Definitivamente, as últimas horas não têm sido fáceis.
É curioso como alguns atores acabam fazendo parte da nossa vida de uma maneira tão profunda que, quando partem, temos a sensação de ter perdido um grande amigo. Alguém da família. Uma pessoa que nunca frequentou nossa casa, mas que, de alguma forma, esteve presente em tantos momentos importantes da nossa história.
Muito já foi escrito sobre Patrick Stewart desde que recebemos a notícia de sua morte. Homenagens de colegas, amigos, jornalistas e fãs do mundo inteiro. Diante de tudo isso, gostaria de compartilhar, com toda a humildade, duas pequenas histórias que guardo com muito carinho.
A primeira aconteceu no final de 2002.
Naquela época, eu trabalhava na Editora Abril, onde produzíamos a revista oficial do Cartoon Network. Dentro da publicação, tínhamos uma seção inspirada no maravilhoso e completamente maluco programa Space Ghost de Costa a Costa.
Uma das minhas funções era, uma vez por mês, assumir o papel de Space Ghost e entrevistar celebridades nacionais e internacionais, seguindo o estilo irreverente do personagem.
Como bom trekker, quando soube do lançamento de Jornada nas Estrelas: Nêmesis, entrei em contato com a distribuidora e conseguimos algo que, para mim, era um verdadeiro presente: uma entrevista com Patrick Stewart!
A entrevista foi realizada por fax, algo bastante comum naquela época. Naturalmente, as perguntas precisavam conversar com o público jovem da revista. Mas eu sabia de uma coisa que talvez nem todos conhecessem: Patrick era apaixonado por futebol, torcedor do Huddersfield Town e um grande entusiasta da Copa do Mundo.
E a Copa de 2002 ainda estava fresquinha na memória.
Naquele Mundial, o Brasil, que havia chegado desacreditado depois de uma campanha complicada nas eliminatórias, enfrentou nas quartas de final uma Inglaterra que reunia uma geração extraordinária, com jogadores como David Beckham, Michael Owen e Paul Scholes.
O Brasil venceu por 2 a 1, no dia 21 de junho, com gols de Rivaldo e Ronaldinho Gaúcho.
Foi uma daquelas derrotas difíceis de engolir para os ingleses. Guardadas as devidas proporções, uma frustração que me fazia lembrar o que a tragédia de Sarrià, em 1982, havia representado para nós brasileiros, quando aquela seleção maravilhosa de Zico, Sócrates e Falcão caiu diante da Itália.
Pois bem. Resolvi encerrar a entrevista com uma pequena provocação.
Não me recordo das palavras exatas, mas perguntei algo na linha de quanto o capitão Jean-Luc Picard e o professor Charles Xavier haviam sofrido com aquela vitória brasileira sobre a Inglaterra.
E Patrick Stewart, com uma elegância e uma gentileza extraordinárias, entrou na brincadeira.
Sua resposta, pelo que guardo na memória, foi mais ou menos assim:
“Vou ser muito sincero com vocês. Acho que, naquele jogo, vocês foram muito melhores do que nós.”
Pode parecer uma bobagem, mas nunca esqueci aquela resposta. Um dos maiores atores britânicos de sua geração, um homem de formação shakespeariana, entrando na brincadeira de um jornalista brasileiro que estava realizando um pequeno sonho.
A segunda história aconteceu alguns anos antes, provavelmente entre 1998 e 1999, e diz menos respeito ao próprio Patrick Stewart do que à força extraordinária de seu trabalho.
Uma amiga, professora de um colégio na Avenida Angélica, em São Paulo, me procurou porque a escola estava organizando uma atividade num sábado, algo parecido com uma feira de ciências.
Sabendo da minha paixão por Star Trek, ela perguntou se eu não teria alguma coisa interessante para exibir no telão do auditório durante a programação.
Naquela época, conseguir episódios de A Nova Geração não era tão simples. A série ainda não havia sido exibida integralmente por aqui, e as gravações de televisão nem sempre tinham uma qualidade muito boa.
Mas eu tinha uma pequena preciosidade: uma cópia legendada, de origem meio misteriosa e qualidade de imagem bastante sofrível, de “The Inner Light”, o maravilhoso episódio da quinta temporada da série, exibido originalmente em 1992.
Para quem não conhece, a história é simples e belíssima: atingido por uma misteriosa sonda alienígena, o capitão Picard passa a viver a existência inteira de outro homem, em um planeta distante. Ali, conhece o amor, constrói uma família, envelhece e experimenta alegrias e perdas ao longo de décadas. Quando desperta na Enterprise, descobre que apenas alguns minutos se passaram, mas carrega consigo todas as lembranças daquela outra vida.
Resolvi emprestar a fita.
E foi aí que aconteceu algo que jamais esqueci.
No sábado da apresentação, pouco antes da exibição, começou a chover. E choveu bastante.
O resultado foi que o auditório acabou se transformando num abrigo improvisado. Pais, mães, professores, adolescentes e crianças entraram para escapar da chuva.
Não era um público de Star Trek. Aliás, a maioria nem estava ali para assistir àquele episódio.
Quando a exibição começou, o ambiente era uma confusão. Crianças correndo, gente conversando, pessoas entrando e saindo. Tudo aquilo que se pode imaginar de um auditório escolar cheio num sábado.
Mas o episódio foi avançando.
E, pouco a pouco, algo começou a acontecer.
As conversas diminuíram. As crianças se aquietaram. As pessoas começaram a prestar atenção naquela história de um homem que, sem compreender o que estava acontecendo, aprendia a viver uma vida que não era a sua.
O auditório foi ficando silencioso.
Eu observava aquilo meio fascinado. Pessoas que provavelmente nunca tinham ouvido falar de Jean-Luc Picard estavam completamente envolvidas por aquela história.
E então chegou a cena final.
Picard, novamente em seus aposentos na Enterprise, pega a pequena flauta que recebeu como lembrança daquela outra existência e começa a tocar a melodia que havia aprendido no planeta.
O auditório estava em absoluto silêncio.
Do lugar onde eu estava, conseguia observar parte da plateia. Vi mães e pais emocionados. Vi adolescentes com os olhos marejados. Vi pessoas que tinham entrado ali apenas para fugir da chuva profundamente tocadas por um episódio de ficção científica.
Nunca esqueci aquela tarde.
E acho que essa lembrança diz muito sobre o tamanho de Patrick Stewart como ator. Sobre sua capacidade de transformar uma história aparentemente fantástica em algo profundamente humano.
Naquela tarde, não havia fãs de Star Trek ou pessoas preocupadas com naves espaciais, alienígenas e viagens interestelares. Havia simplesmente seres humanos se reconhecendo na história de outro ser humano.
Talvez seja esse um dos maiores poderes da arte.
E talvez seja por isso que a partida de Patrick Stewart esteja doendo tanto.
Porque, para muitos de nós, ele nunca foi apenas um ator. Foi a voz da razão, da humanidade, da inteligência, da tolerância e da esperança. Alguém que, por meio de seus personagens, nos ajudou a acreditar que poderíamos ser um pouco melhores.
Essas são as duas pequenas lembranças que queria dividir.
Não sei muito bem como terminar esta homenagem. Talvez porque algumas despedidas sejam difíceis demais para caber em palavras.
Então, fico com uma frase do próprio capitão Picard, no inesquecível episódio “Yesterday’s Enterprise”:
“Vamos garantir que a história jamais se esqueça do nome Enterprise.”
Pode ficar tranquilo, capitão.
A história também jamais se esquecerá de Patrick Stewart.
Obrigado por tudo. Foi uma honra estar a bordo.
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