Episódios de hoje…
“Q Who” (“Q Quem?”; TNG 2×16, 1989)
Onde assistir: PlutoTV*
“Phage” (“Fagia”; VOY 1×5, 1995)
Onde assistir: PlutoTV*
“The Search, Part I” e “The Search Part II” (“A Busca, Parte I” e “A Busca, Parte II”; DS9 3×1 e 3×2, 1994)
Onde assistir: PlutoTV*
“Balance of Terror” (“O Equilíbrio do Terror”; TOS 1×14, 1966)
Onde assistir: Oldflix e DVD/Blu-ray
*Somente dublado
O futuro imaginado pelos roteiristas de Star Trek traz a superação das contradições de classe, ao menos na Terra e nos planetas aliados, o fim da escassez e os avanços tecnológicos incríveis que proporcionam a exploração do espaço. Mas nessa vastidão, as naves da Frota Estelar encontram, além de vida e novas civilizações, vilões para gelar a alma dos mais corajosos capitães.
Os borgs são o melhor exemplo de espécie criada sob medida para causar o maior medo possível. Em primeiro lugar vem a repulsa física: os borgs são seres que misturam o orgânico e o cibernético, sempre com um olho coberto por uma prótese, tendo cabos conectados pelo corpo através da pele muito pálida, com aspecto cadavérico. Mas isso é só o começo do terror que eles são capazes de causar.
O primeiro contato com os borgs, no episódio “Q Who” (“Q Quem?”; TNG 2×16, 1989), acontece porque a entidade superpoderosa Q resolve mostrar ao capitão Picard que talvez a humanidade esteja soberba demais em sua conquista do espaço. Para Q, os seres humanos estão se movendo de forma rápida sem saber exatamente o que os espera, mas achando que não vão encontrar uma força opositora à altura de suas capacidades. Picard diz que não tem mesmo como saber o que existe por aí. “Mas estamos prontos para encontrar o que for.” Romulanos e klingons, diz Q, são brincadeira de criança perto do que a galáxia tem para oferecer em termos de horror. Ele tem toda razão.

Um borg retira componentes do cadáver de outro para serem reaproveitados enquanto a tripulação assiste perplexa em “Q Who”.
Para demonstrar que está falando sério, Q arremessa a Enterprise para um setor bem longínquo, a dois anos de viagem da base estelar mais próxima. Guinan, a bartender cheia de mistérios, avisa: é melhor começar a voltar para casa rapidamente. Os el-aurianos, conterrâneos de Guinan, haviam sido varridos de seu próprio planeta pelos borgs, então ela sabe do que está falando. Mas Picard, imprudente, quer dar uma olhadinha nos sistemas da região. É neste momento que a Enterprise passa a ser sondada por uma nave como nunca antes vista: um cubo gigantesco, sem formas de vida que eles possam identificar, sem ponte de comando, sem alojamentos, construída de uma forma homogênea, sem deques dedicados a funções específicas.
Esse é o segundo elemento do horror causado pelos borgs: ao menos nessa primeira aparição, eles não têm líder, hierarquia, personalidades. Todos os indivíduos têm suas mentes conectadas e funcionando em uníssono. Eles falam em uma só voz, pensam em uma só onda. Ninguém precisa dar ordens, muito menos obedecê-las ou contestá-las.
E o terceiro motivo que torna os borgs os inimigos mais perfeitos da Federação: eles mesmos não são uma espécie só. Eles assimilam alienígenas de diversas raças, transformando-os em seres parcialmente cibernéticos, com inteligência artificial implantada no cérebro e integrados na “colmeia”. Uma vez assimilada pelos borgs, uma pessoa deixa de ser quem ela é para simplesmente se integrar a esse pensamento único, tornando-se um zangão na coletividade.
É um pesadelo completo, que já foi até interpretado como uma manifestação do receio dos americanos em relação ao modo de vida socialista, ainda que no fim da década de 1980 os países da zona de influência soviética já estivessem promovendo reformas econômicas e sociais em direção a uma abertura.
