Revisão Literária: The Lives of Dax

The Lives of Dax - coverUma subdivisão interessante da literatura de ficção sobre Jornada nas Estrelas está em suas coletânias de contos curtos e crônicas, como por exemplo, Star Trek: Strange New Worlds, já com vários volumes, que são seleções das melhores histórias submetidas por fãs da franquia. Mais recentemente, uma nova coletânia foi lançada pela Pocket Books, Star Trek Deep Space Nine: The Lives of Dax.

Quando primeiro tive contato com o conceito detrás da personagem de Terry Farrel, Jadzia Dax, em Jornada nas Estrelas: Deep Space Nine, logo de início considerei a sua característica de várias experiências de vidas como um potencial campo fértil para muitas histórias pregressas – algo que praticamente salta aos olhos a respeito da Trill. Bem, esta possibilidade é agora executada na forma de um livro que tem crônicas sobre momentos em particular da vida de cada um dos hospedeiros anteriores do simbionte Dax, de Lela até Ezri. Cada uma destas histórias foi escrita por diferentes autores profissionais, muitos dos quais já trabalharam em ficção para a franquia antes, como o casal Judith e Garfield Reeves-Stevens (co-autores do “Shatnerverso” com Willian Shatner), Michael Friedman, L.A. Graf, Jeffrey Lang, S.D. Perry, Kristine Rusch, Steven Barners (responsável pela novelização do episódio Far Beyond the Stars, meu favorito da franquia) Jill Sherwin, Robert Simpson e Susan Wright.

Compreendendo um período da história do universo de Jornada que se estende de meados do século 21 até o final do século 24, há muito em The Lives of Dax sobre eventos e personagens conhecidos do fã da série, vistos por uma ótica diferente, através da perspectiva do Dax de então. E isto resulta não apenas em uma oportunidade de navegar por estas diferentes épocas universo de Jornada nas Estrelas, mas também em uma chance de podermos acompanhar como um personagem pode receber tantas tintas diferentes para que seja apresentado de muitos modos distintos, seja em gênero, seja em talentos, em habilidades, em sentimentos, em comportamentos ou conquistas; no que cada um destes hospedeiros diferem, e no que se assemelham. A obra apenas arranha estas possibilidades, claro, mas estas lascas de cada um dos hospedeiros de Dax se mostram valiosas e interessantes, em diferentes intensidades.

Não existe realmente nenhum elemento muito específico conectando a ação per se de cada um dos contos, que variam bastante de temática, foco e mesmo período de vida do hospedeiro sobre os quais tratam e, na medida do possível, usam como ponto de partida informações prévias sobre os hospedeiros que tenham sido citadas antes em tela durante episódios de DS9. Um ponto que eu achei bastante interessante, contudo, foi notar que havia um interesse em deixar bastante claro ao longo dos contos pré-Curzon que a informação sobre os Trills terem simbiontes e tudo relacionado sempre teria sido um assunto reservado, e pouco conhecido por não-Trills, inclusive pela Federação. Isto vem a combinar diretamente com os eventos vistos no primeiro episódio da franquia sobre os Trills, The Host, de TNG, onde constatamos que a tripulação da Enterprise-D inicialmente desconhece a natureza simbiótica dos Trills. Acredito que este ponto deve ter sido uma das coisas que o editor da obra, Marco Palmieri, deve ter mantido em mente quando do seu trabalho de coordenar as diversas histórias com os autores destas. Uma atenção a detalhe que me agradou.

Já um certo problema que tive com The Lives of Dax no seu geral foi algo que a obra talvez tenha herdado do cânone oficial da série. Pode ser apenas implicância minha, o que classifica a coisa como uma de minhas tradicionais cricas, mas achei que ao longo de suas vidas, Dax escolheu por se aproximar particularmente de Trills com simbiontes, mais do que eu acredito que seria mera coincidência. Como bem sabemos, há poucos simbiontes para muitos candidatos, coisa que resultaria no fato de que a porcentagem da população total da espécie que possui um simbionte seria razoavelmente pequena. Assumir que Dax teria sempre interagido de maneira mais próxima com Trills com simbiontes, como os contos parecem ter a tendência de sugerir (maridos, esposas, filhos, amigos, colegas) é algo no mínimo estranho, e dá uma sensação de que os Trills com simbionte se considerariam uma casta superior que só convivem com quem possui simbionte.

