Roteiristas e diretora comentam sobre episódio telenovela de Strange New Worlds

Star Trek: Strange New Worlds já havia flertado com o terror, o desastre, o musical e até a comédia. Mesmo assim, “Like Chronitons Through The Hourglass” surpreendeu a audiência ao transformar a Enterprise, por um episódio inteiro, no cenário de uma novela clássica, com gêmeo maligno, revelação de paternidade, zooms dramáticos e diálogos impossíveis de levar a sério. Por trás da brincadeira, porém, os responsáveis pelo episódio garantem que a intenção nunca foi rir da novela, mas sim usá-la para finalmente obrigar o capitão Pike a encarar o que vinha evitando a temporada inteira.

TrekMovie conversou com os roteiristas do episódio, Bill Wolkoff e Dana Horgan, e com a diretora Anna Dokoza sobre os motivos da escolha desse gênero específico.

Uma questão de orçamento que virou declaração de amor

Perguntado do por que fazer um episódio de novela, o roteirista Bill Wolkoff disse que a ideia nasceu de uma necessidade prática que era encontrar um jeito de render mais tela por menos dinheiro em determinado ponto da temporada. A lembrança que ele trouxe para a sala de roteiristas vinha de uma experiência pessoal durante a greve de roteiristas de 2023.

Nós precisávamos gastar um pouco menos de dinheiro este ano para Star Trek. E, eu tive algumas experiências durante a greve dos escritores de 2023, caminhando em frente aos estúdios de televisão de CBS, onde as novelas estavam filmando. E eu consegui falar com muitos escritores de novela, falamos muito sobre como eles podem filmar três episódios por dia.

Então, quando percebemos que precisávamos encontrar um jeito de gastar um pouco menos em um episódio, foi aí que surgiu a ideia de fazer uma novela e filmá-la de verdade como uma novela, mas fazendo isso bem feito, tanto no padrão que uma boa novela pode ter quanto no padrão que um episódio de Star Trek pode ter. A ideia era filmar naquele estilo e, ao mesmo tempo, conseguir gastar menos. Essa foi a motivação inicial por trás disso. Mas isso acabou virando uma missão: fazer uma carta de amor à arte das novelas.

A equipe levou a pesquisa a sério. Dana Horgan e Bill Wolkoff passaram um dia inteiro observando a produção da novela americana Young and the Restless, acompanhando o diretor, atores e a sala de roteiristas para entender não só a logística de filmar tantas páginas por dia, mas também o processo de escrita por trás dela. O respeito que sobrou dessa experiência, segundo os dois, foi enorme tanto pela precisão da engrenagem de produção quanto pela habilidade de gerar emoção genuína a partir de tramas propositalmente exageradas.

Anna Dokoza destaca a capacidade do gênero de fazer o público absorver as tramas mais absurdas sem questionar, desde que a emoção esteja no lugar certo:

Quanto mais emocionalmente você for, melhor. Ninguém faz isso melhor do que uma novela. Você pode basicamente saltar a lógica e ainda assim o público embarca na viagem e sente emoções de verdade.

O drama pessoal de Pike

A diretora Anna Dokoza explicou de onde veio a história de Pike dentro dessa moldura de novela.

a história de Pike surgiu de forma orgânica a partir desse conceito. A equipe já sabia que queria um episódio focado nele, especialmente depois do grande momento no final da temporada 3. Pike vinha fugindo de processar o que vivera, “correndo de missão em missão” e preferindo “enfrentar um dinossauro” a encarar as próprias emoções. A novela se tornou o veículo perfeito para forçá-lo a parar e olhar para dentro tanto como capitão e líder quanto como ser humano.

O momento mais forte do episódio chega quando a fantasia da novela se desfaz. Pike desaba diante da conselheira da nave, Dra. Chivers, vivida pela atriz convidada Deidre Hall, ícone das novelas americanas. Ele chora a filha e a vida que teve, mesmo que por pouco tempo, ao lado de Batel. Segundo Anna Dokoza, essa foi a primeira cena filmada no episódio e também a primeira que Anson Mount e Deidre Hall gravaram juntos.

