Nos 35 anos de sua despedida, Trek Brasilis relembra Gene Roddenberry

Há exatos 35 anos, em 24 de outubro de 1991, o Grande Pássaro da Galáxia nos deixava. Para celebrar a vida do criador de Star Trek, Gene Roddenberry, o Trek Brasilis traz um breve relato de seus últimos dias, e uma carta de amor escrita na época por um de seus grandes amigos, Kerry O’Quinn, cofundador da revista Starlog.

Momentos derradeiros do Grande Pássaro da Galáxia

Da maneira como pôde, um já combalido Gene assistiu a Jornada nas Estrelas VI: A Terra Desconhecida em 22 de outubro, em sessão exclusiva na Paramount. A viagem de ida e volta para assistir ao longa foi tortuosa. Em conversa com o escritor David Alexander, autor da sua biografia autorizada, Star Trek Creator, e que o acompanhou em seus últimos dias, Roddenberry descreveu o novo filme como “ok”. Falou que gostou da fotografia do japonês Hiro Narita para o longa, embora Alexander tenha achado a informação estranha, pois sabia que ele estava enfrentando dificuldades visuais.

Na quinta-feira, 24 de outubro, o dia estava ensolarado e muito bonito. Gene tinha uma consulta com um médico, o doutor Ronald Rich, às 14 horas. Era um neurocirurgião que iria avaliar a necessidade de uma operação na cabeça para drenar o fluido que estava se acumulando no cérebro de Roddenberry. O procedimento poderia evitar novos derrames e devolver um pouco de mobilidade ao seu corpo, sofrendo de várias doenças crônicas, muitas delas causadas por uma vida de excessos.

O risco era grande. A operação poderia não resultar em grande ajuda, ou, pior, o paciente poderia morrer na mesa de cirurgia. Sua esposa Majel estava extremamente tensa com isso, mas sabia que a decisão era de Gene. Ele estava com dificuldades de fala e movimento, mas o cérebro ainda funcionava bem, era capaz de raciocinar sem problemas.

Às 13h30, seu assistente pessoal Ernie Over tirou da garagem o Rolls Royce, com GENE R na placa, e sua enfermeira Grethel levou Gene na cadeira de rodas até o carro. Ele sempre andava no banco da frente, ao lado do motorista. Majel acompanhou o veículo em seu Mercedes, logo atrás. Após 20 minutos, chegaram ao consultório do doutor Rich, que ficava em um prédio em Santa Monica, no condado de Los Angeles, exatamente na frente do Hospital de Santa Monica, estacionando no terceiro andar. Com uma cadeira de rodas portátil que ficava no porta-malas do Rolls Royce, Grethel levou Gene para dentro do edifício, enquanto Majel parava seu carro.

Próximo ao quinto andar, no elevador subitamente Gene começou a passar mal, sem conseguir respirar. O consultório ficava no nono andar. O elevador ainda pararia no sexto para desembarque de pessoas e demoraria entre 30 e 40 segundos para chegar ao nono. Uma eternidade. No momento em que as portas se abriram no andar do consultório, Ernie correu com a cadeira de Gene chamando por médicos, gritando emergência. Gene lutava para respirar, com ruídos ofegantes. Ao encontrar ajuda, rapidamente elevaram a posição de suas pernas na cadeira e aplicaram uma máscara de oxigênio que cobria nariz e boca. Eram 14 horas. Majel ainda tentava chegar ao nono andar, alheia à confusão. Paramédicos foram chamados, além do médico pessoal de Gene, Leonard Schwartzmann. Assim que Majel entrou na sala e se aproximou de Gene, ele parou de respirar. Uma imediata tentativa de reanimação cardiorrespiratória começou a ser efetuada pelos médicos que estavam por ali. O braço esquerdo de Gene estava totalmente pálido, seus olhos abertos e parados. Os paramédicos chegaram e transferiram Roddenberry para o Hospital de Santa Monica, logo ali na frente. Lá, procedimentos de reanimação continuaram, mas era tarde demais.

