Episódios de hoje…
“The Menagerie, Part I” e “The Menagerie, Part II” (“A Coleção, Primeira Parte” e “A Coleção, Segunda Parte”; TOS 1×11 e 1×12, 1966)
Onde assistir: Blu-ray/DVD e Oldflix
“Is There In Truth No Beauty” (“Não Há Beleza Na Verdade”; TOS 3×5, 1968)
Onde assistir: Blu-ray/DVD e Oldflix
“The Masterpiece Society” (“Perfeição”; TNG 5×13, 1992)
Onde assistir: PlutoTV*
“The Loss” (“A Perda”; TNG 4×10, 1990)
Onde assistir: PlutoTV*
“Loud as a Whisper” (“O Som do Silêncio”; TNG 2×6, 1989)
Onde assistir: PlutoTV*
“Melora” (“Melora”; DS9 2×6, 1993)
Onde assistir: PlutoTV*
*Somente dublado
A forma como as pessoas com deficiências foram retratadas em Star Trek evoluiu muito ao longo das décadas: as tintas negativas com as quais o tema é tratado nos anos 1960 vão dando lugar a uma visão mais inclusiva e, ainda que a conta-gotas, até a representatividade dá as caras a partir dos anos 1980.
O primeiro episódio a ser veiculado tratando do tema foi “The Menagerie, Part I” e “The Menagerie, Part II” (“A Coleção, Primeira Parte” e “A Coleção, Segunda Parte”; TOS 1×11 e 1×12, 1966). Aproveitando material gravado para o primeiro piloto, “The Cage”, que não foi ao ar durante a transmissão original da Série Clássica, a história mostra o capitão Pike, que havia perdido a mobilidade e a fala após ser exposto a um tipo de radiação em um grave acidente. Os danos foram extensos e o capitão só consegue se comunicar por meio de apitos emitidos pela cadeira tecnológica que ele usa também para se locomover. Além disso, o rosto de Pike está desfigurado e sem expressão, mas ele mantém suas funções cognitivas.
A situação se coloca como um destino muito cruel, motivando Spock a quebrar as regras da Frota Estelar para levar Pike ao planeta Talos IV, onde os habitantes conseguem criar toda uma existência ilusória que permitiria ao capitão viver livre, ainda que somente dentro de sua mente.
A história se passa, em parte, no julgamento de Spock, que serve como envelope para mostrar como a tripulação anterior da Enterprise havia entrado em contato com os talosianos pela primeira vez, e descoberto sua capacidade de criar as tais ilusões, que são tão realistas que poderiam prender uma pessoa ali para sempre. Daí a proibição estabelecida contra novas visitas ao planeta, tentador demais para um pulinho casual.
Essa visão de que a única forma possível de conviver com uma paralisia grave seria escapar da realidade, ou até morrer, é bem triste. Era até um clichê dizer, após um acidente grave que levasse a uma paralisia, que a pessoa estaria “presa a uma cadeira de rodas”. A noção de que a cadeira ou qualquer tipo de prótese não é o que “prende” e sim o que permite que a pessoa siga sua vida, ainda que de uma forma diferente, carecia de amadurecimento, não só nos programas de TV mas na sociedade como um todo.
Pike, ao menos dentro de sua mente, se livra das sequelas do acidente para viver (talvez) o resto de sua vida em uma ilusão compartilhada com Vina, uma mulher que também está ali escapando do trauma de ter ficado desfigurada após sua nave ter se acidentado. Como Strange New Worlds ainda está no ar, não se sabe se esse destino terá alguma mudança, mas talvez seja possível aproveitar a revisita ao personagem do capitão Pike para atualizar essa abordagem de sua condição.
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Em “Is There In Truth No Beauty” (“Não Há Beleza Na Verdade”; TOS 3×5, 1968), a pessoa com deficiência é a dra. Miranda Jones, mas esse fato fica oculto por boa parte da história. Interpretada por Diana Muldaur que, anos depois, daria vida à polêmica dra. Pulaski em A Nova Geração, a dra. Jones sobe a bordo da Enterprise trazendo o embaixador Kollos, um medusiano, dentro de uma caixa. Os indivíduos dessa espécie seriam disformes e tão feios que só de olhar para um deles um ser humano enlouqueceria. A alusão aqui é à história da Medusa, criatura com cabelos de serpente da mitologia grega. Ao olhar para ela, um homem poderia virar uma estátua. Somente Spock, por ser meio vulcano, pode olhar para Kollos, além da dra. Jones, que tem poderes telepáticos.
