TOS 1×01: Where No Man Has Gone Before

tos0204.jpgEpisódio discute axioma “poder absoluto corrompe absolutamente”. Leia agora a revisão do Trek Brasilis para “Where No Man Has Gone Before”, de Jornada nas Estrelas: A Série Original.

Sinopse:

Data Estelar: 1312.4.

Cem anos atrás, a SS Valiant encontrou uma barreira de energia desconhecida na borda da galáxia e algo fez com que seu capitão destruísse a própria nave.

A USS Enterprise encontra o gravador de registros da Valiant, que revela que antes da destruição, a tripulação procurava freneticamente nos computadores toda e qualquer informação sobre percepção extra-sensorial.

O capitão James Kirk decide descobrir o que aconteceu com a Valiant e ordena que a Enterprise atravesse a barreira energética. Não só a nave sofre avarias graves, como também alguns tripulantes. Kirk nota uma forte mudança de personalidade em seu velho amigo, o tenente Gary Mitchell, que adquiriu habilidades paranormais após o contato com a barreira. A escalada de poderes de Mitchell foi progressiva. Em menor grau, a dra. Elizabeth Dehner também foi afetada e passou a ter poderes psicocinéticos.

tos0202.jpgConforme os poderes de Mitchell aumentam, ele se torna mais perigoso. Spock acredita que quando a Valiant passou pelo mesmo fenômeno, seu capitão decidiu destruir a nave para evitar que algum tripulante com esses poderes pudesse tomar conta da galáxia. Gary Mitchell confirma seus temores ao declarar-se um deus que irá dominar os seres humanos. Spock acredita que a morte de Mitchell é a única solução, mas Kirk é incapaz de matar seu velho amigo.

Em vez disso, ele planeja abandonar Mitchell em um planeta desabitado, Delta Vega. No entanto, quando chegam à superfície, Mitchell consegue escapar, levando a dra. Dehner com ele. Kirk o segue com um rifle feiser e Mitchell tenta matá-lo com seus poderes psicocinéticos.

Observando isso, a dra. Dehner percebe o quão desumano e perigoso Mitchell se tornou e tenta ajudar Kirk a derrotá-lo. Sem remorso, Mitchell mata Elizabeth Dehner. Antes que ele pudesse se fortalecer, Kirk provoca uma avalanche com o rifle feiser, soterrando Mitchell.

Comentários:

tos0201.jpg“Where No Man Has Gone Before” é um episódio que trata de um tema que seria recorrente em Jornada nas Estrelas: o axioma “poder absoluto corrompe absolutamente”.

No entanto, o maior destaque fica para a abordagem do tema, feita com qualidade. A história busca evitar a todo custo o estigma “Mitchell é o monstro da semana! Vamos acabar com ele!” para enfocar o dilema do capitão no momento de escolher entre seu amigo e sua nave.

Neste dilema, a dra. Dehner e Spock fazem contraponto, equilibrando Kirk entre eles. Neste episódio, a dra. Dehner fez um papel posteriormente atribuído a McCoy, de fornecer ao capitão oposição a Spock.

Quanto ao drama pessoal de Mitchell, podemos dizer que o tenente-comandante representa no nível do indivíduo um dilema vivido por toda a humanidade. A grande questão proposta é: temos sabedoria suficiente para controlar poderes capazes de ocasionar nossa própria destruição?

Se para Mitchell, todo o problema era o seu alto nível de percepção extra-sensorial, para a humanidade, a dificuldade é administrar o poder de se construir bombas atômicas, de produzir alimentos transgênicos e de alterar nosso próprio código genético. Levando a metáfora adiante, vemos que o autor do episódio não guarda muita esperança ou capacidade de transcendência para a humanidade (vide o triste fim do amigo de Kirk).

Do ponto de vista técnico, o episódio mostra todas as qualidades que a NBC queria para o segundo piloto de Jornada. O segmento tem ação, emoção, aventura, sem se perder das qualidades do piloto original.

Os cenários são um híbrido do que seriam pelo resto da série com os resquícios deixados pelos tempos de Christopher Pike. Os uniformes sofreram do mesmo fenômeno.

Os personagens ainda não mostram um alto grau de desenvolvimento, o que seria apenas normal, devido ao pouco conhecimento da produção e dos atores acerca de sua própria criação. Os melhores desenvolvimentos são os de Scotty, que aparece pouco, mas quando surge na tela é perfeitamente reconhecível como o engenheiro dos melhores momentos da Série Original; Kirk, que é bem interpretado por William Shatner, mas ainda sem todo o carisma que o marcaria nos episódios posteriores; e Spock, que vai bem quando sua intervenção é essencial à história, mas é fraco em momentos corriqueiros, que permitem que o vulcano sorria e grite em algumas situações sem a menor justificativa.

Os personagens convidados (Dehner e Mitchell) mostram interpretações extremamente convincentes. Destaque para Gary Lockwood que mostra de forma impressionante a maldade e prepotência de Mitchell em Delta Vega.

tos0203.jpgOs efeitos especiais estão acima da média da série. Um orçamento superior para o piloto é o responsável pela qualidade. A tomada usada para mostrar a grande barreira que envolve a Via Láctea foi usada diversas vezes na série.

Um fato que já começava a mostrar o potencial de Jornada para criar um universo inteiro ao seu redor é a atenção dispensada pela produção ao detalhe. É possível ler o histórico de Mitchell e Dehner na tela da estação de ciências da ponte. Já no segundo piloto se via a vontade de construir o rico background de Jornada.

Citações:

Mitchell – “Didn´t I say you´d better be good to me?”
(“Eu não disse que é melhor ser legal comigo?”)

Dra. Dehner – “Don’t you understand? A mutated, superior man could also be a wonderful thing!”
(“Vocês não entendem? Um mutante, um homem superior poderia também ser algo maravilhoso!”)

Trivia:

  • Neste episódio vemos pela única vez na Série Clássica um rifle feiser; a Enterprise não usa cristais de dilítio neste episódio, e sim, cristais de lítio.
  • Este episódio foi produzido em 1965, como segundo piloto para a série.
  • Gary Lockwood (Mitchell) é conhecido dos fãs de ficção científica, tendo protagonizado o clássico “2001: Uma Odisséia no Espaço”.
  • Neste episódio, o nome de Kirk é grafado como James R. Kirk. Mais tarde, o “R” viraria “T” e o nome do meio do capitão seria estabelecido como Tiberius.

Ficha técnica:

Escrito por Samuel A. Peeples
Direção de James Goldstone
Exibido em 22/09/1966
Produção: 02

Elenco:

William Shatner como James T. Kirk
Leonard Nimoy como Spock
James Doohan como Montgomery Scott
George Takei como Hikaru Sulu

Elenco convidado:

Gary Lockwood como Gary Mitchell
Sally Kellerman como Elizabeth Dehner
Paul Fix como Mark Piper