GRANDES JORNADAS | Cinco episódios de Star Trek sobre formas de encarar a morte

Episódios de hoje…

“Emanations” (“Emanações”; VOY 1×9, 1995)
Onde assistir: PlutoTV*
“Death Wish” (“Desejo Fatal”; VOY 2×18, 1996)
Onde assistir: PlutoTV*
“Mortal Coil” (“Confusão Mortal”; VOY 4×12, 1997)
Onde assistir: PlutoTV*
“Half a Life” (“Meia Vida”; TNG 4×22; 1991)
Onde assistir: PlutoTV*
“Dark Page” (“Página Sombria”; TNG 7×7, 1993)
Onde assistir: PlutoTV*

*Somente dublado

O último capítulo da vida é o mesmo para todos, mas cada civilização retratada em Star Trek tem seus costumes e suas crenças sobre a morte. O direito de escolher como colocar o ponto final na própria existência, o que acontece depois disso e como lidar com o luto colocam os personagens por vezes em posições opostas.

A abordagem científica e materialista sobre o que acontece depois da morte entra em conflito com a crença numa vida do além quando a tripulação da Voyager encontra o povo vhnori em “Emanations” (“Emanações”; VOY 1×9, 1995). Na verdade, primeiro os tripulantes encontram somente os cadáveres dos alienígenas, ao explorarem um asteroide que continha um suposto novo elemento da tabela periódica. 

O grupo avançado, comandado por Chakotay, encontra o novo elemento num material parecido com teias espalhadas por todo lado. Mais à frente, os oficiais veem corpos envoltos nessa teia, que é produzida por cadáveres em decomposição no asteroide. Logo, uma espécie de fenda espacial se abre e deposita um novo corpo, mas acaba levando embora o alferes Kim – sempre a vítima preferida dos roteiristas de Voyager.

O fenômeno espacial havia transportado o alferes para um planeta, mais especificamente para dentro de uma cápsula. Quando estão perto de morrer, os vhnori são voluntariamente colocados dentro dos chamados cenotáfios (túmulos vazios), onde são eutanasiados. Esses cenotáfios são construídos em locais onde ocorre naturalmente a fenda espacial que conecta o planeta ao conjunto de asteroides onde os tripulantes da Voyager acharam os corpos. Para esse povo, a cápsula os leva para a “próxima emanação”, como eles chamam a vida após a morte. 

O alferes Kim examina o cenotáfio ao lado do tanatologista vhnori em “Emanations”.

Mas quando os vhnori encontram o alferes Kim se debatendo dentro do cenotáfio, vindo diretamente do outro lado da vida, toda essa crença é posta em xeque. Um dos pacientes à espera da eutanásia se recusa a seguir com os planos após ouvir Kim descrevendo um asteroide cheio de corpos mortos. Afinal, ele achava que ia se reunir com seus familiares na próxima emanação, para uma espécie de nova vida. 

Ao mesmo tempo em que Kim é levado ao planeta dos vhnori, um dos corpos recém-chegados ao asteroide acaba sendo transportado para a Voyager, onde o Doutor consegue devolvê-lo à vida. É uma mulher, Pteria, que escuta da tripulação a mesma explicação sobre o asteroide e os corpos em decomposição. Para ela, aquilo vai contra tudo em que ela acreditava. A próxima emanação era para ser um novo estado de consciência em que os vhnori ganham uma compreensão maior sobre o significado da vida e reencontram seus parentes falecidos, não simplesmente um cemitério. 

Kim acaba conseguindo voltar para a nave, tomando o lugar do paciente que se recusou a ser eutanasiado. Aliás, a crença tão forte na vida após a morte faz com que a eutanásia seja uma saída talvez conveniente demais entre os vhnori. Até pessoas saudáveis optam pelo procedimento quando acham que está na hora de ir embora. Para o alferes, resta o desconforto de ter abalado a fé daquela cultura. Janeway ainda revela que a nave havia detectado um campo energético em torno dos asteroides e parte dele era emitido pelos próprios corpos. Então não é possível saber ao certo o que se passava ali, além do que os olhos podiam ver. 

***

Se em “Emanations” os vohnari tinham o direito de escolher quando morrer, em “Death Wish” (“Desejo Fatal”; VOY 2×18, 1996), acompanhamos a luta de uma entidade que ainda não tem esse privilégio. A criatura é, em teoria, imortal, mas decide defender seu direito ao fim. 

Trata-se de um membro do Contínuo Q, composto de seres onipresentes e onipotentes como o interpretado por John de Lancie desde o primeiro episódio de A Nova Geração. Mas este é um outro indivíduo, que acabará conhecido como Quinn. Ele tem a ideia fixa de encerrar sua própria vida e por isso acaba sendo aprisionado num cometa para que não fosse adiante com seu plano suicida. Para os demais Qs, sua morte seria inadmissível. Só que a Voyager passa pertinho desse cometa e liberta Quinn, que pede asilo na nave. O Q original logo aparece para prender o fugitivo de novo, obrigando Janeway a realizar uma audiência para avaliar o pedido de asilo que, na verdade, era uma petição pelo direito de morrer. 