A ideia de fazer uma parceria com os medusianos é torná-los navegadores na Frota Estelar, por sua capacidade singular de se orientar entre as estrelas. O fato de ninguém poder olhar para eles é um grande empecilho para isso, então a missão da dra. Jones é estabelecer uma ligação mental com Kollos. Ela chega à nave com um vestido que tem uma sobreposição de tule cravejado de pedrarias, um figurino que impressiona.
A beleza de Miranda leva a uma crise de ciúmes de um colega que viajava com ela. Ele tenta matar o embaixador Kollos, mas acaba vendo o medusiano e enlouquece, indo diretamente para o setor de Engenharia da nave e acelerando tanto o motor de dobra que a Enterprise sai da galáxia e vai para uma região onde os tripulantes não conseguem navegar, por não terem pontos de referência.
A solução seria colocar Kollos para orientar a nave de volta a um local conhecido, mas para isso seria necessário estabelecer a ligação mental. A dra. Jones insiste em fazer a conexão, mas o dr. McCoy a repreende fazendo uma grande revelação: ela deveria saber de suas próprias limitações para pilotar uma nave, afinal, ela é cega. Miranda consegue esconder isso de quase todos ao usar o tule com pedrarias, que na verdade é uma rede com sensores que lhe permite ter dados suficientes para não ser obrigada a revelar sua deficiência visual. Ela destaca que a invenção lhe dá informações até mais precisas do que a visão comum. Miranda faz questão de manter sua cegueira oculta para evitar ser alvo de sentimentos de pena que as pessoas teriam por ela. Como telepata, sua sensibilidade a isso é aguda.
De novo, a deficiência acaba sendo retratada como algo negativo, e a pessoa com deficiência é mostrada como alguém que precisa evitar o próprio problema. Em vez de o tecido com sensores ser retratado como uma invenção maravilhosa que proporciona completa autonomia para a dra. Jones, ele acaba sendo mostrado mais como um artifício para manter a deficiência visual oculta.
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O tratamento desse tema começa a ganhar uma perspectiva melhor quando entramos em A Nova Geração. Já no primeiro ano da série, temos Geordi LaForge na posição do leme na ponte de comando. Quase como uma vingança pela dra. Jones, o cego pilota sim a nave capitânia da Federação. É impossível não notar seu visor, um aparelho que parece uma tiara de metal sobre os olhos, mas que proporciona um tipo de visão baseada em sensores que enviam dados ao cérebro. Não é como a visão comum, mas em muitos aspectos acaba sendo superior, como vamos ver em “The Masterpiece Society” (“Perfeição”; TNG 5×13, 1992).
Nessa história, a Enterprise tenta ajudar uma colônia de humanos selecionados geneticamente, que formam uma sociedade na qual o papel de cada indivíduo é determinado por suas características herdadas. As “imperfeições” haviam sido filtradas e os traços desejáveis para cada função social são escolhidos. O líder político tem o dom de ser um bom ouvinte e negociador; os cientistas têm as aptidões técnicas necessárias e assim por diante. Mesmo com gênios tão bem criados, esse mundo ainda precisa da Enterprise para resolver uma ameaça em nível planetário: um fragmento estelar viaja em direção à colônia e precisa ser desviado para não desestabilizar a biosfera onde ela se encontra.
A cientista Hannah Bates, uma das habitantes geneticamene “superiores”, sobe à Enterprise para ajudar Geordi a testar um raio-trator especial, mas eles percebem que a invenção não será suficiente para salvar a colônia. Cansado, Geordi tira seu visor um pouco, e Hannah vê seus olhos esbranquiçados pela primeira vez. Ele percebe que ela está desconfortável ao ver uma malformação daquele tipo. Na colônia, dificilmente Geordi teria nascido: o embrião já teria sido descartado por conta da imperfeição genética. Mas o visor dá uma ideia a eles de como alterar o novo raio-trator, aumentando sua potência sem estourar todos os circuitos da nave, usando uma tecnologia similar à que o dispositivo de Geordi emprega para não fritar seus próprios neurônios com o grande fluxo de informação transmitida dos sensores.

O engenheiro-chefe da Enterprise, Geordi LaForge, sem o visor que o permite enxergar, em “The Masterpiece Society”.
É a ironia da história: a tecnologia criada para dar autonomia a uma pessoa nascida com baixa visão vai salvar a colônia dos humanos perfeitos.
