Luiz Castanheira no lado negro da força

“Attack of the Clones (2002)”

Antes de tratar do filme em si, cabe a apresentação de uma pequena classificação pessoal para que o leitor tenha uma noção do que pode esperar tanto das próximas linhas quanto do novo “Star Wars”: “SWEIV: A New Hope (1977)” ( ), “SWEV: The Empire Strikes Back (1980)” ( ), “SWEVI: The Return Of Jedi” ( ), “SWEI: The Phantom Menace (1999)” () e “SWEII: Attack of the Clones (2002)” ( ). Ou seja, temos uma melhora com relação ao anterior, mas ainda um filme com sérios problemas. Problemas que estão presentes nesta nova “trilogia” como um todo.

O maior problema conceitual neste “pré-trilogia” que trata da vida de Anakin Skywalker é justamente a ausência do seu alter-ego Darth Vader, ou melhor, a de um vilão sólido, presente desde o início da história. A opção de Lucas de tratar das manipulações políticas e manter o real responsável em segredo (para os participantes) até a hora adequada é interessante (até mais interessante do que “Star Wars” normalmente o é), mas para que tal orientação fosse plenamente desenvolvida, o formato dos filmes teria que ser drasticamente modificado. E tal fórmula simples (tradicional de “Star Wars”) PRECISA de um “lastro de vilania presente” para funcionar.

Se o personagem do conde Dooku tivesse sido introduzido no episódio anterior, tal deficiência teria sido grandemente reduzida (e as modificações da história global seriam pequenas, além de minimizar o desnecessário ângulo de mistério do roteiro deste “Episódio II”). Ficou claro que após a entrada em cena do personagem o filme ganhou uma outra pegada, pena que ele já apareceu tão perto do final.

Além de Dooku, uma grande nostalgia e as manipulações de Palpatine (certos detalhes podem passar sem serem notados por alguns – fiquem atentos) dão uma melhor qualidade ao filme quando comparada ao seu antecessor. Cabe salientar que Anakin e a República ainda estão longe de Vader e do Império, tivemos aqui mais um “setup” estendido para a realização de tais transformações (o que coloca o “Episódio I” como o “setup” do “setup”, mais um dos motivos para o seu fracasso artístico), o “payoff” definitivo só virá em 2005 com o “Episódio III”.

Por outro lado, o maior problema na execução desta “pré-trilogia” vem a ser a equivocada decisão de Lucas de não contratar um diretor, um roteirista e mesmo um editor com maior competência (do que a dele) e que pudessem trazer sangue novo a Franquia. O mais curioso é que ele parece sinceramente não acreditar (contrariando tudo que se sabe sobre Cinema de qualidade) que tal decisão faria alguma diferença.

Seu presente método de trabalho parece seguir assim: alguns pontos básicos são estabelecidos e algumas grandes seqüências de ação são definidas (como desenhos em um quadro negro talvez, não necessariamente em ordem e não necessariamente ordenáveis), depois disto uma história é escrita seguida por um roteiro que liga todos os elementos que tem que aparecer no filme (em ordem , é claro). Parece que o filme é feito “a partir dos seus efeitos visuais” (ou a partir de “comerciais da ILM” ou mesmo de ganchos para videogames e toda sorte de itens da marca – dependendo do cinismo do espectador), tendo eles como sua base, o que é uma clara perversão do processo.

Sem um diretor capaz de oferecer uma visão clara e consistente dos arcos dos personagens aos atores e lhes dar segurança ao trilhar tal caminho (e principalmente evitar que atrocidades ABSOLUTAS como a cena em que Anakin sonha com a mãe e aquela em que Padmé cai no deserto e é resgatada por um dos clones venham a acontecer), não pode existir um filme de qualidade. Mesmo o mais básico suporte (e proteção) aos atores está ausente deste filme.

