DSC 2×04: An Obol For Charon

Jornada emocional com pitadas clássicas transforma Saru para sempre

Sinopse

A Número Um vem a bordo da Discovery para atualizar o capitão Pike sobre os reparos à Enterprise. Aparentemente, a nave teve uma falha completa de sistemas por uma incompatibilidade com o sistema holográfico de comunicação. Pike ordena que ele seja todo removido, aderindo à comunicação por tela, que já era sua preferência pessoal.

Sua primeira oficial aproveita para informar que também andou investigando a situação do tenente Spock e conseguiu informações sobre as coordenadas da nave auxiliar que ele usou para fugir da Base Estelar 5.

Enquanto isso, no gabinete do capitão, a tripulação discute o Anjo Vermelho, e Michael informa que nenhuma espécie da base de dados federada bate com a descrição das aparições. Detmer especula que possa ser um indivíduo singular, em vez de uma raça. Saru, por sua vez, pouco colabora — sentindo-se mal, ele diz que está enfrentando uma infecção viral. Linus demonstra simpatia, tendo superado uma gripe recentemente.

Pike chega à reunião e ordena que Detmer coloque a Discovery no rumo de perseguição à nave auxiliar de Spock. Mas não tarda e eles são tirados de dobra e mantidos inertes por uma enorme nave-organismo esférica. Após uma tentativa de comunicação, a tripulação passa a enfrentar uma séria dificuldade técnica — o tradutor universal começa a traduzir todas as falas e interfaces para idiomas incomuns. A ponte vira uma Torre de Babel, e Michael chama Saru para que ele possa, com seu domínio de 94 idiomas, resolver a situação.

A crise na ponte é superada, mas ainda há que se proteger o resto da nave. Na engenharia, Stamets está com Tilly, enquanto os dois investigam a estranha criatura que foi extraída de dentro do corpo da alferes. Ela está contida no cubo de esporos, e a dupla recebe a visita de Jett Reno, enviada pela chefia da engenharia para realizar reparos e manutenção por ali. Ela e Stamets trocam farpas, e a situação se converte em crise quando a criatura se prende ao braço de Tilly.

No resto da nave, os problemas continuam. Saru é levado à enfermaria por Burnham e Pike, na esperança de que a dra. Pollard possa ajudar o kelpiano. Mas ele já sabe qual é o problema e informa que sua condição é terminal: ele está passando pelo Vahar’ai, os últimos e agonizantes momentos na vida de um membro de sua espécie. Os gânglios de perigo inflamam, e a dor é terrível. Em seu planeta, seria a hora de ser “colhido” pelos ba’ul para uma morte misericordiosa. Mas a bordo da Discovery ele tem poucas perspectivas, senão prosseguir ajudando na tentativa de salvar a nave do organismo espacial gigante.

Recusando-se a permanecer na enfermaria, Saru sugere a criação de um anticorpo digital para combater o vírus alienígena que infectou os computadores. Michael e ele partem para executar esse plano, mas a comandante está frustrada por Saru jamais ter lhe contado nada sobre sua cultura e biologia. O kelpiano explica seu embaraço em admitir que sua espécie prontamente se oferece para o abate, e pede que Michael catalogue seus diários pessoais, a fim de que eles se tornem disponíveis aos kelpianos quando finalmente for a hora de a Federação fazer primeiro contato com eles.

Burnham vai à engenharia saber como estão as coisas com Tilly, e Stamets sugere a modificação da interface que ele usa para se conectar à rede micelial a fim de permitir que a criatura presa à alferes possa se comunicar através dela. Isso dá a Michael uma ideia: e se o organismo espacial está não tentando sabotar, mas sim se comunicar com a Discovery? Ela corre para apresentar a sugestão a Saru, que concorda. Seus instintos empáticos sugerem que a criatura espacial está tentando fazer um contato final, transmitir seu legado, antes de morrer.

Os dois precisam convencer o capitão Pike disso. Ele está preparado para disparar torpedos fotônicos e libertar a nave antes que o veículo de Spock saia do alcance dos sensores. Mas a argumentação de Saru e Burnham é convincente, e ele decide seguir o plano deles — baixar os escudos e captar todas as transmissões que a criatura espacial fizer.

Na engenharia, a tentativa de comunicação fracassa, e num ato de desespero Stamets e Reno decidem perfurar o crânio de Tilly para implantar um sensor cortical diretamente no cérebro. Usando uma broca esterilizada de improviso, eles procedem com a trepanação e instalam o dispositivo, finalmente fazendo contato com “May”. A criatura diz ser de uma espécie chamada jahSepp, e informa que os saltos da Discovery estão danificando irremediavelmente seu ecossistema — a rede micelial.

Stamets promete fechar permanentemente o contato com a rede, mantendo-a protegida, mas ele quer a libertação de Tilly. A criatura se recusa, dizendo ter outros planos para a alferes. E então ele a envolve num casulo. Stamets e Reno lutam para libertá-la.

