Episódios de hoje…
“Ethics” (“Ética”; TNG 5×16, 1992)
Onde assistir: PlutoTV*
“Life Support” (“Suporte de Vida”; DS9 3×13, 1995)
Onde assistir: PlutoTV*
“The Quickening” (“A Praga”; DS9 4×23, 1996)
Onde assistir: PlutoTV*
“Nothing Human” (“Nada Humano”; VOY 5×8, 1998)
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*Somente dublado
Para onde vão os conceitos de ética médica e respeito ao método científico quando um paciente está em condição crítica? Medidas extremas na medicina podem ser vistas como heroísmo ou como irresponsabilidade e, convenhamos, o resultado final acaba sendo o fator determinante para enxergarmos o uso de uma terapia experimental como algo louvável ou não.
Em “Ethics” (“Ética”; TNG 5×16, 1992), mergulhamos num debate sobre qual conduta terapêutica seria correta e justificável para tratar um paciente muito especial: Worf. O chefe de segurança da Enterprise sofre um acidente na área de carga da nave: um barril (sim, um barril) cai em cima dele o deixando paralisado. Ainda que a fisiologia do klingon o torne muito resistente, Worf é forçado a encarar o fato de que deve ficar sem movimentos da cintura para baixo.
Sua mentalidade guerreira não aceita esse destino: ele pede a Riker que o ajude num suicídio ritual. O comandante fica perplexo com esse pedido e vai procurar conselhos com o capitão. Por que Worf sente que sua vida acabou? Picard explica que, para um humano, seria bem possível lidar com a realidade de passar o resto da vida com tantas limitações. Mas, para um klingon, não poder estar em pé diante de seus inimigos é uma desonra pior que a morte. O capitão opina que é preciso respeitar os costumes e a mentalidade dos guerreiros e, se Riker achar que consegue, seguir em frente com o ritual.
Mas o comandante se recusa. A dra. Crusher também não está achando graça nenhuma nessa discussão e propõe o tratamento padrão-ouro que estava disponível até ali: o uso de estimuladores aliados à fisioterapia para que Worf reaprendesse a andar, ainda que com auxílio. Worf está sem nenhuma paciência para esse tratamento, ainda mais porque o processo não levaria a uma total autonomia. Para ele, morrer ainda parece o melhor negócio.
Só que havia chegado à Enterprise uma outra médica, a dra. Toby Russell, que estudava novas formas de regeneração. Ela propõe a Worf, passando por cima da dra. Crusher, uma cirurgia experimental que nem havia sido testada em seres vivos até ali, somente em hologramas e com taxa de sucesso de pouco mais de 30%. A médica-chefe da nave é contra: isso seria usar um paciente como cobaia em um procedimento altamente arriscado e, pior, sem justificativa. Worf, fisicamente, não está entre a vida e a morte. Ele se coloca nessa posição porque alega que não pode continuar vivendo com a paralisia, mas objetivamente ele está bem e estável naquele momento. Mesmo assim, Worf escolhe a cirurgia experimental. Ele encarrega a conselheira Troi de cuidar de seu filho, Alexander, caso ele não resista à operação, e vai em frente.
As redundâncias de órgãos e sistemas do corpo klingon salvam a pele de Worf e da dra. Russell. Ele chega a morrer na mesa de operação, mas seus sistemas redundantes acabam funcionando e o trazendo de volta à vida. A cirurgia arriscada dá certo, mas a dra. Crusher, ainda que feliz por Worf, não quer mais ver a dra. Russell nem pintada de ouro e com razão: para ela, ainda que o resultado tenha sido positivo, o fim não justifica os meios. A pesquisa científica não pode pular etapas e arriscar a vida dos pacientes à toa.
***
Não causar mal é um dos itens do juramento de Hipócrates, mas no episódio “Life Support” (“Suporte de Vida”; DS9 3×13, 1995), o dr. Bashir é manipulado a forçar os limites da ética a pedido de seu paciente e de seu entorno. O Vedek Bareil sofre ferimentos graves em um acidente a bordo de uma nave que o levava, junto com a Kai Winn, sacerdotisa maior dos bajorianos, a uma negociação de paz com os cardassianos. A cirurgia para salvar Bareil, a princípio, não dá certo e ele chega a ser declarado morto, mas Bashir detecta ainda uma atividade elétrica em seu sistema nervoso e consegue ressuscitá-lo.
Kai Winn fica muito satisfeita com a notícia. Não por consideração pessoal a Bareil, mas porque ele estava liderando as conversas com Cardássia e, tendo escapado da morte, poderia terminar as negociações. Bashir, no entanto, deixa claro que o vedek está em condição crítica ainda. Para o médico, o ideal seria colocá-lo em um estado de suspensão até que um tratamento adequado fosse encontrado. Bareil rejeita essa opção. Bashir oferece então a possibilidade de usarem uma droga experimental que traz alto risco de efeitos colaterais, e o paciente aceita. “Espero que a gente não se arrependa disso”, diz o médico. Bareil começa a tomar o remédio mas continua com a saúde frágil. Winn não deixa o vedek descansar e o enche de perguntas sobre a negociação diplomática. A condição de Bareil piora tanto que o médico informa que seus órgãos estão sendo danificados e será preciso trocar alguns por equivalentes artificiais. De novo, o paciente aceita, e os transplantes são realizados.