Sem bons diálogos, fica muito difícil nos relacionarmos com os personagens. O ridículo dos diálogos do “Episódio II” se faz claro por não representar corretamente o mais básico e claro estado de espírito do personagem em cena e muitas vezes – ai que vira comédia involuntária – tenta ser “poético” ou “significativo”, ai que a vaca vai para o brejo. É bastante claro que os diálogos desde filme foram tão rescritos que uma visão coerente se perdeu completamente, largas partes das falas dos personagens não fazem muito sentido (o único jeito seria começar tudo de novo DO ZERO). O nível dos diálogos em produções de alto orçamento em Hollywood é pífio, isto não é novidade. O problema diferenciado de “Episódio II” é que eles são ao mesmo tempo não naturais, desconexos e pseudo-rebuscados em um mesmo pacote. Ai não tem “força” que resista.

Sem uma boa direção de atores (e talvez devido também ao desgaste dos mesmos com a “tela azul”), continuamos com a nítida impressão de que os atores estão falando PARA os outros não COM os outros, o que prejudica a “entrada” da audiência no universo apresentado na grande tela, o principal objetivo do Cinema enquanto Arte. Não parece real como praticamente tudo neste filme.

Os dois últimos filmes de “Star Wars” estão mais para um filme de animação tendo atores como seus personagens principais, do que filme de ação ao vivo com efeitos visuais. A atuação de atores com “fundo azul” pode levar a vários problemas, como: baixa concentração, desconforto (alguns atores tem extrema dificuldade em tal trabalho), reações inapropriadas e desproporcionais, problemas no estabelecimento da linha de visão e mesmo no posicionamento do personagem etc. Então muito cuidado deve ser dedicado à direção dos atores nesta situação, mas parece que Lucas não liga a mínima para isto e que os atores e as suas atuações são apenas um detalhe. Isto fica claro por todo o filme.

Incertos sobre a direção dos seus personagens, sobre o que fazer e sobre como se comportar, os atores tem tido atuações sofríveis nestes últimos filmes de “Star Wars”, principalmente por que pouco esforço é gasto por Lucas e cia. com eles. Parece que todo o esforço e atenção são focados na pós-produçao do filme. O nível de tal perversão é tão grande que parece que Lucas considera que o filme só começa a sua “produção” quando a fotografia de primeira unidade está encerrada e os atores já foram para casa e isto se reflete no produto final vez após vez.

Eis que chegam os maiores problemas…

Um senso de falta de realidade permeia toda a produção e isto se faz sentir de inúmeras formas. Através de toda a problemática com os atores (já descrita), de “bloopers” de origem prática (mortos que se movem, as lágrimas que aparecem e somem do rosto de Anakin, um som de uma platéia humana para a platéia Genosiana, obviamente alienígena etc.), de “bloopers” de CGI (frutas que são “mordidas” e “cortadas” antes de o serem de fato pelos atores em cena, reflexão seletiva de personagens, Lee montando o seu “Speeder” como uma vassoura etc.) entre outras coisas. A destruição da nave de Padmé no início já prepara o clima da fraude em CGI.

Outra coisa que não pode deixar de ser registrada é a cara de pau de Lucas na hora de introduzir itens de merchandising. Monstros, Action-cards, mesmo um DE FATO videogame e outras tantas potenciais mercadorias saltam aos olhos em virtual feira de produtos. Mesmo os “Mechas” de “A. I” dão uma aparecida, como os alienígenas clonadores.

Como em todo “bom roteiro de filme de ação” (TM), temos vários “nitpicks”, sendo os principais: a redundância da personagem Zam Wesell, o ridículo clichê da morte de Zam, o mais ridículo ainda clichê da morte de Shmi, o fato de Obi-Wan parecer mais burro do que o necessário na sua “busca pelo planeta perdido”, a facilidade com que Obi-Wan se encontra com primeiro-ministro de Kamino sem apresentar um documento que seja (nem para provar que ele é quem diz ser), o mau trabalho em justificar as aventuras de Padmé e Anakin de planeta em planeta etc.

