DSC 2×10: The Red Angel

Anjo Vermelho se revela, e aí fomos surpreendidos novamente

Sinopse

A tripulação vela o corpo de Airiam. Para garantir que nada da Inteligência Artificial malévola que se apoderou dela subsista, suas memórias digitais são totalmente apagadas. Numa tocante cerimônia, os colegas prestam homenagens à companheira caída. Saru pratica um costume de seu povo e entoa uma canção de recordação, enquanto o torpedo contendo os restos mortais da oficial é disparado para o espaço.

Concluído o emotivo funeral, é hora de voltar ao trabalho. A Discovery destruiu a base que servia de Quartel-General da Seção 31, e espera-se que com isso a “infecção” digital do futuro tenha sido contida. A hipótese de trabalho é a de que o Controle do futuro teria usado Airiam para que ela entregasse os dados da Esfera ao Controle do presente, de modo que ele pudesse evoluir, tomar consciência e eventualmente se tornar a malévola IA do futuro, responsável pela destruição de incontáveis civilizações. Trata-se de apenas um dos muitos paradoxos temporais que aguardam a tripulação da Frota Estelar. Numa reunião para debater tudo isso, o estado-maior teme que a ameaça não tenha sido completamente contida, e que novas incursões do Anjo Vermelho possam se converter em oportunidades para o Controle do futuro efetuar outras tentativas de infiltração. Mas a grande surpresa chega com Tilly, quando ela revela um arquivo que descobriu ao limpar as memórias de Airiam: um arquivo chamado Projeto Dédalo, com uma assinatura bioneural do Anjo Vermelho — e trata-se de Michael Burnham.

Na enfermaria, Hugh Culber, ainda em licença, mas colaborando com a equipe, confirma que se trata mesmo da bioassinatura dela. Spock não perde a oportunidade para alfinetar a irmã e lembrar que a ambição de salvar o Universo e tentar afetar coisas muito além de seu controle, como está fazendo o Anjo Vermelho, se encaixa no padrão psicológico dela. O debate é interrompido quando surge a informação de que uma nave da Seção 31 se aproxima.

Na sala de transporte, Cornwell e Pike confrontam os capitães Leland e Georgiou, indicando que a Federação já exonerou Spock de qualquer culpa, assim como a tripulação da Discovery. Mas a intenção dos agentes é outra: colaborar na investigação das aparições do Anjo Vermelho. Nisso, fazem uma revelação surpreendente: o Projeto Dédalo foi desenvolvido 20 anos atrás pela própria Seção 31, como forma de resposta a pesquisas que os klingons estavam conduzindo sobre viagens no tempo, o que teria levado então a uma “corrida armamentista temporal”. Leland informa que o traje de viagem no tempo foi roubado e que a Seção 31 agora tem um plano para capturar o Anjo Vermelho e resgatar sua peça de tecnologia. De quebra, claro, uma conversa com o misterioso ente viajante do tempo — em tese a Michael Burnham do futuro — poderia ajudar a entender o que está havendo e como evitar a catástrofe galáctica.

Stamets é designado para trabalhar no equipamento destinado à captura do Anjo. A ideia basicamente é aproveitar sua próxima aparição e fechar o microburaco de minhoca por onde ele viaja do futuro para o passado, usando em seguida um campo de contenção para impedi-lo de sair. O problema é onde conseguir a energia necessária, mas Georgiou — numa conversa estranha e cheia de sensualidade, para constrangimento de todos — sugere que a solução está em Essof IV, um planeta inóspito que abriga uma das bases de teste do Projeto Dédalo.

 

Em paralelo, Saru trabalha com o capitão Leland para que a nave da Seção 31 possa, na próxima aparição do Anjo, fechar o microburaco de minhoca o mais rápido possível. É uma oportunidade para o primeiro oficial da Discovery avaliar Leland e tentar determinar de que lado, afinal, ele está. Michael Burnham, por sua vez, desconfia que há informações sobre o Projeto Dédalo que a Seção 31 não está revelando. Ela confronta Georgiou, apelando ao vínculo que as duas sentem uma pela outra. Mas a capitão (ex-imperatriz) sugere que é Leland quem precisa ser confrontado.