The Lives of Dax abre com uma história introdutória de Ezri, segue por cada um dos hospedeiros anteriores, fechando novamente com a jovem alferes. Neste artigo, vou dar uma rápida passada por cada um dos textos dos hospedeiros de Dax, com um breve comentário sobre os contos a nossa disposição. É importante considerar que estes comentários terão os chamados spoilers, ou seja, informações referente a tramas de episódios de temporadas de DS9 que são ainda inéditas no Brasil.

Mas vamos as histórias. São elas…

Second star to the right… (Ezri Dax)
por Judith & Garfield Reeves-Stevens

A primeira das histórias de The Lives of Dax tem para si a tarefa de introduzir um contexto no qual as demais histórias irão se seguir. Isto vem a ser desenvolvido na primeira das duas distintas partes que Second star to the right… possui. Nesta primeira, Ezri Dax interage com Vic Fontana, o cantor de Las Vegas holoconsciente, em uma simulação em uma holosuíte de Quark de mais uma batalha história na Terra, dos arquivos de Bashir e O`Brien – não pergunte. Na conversa que os dois engatam, vamos para a segunda parte do conto, que leva acima e adiante uma das pedras fundamentais da história pregressa de Ezri, sobre como é que a moça acabou se tornando uma trill unida ao simbionte Dax em primeiro lugar. É uma história largamente discutida durante a sétima temporada de DS9, o momento que Ezri embarca no jogo.

Aqui, em Second star to the right…, temos o detalhamento destes eventos, com a jovem Trill relatando para Vic os eventos a bordo da USS Destiny, e como um ataque Jem’Hadar resultou na urgência de encontrarem um hospedeiro para o simbionte a bordo, assim, de bate-pronto, e vemos então como é que a moça realmente se sentiu quando todas as cabeças acabaram-se virando na direção dela, escalando-a a um procedimento para o qual ela não apenas nunca se preparou, mas também contra o qual sempre teve razoáveis reservas, apesar de ser tradição de seu povo e tudo o mais. A narrativa com Vic não me prendeu tanto a atenção como eu imaginei que prenderia, e me agradei mais com o relato dos eventos na Destiny; embora é verdade também que a interação com Vic trouxe mais sustância em relação a personagem do que a parte na Destiny.

First Steps (Lela Dax)
por Kristine Kathryn Rusch

A primeira hospedeira do simbionte Dax também foi uma pioneira em muitos campos, como esta primeira trama de The Lives of Dax, por Kristine Rusch, nos demonstra. Lela Dax foi uma das primeiras mulheres a conseguir ser membro do Conselho de Trill, uma espécie de parlamento do planeta, pelo que pode-se aprender na história relatada. Também importante foi acompanharmos como esta ainda jovem política e jovem Trill com simbionte foi peça chave em provocar profundas mudanças na sociedade de seu povo. A trama se desenrola durante o equivalente ao século 21 terráqueo, e há inclusive citação por parte de Lela Dax sobre mais um dos recentes primeiros contatos que os vulcanos fizeram, com uma intrigante espécie conhecida como “humanos”. A se notar também, a participação de T’Pau, renomada líder vulcana vista antes em Amok Time, da TOS.

Em First Steps, Lela Dax acompanha mais um dos primeiros contatos que os Trills tiveram com uma espécie alien. Até aquele momento, Trill não tivera muito contato com espécies aliens a não ser com os vulcanos e mais alguns poucos, pois a sociedade Trill escolheu por se manter afastada do convívio interespécies, e de muitas maneiras fechada a aliens. Esta política viria a se mostrar um equívoco quando uma espécie alien tenta fazer contato com o planeta, e Lela Dax se encontra em uma posição difícil para alguém ainda tateando por experiência. Ela age conforme sua consciência parece lhe sugerir; ora tem sucesso, e ora não. O encontro da jovem conselheira com a então diplomata vulcana T’Pau também é um dos pontos altos desta interessante trama da primeira vida de Dax, pois a ajuda a nortear mais o seu comportamento. No todo, uma trama bem escrita e que inicia a saga de Dax de maneira bastante adequada.

