indignada com o comportamento de seu duplo. Por outro lado, esse Kirk bonzinho está longe de ser perfeito. Ele começa a falhar na liderança da nave, duvidando de suas próprias decisões, demonstrando uma fraqueza que não poderia fazer parte da personalidade de um capitão. A falta de seu lado agressivo começa a lhe custar caro.

Spock conversa com a versão racional do capitão Kirk, que segura a cópia mansa do cãozinho chifrudo em “The Enemy Within”.

Spock e Scotty conseguem consertar o teletransporte e testam a reunião das duas metades em um cachorrinho alienígena que havia sofrido o mesmo problema do capitão. Ainda que o cãozinho com chifre tenha morrido após ser “fundido”, Spock quer tentar o procedimento no capitão, porque está certo de que o cão não resistiu ao choque emocional por ter suas duas metades unidas. McCoy protesta: seria preciso fazer uma autópsia no animal para saber o que causou sua morte antes de submeter o capitão à reunião. 

O discurso de Spock para justificar sua crença de que o capitão sobreviveria ao processo deixa claro o que a série, ainda em seu início, acreditava sobre o futuro da humanidade: nunca deixaríamos de ter um lado selvagem e passional, mas aprenderíamos a dominar esses traços por meio da inteligência e da racionalidade. Essa evolução do ser humano seria o futuro para Star Trek. Spock faz a analogia com suas metades humana e vulcana, que ficam em constante conflito: ele consegue dominá-las por meio do intelecto, assim como Kirk seria capaz de fazer ao ter suas partes unidas de novo. A versão racional do capitão, mesmo ao entrar em conflito com sua cópia enraivecida, demonstra ter compaixão por ela, e consegue ampará-la até a sala de transporte, onde a fusão é finalmente concluída com sucesso.

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Diferentemente de Kirk, Picard não tem paciência alguma com seu duplo em “Time Squared” (“Tempo ao Quadrado”; TNG 2×13, 1989). A Enterprise encontra uma nave auxiliar perdida no espaço e usa o raio-trator para trazê-la ao hangar. Ao descer até lá para conferir, Riker e Worf percebem que a nave é idêntica a outra que já estava pousada ali. Dentro dela, a dra. Pulaski encontra um segundo capitão Picard. 

Esse doppelgänger não consegue explicar de onde veio nem o que está fazendo ali. Ele está abatido e desorientado. Depois de muitos exames, constata-se que este Picard é o mesmo que está na ponte de comando, mas veio de seis horas no futuro. O capitão vai até a Enfermaria para tentar extrair qualquer informação de sua cópia e demonstra toda a sua irritação com o estado lamentável em que ela se encontra. Não é só o problema de ter um duplo diante de si, mas o fato de que, segundo os sensores da nave auxiliar, esse segundo Picard havia deixado a Enterprise momentos antes de sua total destruição, que aconteceria dali a seis horas. Como poderia um capitão abandonar o posto dessa forma? Picard está constrangido com o fato de que, dali a pouco tempo, aparentemente, ele mesmo tomaria essa decisão. 

As duas versões do capitão Picard têm dificuldade em se entender para salvar a Enterprise em “Time Squared”.

O mistério só começa a ser desvendado à medida que o tempo passa e se aproxima do momento em que Picard deixaria a Enterprise. Um vórtex surge sob a nave e começa a sugá-la. Mesmo com os motores no talo, ela não consegue escapar. Raios de energia vindos do fenômeno atingem os dois Picards. Parece que o interesse da anomalia é dirigido a ele, daí a decisão de deixar a Enterprise, justamente para proteger a nave. Ambos os Picards vão ao hangar. O duplo insiste que deve sair a bordo da nave auxiliar. Picard pergunta a ele diversas vezes se havia considerado alguma outra solução. Depois de muito insistir, o duplo diz que seguir em frente destruiria a Enterprise. Então é isso que o capitão decide fazer, para quebrar o ciclo. Ele atira no duplo e ordena que a Enterprise se dirija ao centro do vórtex em vez de tentar escapar dele. O plano dá certo e a cópia desaparece. Será que o capitão ficou mais feliz por ter salvado a nave ou por se ver livre de si mesmo? 

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O comandante Riker também é obrigado a se ver em dobro no episódio “Second Chances” (“Segunda Chance”; TNG 6×24, 1993), e precisa estabelecer uma relação bem mais produtiva com sua cópia do que Picard. Na história, a Enterprise chega a um planeta que Riker havia visitado em uma missão oito anos antes, quando ainda era tenente. O local havia sido evacuado e deveria estar inabitado, mas a equipe é surpreendida ao achar uma cópia dele ali, vivendo isolado por todo aquele tempo. 

O planeta era cercado por uma distorção espacial que dificultava o uso do transporte, então somente ficava aberto à visitação por uma breve janela que se repetia com intervalos de oito anos. Ao sair de lá na antiga missão, Riker havia sido teletransportado e, sem saber, um dos feixes de energia usados para trazê-lo de volta havia rebatido no campo de distorção e retornado à superfície, criando um segundo Riker, que ficou preso ali. O Riker que conhecemos voltou à nave Potemkin sem imaginar que havia deixado uma cópia para trás e seguiu sua vida normalmente.

Ao retornar e encontrar seu duplo, Riker se lembra de como era oito anos antes e se vê revisitando todas as decisões que havia tomado desde a fatídica missão. Uma das mais importantes havia sido desistir do relacionamento com Deanna Troi, que depois se tornaria conselheira da Enterprise, para priorizar o avanço de sua carreira. O segundo Riker fica comovido ao rever Deanna. Para ele, Troi era ainda sua namorada e ele tenta retomar a relação a partir dali. 