Michael então vai até o capitão da Seção 31 e ele revela as peças faltantes: a cientista-chefe do Projeto Dédalo era ninguém menos que Gabrielle Burnham, a mãe biológica de Michael. Ele conta que o traje de viagem no tempo precisava de um cristal do tempo para funcionar, e Leland o obteve no mercado negro em Qo’noS, próximo ao posto avançado órion. Só que os klingons rastrearam o cristal até Doctari Alfa, onde a família Burnham estava trabalhando justamente para fazer um teste do traje, alimentado pela energia da supernova prestes a explodir. O capitão assume a culpa pela morte dos pais de Burnham e ganha dois murros na cara por isso.

Para Michael, foi pouco. De lá ela vai ao ginásio e gasta sua fúria num sparring, até ser interpelada por Spock. O irmão finalmente faz um gesto de aproximação e diz perdoar Burnham pelos erros do passado. Michael, por sua vez, admite que carregou sua culpa para dentro do lar de Spock. E o vulcano termina por dizer o que pretendia ao procurá-la: ele descobriu qual é o fator que liga todas as aparições do Anjo Vermelho — ele surge sempre que a própria Burnham se vê em perigo iminente de morte.

Surge então um plano ousado: tentar atrair o Anjo Vermelho para Essof IV efetivamente matando Michael. Pike, claro, é veementemente contrário, mas Spock e Michael o convencem alegando que, caso não dê certo, Culber estará pronto para ressuscitá-la. Com isso, o capitão concorda.

Michael, naturalmente, está apreensiva, temerosa por sua própria morte. Ela então procura aquele em quem encontrou seu porto seguro no passado — Tyler. Apesar das rusgas, o medo da morte iminente os reaproxima.

É chegado o momento. Na superfície de Essof IV, cabe a Spock prender Michael a uma cadeira onde a armadilha para o Anjo Vermelho está montada, e os dois irmãos têm um diálogo que demonstra sua cumplicidade: Spock em momento algum permitirá a ressurreição de Michael pelo grupo de descida. É o entendimento deles que a única forma de trazer o Anjo seria assegurando que, sem a intervenção dele, ela morreria para valer.

Com efeito, quando o suporte de vida é desligado e a atmosfera do planeta entra na instalação, Michael começa a asfixiar. Sem sinal do Anjo, Pike decide abortar a tentativa, mas Spock mantém o grupo de descida refém e impede que eles ajam para salvar Michael — para desespero de todos, inclusive Georgiou.

Ao final, contudo, o plano resulta e o Anjo aparece. A nave da Seção 31 fecha o microburaco de minhoca, mas não sem antes Leland sofrer um inexplicável ataque de um equipamento de sua própria nave — seria outra infiltração do Controle? No planeta, o Anjo salva a Michael desfalecida e é capturado. Ao sair do traje, uma surpresa bombástica: não é Michael do futuro, mas a mãe dela.

Comentários

“The Red Angel” é um episódio crucial para a trama da temporada e traz revelações fundamentais não só para o mistério dos sete sinais, mas sobretudo para a protagonista de Star Trek: Discovery. Descobrimos aqui que uma verdade definidora sobre Michael Burnham não passou de um ardil. Depois de passar 20 anos se culpando pela morte dos pais, achando que foi por insistência dela que o casal estendeu sua estadia em Doctari Alfa para ver a supernova, ela descobre que nada do que fez poderia ter interferido no destino dos pais. Mais chocante ainda: ela termina reencontrando a mãe que pressupunha morta!

Difícil não ver tudo isso com um ponto de inflexão na história de Burnham, que pode agora começar o processo de cura por todo o remorso que carregou a vida inteira. Vemos finalmente Spock refazendo sua conexão com a irmã, perdoando-a pela rusga que tiveram no passado, e Michael vai percebendo que não precisa — nem deve — ser o poço de culpa que sempre foi, fato só “superado” até então pela tentativa de ser a melhor vulcana que um ser humano poderia ser. Não é difícil imaginar que este é um episódio que exige muito de Sonequa Martin-Green — e ela entrega o que se espera dela. A já mencionada cena com Spock e o confronto com Leland são os pontos altos.

 

Agora, no outro extremo, não adianta querer se apegar muito à porção “tecnobaboseira” do episódio. Qualquer trama de viagem no tempo traz problemas e paradoxos, e quanto mais complicada fica uma história desse tipo, mais difícil é entender como as coisas se alinham (ou não se alinham). Um caminhão de paradoxos de predestinação é despejado na nossa cabeça, e temos de aprender a viver com eles todos sem muito sofrimento. Quer ver?