Os borgs também têm uma incrível vantagem tática: suas armas e defesas são adaptativas. Um ou dois tiros de faser podem causar danos, mas os seguintes já são ineficazes. O primeiro ataque dos borgs à Enterprise não vem de raios de energia ou canhões fotônicos: eles simplesmente fatiam um pedaço da nave e pegam para si depois de terem visitado a Engenharia e dado uma olhadinha nas capacidades defensivas.
A Enterprise só escapa desse primeiro encontro porque Picard enfim admite para Q que eles estão morrendo de medo e precisam da ajuda dele. Depois desse humilde pedido, a Enterprise é devolvida às suas coordenadas originais num estalar de dedos. Mas as coisas haviam mudado: o vilão mais terrível da galáxia agora os conhecia e, até poderia levar um tempo, mas eventualmente a Federação teria que lidar com essa ameaça.
***
Voyager também criou vilões arrepiantes, que despertam pena e medo ao mesmo tempo. Os vidianos, encontrados pela tripulação de Janeway logo no início de suas viagens pelo quadrante delta, causam repulsa já por sua aparência. Eles são deformados pela fagia, uma doença que infecta praticamente todos de sua espécie. O vírus consome seus órgãos, dando a eles um aspecto de mortos-vivos, somente parcialmente cobertos por pele, como que em estado de decomposição.
A praga os motiva de uma forma obsessiva a aprimorar sua medicina. Para se manterem vivos, eles usam transplantes e enxertos de órgãos e tecidos roubados de seres até de outras espécies. A tecnologia deles para esse fim é avançada: eles conseguem evitar a rejeição mesmo usando material retirado de alienígenas. Na nossa realidade, os problemas causados pela rejeição pós-transplante são muitos, obrigando os pacientes a usarem remédios para baixar as próprias defesas, o que os deixa expostos a diversas infecções. Os avanços dos vidianos seriam muito bem-vindos, fora a parte de roubar órgãos das pessoas vivas, algo que lembra até as lendas urbanas sobre gente acordando sem os rins numa banheira de gelo.
Neelix, um tripulante talaxiano adicionado à Voyager já no quadrante delta, responsável pela cozinha da nave e por alegrar (ou perturbar) os demais colegas, sofre um ataque dos vidianos logo no primeiro encontro com essa espécie em “Phage” (“Fagia”; VOY 1×5, 1995). A nave é atraída a um planetoide que supostamente contém reservas de dilítio, necessário para que a Voyager aumente suas reservas energéticas. Mas, ao explorar o local, Chakotay, Kim e Neelix constatam que os sinais da presença do cristal eram falsos, uma armadilha. Oculto atrás de uma parede falsa, um vidiano dispara uma espécie de arma no peito de Neelix e ele cai, tentando respirar desesperadamente. Seus pulmões haviam sido removidos pelo alienígena sem a necessidade de efetuar um só corte.
O Doutor da Voyager consegue inventar uma solução temporária criando órgãos holográficos para Neelix. Essa estratégia, no entanto, exige que o talaxiano não se mova, sendo obrigado a ficar sob restrição de um campo de força e olhando para o teto. O cozinheiro se desespera em alguns momentos por conta da imobilização, tendo crises de ansiedade.
Janeway e sua equipe descem de novo ao planetoide e acham, no esconderijo dos vidianos, uma espécie de coleção de órgãos num laboratório. Depois de uma perseguição à nave dos ladrões de pulmões, a capitão enfim os captura e se choca ao vê-los pela primeira vez. Seus rostos deformados, com carne viva à mostra, e sua história de dois mil anos na luta contra a fagia deixam Janeway abalada. Um deles é responsável por procurar órgãos pelo outro, como uma espécie de protetor. Na maioria das vezes, os transplantes são feitos de cadáveres. Mas, quando não é possível, eles pegam à força, como fizeram com Neelix. A falta de ética parece já normalizada na sociedade vidiana. O desespero é quem manda por ali. Os pulmões de Neelix estão implantados em um deles, já com alterações genéticas que impediram sua “devolução”.