Às 14h46, Gene Roddenberry, o criador de Star Trek, foi declarado morto. Ele tinha 70 anos. A causa teria sido parada cardíaca, e Majel sabia que ele tinha morrido um pouco antes, no consultório do médico, ao seu lado. “Hero Worship”, episódio do quinto ano de A Nova Geração, estava sendo filmado quando a notícia do falecimento de Gene chegou ao estúdio. Rick Berman avisou Patrick Stewart e todos da produção e elenco. Naquele dia os trabalhos foram paralisados.

Gene Roddenberry recebeu inúmeras homenagens dos trekkers espalhados pelo mundo. O filme Jornada nas Estrelas VI foi dedicado a ele, e o episódio duplo de A Nova Geração “Unification” (exibido em duas partes em 4 e 11 de novembro de 1991), justamente o que contava com a esperada participação de Spock, também exibiu uma lembrança a Gene logo em seu início.

DA PONTE
Meu Amigo, Gene

Por Kerry O’Quinn (editor e cofundador da revista Starlog)
Texto publicado originalmente na
Starlog #175, de fevereiro de 1992

A primeira vez que conheci Gene Roddenberry foi em Seattle, numa convenção de ficção científica. Nós dois éramos convidados, e fiz questão de me apresentar e dizer o quanto admirava Star Trek. Ele sugeriu que escapássemos da loucura da convenção para nos conhecermos melhor, então, na manhã seguinte, nos encontramos para tomar café da manhã em um charmoso restaurante em Capitol Hill.

Lembro-me daquela manhã vividamente.

Sentamos ao ar livre, numa pequena mesa de café. O ar estava fresco, o sol agradável, os ovos macios e a conversa fascinante. Falamos sobre o futuro da ciência e o futuro da sociedade. Falamos sobre a natureza humana, questões morais, valores e objetivos. Falamos sobre religião e superstição, arte e filosofia.

Permanecemos entusiasmadamente tomando café, discutindo ideias importantes da mesma forma que a maioria das pessoas discute o clima. Descobrimos que compartilhávamos o mesmo aniversário (19 de agosto) e que ambos havíamos nascido no Texas. Ao nos despedirmos, Gene me disse que estava feliz por ter encontrado uma alma gêmea.

A vez seguinte em que nos vimos foi em sua casa no topo de uma colina em Beverly Hills. Ele estava entusiasmado com seu novo computador e me deu dois livros que prometiam dissipar os mistérios do processamento de texto e me separar para sempre da minha máquina de escrever. Expressei surpresa ao ver que seu número de telefone constava na lista telefônica, e ele explicou que jamais gostaria que um de seus antigos amigos das forças armadas ou da polícia viesse a Los Angeles, descobrisse que ele tinha número não listado e dissesse: “Esse Roddenberry ficou hollywoodiano!”

Tentei dizer a ele o quanto nossa conversa durante o café da manhã em Seattle havia significado para mim. Atrapalhei-me com as palavras, lutando para expressar a proximidade que sentia, além da admiração que tinha por ele. Devo ter parecido um tolo:

“É uma honra ser convidado para sua casa.”

Gene não queria ser colocado num pedestal:

“Isso se chama amizade, Kerry.”

Visitei Gene muitas vezes em seu escritório nos estúdios da Paramount, primeiro naquela pequena sala no último andar, durante o período em que a atitude em relação a ele era mais ou menos de tolerância (antes dos filmes e de A Nova Geração), e depois no grande escritório, quando ele era tratado como Nossa Lenda Viva. Ambas as atitudes eram incorretas, mas a direção da Paramount jamais compreendeu realmente a alma de Star Trek, nem os milhões de fãs que adoravam o Grande Pássaro da Galáxia em números cada vez maiores, nem o homem singular que criou uma de suas propriedades mais valiosas.

Certa vez Gene disse, com um suspiro de cansaço:

“Eu nunca mais produzirei outra série de TV. Já enfrentei todas essas batalhas, a maioria delas sem sentido, e estou simplesmente cansado disso.”

Ainda assim, ele retornou ao campo de batalha com A Nova Geração. Trabalhou sete dias por semana na nova série, e não há dúvida de que sua saúde sofreu em consequência disso.

Ele estava empolgado com A Nova Geração porque ela lhe permitia lidar com novos conflitos e questões, sem censores de rede de televisão e com orçamentos adequados de produção. Mas havia também outra motivação, criada por anos de mera tolerância.