Na ponte, a Discovery capta todas as transmissões da criatura espacial e então é empurrada para longe uma fração de segundo antes da morte explosiva do organismo gigante.

Agora é hora de morrer para Saru. Ele pede para Michael levá-lo a seus alojamentos, sob os olhares respeitosos da tripulação, e lá solicita que ela corte seus gânglios inflamados, para que ele possa morrer sem dor. Burnham naturalmente está arrasada, querendo a todo custo evitar a morte do amigo. Ela declara seu amor por Saru, e a relação fraternal dos dois é exposta. Mas quando ela vai cortar os gânglios… eles caem sozinhos. A dor de Saru desaparece, e aparentemente ele está saudável novamente.

Na enfermaria, a boa saúde do primeiro oficial é confirmada, mas Saru está duplamente chocado: além de estar totalmente livre de seu medo instintivo, ele descobre que toda a narrativa que mantém os kelpianos sob o domínio dos ba’ul, o suposto Grande Equilíbrio de Kaminar, é uma mentira.

No gabinete do capitão, Burnham leva boas notícias a Pike: o organismo espacial, antes de morrer, registrou a posição da nave auxiliar de Spock além do alcance dos sensores da Discovery. A perseguição pode continuar.

Na engenharia, tudo parece se encaminhar para um bom desfecho também, mas a criatura, transformada em casulo, dispara altas doses de psilocibina no ambiente, fazendo Stamets e Reno alucinarem. Quando eles voltam a si, Tilly está de volta ao casulo. E, quando eles abrem a estrutura para salvá-la, ela desapareceu…

Comentários

“An Obol for Charon” é um episódio que sabe o que quer, e isso de cara já ajuda muito. Em vez de três tramas diferentes brigando por espaço, como no anterior Point of Light, aqui não há dúvida de onde está o foco do episódio: Saru é o nome do jogo.

Mais uma vez vemos Discovery traçando paralelos entre as criaturas que encontra e o desenvolvimento interno de seus personagens. Na primeira temporada, vimos bonitos emparelhamentos entre Michael e o tardígrado (o “monstro” incompreendido) e entre Michael e o gormagander (a criatura solitária que vaga pelo espaço). Aqui o paralelo é entre Saru e o organismo espacial gigante; ambos enfrentando a morte com dignidade, e ambos preocupados com seu legado. Nenhum dos dois quer que sua vida tenha sido em vão. Enquanto Saru está preocupado que Michael preserve seus diários pessoais para a posteridade, o mesmo se dá com o conhecimento acumulado da criatura gigante — parte orgânica, parte máquina — ao longo de seus 100 mil anos de existência.

A trama do organismo gigante é reminiscente de vários episódios de Jornada nas Estrelas. Visualmente, temos um quê de The Corbomite Maneuver, da Série Clássica, com a desproporção entre a Discovery e a criatura espacial. No conceito, a ideia de uma sonda e/ou criatura tentando deixar sua marca na posteridade remetem a “The Inner Light” ou “Masks”, de A Nova Geração. Mas a conexão singular entre o destino da sonda e o de Saru sopram ar fresco ao clichê. E que trabalho fantástico faz Doug Jones!

A atuação dele, assim como a de Sonequa Martin-Green, é de partir o coração. São momentos de muita intimidade, que aprofundam como nunca a relação dos dois, desenvolvida desde o primeiro instante como uma dinâmica fraternal. Poderia ter ficado piegas ou falso, se a atuação não fosse perfeita, mas a dupla de atores vende muito bem a “verdade” do momento, tornando esses alguns dos lances mais preciosos da série.

Ainda teremos de ver o que essa virtual metamorfose de Saru fará pelo personagem. É o equivalente do que fizeram em Deep Space Nine com Odo ao revelar suas origens, e é certo dizer que o kelpiano nunca mais será o mesmo depois desse episódio. Se será para melhor ou pior, teremos de aguardar para dizer. Mas tudo parece apontar para um planejamento cuidadoso do futuro, o que inspira alguma confiança.

Confortavelmente assentada na posição de trama B temos a crise de Tilly com a criatura da rede micelial — “May”, para os íntimos. Apesar de seus bons momentos — a química entre Stamets e Reno é excelente, Anthony Rapp e  Tig Notaro fazem valer cada palavra nos diálogos, Mary Wiseman mostra grande amplitude em sua atuação, personificando uma história que ganha cada vez mais contornos “Stranger Things”, e David Bowie é sempre David Bowie —, a coisa toda pareceu enrolada demais. Separa a criatura, junta a criatura, faz casulo, sai do casulo, entra no casulo… muito vai e vem pra pouca história de verdade.

Na real, trata-se de um enredo que vem sendo cozinhado em banho-maria por várias semanas, sem se mostrar particularmente interessante, o que faz torcer para que seja resolvido o mais breve possível. Quem sabe no próximo episódio?