Dead Man’s Hand (Tobin Dax)
por Jeffrey Lang

Seguindo adiante com o próximo hospedeiro, temos Tobin Dax, um engenheiro. Sujeito intrigante, Tobin. Ele demonstra ser um geek que parece se sentir um tanto quanto desconfortável mesmo em um universo que a princípio deveria ser bastante amigável a geeks; mas não sendo o bastante, nosso segundo hospedeiro de Dax acaba em uma típica situação de peixe fora d’água, quando a nave de pesquisa terráquea em que se encontra trabalhando é tomada por Romulanos, em plena Guerra Humano-Romulana, tão famosa na cronologia de Jornada. Exceto por ele e por um vulcano, Skon, toda a tripulação é tomada como refém e os Romulanos se preparam para assegurar a nave capturada para estudarem as suas capacidades de dobra espacial – estamos falando de Romulanos desta época aqui, que ainda não tem tal capacidade, segundo aquilo que se conhece sobre esta guerra.

Cabe a Tobin e Skon, portanto, encontrarem uma maneira de evitar estes eventos. E nisto, acompanhamos o razoavelmente atrapalhado Tobin procurando colocar suas inseguranças e temores sob controle para botar o plano dele e do vulcano em prática. Não vou falar muito, mas é suficiente dizer que o conto sugere que a solução deles é que teria inspirado a Frota Estelar a adotar capacidades de separação de disco em suas futuras naves. Dead Man’s Hand é um bom conto, embora um tanto quanto indeciso, eu diria, em decidir se é uma trama de ação ou uma análise social, pois temos de tudo, aqui: visão dos Trills a respeito dos Vulcanos, dos Vulcanos a respeito dos Trills, e de ambos a respeito dos Humanos. Não que eu esteja necessariamente reclamando, também – estamos aqui em The Lives of Dax em busca justamente disto, certamente.

Old Souls (Emony Dax)
por Michael Friedman

O conto sobre o terceiro hospedeiro de Dax, Emony, parte de uma ótima premissa pré-estabelecida no cânone da série, ou seja, o encontro que esta Trill e Leonard McCoy tiveram, como citado por Jadzia durante o episódio Trials and Tribble-Actions, de DS9. Na ocasião do episódio, a Trill citou para um admirado Benjamin Sisko que Emony imaginou que McCoy se tornaria um médico, “pois ele tinha as mãos de um cirurgião”. Através desta história de Michael Friedman, aprendemos como ela teria tido esta impressão, onde durante uma competiçăo de ginástica no Mississipi, um jovem McCoy se envolveu romanticamente com a já madura Emony Dax, uma veterana ginasta e uma das juízas da competição. Pessoalmente, eu achei que Emony deu mole para McCoy de maneira frívola demais, como se isto estivesse acontecendo apenas para servir a necessidade da trama — o que não deixa de ser uma verdade, de certa maneira.

Seja como for, em Old Souls, temos não apenas este romance, mas também podemos acompanhar um ainda inseguro jovem McCoy, que ainda realmente não se decidiu pelo que se guiar para seu futuro. Aparentemente, os eventos com Emony o influenciaram muito, não só por ter tido a chance de se tornar íntimo de uma mulher como Emony era, mas também devido a eventos marcantes ocorridos durante a competição esportiva, que relacionam um dos competidores, um Tessmano que também era colega de quarto de McCoy na universidade que sediava os jogos, e todo o ódio que esta espécie, os Tessmanos, tinham dos Trills. Questões como aceitar as pessoas como elas são, e além de tudo, como elas foram, norteiam bem a história de Emony em The Lives of Dax. Minha ressalvas a esta história se resumiram mais em como Friedman retratou a Terra do início do século 23, como sendo ainda um lugar onde aliens, embora presentes, não eram comuns, um conceito com o qual eu sempre tive reservas em Jornada nas Estrelas – no meu ver, uma Terra mais cosmopolita seria algo com tintas bem mais interessantes a se tratar. Ainda assim, há aqui e ali elementos da capital da Federação os quais achei bem interessantes.