O tenente Riker e o comandante Riker batem cabeça durante a missão em “Second Chances”.

Os dois Will Rikers são forçados a trabalhar juntos no planeta, em meio a instabilidades sísmicas, e a hostilidade entre eles é visível. Uma conversa entre Data e Worf resume o motivo do desconforto: vemos em uma cópia todas as coisas de que não gostamos em nós mesmos. 

Troi também se arrisca ao abrir as portas para um possível relacionamento com o novo Riker. Só que, da mesma forma como o original, o duplo sai correndo atrás de um novo cargo, uma chance de retomar sua carreira. Deanna decide não se juntar a ele, priorizando o vínculo com seus colegas de Enterprise e também a estabilidade de sua amizade com o velho Riker. Melhor assim, já que Thomas (ele adotaria o nome do meio de William T. Riker para se diferenciar) terminaria preso pelos cardassianos no episódio “Defiant” (“Defiant”; DS9 3×9 1994), após se juntar aos rebeldes Maquis. Talvez ter ficado esquecido por tantos anos no planeta o tenha deixado mais sensível às injustiças cometidas pela Frota Estelar. 

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Ninguém consegue ser mais produtiva com sua própria cópia do que a engenheira-chefe da Voyager, B’Elanna Torres, em “Faces” (“Duas Faces”; VOY 1×14, 1995). A tenente, cujo pai é humano e a mãe, klingon, tem uma relação conflituosa com sua genética. Ela se ressente do temperamento irascível, próprio dos guerreiros klingons, herdado da mãe, culpando essa característica pelo fato de que seu pai decidiu ir embora de casa. 

Torres é capturada por um grupo de vidianos, uma das espécies encontradas pela Voyager logo no início de suas aventuras no quadrante delta da galáxia. Boa parte dos vidianos sofre com uma infecção agressiva e fatal, então eles vagam pelo espaço procurando seres cujos órgãos e tecidos possam ser aproveitados – de forma involuntária, diga-se – para substituir os que são consumidos pela doença. Ao lado dos borgs, os vidianos são talvez os aliens mais aterrorizantes criados no universo de Star Trek. Seus rostos e corpos são compostos de enxertos de tecidos, tornando-os parecidos com algo saído de um filme de horror corporal ao estilo do diretor David Cronenberg, como Gêmeos – Mórbida Semelhança (1988) e A Mosca (1986).  

Ao acordar no laboratório de um médico vidiano, B’Elanna se sente diferente. O doutor ergue um espelho para que ela se veja: agora ela é inteiramente klingon, com as cristas cranianas mais pronunciadas, dentes pontudos e tudo a que tem direito. O vidiano a criou a partir do DNA klingon da engenheira original, para que ele pudesse testar a resistência da espécie à infecção e talvez sintetizar uma cura caso ela sobrevivesse à doença. Dentro de uma cela, ao lado dos companheiros de nave Tom Paris e Durst, uma outra B’Elanna aparece, abatida. Paris nota que sua aparência mudou: sua testa está totalmente lisa, como de um ser humano sem parentes klingons. Ela é o que sobrou após a extração do DNA alienígena. 

As versões klingon e humana de B’Elanna Torres conseguem trabalhar juntas contra os vidianos em “Faces”.

Enquanto o grupo permanece preso nesse complexo mantido oculto pelos vidianos dentro de uma caverna, a equipe da Voyager tenta achar uma forma de resgatar os colegas. A B’Elanna klingon consegue escapar das amarras no laboratório, usando a força característica de sua espécie. Sua versão somente humana tenta achar uma saída hackeando os computadores da instalação para desativar o campo de força que os mantém sem contato com o exterior e impede que a Voyager os teletransporte dali. Eles têm pouco tempo, afinal, cedo ou tarde todos os prisioneiros dos vidianos acabam tendo seus órgãos extraídos para transplante. É o que acontece com Durst, cujo rosto é enxertado no médico, que tentava ficar mais apresentável para seduzir a cópia klingon de B’Elanna – sem sucesso. 

Quando as duas versões da engenheira se encontram, a parte klingon só fala em partir para cima dos vidianos, usando a força para tentar sair do complexo. A parte humana a critica por só pensar com os punhos e despeja seu ressentimento por ter tido que viver com toda aquela impulsividade dentro de si. B’Elanna parece fazer questão de inferiorizar sua metade alienígena. Por outro lado, é forçada a reconhecer que, sem a klingon, ela já teria sido morta pelos vidianos. De forma similar ao que ocorre com Kirk, a B’Elanna sem sua parte klingon fica sem agressividade e coragem, tendo dificuldade de lidar com o estresse das situações que precisa enfrentar.  

A versão klingon acaba se sacrificando para permitir a fuga de B’Elanna, Tom Paris e do comandante Chakotay, que havia se infiltrado entre os vidianos para salvar o grupo. De volta à nave, o Doutor informa a engenheira que vai usar o DNA extraído do corpo de sua cópia para reintegrar o material genético klingon em seu corpo. B’Elanna se surpreende ao saber que esse procedimento será necessário. Ela diz que nunca havia se sentido mais em paz consigo mesma, apesar de incompleta. Mas o Doutor alerta que sua síntese de proteínas está prejudicada pela falta dos genes klingons e ela não sobreviveria sem eles. De novo, sua metade guerreira se mostra imprescindível. 

Escrita pela jornalista Débora Mismetti, Grandes Jornadas é uma coluna semanal publicada às sextas-feiras no Trek Brasilis, destacando tematicamente segmentos de Star Trek e convidando a uma revisita desses episódios por um ponto de vista diferente.


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