Ainda assim, já se pode ver nele vislumbres de como o motor de esporos vai subindo no telhado. Primeiro dependia de um tardígrado espacial que sumiu. Depois precisava de um humano geneticamente modificado com DNA de tardígrado. Então passou a afetar o cérebro do único humano capaz de operá-lo. E agora descobrimos que os saltos da Discovery estão bagunçando o coreto das formas de vida residentes na rede micelial, os jahSepp. Os problemas com a tecnologia vão se empilhando, e espera-se que em algum momento uma solução definitiva para a pergunta “por que nunca vimos motores de esporos nas outras séries?” vá se manifestar.

E, por falar em problemas com tecnologia, não podemos passar sem comentar a criativa falha do tradutor universal, subvertendo uma ideia que está nas raízes da franquia e jamais foi explorada dessa maneira antes. A cena é divertida demais!

Por fim, temos a estreia de Rebecca Romijn como a Número Um, primeira oficial de Pike a bordo da Enterprise. Sua função na história é meramente manter a “procura de Spock” em andamento, mas vê-la contracenando com Pike é um sonho realizado para muitos fãs que sempre imaginaram como seriam as coisas caso o primeiro piloto da Série Clássica tivesse sido aprovado sem ressalvas pela NBC, em 1965. Melhor que isso, só quando Spock se juntar à trupe.

“An Obol for Charon” não é um episódio perfeito, nem particularmente original, mas tem o coração no lugar certo e consegue elevar o personagem Saru a novas alturas. A conferir os próximos passos do nosso kelpiano favorito.

Avaliação

Citações

Saru – “How do I explain to the woman who has fought over and over for the right to take her next breath that I come from a race that submits?” (“Como eu explico à mulher que lutou de novo e de novo pelo direito de dar seu próximo suspiro que eu venho de uma raça que se submete?”)

Saru – “But now… knowing that what my people have accepted as the truth is a lie… what does this mean for us?” (“Mas agora… sabendo que o que meu povo aceitou como a verdade é uma mentira… o que isso significa para nós?”)

Trivia

  • O título preliminar desse episódio era “Lifeboat” (“Bote salva-vidas”), antes da escolha por “An Obol for Charon”, referência à mitologia grega. Um óbolo era uma moeda grega normalmente colocada na boca dos mortos para pagar ao barqueiro Caronte pelo transporte da alma ao reino dos mortos.
  • Na lista de personagens do roteiro, a Número Um é apresentada como a “tenente Una”, nome dado à personagem em alguns dos romances de Jornada nas Estrelas. Mas, como não foi dito em tela por ninguém, segue sendo não canônico.
  • Aqui ficamos sabendo que os saurianos têm seis canais nasais.
  • Mais uma vez Saru coloca sal em seu chá, algo que já sabemos que ele gosta de fazer desde a primeira temporada.
  • Ao se referir ao engenheiro-chefe atual da USS Enterprise, Louvier, Pike brinca que a nave “jamais terá outro engenheiro-chefe que tenha mais amor pela nave”, numa piada envolvendo o futuro responsável pela engenharia da NCC-1701, Montgomery Scott, que até sairá na mão com klingons para defender a honra da nave.
  • A comandante Nhan aparece pela primeira vez após sua estreia em “Brother“, vindo a bordo e permanecendo na USS Discovery. Aparentemente ela agora é a cabeça da segurança da nave. Nhan veste uma nova saia, e com calças, variante do uniforme padrão da série.
  • The Brightest Star” é referenciado aqui, sendo até o momento o único episódio de Short Treks a ter alguma relevância nesta segunda temporada de Discovery.
  • Mary Wiseman e Anthony Rapp também cantam a música de David Bowie “Space Oddity” em um episódio da série Carpool Karaoke, lançado em 8/02/2019.
  • Wilson Cruz não aparece neste episódio. Até o momento, o ator fez apenas uma pequena participação na estreia da temporada.
  • A Data Estelar 1834.2512 aparece no console do capitão Pike, enquanto ele ouve o histórico da esfera em seu gabinete.

Ficha Técnica

Escrito por Jordon Nardino & Gretchen J.Berg & Aaron Harberts
Roteiro por Allan McElroy & Andrew Colville
Dirigido por Lee Rose
Exibido em 07/02/2019
Produção: 204

Elenco

Sonequa Martin–Green como Michael Burnham
Doug Jones como Saru
Anthony Rapp como Paul Stamets
Mary Wiseman como Sylvia Tilly
Anson Mount como Christopher Pike

Elenco convidado

Tig Notaro como Jett Reno
Rebecca Romijn como “Número Um”
Rachael Ancheril como Nhan
Bahia Watson como May Ahearn
Hannah Cheesman como tenente-comandante Airiam
Emily Coutts como tenente Keyla Detmer
Patrick Kwok-Choon como tenente Gen Rhys
Oyin Oladejo como tenente Joann Owosekun
Ronnie Rowe Jr. como tenente R.A. Bryce
Julianne Grossman como computador da Discovery
David Benjamin Tomlinson como Linus
Raven Dauda como Dra. Tracy Pollard

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