Na primeira assistida, fiquei feliz de ver que pelo menos uma falha fatal eles deram conta de cobrir: Michael não poderia morrer “de mentirinha”, ou o Anjo, possuidor de informações do futuro, não viria. Mas claro, não tente analisar isso demais: numa segunda reflexão, você imagina que eles estão presumindo que seja a Michael do futuro e, se for mesmo ela, ao matá-la de verdade, eles eliminam qualquer chance de que ela viva para voltar no tempo e salvar a si mesma adiante. Ocorre que, se ela morreu de fato, nenhuma das outras aparições do Anjo Vermelho (e presumivelmente dos sete sinais) teria ocorrido (já que são todos eventos originados no futuro), e aí ninguém estaria em Essof IV matando a Michael para tentar capturar um Anjo Vermelho, que poderia viver para se tornar o Anjo, e por aí vai… Isso só nos lembra que há uma boa razão para que, na vida real, o finado físico Stephen Hawking tenha defendido a existência de um “princípio de proteção cronológica” — algo na natureza que impediria violações de causalidade do Universo (para a tristeza de nossa querida Tilly, que fica empolgada toda vez que encontra uma instância desse fenômeno). Na ficção, claro, está liberado, e os roteiristas aqui deitam e rolam. Se você consegue surfar nessa onda, beleza, mas nem tente racionalizar demais.

Até porque, felizmente, no fim, o Anjo Vermelho não é Michael Burnham, mas sua mãe, o que ajuda a desfazer o paradoxo acima! Trata-se de uma surpreendente reviravolta, executada com maestria pelos roteiristas. Poucos (se é que alguém) imaginaram essa solução, e há que se elogiar não só o conteúdo, mas a forma. Com o passar dos episódios, estava ficando cada vez mais claro que as evidências apontavam na direção da própria Michael como a principal candidata a Anjo Vermelho. Reconhecendo isso, a equipe de Discovery nem tentou fazer deste fato uma grande revelação. A apresentação é quase casual, ao final do teaser, sem construir qualquer suspense. A escolha ajudou a despistar e ao mesmo tempo valorizar a revelação ao fim do episódio.

Fora isso, “The Red Angel” se sustenta muito bem escorado no trabalho com os personagens. É impressionante a quantidade de cenas “dois a dois” com alto teor de inspiração e humanidade nos diálogos. Relembre aí algumas bem marcantes, só para dar conta: Georgiou e Michael, Michael e Leland, Michael e Spock, Saru e Leland, Culber e Cornwell, Michael e Tyler… todas com algo a dizer sobre seus participantes e, por vezes, sobre a condição humana. De todas, merece destaque especial a protagonizada por Culber e Cornwell. É talvez o tipo de cena que, num episódio da primeira temporada, seria cortada, para não diminuir o ritmo frenético do episódio. Aqui, ela permite que continuemos a acompanhar a fascinante jornada pessoal de Culber após sua “ressurreição” (que pode ser traduzida, em termos realistas, para algo como uma “experiência de quase morte” ou mesmo “estresse pós-traumático”, fenômenos psicológicos concretos e relevantes).

E todos esses momentos pessoais são trazidos à tela com muita sensibilidade pela diretora Hanelle Culpepper, que soube “aquietar” a câmera para a ocasião. (Nessa, por sinal, ela se revela uma ótima escolha para conduzir os dois primeiros episódios da futura série baseada em Jean-Luc Picard, com sua promessa de maior introspecção.)

O humor também é destaque neste episódio, com poucas, mas efetivas, aparições. Spock cutucando a Michael na enfermaria foi genial e lembrou muito as picuinhas entre ele e McCoy na Série Clássica. Ethan Peck, claro, continua arrebentando (no bom sentido) como nosso vulcano favorito. E o troféu de cena hilária do ano foi para a “sedução” de Georgiou para cima de Stamets e do “Papi” na engenharia. Michelle Yeoh, fantástica. Aliás, por falar nela, este episódio também marca um ponto de inflexão para seu personagem — Georgiou começa a mostrar sinais de resgate de sua humanidade, tendo a relação com Michael como catalisador. Sabemos que é uma relação que transcende universos, mas pela primeira vez vemos a ex-imperatriz revelando que no peito de uma facínora sanguinária também bate um coração. Que seja o começo da esperada jornada de redenção da (no mais das vezes) cartunesca terráquea do Espelho.

