DSC 2×03: Point of Light

Episódio pisa no acelerador durante revisita da série à mitologia klingon

Sinopse

Data estelar: 1029.46.

Michael Burnham está sem opções para investigar a ligação de Spock com os misteriosos sete sinais, quando a Discovery é visitada por uma nave vulcana. Michael a reconhece imediatamente como a nave de Sarek, mas quem está a bordo é Amanda Grayson. Ela traz consigo uma cópia clandestina do prontuário médico de Spock, surrupiada da Base Estelar 5, e pede a ajuda de Burnham para decriptá-la.

Enquanto isso, Tilly participa de uma meia-maratona a bordo da nave, ao lado dos outros selecionados para o Programa de Treinamento de Comando. A alferes, contudo, está perturbada pelas aparições constantes de May, o “fantasma” de uma colega de escola que já morreu. Tilly faz de tudo para tirá-la da cabeça e, num sprint final, acaba vencendo a corrida e batendo seu próprio recorde, para a surpresa de Saru e de Michael Burnham.

Em Qo’noS, a chanceler L’Rell apresenta, ao lado de seu portador da chama, Voq/Tyler, a nova nave do Império Klingon unificado — a D7. Mas sua autoridade é confrontada por Kol-Sha, pai de Kol, da Casa de Kor. O ancião ainda insiste em usar as pinturas de rosto típicas de seu clã. L’Rell ordena que Kol-Sha tire a pintura, mas ele se recusa, até que Tyler/Voq o força, esfregando a mão no seu rosto.

Apesar da relação próxima entre L’Rell e Tyler, ele ainda resiste a ela — as coisas jamais serão as mesmas de quando ele era Voq. A ligação mais forte dele é com Michael Burnham — a quem ele contata por holograma subespacial para revelar a precariedade da liderança da chanceler.

Mais tarde, a bordo da Discovery, Burnham e Amanda tentam convencer o capitão Pike a abrir os arquivos de Spock. Ele alega que as regras o impedem de fazer isso, mas faz contato com o capitão Diego Vela, da Base Estelar 5, que revela que Spock matou três pessoas e fugiu da instalação. O tenente agora está sendo procurado por um grupo especial.

Pike, assim como Burnham e Amanda, não acredita por um momento sequer que Spock seja culpado e ordena que Michael abra os arquivos.

Durante o processo de análise do prontuário, Amanda diz se sentir culpada pela situação do filho, e Burnham retruca indicando que provavelmente ela, sim, é a culpada — na juventude, ela teria feito algo para Spock se afastar, numa tentativa de proteger a família vulcana após o atentado do Centro de Aprendizagem. Os arquivos, por sua vez, revelam que seu irmão de criação está obcecado com a figura de um Anjo Vermelho, algo que ele teria visto quando criança e que o ajudou a dizer onde Michael estava quando ela tentou fugir de Vulcano após o ataque terrorista.

Perturbada por descobrir que há um conflito potencialmente irreparável entre Spock e Burnham, Amanda parte, determinada a encontrar o filho antes de todos os outros.

No Programa de Treinamento de Comando, as coisas vão de mal a pior para Tilly. Na ponte, durante exercícios de acompanhamento, ela deve trabalhar com o capitão Pike, mas a aparição de May continua a perturbá-la, chamando Pike de impostor e dizendo que ela precisa contatar o outro capitão, loiro, mais branco e mais baixo. A interação acaba revelando o estado alterado de Tilly, que, depois de aparentemente gritar com Pike, anuncia sua desistência e deixa a ponte.

Em Qo’noS, Tyler está revoltado pelos maus tratos que o tio de L’Rell, Ujilli, confere a ele. Furioso, ele pressiona o representante da Casa de Mo’Kai, que finalmente admite seu problema: um segredo que ele estava escondendo de Tyler a pedido de L’Rell, mas que não pretende mais preservar. Ujilli então mostra a Tyler que Voq e L’Rell tiveram um filho — um bebê klingon albino.

Na Discovery, Tilly está arrasada, e Michael idem. Numa tentativa de se concentrar num problema que possa resolver, Burnham pede a Tilly que explique o que está havendo. A alferes revela as visões que tem tido e nota que May aparentemente não sabe o que é chorar — algo que a verdadeira May naturalmente saberia. Burnham então conclui que a aparição não é uma alucinação, mas algo real, provavelmente disparado pelo choque que Tilly levou da amostra do asteroide de matéria escura. E como os esporos parecem ter uma reação muito forte ao asteroide, a comandante sugere uma ligação e decide que o melhor caminho é colocar Stamets na investigação.