Quinn debate com Q sobre o direito de abandonar a imortalidade em “Death Wish”.

Q usa todas as armas possíveis para convencer Quinn de que não deve se extinguir. Ele chama à nave, com seus poderes infinitos, diversos personagens da história que tinham sido ajudados por Quinn – como Sir Isaac Newton e até o comandante Riker – para convencê-lo de que sua vida seria indispensável. Só que Quinn demonstra estar cansado. Os membros do Contínuo Q não exercitam mais qualquer tipo de diálogo sobre as questões do universo. Tudo já foi pensado e tudo já foi dito, os mistérios foram esgotados há milênios. A fronteira final, para ele, é o fim da própria existência. 

A imortalidade como algo prejudicial à capacidade de aproveitar a vida (ou até o além) já foi tratada de diversas formas na ficção. Em The Good Place (Netflix), por exemplo, um grupo de pessoas que passam para o outro lado e, depois de muita luta, chegam ao que seria o paraíso, encontram ali almas sem propósito, entediadas com sua vida eterna. Os protagonistas então pedem aos poderes celestiais o direito de ter um fim de verdade. Só assim eles conseguem aproveitar a vida após a morte. 

Janeway decide em favor de Quinn, reconhecendo seu sofrimento, e Q o transforma em um ser humano. A capitão pede que ele tente experimentar a vida comum em vez de acelerar seu fim, mas não tem jeito. Quinn, nome mortal que ele escolhe, acaba tomando um veneno fornecido pelo próprio Q, que admite sua admiração pelo idealismo do colega.

*** 

Ainda em Voyager, é a vez de Neelix questionar a validade de sua própria vida, no episódio “Mortal Coil” (“Confusão Mortal”; VOY 4×12, 1997). Um acidente a bordo de uma nave auxiliar causa a morte do atrapalhado cozinheiro da nave, alívio cômico na maior parte dos episódios. A capitão Janeway já está fazendo os preparativos para a cerimônia talaxiana de luto quando Sete de Nove, recém-adicionada à tripulação, sugere uma terapia com suas nanossondas cibernéticas, ainda presentes em seu corpo após sair da Coletividade Borg, para ressuscitar Neelix. O procedimento dá certo e ele acorda após ter passado quase um dia todo morto. 

Porém Neelix não parece estar à vontade com sua segunda chance de viver. Ele tem uma explosão emocional diante de Sete de Nove e exclama que não queria ter sido trazido de volta, ele ainda se sente morto. Ao passar para o outro lado, ele esperava se encontrar com sua família na Grande Floresta, onde os talaxianos acreditam que vão se reunir aos seus entes queridos no além. Neelix queria ver sua irmã, Alixia, morta anos antes pela explosão de uma arma de destruição em massa durante a guerra em seu planeta natal. Mas ele não viu nada disso durante o dia todo em que passou falecido. Sem essa perspectiva, Neelix perde o sentido da vida. 

Chakotay o guia em um ritual para tentar esclarecer seus próprios sentimentos. Neelix tem uma visão de sua irmã dizendo que a Grande Floresta é só uma história para amenizar a dor da morte. Ela se desintegra no sonho como se estivesse morrendo de novo pela explosão. 

Neelix tem uma visão sobre a vida após a morte em “Mortal Coil”.

Neelix não revela o que viu a Chakotay e, em segredo, planeja se teletransportar para o vácuo do espaço. O alferes Kim e o comandante descobrem e tentam impedi-lo, mas ele responde que, depois da guerra em Taláxia, a esperança de rever sua família no além o manteve vivo nos últimos anos. Agora, nem isso restou. Mas os colegas conseguem convencê-lo de que não há como saber o que nos aguarda após a morte. A visão não quer dizer que não exista nada, mas é um reflexo de como ele se sente naquele momento. A menina Naomi, filha da alferes Wildman, pede que Neelix a coloque na cama e conte as histórias sobre a Grande Floresta, como ele costumava fazer. É um convite inocente para voltar ao mundo dos vivos, mesmo sem a fé de antes. 

*** 

Em A Nova Geração, mais uma personagem que, em geral, serve como alívio cômico protagoniza duas histórias em que a morte está no centro. Em “Half a Life” (“Meia Vida”; TNG 4×22; 1991), a sempre exuberante Lwaxana Troi, mãe da conselheira Deanna Troi, sobe a bordo da Enterprise ao mesmo tempo em que um pesquisador, o dr. Timicin, também chega à nave, para fazer um experimento que pode ajudar a salvar seu planeta, Kaellon II, cujo sol está perdendo energia. 

Lwaxana logo se encanta pelo cientista que, apesar da seriedade na condução de seus testes, parece envaidecido com a atenção dada pela embaixadora betazoide. Os dois viúvos rapidamente se apaixonam. 