Sins of the Mother (Audrid Dax)
por Stephani D. Perry

O conto a respeito de Audrid, a quarta hospedeira do simbionte Dax, também é um que parte de um conceito pré-estabelecido em tela, durante o episódio Nor the Battle to the Strong, no qual ficamos sabendo que Neema, filha de Audrid Dax, passou mais de oito anos sem falar com a măe. Em Sins of the Mother, Stephani Perry, traça o relato do motivo de tal ruptura entre mãe e filha, com Audrid relatando em uma carta para Neema os eventos que motivaram a razão de Neema ter se revoltado contra ela. No caso em questão, Neema acabou por descobrir que Audrid, enquanto Chefe da Comissão de Simbiose Trill, nada menos, permitiu que seu próprio marido falecesse sem que o seu simbionte fosse transferido para outro hospedeiro. Neema jamais perdoou a mãe após tal ato, e agora, oito anos depois, Audrid relata para a filha na sua carta os eventos que motivaram sua decisão, e como uma pesquisa científica a um cometa, liderada pelo casal de Trills e Cristopher Pike (depois de ter saído do comando da Enterprise) acabou com um terrível desfecho.

A trama é intrigante, e a narrativa é poderosa e emotiva, na qual podemos sentir a tensão da missivista. Contudo, o estilo escolhido por Stephani Perry, como uma longa carta, foi por demais cansativo de ler, na minha opinião. Poucos diálogos, e todo o rodeio inicial que demonstra o nervosismo de Audrid Dax fizeram com que a leitura fosse em muitos momentos um tanto difícil. O texto ter sido impresso em itálico, para denotar uma narrativa de escritor de um documento, acabou também colaborando para cansar a leitura per se, pois não é uma fonte muito recomendável de se usar em longos trechos de texto. Sins of the Mother se sustenta realmente no peso de sua trama, tanto em relação aos sentimentos demonstrados por Audrid como na narrativa dos eventos liderados por ela, seu marido e o capitão Pike, outro rosto conhecido do fandom que dá o ar da graça em Lives of Dax.

Infinity (Torias Dax)
por Susan Wright

A trama que envolve o conto a respeito de Torias Dax, Infinity, se passa imediatamente antes dos eventos vistos em Jornada nas Estrelas II: A Ira de Khan e dos dois filmes seguintes. Contudo, é também de se notar que Infinity também calça muito de seus elementos naquilo visto em um dos piores episódios da história da franquia, Threshold, de Jornada nas Estrelas: Voyager. Susan Wright combina elementos dos filmes, no caso o projeto de transdobra que envolvia a Excelsior, com as teorias apresentadas no episódio, segundo o qual se cruzar a barreira de transdobra significaria estar acima de dobra 10, e portanto, “acima do infinito”, seja lá o que for que isto significaria.

Embora foi agradável termos a familiaridade toda envolvida por novamente vermos rostos conhecidos, como a então cadete Saavik e o pomposo capitão Styles da Excelsior, as referências a todo o tenebroso tecnobable de Threshold me geraram calafrios, para não falarmos do começo do conto, praticamente idêntico ao do episódio, onde o capitão Torias Dax pilota um shuttle acima de dobra 10 em uma simulação. No meu ver, teria sido melhor deixar de lado a possibilidade que a experiência de transdobra original que seria utilizada na classe Excelsior tivesse alguma relação com as experiências da tripulação da Voyager no quadrante Delta. Este é um bom exemplo de que pode haver situações nas quais sempre se manter fiel demais ao que existe no cânone não é necessariamente uma coisa boa.