Na engenharia, testes realizados pelo tenente-comandante revelam que Tilly está mesmo infectada com um fungo multicelular transdimensional, e Stamets desenvolve um meio de extraí-lo usando a amostra do asteroide como uma espécie de “ímã”. O plano dá certo, e a criatura é capturada em um campo de força.

Em Qo’noS, Tyler convence L’Rell de que a coisa certa a fazer é criarem o filho juntos, mas quando vão ao encontro dele, encontram Ujilli enforcado. É uma armadilha, preparada por Kol-Sha, que havia propositalmente inserido nanodispositivos de escuta na tinta do rosto, passados a Tyler quando ele forçosamente tentou remover a pintura facial. Assim Kol-Sha sequestrou o bebê e agora quer trocá-lo por uma renúncia de L’Rell em favor dele.

No local marcado de encontro, há uma grande luta, em que L’Rell e Tyler acabam se tornando presas fáceis. A chanceler é forçada a assinar o documento de renúncia, mas na última hora a dupla é salva por uma misteriosa klingon — na verdade a imperatriz Philippa Georgiou disfarçada, agora parte da controversa Seção 31. Georgiou assinala a L’Rell de que o bebê e Tyler são pontos fracos para ela, e ajuda a chanceler a simular suas mortes.

Diante do Alto Conselho, L’Rell inverte a história em seu favor, alegando que Tyler era um espião e que Kol-Sha deu sua vida para defender a dela. Ao apresentar as cabeças decepadas de Tyler e de seu bebê, ela se autoproclama mais quem uma chanceler — “Mãe” do Império Klingon. Mas ambas as cabeças são fabricações.

A bordo da nave da Seção 31, o verdadeiro bebê é deixado no planeta monastério de Boreth, para ser criado pelos monges locais, e Tyler aceita o convite de Georgiou para tornar parte da equipe da Seção 31, liderada por Leland.

Comentários

“Point of Light” é um episódio que quer marcar o DNA klingon como seu fio condutor, mas que acaba tendo tramas muito diferentes andando em paralelo com apenas tênues conexões entre elas. Nesse sentido, pode ser visto como eficaz tecido conectivo da temporada, mas acaba fracassando enquanto episódio individual.

Nenhum dos enredos em si tem problemas graves. É a falta de unidade e harmonia entre eles que torna o segmento um pouco confuso. Mais uma vez, também, volta a aparecer um problema típico da primeira temporada: a trama anda muito depressa, sem respiro para os personagens refletirem sobre os eventos que transcorrem ao seu redor.

Podemos dividir o segmento em três linhas-mestras: o núcleo “À Procura de Spock”, que consiste no arco mais amplo da temporada toda, com o mistério dos sinais vermelhos e os Anjos; o núcleo “Game of Thrones“, que engloba a trama klingon e a primeira aparição da Seção 31 em Discovery (excluindo-se a cena cortada do último episódio do primeiro ano, claro, que a rigor não faz parte da série) para salvar o dia para L’Rell e Tyler; e o núcleo “Stranger Things“, que parece envolver a situação de Tilly com uma criatura monstruosa transdimensional e, com toda probabilidade, a rede micelial.

Em termos de tempo de tela, a trama A, por assim dizer, seria a do núcleo “Game of Thrones“. E há o que elogiar e o que criticar nela. Começando pelo lado bom, os cenários de Qo’noS são incríveis, e os klingons repaginados com cabelos (oficializando assim a “explicação” de que, no século 23, em tempos de guerra, eles raspam os pelos do corpo, e deixam-nos crescer novamente em tempos de paz) parecem ser a combinação ideal entre alta tecnologia de maquiagem e respeito à arte criativa das encarnações anteriores de Star Trek. Para além dos cabelos, houve uma suavização das próteses no rosto, o que fica especialmente claro com L’Rell, que está ainda mais expressiva nesta temporada. O crédito maior, naturalmente, vai para Mary Chieffo, que continua a brilhar como a líder destemida do novo Império.

Impossível não apreciar também a introdução da D7 e a “harmonização” com o cânone no design de naves. Nesse mesmo sentido, a opção por usar mais inglês e menos klingon nas cenas em Qo’noS — usando por vezes a estratégia adotada para representar o russo em Caçada ao Outubro Vermelho — mostra que os produtores estão atentos ao feedback do público e dispostos a fazer correções de curso (o que por si só também é uma tradição em Jornada nas Estrelas; vide, por exemplo, a mudança da maquiagem do Worf ao longo das temporadas de A Nova Geração).