Mas existe um problema, além da estrela em declínio no sistema planetário natal do cientista: todos os seus conterrâneos, ao atingirem os 60 anos, cometem suicídio. É o costume de seu povo, para evitar que os jovens precisem gastar energia cuidando de seus idosos. Se no início dos anos 1990, quando a pirâmide populacional da maioria dos países desenvolvidos ainda tinha uma base (os jovens) bem mais larga que o topo (os idosos), questões sobre como cuidar dos mais velhos já eram um tema polêmico, o que dizer de hoje, quando os idosos já são mais numerosos que as crianças e os jovens? 

Lwaxana e Timicin rapidamente descobrem que seu amor será impossível em “Half a Life”.

Claro que a chamada “resolução”, como o povo de Kaellon II apelida o suicídio, é um exagero dramático. Como pensar em eliminar sumariamente todos a partir dos 60 anos, uma faixa etária em que as pessoas parecem mais bem-dispostas do que os cansados quarentões, ainda às voltas com filhos pequenos, trabalho e outras demandas? Mas a discussão ainda é interessante: vale a pena estender uma vida que não tenha qualidade? Até onde seria prudente arriscar pela longevidade antes de ser acometido pela demência, por variadas doenças, pela depressão? Ninguém gosta de pensar nisso. A arbitrariedade dos alienígenas ao estabelecer o limite aos 60 anos é chocante, mas não se pode negar sua fria racionalidade. 

Lwaxana não aceita nada disso e chega a persuadir Timicin a se revoltar contra esse costume. Só que os governantes de seu planeta deixam bem claro: nada do que ele produzir após os 60 anos será levado em consideração. Sua pesquisa será transferida para outro cientista e a vida em Kaellon II continuará como se ele não existisse. O golpe final é dado pela filha de Timicin, munida de um espantoso penteado e de argumentos para persuadi-lo a seguir as tradições de seu povo. O cientista cede, e Lwaxana desce ao planeta para presenciar sua “resolução”, derrotada e resignada. 

***

A mesma Lwaxana se vê obrigada a lidar com uma outra perda, mas do passado, em “Dark Page” (“Página Sombria”; TNG 7×7, 1993). No episódio, a betazoide é confrontada com as consequências por ter tentado fugir do luto e da culpa por muitos anos. Ela começa essa história ajudando um grupo de alienígenas que se comunicam exclusivamente por telepatia a exercitar a fala. Como Lwaxana é telepata, ela está agindo como uma espécie de intérprete e professora trabalhando, em especial, com uma garotinha chamada Hedril (Kirsten Dunst, ainda criança).

Mas Lwaxana parece não estar se sentindo bem. Em vez de falante e intrometida como de costume, ela parece retraída e sem brilho. Ela continua a piorar até que sucumbe a uma espécie de coma logo após ver Hedril tropeçar num laguinho no jardim botânico da nave. 

O pai da menina, com suas altas habilidades telepáticas, se oferece para tentar ajudar Deanna a acessar a consciência da mãe e entender o que está acontecendo. Ao entrar na mente de Lwaxana, a conselheira encontra diversos obstáculos que simbolizam a resistência dela em revelar algo que está ali escondido. Ela vê Hedril nos pensamentos da mãe: ela parece ser a chave do mistério. 

Troi decide investigar os diários da mãe e percebe que existe um intervalo de tempo em branco nos registros. Ao que parece, Lwaxana apagou os arquivos escritos durante sete anos. A conselheira volta a fazer uma ligação telepática com a mãe e, enfim, enxerga a história inteira. Hedril está ali simbolizando a irmã mais velha de Deanna, Kestra, que morreu ainda criança, ao se afogar em um lago durante um passeio no parque. 

Lwaxana abraça Kestra, sua filha falecida, ao lembrar do acidente que tirou sua vida em “Dark Page”.

A conselheira fica surpresa ao descobrir que tinha uma irmã mais velha, o que explica o hábito de Lwaxana de sempre a chamar de “little one”, ou “pequena”. A culpa por ter “permitido” que o acidente tivesse acontecido foi tamanha para sua mãe que ela apagou a existência de Kestra. Deanna encoraja a mãe a falar sobre a filha, celebrar sua vida e, mais importante, tentar se perdoar pelo que aconteceu. Pouco episódios são tão comoventes quanto esse, em especial para quem tem filhos e sabe o que é sentir o peso da culpa por tudo o que acontece a eles e até pelo que não acontece também. Lwaxana precisa reunir coragem para, enfim, viver o luto pela filha e retirar as barreiras mentais erguidas para tentar se proteger contra a maior dor do mundo.  

Escrita pela jornalista Débora Mismetti, Grandes Jornadas é uma coluna semanal publicada às sextas-feiras no Trek Brasilis, destacando tematicamente segmentos de Star Trek e convidando a uma revisita desses episódios por um ponto de vista diferente.


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