Bashir pede de novo a Kai Winn que retire Bareil das negociações, para que ele possa repousar. Ele chega a suplicar que ela diga ao vedek que ele não é mais necessário, para tirar o peso da responsabilidade dele e permitir que ele se concentrasse na recuperação. A sacerdotisa, de forma cínica, lembra o médico de que as decisões sobre o tratamento são de Bareil e que ele já fez sua escolha por continuar. Eles seguem se reunindo sobre o acordo com Cardássia, mas Bareil sofre uma nova intercorrência e, agora, é sua função cerebral que começa a se perder.
Com o vedek desacordado, é necessário decidir se Bashir deve continuar a fazer tentativas invasivas de tratamento. A saída seria um implante positrônico para auxiliar o cérebro do paciente. Essa alteração, no entanto, deve mudar a personalidade de Bareil. Winn não se importa: ela precisa fechar o acordo com os cardassianos, então o médico se vê obrigado a realizar o procedimento, pressionado também por Kira, companheira do vedek, aflita para evitar sua morte de qualquer forma.
Bareil acorda, mas é outra pessoa, desconectado das próprias sensações e emoções. Ele consegue ajudar a fechar o acordo com os cardassianos e, enquanto os envolvidos comemoram, o vedek volta a piorar. Seria possível substituir o restante do cérebro dele por uma alternativa artificial, mas Bashir é contra e diz que isso removeria qualquer resquício de humanidade dele. Kira, desesperada, insiste no tratamento. Kai Winn, já com o tratado assinado em mãos, diz que talvez fosse a hora de finalmente seguir os conselhos do médico e deixar Bareil partir. Decide-se, enfim, dar paz ao já extenuado vedek, usado até quase o fim para que Kai Winn pudesse obter mais uma vitória política.
Talvez se a dra. Crusher estivesse no lugar de Bashir, as coisas poderiam ser diferentes. Por mais que o médico vá deixando claro durante o episódio que ele preferiria fazer um tratamento mais conservador, ele não tem força para se recusar a realizar todas as medidas desesperadas impostas pela sacerdotisa, por Kira e pelo próprio paciente, obstinado por fechar o acordo ainda que às custas de sua própria vida. O resultado político aqui é positivo e vai trazer benefícios para o povo bajoriano, mas as sucessivas cirurgias, cada vez mais invasivas, beiram os maus-tratos ao paciente, cujo corpo acaba cedendo no final. Não teria como ser diferente.
***
O dr. Julian Bashir voltaria a ser testado em seus limites éticos em “The Quickening” (“A Praga”; DS9 4×23, 1996), quando ele e a tenente Dax visitam um planeta no quadrante gama onde uma peste dizima a população há décadas. O local estava na área de influência do Domínio, império liderado pelos Fundadores. Os habitantes haviam tentado resistir à conquista e, como vingança, o Domínio havia infectado a população com a doença. Todos já nascem com ela e, em certo ponto da vida, a peste começa a avançar causando manchas vermelhas na pele, dor e morte. Não há cura, somente tratamentos paliativos.
Até aquele momento, o único alento dos habitantes locais é um homem chamado Trevean, que mantém um tipo de hospital da “boa morte”. Ele administra um veneno aos pacientes terminais, para que não sofram tanto. Isso choca Bashir: ele acha que Trevean não deveria se resignar a só eutanasiar os doentes, ele deveria seguir buscando uma cura. Mas é fácil falar para quem acabou de aterrissar e não está vendo as pessoas em volta morrerem de forma cruel por tanto tempo. “Eu removo a dor”, explica o “curandeiro”. A eutanásia em caso de sofrimento extremo é permitida hoje em muitos países – mas, na América Latina, só a Colômbia não criminaliza essa prática. O “hospital” de Trevean é o destino de todos quando a doença se manifesta.
Bashir se vê mais motivado a achar uma cura quando conhece Ekoria, uma mulher grávida que deve dar à luz em cerca de dois meses. Ela oferece um local para que ele monte um laboratório, e o médico sai em busca de doentes que já estejam com sintomas. Para seu desgosto, as pessoas resistem, já resignadas com seu destino. Ele insiste: e se fosse possível não morrer? A promessa em forma de pergunta é de causar arrepios em qualquer um que já tenha tido contato com os métodos de pesquisa para novos medicamentos. Trevean avisa Bashir contra prometer demais. E pior: as primeiras cobaias do médico sofrem muito com efeitos colaterais causados não pelo antígeno que ele desenvolve, mas pelas ondas emitidas pelos aparelhos médicos, ao interagirem com o vírus. O primeiro paciente começa a ter dores extremas e os demais seguem. Todos pedem a Trevean a poção para morrerem logo.