Mas enfim. De qualquer modo, foi interessante vermos em que circunstâncias teria ocorrido o incidente que clamou a vida do primeiro hospedeiro de Dax a ter entrado na Frota Estelar, evento já citado antes em episódios de DS9, mas nunca detalhado. É de onde Infinity tira o seu melhor, pois no que tenta estabelecer relação entre os eventos de Threshold, também não consegue serviço melhor do que este episódio em tornar convincente ou mesmo interessante as teorias de “acima do infinito”, improváveis até mesmo para os padrões de ficção-científica de Jornada nas Estrelas. É até possível que tal tema conseguisse ser adequadamente desenvolvido enquanto enredo e trama, mas por ora, em duas tentativas, dois fracassos.

Allegro Ouroboros in D Minor (Joran Dax)
por Stephani D. Perry e Robert Simpson

Apenas uma única história poderia realmente ser contada a respeito de Joran Dax, e foi o que tivemos neste esforço colaborativo entre Stephani Perry e Robert Simpson: as cirscunstâncias pelas quais Joran se tornou o “hospedeiro esquecido” na linhagem de Dax, e como teria morrido apenas seis meses depois de ter recebido o simbionte de Torias. O resultado disto foi que tivemos um bom conto policial de investigação de assassinato que teve um ar de “Dragnet do Espaço”, de certa forma. Uma dupla de investigadores Trills seguem a trilha de mortes provocadas por Joran Dax, situação a qual demonstra bem o desequilíbrio que pode ocorrer em haver rejeição entre hospedeiro/simbionte, resultado de falha de julgamento sobre o candidato a hospedagem pela Comissão de Simbiose. Segundo o cânone pré-estabelecido, é um evento raro, mas que já acontecera antes.

Portanto, a narrativa não se foca apenas naquilo que se passa na mente conturbada de Joran Dax, mas também se foca bastante em Gard e Kov, a dupla de policiais Trills que trabalham no caso, como eles fazem esta investigação, que leva finalmente Gard a confrontar Joran, mas não vou revelar muito sobre o desfecho da trama, que flui de maneira bastante suave (apesar de intercalar a ação ora em Joran, e ora em Gard) e mesmo elegante, pois o background de Joran como músico imprime uma certa classe natural ŕ narrativa. Allegro Ouroboros in D Minor realmente preenche muito bem os espaços sobre aquilo que se descobriu a respeito de Joran Dax em episódios de DS9 como Equilibrium, Facets e Field of Fire. Realmente, o conto é um dos pontos altos de The Lives of Dax.

The Music Between the Notes (Curzon Dax)
por Steven Barnes

Curzon é provavelmente o mais conhecido dos hospedeiros do simbionte Dax pré-DS9, mas apesar disto, raramente tivemos a chance de o vermos de fato em ação – a chance disto chega agora, neste conto de Steven Barnes. Adicionalmente, o “personagem especialmente convidado” para este conto não poderia ser outro senão Benjamin Sisko, é certo – aqui, um jovem alferes que faz as vezes de lugar-tenente de Curzon. E não apenas isto, de fato: a narrativa é nos contada pelo próprio Sisko, em primeira pessoa.

Acompanhamos o relato de Sisko em observar como o Embaixador Curzon lida com as negociações com duas espécies diferentes, Azziz e Bactricans, cada uma delas com agendas próprias, as quais deviam ser levada em consideração por Curzon adicionalmente ŕ da própria Federação. Sobre a trama em si, tivemos o bussiness as usual de uma negociação diplomática federada, com Embaixadores de potências estelares negociando tratados e tudo o mais, em uma estação espacial da Federação, além de outros detalhes particularmente intrigantes aqui e ali, como uma nave alienígena onde os componentes e peças desta são seres vivos conscientes, como o equipamento de navegação, sistemas de tradução, motor de dobra, enfim, as peças são a tripulação e são a nave.