De qualquer forma, Janeway não tem o que fazer. Ela decide deixá-los ir embora. Qual seria a alternativa? Matá-los? Tocados pela benevolência da capitão, os vidianos pedem para ver Neelix e examinam os colegas da Voyager atrás de possíveis doadores. O Doutor já havia tentado isso, mas ninguém da nave é compatível com o talaxiano, informa ele. Só que na medicina vidiana, as restrições para transplantes já foram muito reduzidas. Kes, namorada de Neelix, parece ser compatível mesmo sendo de outra espécie (ocampa). O transplante de um dos pulmões de Kes é um sucesso. Infelizmente, esta não seria a última vez que a Voyager teria de lidar com os vidianos. Mais grupos dessa espécie ainda voltariam com outras estratégias para tentar “colher” órgãos dos tripulantes da nave.
***
Em Deep Space Nine, a proximidade da estação do buraco de minhoca traz oportunidades de novos contatos com espécies do quadrante gama, mas também um perigo gigantesco: o império conhecido como Domínio. Aos poucos, ao longo das primeiras temporadas, a equipe do comandante Sisko vai entrando em contato com integrantes do Domínio e seus comandados. Conhecemos os jem’hadar, soldados do império, geneticamente aperfeiçoados para serem guerreiros letais e totalmente fieis. Também são apresentados os vortas, burocratas imperiais. Mas leva um tempo até que os líderes de verdade se revelem, os chamados “fundadores” – e não são CEOs de empresas de tecnologia.
No episódio duplo “The Search, Part I” e “The Search, Part II” (“A Busca, Parte I” e “A Busca, Parte II”; DS9 3×1 e 3×2, 1994), a tripulação da DS9 está, pela primeira vez, usando a nave Defiant. Eles decidem atravessar o buraco de minhoca para convencer o Domínio de que a Federação não quer uma guerra, mas também não vai aceitar ser subjugada. A nave era um protótipo da Frota Estelar e contava até com um mecanismo de camuflagem cedido pelos romulanos. A ideia da missão era tentar encontrar os líderes do Domínio por meio dos contatos comerciais que Quark havia estabelecido no quadrante gama. Eles até conseguem uma pista, encontrando uma estação de comunicações do império, mas a nave acaba sendo capturada pelos jem’hadar e somente Odo e Kira escapam. O metamorfo estava estranhamente atraído para uma nebulosa e decide visitá-la, encontrando ali um planeta habitável.
Sisko e a equipe pensam ter conseguido escapar da morte nas mãos dos jem’hadar. Supostamente, Dax e O’Brien haviam convencido os soldados e levá-los aos fundadores, que eram apenas os vortas, que eles já conheciam, e um estranho tratado de paz começa a ser negociado entre a Federação e o Domínio. Os termos do acordo começam a parecer cada vez piores para o comandante Sisko, e a gota d’água é a informação de que a Federação iria entregar o planeta Bajor para o Domínio e se retirar daquela região do espaço. O comandante decide partir para uma missão possivelmente suicida para fechar a entrada do buraco de minhoca, impedindo a vinda das naves do império e adiando uma possível invasão em ao menos 70 anos – tempo que levaria uma viagem do quadrante gama até a DS9 sem usar o atalho espacial.
Enquanto isso, Odo e Kira, no planeta localizado na nebulosa, conhecem pela primeira vez outros seres da mesma espécie do metamorfo. Eles vivem liquefeitos num lago chamado de Grande Elo, compartilhando seus pensamentos, sentimentos e seus corpos. Odo aproveita para melhorar suas habilidades de transformação, com a ajuda da líder dos metamorfos. Parece um final feliz para o chefe de segurança da DS9, enfim em meio aos seus semelhantes. Mas Kira não para quieta enquanto Odo está ocupado virando árvores, pedras e águias. Ela encontra uma porta misteriosa que esconde um laboratório onde vortas e jem’hadars estão conduzindo uma experiência com a tripulação capturada da Defiant. Na verdade, eles não chegaram a voltar à DS9 e toda a história do acordo de paz era uma simulação para que o Domínio soubesse como a Federação reagiria a uma invasão.