Julian se lamenta, questionando por que ele achava que essa doença poderia ter qualquer tipo de cura. Provavelmente o Domínio se certificou de que seria impossível tratar a peste. Mas Dax não concorda: não é porque ele não achou uma cura que ela não existe. De novo, o doutor deixa sua prepotência à vista.
Só resta a Bashir acompanhar o fim da gestação de Ekoria, que agora já mostra os sintomas da peste. Quando finalmente o bebê nasce, o médico percebe que ele não tem sinais da doença. O tratamento que ele criou não foi capaz de curar a mãe, mas imunizou o bebê. Bashir instrui Trevean a tratar todas as grávidas com o antígeno, para ao menos garantir uma nova geração livre da infecção.
***
Problemas éticos em pesquisas médicas feitas num passado recente surgem para assombrar o Doutor da Voyager em “Nothing Human” (“Nada Humano”; VOY 5×8, 1998). A falta de cuidado com os pacientes não é cometida por ele mesmo, e sim por um cientista cardassiano décadas antes e a milhares de anos-luz de onde eles estavam naquele momento, no quadrante delta da galáxia. Mesmo assim, tão longe no tempo e no espaço, a atuação do dr. Crell Moset durante a ocupação cardassiana em Bajor havia deixado marcas tão profundas a ponto de afetarem a tripulação da Voyager.
O episódio começa com a nave sendo atingida por uma onda, que Janeway e equipe interpretam como um pedido de ajuda por alguma nave cujo idioma é indecifrável. Mesmo sem entender, eles vão em direção à origem da onda e encontram realmente um transporte com somente uma forma de vida a bordo. A capitão decide transportar esse ser em perigo para a enfermaria. O grande inseto, com dificuldades para se manter vivo, atravessa o campo de contenção e se acopla à engenheira-chefe, B’Elanna Torres. Ele se conecta aos órgãos vitais da tenente, tornando impossível separá-los sem causar danos mortais a ambos.
Sem saber como resolver o caso, o Doutor busca referências de exobiologia no computador da nave e descobre o trabalho do cardassiano Crell Moset. Ele decide criar um holograma do cientista para ajudá-lo a tratar Torres e os dois se entendem bem logo de início. A troca de informações vai num ritmo produtivo até que um tripulante bajoriano vê a recriação do dr. Moset e o reconhece.

B’Elanna é sugada por um insetoide enquanto o Doutor, Moset e Tom Paris observam em “Nothing Human”.
O médico cardassiano era uma espécie de Josef Mengele, o infame alemão responsável por experimentos cruéis realizados especialmente em crianças e gêmeos e pela morte de muitos judeus, ciganos e outros prisioneiros do regime nazista. Os métodos bárbaros de Mengele nunca resultaram em nada que tivesse uso para a medicina, mas, no episódio, Moset é creditado como o responsável pela cura de uma virose que havia matado milhares de bajorianos. Só que ele havia chegado a esse tratamento matando pacientes e submetendo-os a diversos tipos de tortura. Uma dessas vítimas havia sido o avô do engenheiro bajoriano a bordo da Voyager.
B’Elanna, que antes de integrar a tripulação havia sido do grupo rebelde dos Maquis, deixa claro ao Doutor que não quer se beneficiar de nenhum tratamento que tenha sido desenvolvido por Moset. Isso seria validar os métodos desumanos que ele utilizava. O Doutor não entende essa objeção: o Moset ao qual eles tinham acesso era somente um holograma que continha o conhecimento médico do cardassiano, nada mais. A pessoa real estava bem longe deles em seu planeta natal. Pior: sem os estudos de Moset, o Doutor da Voyager teria muita dificuldade em salvar a vida da engenheira, que seguia sendo “sugada” pela baratona espacial.
O debate acaba na sala de reunião de Janeway, que assume a responsabilidade e autoriza o Doutor a usar o holograma de Moset para operar B’Elanna e o inseto. O objetivo do Doutor da Voyager é salvar os dois, mas durante a cirurgia ele vai percebendo que o cardassiano é, no mínimo, pragmático demais. Ele prefere um bisturi com lâmina em vez do a laser que eles costumavam usar, alegando que assim era mais fácil sentir os tecidos, ainda que o paciente sentisse mais dor. Nos momentos finais da cirurgia, Moset parecia disposto a matar logo o inseto para separá-lo de B’Elanna, forçando o Doutor a assumir a liderança e terminar o serviço.
No fim, o holograma médico decide apagar o programa de Moset e seus dados coletados sem ética. É uma decisão correta, mas tomada somente depois que a situação urgente que requeria a expertise do cardassiano já estava resolvida. Assim fica fácil dispensar seus serviços.
Escrita pela jornalista Débora Mismetti, Grandes Jornadas é uma coluna semanal publicada às sextas-feiras no Trek Brasilis, destacando tematicamente segmentos de Star Trek e convidando a uma revisita desses episódios por um ponto de vista diferente.
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