Além disso, a narrativa em si é interessante e representa uma clássica luta pelo poder ao estilo klingon, como mostrada inúmeras vezes nas séries do século 24, mas nunca no século 23. Vale também elogiar a autoproclamação de L’Rell, à la Elizabeth I, como “Mãe” do Império Klingon — harmonizando também com a tradição shakespeareana desses alienígenas.

O lance do bebê também é um ponto de trama interessante que pode propiciar desdobramentos interessantes. Fosse uma série clássica de Star Trek, poderíamos apostar que ele jamais seria visto de novo; no entanto, com o gosto pela serialização da atual gestão, não seria maluco imaginar que poderemos ver o bebê albino crescer em Boreth e talvez até dar origem a outras histórias. Se isso vai acontecer ou não, ninguém sabe; mas a semente está plantada.

Bem, então o que há para criticar? Talvez o adensamento de toda essa trama em um único episódio, impedindo respiro, após meses sem vermos a quantas andava o império. (Tenha em mente que, entre a cerimônia do armistício em Paris e a partida da Discovery para Vulcano, ao fim da primeira temporada, é bem possível que um bom tempo tenha se passado.) E a introdução da Seção 31, embora não seja inadequada, parece “baratear” a necessidade de lidar com o Império Klingon — foi muito fácil impedir o golpe de estado, com uma única agente e ultratecnologia vinda sabe-se lá de onde. Claro, a despeito disso, é sempre um prazer ver Michelle Yeoh novamente em ação.

Apesar dos pesares, a trama klingon até que para em pé e cria uma plataforma bem mais sólida que na primeira temporada para o desenvolvimento de uma trama doméstica à moda de Westeros. Como fã de Game of Thrones, eu não reclamaria.

Agora, poucos debateriam o fato de que o coração do episódio — o momento que tem maior impacto emocional, a despeito do menor tempo de tela — é a sequência com Amanda e Burnham e sua “procura por Spock”. Mia Kirshner faz um excelente trabalho e dá vida a uma cena que, no papel, era mais exposição que qualquer outra coisa — o desespero, a frustração e a culpa desta mãe que não pôde criar seu filho com o devido calor humano transparecem lindamente, e a atuação se conecta de uma forma muito bonita com o trabalho que Jane Wyatt fez com a personagem na Série Clássica e nos filmes com o elenco original. A semelhança transcende a aparência física e se manifesta na interpretação contida e, ao mesmo tempo, emotiva. Abre-se uma janela para o passado de Spock que só poderia ser descrita como “fascinante”.

Por fim, a sequência que se mostra mais atrapalhada é com Sylvia Tilly e sua assombração favorita, May Ahearn. Vários problemas aqui, mais de execução do que de enredo. A cena da meia-maratona é confusa, meio sem sentido, turbulenta demais, luzes acendendo e apagando; a cena na ponte é toda muito rápida e, novamente, confusa; a cena com Michael encontra a “solução” depressa demais para ser crível, e a cena na engenharia é a menos problemática de todas, mas aí já é tarde demais para salvar as aparências. O problema todo é que o ritmo acelerado vende a confusão mental de Tilly, mas não a angústia. Não temos tempo de vê-la sofrer. Talvez uma cena mais calma, entre ela e May, em que a alferes tenta processar o que está acontecendo sem estar oprimida por alguma coisa, pudesse ajudar. Do jeito que ficou, acabou mal-resolvido, passando aquela impressão de que o importante mesmo é avançar a trama.

Esse frenesi também se manifesta na direção de Olatunde Osunsanmi. Em geral ele é ótimo, mas aqui exagerou na dose. Na cena da ponte, dá até para sentir tonturas de tanto que gira. Respeito o gosto por fazer uma cena daquelas em tomada única, mas às vezes a opção menos ousada é a resposta, e não teria feito mal “blocar” as ações e os diálogos para tornar tudo menos alucinante. Até porque não era uma grande cena de batalha, mas apenas uma nave vulcana ao alcance dos sensores.

Em compensação, fica uma salva de palmas pela cena da comunicação entre Tyler e Michael. Que coisa bonita de se ver, com os hologramas se alternando e depois uma composição mista dos cenários. É o tipo de cena que, numa outra era de Star Trek, seria feita de forma mais barata e muito menos interessante, mas aqui enche os olhos e colabora artisticamente com a trama, contrastando os dois mundos que separam esses personagens. Belíssima escolha.