Agora, apesar do desfile de qualidades, há algo que esvazia um pouco este episódio enquanto segmento individual — a exemplo de Point of Light, apesar de ser muito mais coeso e bem executado, ele é majoritariamente tecido conectivo. Não há uma história individual muito marcante para ele, o que o deixa apenas na condição de “capítulo” (indispensável, é verdade) da saga da segunda temporada. Dificilmente será daqueles que serão revisitados sem que o espectador esteja maratonando a segunda temporada inteira. Ainda assim, o que ele traz de “verdades” para os personagens faz a jornada valer a pena.

Avaliação

Citações

Leland – “Admiral, we have a solution.” (“Almirante, temos uma solução.”)
Cornwell – “I’m cringing already.” (“Já estou me contorcendo.”)

Cornwell – “Love is a choice, Hugh, and one doesn’t make that choice just once. One makes it again and again.” (“Amor é uma escolha, Hugh, e não se faz essa escolha só uma vez. Ela é feita de novo e de novo.”)

Trivias

  • The Red Angel” é o primeiro roteiro completo de episódio para televisão por Chris Silvestri e Anthony Maranville. Ambos já trabalham em Discovery desde a primeira temporada. Maranville era pesquisador, e Silvestri era assistente dos escritores.
  • Esta é a segunda vez que Hanelle M. Culpepper dirige um episódio da série. Ela já havia comandado “Vaulting Ambition”, no primeiro ano. Hanelle será a diretora dos dois primeiros episódios da nova série com Jean-Luc Picard, que deve estrear no final de 2019.
  • Leland observa que, usando a viagem no tempo, os klingons poderiam ter eliminado a Humanidade da “sopa primordial”. É estabelecido no século 24 , em “The Chase” de A Nova Geração, que a “sopa primordial” de dezenove planetas diferentes pela galáxia foi semeada por uma única raça, já extinta. No final de A Nova Geração, em “All Good Things…”, Q também levou Picard de volta no tempo para testemunhar o momento em que a vida que surge na Terra, “numa poça de gosma”, de acordo com ele.
  • Leland também menciona que os pais de Burnham trabalhavam numa teoria de que grandes saltos tecnológicos em diversas civilizações, inclusive na Terra, poderiam ter sido ocasionados por incursões do futuro. Quem assistiu a “Future’s End”, de Voyager, sabe que eles estavam certos…
  • O Anjo Vermelho emite radiação tetriônica. Tétrions existem apenas no subespaço, e sempre são citados nas séries de Jornada no século 24.
  • O traje do Anjo Vermelho cria um micro buraco de minhoca para viajar no tempo. No século 24, o Projeto Pathfinder da Federação usa um micro buraco de minhoca artificial para contatar a USS Voyager no Quadrante Delta. Também há similaridades com as singularidades quânticas artificiais usadas pelas naves romulanas no século 24, e que podem causar viagem no tempo inesperada quando apresentam mal funcionamento.
  • Cristais do Tempo são a fonte de força do traje do Anjo Vermelho. Harry Mudd usou um dispositivo com esse tipo de cristal para criar um looping temporal em “Magic to Make the Sanest Man Go Mad”, do primeiro ano de Discovery.

  • De maneira curiosa, mas provavelmente bem pensada pela produção, a tenente Nilsson assume a antiga posição de Airiam na ponte da USS Discovery. Nilsson é interpretada por Sara Mitich, que fez Airiam no primeiro ano da série.
  • Embora não tenha sido dito oficialmente, é possível que Essof IV seja um planeta Classe Y, ou seja, “classe demônio”, como visto nos episódios “Demon” e “Flesh and Blood” de Voyager.

Ficha técnica

Escrito por Chris Silvestri & Anthony Maranville
Dirigido por Hanelle M. Culpepper
Exibido em 21/03/2019
Produção: 210

Elenco

Sonequa Martin-Green como Michael Burnham
Doug Jones como Saru
Wilson Cruz como Hugh Culber
Anthony Rapp como Paul Stamets
Mary Wiseman como Sylvia Tilly
Shazad Latif como Ash Tyler
Anson Mount como Christopher Pike

Elenco convidado

Jayne Brook como Katrina Cornwell
Ethan Peck como Spock
Alan van Sprang como Leland
Sonja Sohn como a mãe de Burnham/Anjo Vermelho
Rachael Ancheril como Nhan
Hannah Cheesman como tenente comandante Airiam
Emily Coutts como tenente Keyla Detmer
Patrick Kwok-Choon como tenente Gen Rhys
Oyin Oladejo como tenente Joann Owosekun
Ronnie Rowe Jr. como tenente R.A. Bryce
Sara Mitich como tenente Nilsson
Jason Anthony como computador Controle

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