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Geordi tem uma deficiência congênita, mas, em “The Loss” (“A Perda”; TNG 4×10, 1990), o foco muda para como o surgimento repentino de uma deficiência muda a vida abruptamente.
O problema começa quando a Enterprise detecta um fenômeno estranho, que aparece e desaparece dos sensores. O capitão ordena que a nave pare para investigar melhor e, enquanto isso, a conselheira Troi começa a se sentir muito mal, assim como outros tripulantes, todos sofrendo com dores de cabeça. A nave não consegue mais ligar os motores e ninguém sabe por quê. Troi percebe então que perdeu sua sensibilidade empática: ela não consegue mais ler as emoções dos colegas, muito menos saber se a nave está sendo presa por algum ser inteligente de forma intencional.
A dra. Crusher examina a conselheira mas não consegue dar respostas conclusivas. Troi parece estar calma a respeito do problema e até menciona que os betazoides conseguem se recuperar sozinhos de lesões cerebrais, mas a médica está preocupada e até sugere que ela faça terapia. Riker também tenta dar atenção a Troi, mas ela se mostra refratária, apontando o fato de que as pessoas começam a agir de forma estranha quando alguém passa a lidar com uma deficiência. Provavelmente, como a dra. Jones na Série Clássica, Troi não suporta o sentimento de pena.
Ela tenta continuar atendendo seus pacientes de terapia, mas acaba desistindo e pede demissão ao capitão Picard. Troi confessa a Riker que as pessoas agora lhe parecem ocas, sem dimensão, como se fossem personagens criados pelo holodeck. Assim como os humanos têm seus cinco sentidos, a capacidade de ler as emoções alheias é fundamental para os betazoides. A falta disso deixa Troi sem chão, apesar de, aparentemente, ela estar normal aos olhos dos outros. Afinal, sem a capacidade de ler mentes, a conselheira ainda tem algo a oferecer para a Enterprise? Ela é sempre requisitada para dar seus palpites ao capitão a respeito das intenções dos diversos aliens que a Enterprise encontra e é responsável pela saúde mental da tripulação, contando com sua sensibilidade extra para avaliar os colegas.
Troi é encorajada a voltar ao trabalho depois de ouvir o comentário de uma paciente, que admite que a conselheira havia acertado seu diagnóstico mesmo depois de já ter perdido suas capacidades telepáticas.
Ela se reúne com Data para tentar achar uma forma de se comunicar com as formas de vida bidimensionais que, descobre-se, estavam prendendo a Enterprise num fluxo de movimento que impedia a nave de seguir seu caminho. Troi percebe que eles estavam sendo atraídos para um fenômeno espacial, uma corda cósmica, como mariposas buscam a luz. Isso leva Data e Geordi a pensarem numa forma de imitar o efeito desse fenômeno para distrair os seres por um tempo suficiente para libertar a nave, mostrando que, mesmo sem seu dom empático, Troi ainda consegue provar seu valor dentro da equipe.
Assim que a nave se vê livre dos seres bidimensionais, Troi volta ao normal. Na verdade, ela estava sendo bombardeada pela felicidade deles ao retornarem para a corda cósmica, e suas habilidades empáticas haviam se paralisado temporariamente, como um mecanismo de autopreservação do cérebro. Talvez teria sido possível para Troi lidar com a perda de sua habilidade extra, mas a personagem perderia muito de sua razão de ser sem o dom dos betazoides.
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A representatividade, com a presença de um ator com a mesma deficiência de seu personagem, aparece pela primeira vez em “Loud as a Whisper” (“O Som do Silêncio”; TNG 2×6, 1989), também em A Nova Geração. Howie Seago, ator convidado para o episódio, havia sugerido aos produtores fazer uma história sobre a surdez. Ele mesmo interpreta Riva, um importante mediador da Federação que é transportado pela Enterprise para negociar um tratado de paz entre os dois lados de uma longa guerra no planeta Solais V. Mas Riva tem uma forma diferente de conversar: ele não escuta nem fala, e se comunica de forma telepática com três assessores que são o seu “coro”: um expressa seu lado racional, intelectual; outro seu lado guerreiro, mais passional e a terceira é uma espécie de ponto de equilíbrio (é a única mulher).

O mediador Riva com seu coro: o intelectual, o passional e a harmonia que equilibra a todos, em “Loud as a Whisper”.