Eu definitivamente tive conversas com ele sobre o script. Eu acho que o desafio para mim é que nós filmamos a cena emocional primeiro. A primeira vez que filmamos. […] Ele teve que ficar muito emocionado, muito rápido, e na verdade foi a primeira cena que ele e a Deidra fizeram. Então, era como se eles estivessem saindo de uma colina imediatamente. Mas você sabe, ele é tão profissional, e ele é tão consciente desse arco, e de se tornar essa vulnerabilidade, que eu não acho que isso mudou para ele, em termos de ter que fazer isso antes, porque ele tinha falado através do arco, e tem uma grande compreensão disso.

Além de Pike, a diretora descreve ainda o desafio para o elenco, acostumado ao formato single-camera. Na novela, o ator precisa estar presente mesmo quando não está falando, servindo a cena com reações sutis ou simplesmente “estando ali”. Depois que se acostumaram, veio a liberdade:

Eu senti que todo mundo afrouxou um pouco o espartilho. Dá para ser uma versão um pouco maior de si mesmo, uma versão aumentada. A chave é manter a consistência na absurdidade, para que todos estejam na mesma novela.

Trelane, Q e a expansão do cânone

O vilão por trás da fantasia é Trelane, personagem clássico da franquia, que reaparece para estudar a humanidade através das emoções amplificadas e verdadeiras, que as novelas produzem. A produção aproveitou a presença da atriz Diane Johnstone, como sua “Proctor”, vestindo trajes que lembram o Continuum Q, abriu espaço para explorar quando os Q se tornaram conscientes da humanidade. Questionados diretamente se isso confirma a teoria dos fãs de que Trelane é, na verdade, uma versão de Q, os produtores evitaram a resposta direta deixando a decisão para o público tirar suas próprias conclusões.

Todos os dados estão lá.

Questionados se, além da conexão temática com a novela, eles quiseram usar o episódio para acrescentar algo à mitologia do personagem, Horgan confirmou que sim. Segundo ela, Trelane realmente acredita estar fazendo algo bom para a tripulação ao criar, de forma intencional, essa ilusão pela primeira vez, como se aquilo fosse a versão dele de se preparar para algo maior. A produção quis, além disso, expandir e conectar essa mitologia de forma mais explícita.

La’an e o gêmeo do mal

Outro ponto emocional explorado no episódio pertence a La’an. Na versão fantasiosa da trama ela permanece sozinha dentro da própria nave o tempo todo, pois a nave auxiliar nunca deixou o hangar. Os roteiristas admitem a incerteza proposital sobre se a figura de “Cybock” que ela enfrenta na fantasia, era uma criação literal de Trelane ou apenas uma manifestação da própria mente de La’an. O que importa, segundo os roteiristas, é que a experiência emocional foi real para a personagem. Esse detalhe ecoa o tema central do episódio, pois mesmo aquilo que não aconteceu fisicamente pode carregar peso emocional genuíno.

Mesmo que algo não tenha acontecido fisicamente, a experiência e a emoção continuam reais.

Dana Horgan acrescentou uma reflexão sobre uma fala de La’an voltada a Spock, na qual a personagem afirma que a lógica permite que ele enxergue sem julgamento, o que lhe dá empatia e graça, uma observação, segundo Horgan, surpreendentemente perceptiva vinda de La’an. Para a roteirista, toda história dos personagens se baseiam nos medos e nas questões não resolvidas de cada um, e é exatamente esse material, resolvido ou não, que Trelane explorou para construir a fantasia inteira.

Um final de temporada com destino certo

Questionada sobre se Strange New Worlds arriscará outras experimentações de gênero, Dana Horgan afirmou que sim, mas ponderou que praticamente todo episódio da série já carrega, à sua maneira, uma identidade própria, citando como exemplo o episódio “Off-Hour“, escrito por Wolkoff e ambientado em tempo real. Ela adiantou que a quinta e última temporada, com apenas seis episódios, seguirá um tom diferente, e confirmou que a trama da série caminha deliberadamente para um objetivo final já definido pelos showrunners Henry Alonso Myers e Akiva Goldsman.

Fonte: TrekMovie


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