Agora é ver aonde tudo isso vai dar. Claramente, o episódio é mais “tecido conectivo” da temporada do que uma história com começo, meio e fim, como foram os dois primeiros segmentos do segundo ano. Nesse sentido, remete ao estilo narrativo fortemente serializado do primeiro ano, usando como plataforma para duas de suas três subtramas ganchos construídos na temporada de estreia: a disputa pela hegemonia no Império Klingon e o mistério de Tilly com o esporo verde que pousou em seu ombro ao final de “What’s Past Is Prologue“. A exemplo de muito do que vimos no primeiro ano, impossível julgar apenas por seus próprios méritos. Mas, como diria um certo capitão Lorca, “contexto é para reis”…

Avaliação

Citações

Pike – “Was she this bossy as a kid?” (“Ela era mandona assim quando criança?”)
Amanda – “On Vulcan, we call it ‘persistence’, and yes, she was. She learned that from me.” (“Em Vulcano, chamamos de ‘persistência’, e sim, ela era. Ela aprendeu isso comigo.”)

Georgiou – “Are you sure you want your boy to become a Monk?” (“Tem certeza de que quer que seu menino vire um monge?”)
Tyler – “It’s what L’Rell wants.” (“É o que a L’Rell quer.”)
Georgiou – “And you?” (“E você?”)
Tyler – “To know where I belong, and to whom, and who belongs to me.” (“Saber onde é meu lugar, e com quem, e quem deve estar ao meu lado.”)

Georgiou – “You should consider staying around. Our command believes misfits have merit, so we keep busy.” (“Você deveria considerar ficar com a gente. Nosso comando acredita que desajustados têm mérito, então temos bastante o que fazer.”)
Tyler – “I’m surprised you call yourself a misfit, ‘Emperor’.” (“Estou surpreso que você chame a si mesma de desajustada, ‘Imperatriz’.”)
Georgiou – “The freaks are more fun.” (“Os esquisitos são mais divertidos.”)

Trivia

  • O título original deste episódio era “Expats” (“Expatriados”), que reflete mais a situação de Tyler, Georgiou e do próprio Spock. O título escolhido ao final, “Point of Light”, remete à lenda de Kahless, que de Qo’noS apontou para o sistema estelar de Boreth e disse que um dia ele seria encontrado ali, naquele “ponto de luz”. A história é contada em “Rightful Heir”, de A Nova Geração.
  • Numa versão preliminar do roteiro, o capitão Vela era o almirante Vela.
  • Este episódio revela que Ujilli é o tio de L’Rell, esclarecendo sua relação específica com a Casa de Mo’Kai.
  • Uma klingon vista ao fundo no começo deste episódio usa a insígnia da Casa de Mogh, sem dúvida ancestral de Worf.
  • Este episódio marca a primeira aparição dos klingons com cabelos em Discovery, indicando que é um costume deles raspar os pelos do corpo durante tempos de guerra. Talvez a melhor interpretação disso é a de que eles raspam os pelos em tempo de conflito interno entre as casas, já que o império estava desunido até L’Rell assumir o poder e promover a unificação defendida por T’Kuvma. De toda forma, é mais um costume destinado a cair de moda, pois nenhum klingon raspou seu cabelo durante a guerra civil vista em A Nova Geração.
  • O arquivo médico de Spock traz quatro drogas já mencionadas antes em Star Trek: axonol (“Message in a Bottle”, de Voyager), dylamadon e melorazine (“Man of the People”, de A Nova Geração) e tetrovaline (“Good Shepherd”, de Voyager). Além delas, o estimulante cortropine foi mencionado na Série Animada, em “The Lorelei Signal“.
  • A imperatriz Georgiou mantém seu disfarce como a capitão Georgiou do universo prime ao lidar com indíviduos de fora da Seção 31.

Ficha Técnica

Escrito por Andrew Colville
Dirigido por Olatunde Osunsanmi
Exibido em 31/01/2019
Produção: 203

Elenco

Sonequa MartinGreen como Michael Burnham
Doug Jones como Saru
Anthony Rapp como Paul Stamets
Mary Wiseman como Sylvia Tilly
Shazad Latif como Ash Tyler
Anson Mount como Christopher Pike

Elenco convidado

Michelle Yeoh como Philippa Georgiou
Mia Kirshner como Amanda Grayson
Alan van Sprang como Leland
Mary Chieffo como L’Rell
Kenneth Mitchell como Kol-Sha
Bahia Watson como May Ahearn
Hannah Cheesman como tenente-comandante Airiam
Emily Coutts como tenente Keyla Detmer
Patrick Kwok-Choon como tenente Gen Rhys
Oyin Oladejo como tenente Joann Owosekun
Ronnie Rowe Jr. como tenente R.A. Bryce
Julianne Grossman como computador da Discovery
Xavier Sotelo como capitão Diego Vela
David Benjamin Tomlinson como Linus
Pay Chen como psiquiatra da Frota Estelar
Damon Runyan como Ujilli

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