Particularmente sobre Curzon, ficou claro que o Trill era um ótimo sujeito a se conhecer: boa-praça, daqueles que o convida a tomar um trago e bater um papo, sem se preocupar com supostas hierarquias que separariam um homem em sua posição do seu convidado. A história nos dá inúmeros bons momentos de interação de Sisko e Dax, de diversos modos: embates filosóficos, lições mentor/pupilo, camaradagem de colegas, enfim, todo um leque de situações as quais serviram de amostra do que estaria por vir da parceria que Sisko estava ali formando com o Embaixador; foi daquele momento em diante que teve início a relação sobre a qual Sisko tanto se refere, na qual Dax o ensinou a ver a música por entre as notas, como diz a referência a jazz que o Trill sugere ao humano sempre procurar observar.

Reflections (Jadzia Dax)
por L.A. Graf

L.A. Graf tinha realmente um desafio a sua frente, ao se encarregar de Jadzia para The Lives of Dax; o que falar sobre o mais falado dos hospedeiros de Dax? A premissa em si do conto foi algo bastante interessante, com Graf nos oferecendo uma sequencia a um episódio em particular de DS9, de sua segunda temporada – Invasive Procedures – que de muitas maneiras foi um crash-course sobre simbiose Trill. No episódio original, um Trill chamado Verad tentou roubar o simbionte Dax para si mesmo, o que certamente iria custar a vida de Jadzia. Aqui, em Reflections, Verad volta a carga, envolvendo uma irmã de Jadzia no processo, Ziranne, que misteriosamente aparece com um simbionte na barriga e nenhuma memória clara, seja dela, seja do simbionte penetra.

Vemos que haveria muito mistério a se investigar nesta premissa, mas infelizmente sua execução deixou a desejar, eu creio. As coisas acontecem rápido demais no conto, e antes que você possa dizer Dax, a coisa parece ter sido resolvida, apesar do senso de urgência que Graf parece querer manter no seu texto. Adicione a isto uma certa dose grande demais de biotecnobable envolvido, para se poder justificar toda as idas e vindas de hospedeiros e simbiontes, e temos uma mistura que acabou agradando mais por seus aspectos secundários do que principais. Um bom exemplo disto foram com as informações de background sobre a relação de Jadzia com sua irmã Ziranne, relatadas em flashback, com momento sobre as duas em suas infâncias e também enquanto Jadzia se preparava para os procedimentos de se tornar Jadzia Dax. Tivesse sido trabalhado mais nestes aspectos, Reflections teria tido a chance de nos dar algo realmente diferente sobre Jadzia, e aí sim teria realmente acertado o martelo bem na cabeça do prego.

… and straight on ‘til morning (Ezri Dax)
por Judith e Garfield Reeves-Stevens

Fechando a sequencia de crônicas, temos basicamente a conclusão da história inicial de Ezri, com ela e Vic ponderando sobre os relatos da Trill sobre os eventos das crônicas, as quais ela relatou ao holograma. Não dá para deixar de pensar que nós leitores ficamos com o papel de simbiontes de Vic, enquanto absorvemos os contos que eram para ele relatados, nisto que de certa maneira serviu para Ezri como uma espécie de versão light do zhian’tara, o ritual Trill onde as consciências prévias do simbionte assumem temporariamente o corpo de amigos do atual hospedeiro para que este tenha um contato diferente, vamos colocar assim, com suas prévias vidas. Ezri realmente pode fazer bom uso de uma oportunidade como esta que Vic lhe ofereceu.

Pois fosse como fosse, aqui tivemos Ezri sendo Ezri: ainda razoavelmente confusa sobre a situação que vive, embora esteja trilhando o caminho certo para aprender “de ouvido” aquilo que outros Trills levam anos de preparação prévia antes de sequer se submeterem a avaliação. Some a isto o certo ar de sonsinha que parece emanar naturalmente da personagem de Nicole DeBoer e temos uma irresistível combinação, devo admitir – Ezri Dax parece ter sido moldada para ser exatamente neste tom (e a sua função de Conselheira da Estação é um toque de ironia claramente planejado, sem dúvida), e tudo isto com a função de servir como um contraponto a Jadzia, aquela Dax que foi uma segura e decidida mulher, que possuía uma elegância majestosa tanto para trabalhar em complicado tecnobable como para poder derrubar Klingons sem perder o penteado. Mas é verdade que tanto Ezri como Jadzia estão em vantagem, aqui em The Lives of Dax, considerando que ambas são duas das titulares deste livro as quais podemos também acompanhar detalhadamente em tela.