A depender do que o negociador está dizendo e de suas emoções, um dos membros do coro fala por ele. Quando ele conhece a conselheira Troi, imediatamente o representante de seu lado passional toma a frente. Já com o capitão Picard, o representante racional fala com mais frequência.
Riva só não poderia prever que, ao descer em Solais V para iniciar a mediação, um dos membros das delegações locais sai atirando e acerta os três membros do coro, desintegrando seus corpos de uma forma bem impressionante: a arma os desfaz deixando seus esqueletos à mostra antes de sumirem completamente. Os negociadores suplicam a Riva que não desista de ajudar a encerrar a guerra entre as facções por causa do atentado, mas ele fica consternado com a morte do coro. Como seria possível estabelecer a comunicação sem o trio?
Algumas opções são analisadas e Riva ameaça desistir. A conselheira Troi afirma que pode tomar o lugar dele e Riva começa a ensiná-la suas técnicas de mediação. Sua principal dica é: transformar as desvantagens em vantagens. Então Troi faz Riva perceber que era exatamente isso que ele mesmo deveria fazer. Ele decide voltar ao planeta sozinho e ensinar os dois lados em conflito a aprenderem, juntos, a linguagem de sinais. Assim, eles teriam uma base comum para começar a conversar e, quem sabe, chegar a um entendimento em direção à paz.
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As questões mais práticas da inclusão das pessoas com deficiência nos ambientes de trabalho são tratadas em “Melora” (“Melora”; DS9 2×6, 1993), mas com um toque interplanetário. A personagem-título do episódio é uma alferes que vem de um planeta com baixa gravidade. Então, ao ter de trabalhar na estação DS9, Melora precisa de um tipo de cadeira de rodas para se locomover, por conta do “peso” exercido pela gravidade sobre seu corpo.
A presença de Melora expõe o quanto a estação, construída pelos cardassianos durante a ocupação militar de Bajor, é tudo menos inclusiva. As portas são um pesadelo para a passagem da cadeira da alferes, e diversas adaptações são necessárias para permitir sua locomoção. Uma pena que nem todo lugar tenha um chefe O’Brien por aí: ele faz o que pode para tornar a maior parte dos espaços acessíveis para ela. O único ambiente em que Melora pode se mover sem auxílio da cadeira ou de implantes é seu próprio alojamento, no qual consegue ativar uma redução na gravidade.
O dr. Bashir é recrutado para auxiliar Melora a se aclimatar à DS9 e, por mais que ele tente ser prestativo, a alferes fica sempre na defensiva, insistindo em não ser tratada como doente. O desconforto de Melora em relação às preocupações da tripulação a respeito de sua condição é retratado ora como exagerado e até como uma certa hostilidade gratuita contra os colegas, ora como uma reação de uma pessoa que, com razão, está cansada de ver todos pisando em ovos em volta de si, como se ela fosse incapaz por conta de sua dificuldade de locomoção. Certamente quem usa cadeiras de rodas no dia a dia se identifica com os momentos de impaciência de Melora.
A história também toca nas promessas de tratamentos milagrosos que tantas vezes são postas diante dos cadeirantes. Recentemente, as notícias sobre resultados obtidos pelo uso da polilaminina têm tido muito destaque, tanto pela esperança despertada nos pacientes com lesões medulares quanto pelo receio de que o sucesso da terapia esteja sendo exagerado por seus criadores. Bashir propõe a Melora um tratamento para aumentar sua resistência muscular e permitir que ela ande sem a ajuda de implantes ou da cadeira de rodas. Ela concorda em iniciar o medicamento, mas logo fica claro que suas habilidades de locomoção só vão melhorar gradualmente e, pior, ela não poderá mais ficar por tempo prolongado em ambientes de baixa gravidade, como seu próprio planeta-natal.
Melora acaba desistindo do remédio e prefere manter as características originais de sua espécie, ainda que elas venham acompanhadas da dificuldade de locomoção. É um desfecho bem sensato: as deficiências não vão deixar de existir com curas milagrosas, e a vida de quem tem um problema semelhante continua, com as adaptações necessárias, e com mais qualidade se os ambientes forem bem projetados para todos – é melhor evitar os arquitetos cardassianos.
Escrita pela jornalista Débora Mismetti, Grandes Jornadas é uma coluna semanal publicada às sextas-feiras no Trek Brasilis, destacando tematicamente segmentos de Star Trek e convidando a uma revisita desses episódios por um ponto de vista diferente.
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