E quem comanda o império, no fim, são os metamorfos. Segundo conta a líder, eles decidiram criar um império autoritário em reação à hostilidade dos “sólidos” (como ela chama os seres não metamorfos) ao seu povo. A desconfiança dos humanoides contra uma espécie que consegue se disfarçar de praticamente qualquer coisa criou conflitos. Enquanto os jem’hadars e os vortas mantêm a ordem no império, muitas vezes por meio da violência, os fundadores ficam em seu planeta natal isolados de todos. “O que você controla não pode prejudicá-lo”, explica a líder.
Essa doutrina isolacionista dos metamorfos se combina com a crença deles de que são superiores aos “sólidos”, justificando o regime imperialista, que agora tentaria se expandir para o quadrante alfa. A líder fala em “acabar com o caos” e impor a “ordem”, seguindo a cartilha dos governos autoritários mais perigosos da Terra no início do século 20. No episódio, Sisko e equipe conseguem escapar a pedido de Odo. Ele entende que, mesmo sendo da mesma espécie dos metamorfos, tem pouco em comum com a sua ideologia, e pede para que os deixem ir embora.
Naquele momento, Odo é atendido e todos partem em segurança. Porém o conflito entre a Federação e o Domínio estava apenas começando.
***
A ameaça do Domínio iria aproximar a Federação de um de seus mais antigos inimigos: os romulanos. A Terra havia entrado em guerra com os romulanos já no século 22, o que resultou no desenho da zona neutra, uma área desmilitarizada que separa os territórios dos dois povos. Durante o tempo em que passaram em conflito, terráqueos e romulanos nunca haviam se visto, nem em pessoa nem pela tela das naves, até o clássico episódio “Balance of Terror” (“O Equilíbrio do Terror”; TOS 1×14, 1966), que introduziu a espécie ao universo de Star Trek.
O ponto mais surpreendente na revelação dos romulanos é sua familiaridade. Ao conseguir interceptar o sinal de vídeo da nave romulana procurada pela Enterprise, a equipe do capitão Kirk vê na tela um ser muito similar aos vulcanos, alienígenas que fizeram o primeiro contato com os humanos e abriram as portas das trocas com outras espécies inteligentes da galáxia.
Como seria possível que uma espécie que havia guerreado com os humanos fosse igual aos vulcanos? Seriam a mesma espécie? Um tripulante da ponte de comando da Enterprise logo protesta e joga sua desconfiança em Spock pela semelhança com o romulano, mas toma uma reprimenda imediata de Kirk: “Não há espaço para intolerância na minha ponte”.
A Enterprise estava no encalço da nave romulana após uma série de ataques realizados ao longo das bordas da zona neutra. Disfarçada com sua camuflagem, a nave romulana tentava voltar ao seu território após a destruição de bases federadas, mas não iriam longe. A Enterprise a segue se fazendo de sombra, ao estilo das perseguições em filmes de submarino, acompanhando mas não chegando perto o suficiente para revelar sua posição.
Kirk e o comandante romulano tentam adivinhar os próximos passos um do outro. Kirk leva a melhor e, numa última troca de mensagens, o romulano expressa sua admiração pelo inimigo, concluindo que eles são muito semelhantes e, se fosse outra a situação, poderiam ter se tornado amigos. De fato, a ameaça dos romulanos se define mais pela proximidade com os humanos do que pelas diferenças. Outros inimigos são totalmente alienígenas, desde a aparência física até a forma de organizarem sua sociedade. Já os romulanos são familiares, mais belicosos do que os já pacíficos humanos do século 23 mas certamente não mais agressivos do que os atuais. Ao longo das décadas, a guerra fria com os romulanos iria revelar seus métodos carregados de espionagem, mentiras e criação de pretextos para conflitos. É um inimigo que nos espelha.
Nas mãos de Kirk, o comandante romulano acaba não tendo chance e sua nave é destruída, possivelmente evitando um conflito maior, ao menos naquele momento. Mesmo enquanto aliados da Federação décadas depois, os romulanos sempre seriam um fator de instabilidade e perigo. Nunca sabemos o que eles realmente estão pensando.
Escrita pela jornalista Débora Mismetti, Grandes Jornadas é uma coluna semanal publicada às sextas-feiras no Trek Brasilis, destacando tematicamente segmentos de Star Trek e convidando a uma revisita desses episódios por um ponto de vista diferente.
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