“Eu consegui”, disse-me quando a segunda temporada já estava em andamento. “Provei que a Star Trek original não foi obra do acaso!”

Gene era um grande ursinho de pelúcia, um homem grande com um abraço poderoso. Certa tarde entrei em seu escritório e, evidentemente, ele precisava da presença amigável de uma alma gêmea. Gene saltou de trás da mesa com um sorriso enorme. Meus óculos escuros estavam pendurados em volta do pescoço, mas depois que nos abraçamos para nos cumprimentar, um amontoado de plástico retorcido pendia sobre meu peito.

Essa saudação me levou a comentar mais de uma vez que deveria haver um aviso do Serviço de Saúde Pública afixado em sua porta:

“O afeto de Gene Roddenberry pode ser perigoso para sua visão.”

Gene era uma criança. Ah, sua mente era experiente e sábia, mas seu espírito era cheio de encanto. O otimismo da visão de futuro apresentada em Star Trek, assim como sua atitude positiva em relação ao potencial humano, eram produtos do idealismo juvenil de Gene e de seu senso puro de esperança. Todos que respondiam a essas qualidades na série estavam, na verdade, respondendo à própria mente e ao próprio espírito de Gene. Ele se relacionava facilmente com fãs cheios de admiração e esperança, mas tinha dificuldade em se relacionar com executivos de estúdio, que geralmente acreditam que tais qualidades não têm importância.

Alguns anos atrás, entrevistei Gene para um livro que estou escrevendo e, enquanto estava em seu escritório, ele perguntou se eu gostaria de ver os “dailies” (filmagens brutas do dia) de A Nova Geração.

Assistimos como crianças, gritando e rindo de todos os detalhes, e eu casualmente disse:

“Deve ser a maior emoção do mundo participar como convidado de um episódio de Star Trek.”

“Você realmente acha isso?”

Gene me olhou diretamente, e eu soube que ele estava tramando alguma coisa.

“Gene”, respondi rindo, “você não sabe que todo fã de Star Trek no mundo, inclusive eu, mataria para estar em um episódio de Star Trek?”

Aquele brilho nos olhos de Gene (que quase sempre estava lá, mesmo quando ele falava com extrema seriedade) reluziu, e eu soube que Roddenberry, o garoto, havia assumido o controle.

“Você pode participar de um episódio de Star Trek, Kerry. Eles construíram um novo teatro na Universal Studios e, várias vezes por dia, produzem um episódio, com figurinos e cenários de Star Trek e maravilhosos efeitos especiais. Depois acrescentam música e intercalam a apresentação ao vivo com cenas da tripulação original. E escolhem membros da plateia antecipadamente para participar do episódio. Você pode ser um oficial da Federação ou um klingon. E é realmente impressionante!”

A última vez que falei com ele foi há alguns meses. Telefonei para Gene em casa numa noite de domingo com algumas perguntas relacionadas à filosofia.

“Estamos justamente saindo para jantar”, disse ele.

Rapidamente respondi:

“Deixe que eu ligue em um horário mais conveniente.”

“Não, não, vamos conversar”, insistiu Gene. “Fico tão feliz em ouvir sua voz.”

E nessa única frase sincera Gene resumiu a si mesmo. Mostrou que desejava estar sempre disponível para os amigos. Mostrou que, apesar dos maravilhosos alienígenas que surgiam de sua imaginação, valorizava acima de tudo a companhia dos seres humanos.

Além disso, à medida que nossa conversa sobre filosofia avançava, Gene mostrou-me que, como sempre, era capaz de me surpreender com a originalidade, a simplicidade e o senso prático de seu pensamento.

Ele era um amigo, e era um herói.

Sinto sua falta profundamente.

Gene era um daqueles raros seres humanos que tornavam o mundo em que vivo mais iluminado simplesmente porque faziam parte dele.

Sim, suas magníficas criações continuarão vivas e continuarão a entreter, esclarecer e enobrecer as pessoas do nosso planeta (e provavelmente, algum dia, pessoas de outros planetas também), mas o mundo em que vivo é menos luminoso do que costumava ser.

– Kerry O’Quinn


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