Enfim, Star Trek Deep Space Nine: The Lives of Dax é uma leitura altamente recomendada não apenas para devotos fãs da Trill, mas também para todos os fãs que desejam ler tramas bem lastreadas em desenvolvimento de personagem, e também com muita informação geral sobre o todo do universo onde se passa Jornada nas Estrelas.

A análise fecha com uma cotação de três estrelas e meia em quatro, bem merecida.

Star Trek Deep Space Nine: The Lives of Dax
por vários autores
347 páginas, paperback
Publicado por Simon & Schuster Adult Publishing Group
Dezembro, 1999 e republicado em Janeiro de 2003

Edição em paperback
Sumário sobre o título no Memory Alpha

15 Comments on "Revisão Literária: The Lives of Dax"

  1. Mariana Gamberger | 16 de setembro de 2008 at 8:23 am |

    Muitos artigos do antigo TB ainda nao foram trazidos para essa nova versao. Embora ainda estejam online, atraves do Conteudo classico, resolvi trazer essa revisao para ca pois estou organizando uma listagem com os livros de DS9 e The Lives of Dax nao poderia faltar.

    Alias, por acaso estou lendo esse livro nesse momento, entao depois comento alguma coisa especifica sobre o livro.

    Mariana

  2. cade a revisao dos livros do shatner ?

  3. eu li: A VOLTA DO CAPITÃO KIRK e achei legal

  4. Só um detalhe em relação ao nome do primeiro conto “Second Star to the Right”. É o endereço da Terra do Nunca que Peter Pan ensina para Wendy. A Terra do Nunca é o lugar onde as crianças, junto com os garotos perdidos e a fada sininho, nunca crescem e vivem intermináveis aventuras com os piratas, índios, sereias, etc. Certamente uma analogia com a vida de Ezri na DS9.

  5. Quando sai o final da revisão de Star Trek: To Reign in Hell — The Exile of Khan ?

  6. Luís Henrique Campos Braune | 16 de setembro de 2008 at 5:58 pm |

    Quando eu crescer quero ser igual ao Leandro Martins…

  7. Leandro Martins | 16 de setembro de 2008 at 6:22 pm |

    Estou com a próxima parte de To Reign in Hell adiantada, mas não pronta. Tão logo fique, podem contar com ela aqui no TB.

  8. Junior:

    Não é justamente essa uma das últimas fala do Kirk, na Ira de Khan??? Não sabia o significado da “segunda estrela a direita”. Ia ser perfeito para um filme que traz como tema o envelhecimento!!

    Por isso que eu amo a Ira de Khan, são tantas referências…

  9. Tomalak e Junior, salvo engano é a última fala de Kirk em Jornada VI depois de Spock mandar a Frota “se danar”, obviamente se, ele fosse humano em resposta a ordem para a Enterprise se apresentar a base estelar mais próxima para descomisionamento.

  10. Tomalak
    Essa frase estava no livro de ST II, mas nao no filme e acabou sendo utilizado no ST VI

  11. Confundi! Mas sabia que já tinha visto em algum lugar…

    Seria mais legal se tivesse sido em STII.

  12. Eu pensei que vc pudesse ter lido o livro e confundido. A propósito, tanto no filme II qto no VI, deveriam ter colocado o final dos livros. Na mminha opinião foram melhores.

  13. Verde: como é o final do livro do filme VI?

    Ah que saudades da Editora Aleph. Já pensou se tivesse dado certo e ela tivesse publicado mais livros de ST? E aquela que publicou o Retorno do Capitão Kirk… iria publicar mais, mas ficou na promessa 🙁

  14. No final do livro de ST VI, a embaixatriz klingon e o Cap. Kirk se abraçam. ficou estranho, todos aplaudirem a eles.

  15. Frank e Tomalak, é a última fala de Kirk em Jornada VI, mas também é uma homenagem à obra de Peter Pan, que é do final do século XIX e certamente é do conhecimento do capitão Kirk

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