(A república não tinha um exército de nenhuma espécie, ou simplesmente não tinha um exército em condições de enfrentar os separatistas? Se ela não possuía um exército, de onde veio todo o equipamento militar usado pelos clones?)

É difícil engolir que Yoda não tenha providenciado a libertação de Shmi e que tivesse garantido a Anakin que sua mãe estava bem, especialmente pelo fato de que foi o próprio Yoda que previu que a mãe dele era um elemento chave na decisão do futuro do jovem. Isto poderia te sido utilizado em mais uma trama de Palpatine para jogar Anakin contra o conselho Jedi. Simplesmente esquecer a mãe do garoto a própria sorte foi um erro de Yoda e cia. Também é difícil aceitar que eles tenham confiado a guarda de Padmé a Anakin, mesmo estando escrito na testa dele que “ele estava doido para fazer Lukinho” com a senadora. Este conselho Jedi está meio confuso. O fato de Anakin e Padmé estarem lotados no mesmo planeta e não se encontrarem a 10 anos, também não ajuda a história.

O romance entre Anakin e Padmé parece existir pelo único motivo de que Luke e Lea têm que ser concebidos, o nível de manufatura e cara de pau envolvido é difícil de descrever. A potencial união entre um “refugo do N’Sync” e da “rainha eleita que rejuvenesceu em 10 anos” nos faz ter saudade de Di Caprio e Winslet em “Titanic (1997)”, não existe motivo para tal coisa se consumar e as cenas dos dois provocam risos e mais risos involuntários da audiência, lastimável. Hayden Christensen vive um adolescente problemático com grandes poderes e pouco autocontrole e fica bem atrás de Charlie Evans (de “Charlie X” da Série Clássica de Jornada nas Estrelas) em tal categoria. A tal “complexidade da transformação de Vader” (TM) é um total engodo. Só falta Anakin colocar um cartaz no pescoço dizendo que ele é uma bomba prestes a explodir. E nem precisa de “força” nenhuma para sentir isto. Ele fala claro e em alto e bom som para quem quiser ouvir. Enquanto isto o sábio Yoda diz que o “lado escuro obscurece tudo”. Natalie Portmam parece visivelmente constrangida com as cenas de romance e nem muito à vontade na Franquia.

(Não dava para pedir uma prótese um pouco melhor para Anakin aos Kaminos?)

Toda a seqüência de “Yoda versus Dooku” parece muito mais uma paródia digna de uma noite de Oscar apresentada pelo Bily Cristal, do que o (dito) clímax de um filme. Primeiro Lee e Yoda fazem algumas das mais horríveis “caras e bocas em fundo azul” da história da humanidade, arremessando coisas um no outro e disparando rajadas de “força” (parece ruim, mas, acreditem, é pior!). Depois Dooku sugere que os dois determinem o resultado do combate não no conhecimento da “força” mas na habilidade no manuseio do “sabre de luz” (mesmo com todo o bom senso do universo apontando para o contrário). Ai que tudo vai “para o toilete”, Yoda se transforma em uma espécie de “demônio da tasmânia verde” (com direito a “abdômen sarado” e tudo mais) e luta com Dooku freneticamente com seu “sabre de luz” (o que deixa a pergunta: se Dooku era tão ágil por que diabos Obi-Wan e Anakin duraram mais do que 3 segundos em combate com ele, momentos antes?). No final Yoda faz mais cara de prisão ventre para salvar os seus dois pupilos e depois de toda esta miséria ele pega a sua bengala (que convenientemente E LITERALMENTE sumiu de cena neste meio tempo) e volta a usa-la para se apoiar e caminhar. Isto simplesmente remove mística do personagem e o torna em alguém comum, lamentável. Além da incrivelmente mal colocada auto-paródia, após a morte de vários Jedis nas cenas anteriores (a sensibilidade de Lucas está surpreendente hoje em dia, sem dúvida alguma).

– A maior prova do fracasso de Lucas como diretor aqui reside na seqüência em que Anakin massacra o acampamento do “povo da areia”. Em mãos mais capazes, as imagens de tal extermínio seriam facilmente misturadas as visões de Yoda e ao funeral de Shmi e teríamos um momento realmente poderoso de cinematografia. Da forma como foi feito, tal potencial impacto foi diluído em cenas longas e tediosas (além de pouco tempo depois Anakin já estar fazendo caras e bocas de novo com Padmé indo salvar Obi-Wan – vai entender!). Este é também um exemplo claro de que com uma edição mais ágil e cenas mais bem concebidas, poderíamos ter um filme mais interessante, com um melhor desenvolvimento dos personagens e talvez até com menor duração. John Williams faz mais um trilha de John Williams, que só produz alguma reação com um ou outro elemento canibalizado da “Trilogia” original.

– Com as “condições de trabalho” dadas por Lucas aos seus atores (como já discutido a exaustão até aqui), os britânicos tendem a segurar melhor a banana podre do que os Americanos (isto é um problema de escola não de qualidade intrínseca). Jackson foi o que mais sofreu absolutamente perdido e patético o tempo todo. Parece que ele está sempre fazendo a “primeira cena” repetidamente. A experiência e o carisma de Lee fizeram a diferença (literalmente na marra) e ele fica com o destaque dentre os atores.

– Yoda finalmente sucumbiu ao “lado negro digital” (TM) e fica claro que algo se perdeu do personagem. Em certas cenas ele anda sem sair do lugar e mesmo anda para trás, em uma outra o seu cajado some e a mão dele continua no ar como se “apoiada no cajado”.

– Palpatine (o destaque dentre os personagens) se mostra o manipulador Mor do universo e a nova trilogia tem se mostrado muito mais competente em mostrar como ele chegou ao poder do que como Anakin se transformou em Vader, ainda que fique claro que o futuro Imperador teve sempre a intenção de ter Anakin ao seu lado (e existe um claro “setup” neste sentido no filme). Seguindo a aparente lógica do “mal em dois níveis” de “Star Wars”: Anakin terá que matar Dooku para se tornar o braço direito de Sidious?

– Não fica clara a maneira como a lealdade dos clones é estabelecida, ainda que fica pouco dúvida que no “frigir dos ovos” (isto é no “Episódio III”) Palpatine terá o controle total. Não são dados maiores detalhes sobre o acordo de Sifo Dias com os Kaminos, especialmente a origem dos fundos. Também não foi dito por que (de toda as criaturas) Jango Fett foi escolhido como o doador de DNA para formação de tal exército. Sendo este o mais claro potencial exemplo de retrocontinuidade do filme.

– A maior participação de Yoda. As presenças de R2D2 (com um módulo de vôo que com certeza vai vender bem no natal), C3PO (servindo de “estúpido alívio cômico” (TM) no lugar de Jar Jar Binks), dos “tios” de Luke, de Boba Fett, a origem dos StormTroopers e dos destróieres Imperiais e mesmo uma referência aos planos da Estrela da Morte vão agradar os fãs mais antigos, mas não conseguem salvar o filme.

– Jar Jar aparece muito pouco, mas faz uma besteira monumental que literalmente inicia a tal “Guerra dos Clones”.

O próximo episódio promete ser o melhor e mais sombrio desta nova trilogia, mas o quanto isto vai se traduzir em um filme de qualidade ainda não sabemos. Quanto ao presente filme, sua qualidade sofre com desinteresse de Lucas por tudo que faz um filme funcionar em primeiro lugar, simples assim, verdadeiro assim.

RECOMENDAÇÃO:

Be the first to comment on "Luiz Castanheira no lado negro da força"

Leave a comment

Your email address will not be published.


*