Episódios de hoje…
“Obsession” (“Obsessão”; TOS 2×13, 1967)
Onde assistir: DVD/Blu-ray
“For the Uniform” (“Pelo Uniforme”; DS9 5×13, 1997)
Onde assistir: PlutoTV*
“Tuvix” (“Tuvix”; VOY 2×24, 1996)
Onde assistir: PlutoTV*
“Tapestry” (“Trama”; TNG 6×15, 1993)
Onde assistir: PlutoTV*
*Somente dublado
Ser capitão de uma nave estelar significa ter de tomar decisões difíceis. Por mais que em Star Trek muitas vezes vejamos as equipes reunidas em torno de uma mesa discutindo qual seria o melhor caminho a tomar, cabe à chefia a solitária tarefa de dar a palavra final. Na maioria dos casos nossos heróis escolhem com sabedoria, do alto dos princípios da Frota Estelar. Já quando as motivações são mais baixas, vindas do medo, de traumas, da vingança e até de um apego emocional, os resultados são bem mais questionáveis.
O capitão Kirk poucas vezes demonstra insegurança nos episódios da Série Clássica, mas em “Obsession” (“Obsessão”; TOS 2×13, 1967), uma má experiência do passado compromete seu poder de avaliar a situação com clareza. Spock e Kirk descem em um planeta em busca de uma substância super-resistente (que em tela parece uma pedra de papel machê), mas outros membros do grupo avançado (três pobres “red shirts”) são atacados pelo que parece uma nuvem cheia de glitter, que consome seus glóbulos vermelhos como um vampiro do espaço. O capitão sente um aroma no ar que ele diz parecer familiar, algo que ele havia sentido em uma missão anos antes. Kirk vê os tripulantes mortos pálidos no chão e tem certeza de que sabe o que aconteceu ali.
A Enterprise deveria seguir caminho para entregar vacinas em outro planeta, mas Kirk informa à equipe que eles não vão sair do lugar até que as mortes sejam investigadas, mesmo que isso custe vidas por conta dos imunizantes atrasados.
Obcecado por encontrar a criatura, como um capitão Ahab atrás de Moby Dick, Kirk continua a colocar seus colegas em risco, descendo ao planeta com um novo grupo de oficiais. Este episódio é um dos campeões de mortes de “red shirts” com quatro assassinatos em tela, e mesmo assim o capitão não desiste. Ele se isola, insiste em varreduras de sensores que não dão em nada e segue se recusando a seguir viagem para buscar as vacinas.
Spock descobre que o capitão esteve numa missão em sua antiga nave, a Farragut, na qual 200 oficiais (tudo isso!) foram mortos por uma criatura que Kirk acredita ser a mesma a agir agora. Naquela ocasião, o jovem Kirk não havia conseguido atirar rápido o suficiente para evitar a tragédia e demonstra estar tentando expiar essa culpa. Inclusive, o capitão transfere esse peso na consciência ao novo oficial de segurança, Garrovick, que também havia hesitado em atirar. McCoy ameaça tirar Kirk do comando, mas logo Chekov avisa ter encontrado a nuvem assassina saindo do planeta.
Kirk atribuía uma inteligência maléfica à nuvem e isso parecia um delírio até que a tripulação percebe o amontoado de gases se virando para voltar e atacar a Enterprise. Então o episódio, que havia começado caracterizando Kirk como em estado de paranoia, começa a dar-lhe razão. McCoy admite estar errado e todos aderem ao plano do capitão de seguir a nuvem até o planeta onde ele havia se encontrado com ela pela primeira vez, 11 anos antes. Kirk e um dos oficiais de segurança se fazem de isca para atrair a nuvem sedenta de sangue – mas só o sangue com hemoglobinas, à base de ferro. Spock, com suas células sanguíneas verdes, à base de cobre, tem gosto ruim para a criatura.
A nuvem vai direto para a armadilha humana e é explodida por uma pequena carga de antimatéria. Os instintos vingativos de Kirk são aplaudidos por todos, aliviados por terem eliminado uma forma de vida ameaçadora, sem remorso.
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A sede de vingança tira o chão de mais um capitão em “For the Uniform” (“Pelo Uniforme”; DS9 5×13, 1997). Àquela altura, o conflito da Frota Estelar com a dissidência dos Maquis estava deflagrado. O grupo rebelde era composto de colonos e ex-oficiais da Frota que se opunham aos acordos territoriais com Cardássia, que haviam jogado planetas antes pertencentes à Federação no espaço controlado pelos lagartões. As células Maquis seguiam fazendo pequenos ataques terroristas e desafiando as autoridades.
O capitão Sisko havia sofrido um golpe bem pessoal em relação a isso. Seu antigo encarregado da segurança da estação espacial Deep Space 9 havia desertado para se tornar líder dos rebeldes. O capitão não se conformou e havia iniciado uma caçada a Michael Eddington.
A própria luta contra os Maquis já é questionável. Forçados por decisões políticas a simplesmente abandonarem seus lares da noite para o dia, os colonos decidem resistir. A Frota desde o início deixa claro que não vai apoiá-los e chega a ajudar os cardassianos a perseguir os rebeldes, muitos deles descendentes de pioneiros que haviam deixado a Terra para se estabelecer nas fronteiras do território federado havia décadas.
O episódio começa com Sisko tomando uma invertida de Eddington. O capitão havia marcado um encontro com um informante da Frota infiltrado entre os Maquis, mas acaba sendo recebido pelo próprio Eddington, que avisa: “Não venha atrás de mim: você vai se arrepender”. Não só ele escapa como deixa de presente um vírus que incapacita a nave Defiant e força Sisko a ser rebocado de volta à estação. A Frota coloca outro oficial à frente da missão de capturar Eddington, e Sisko fica furioso. Ele confessa a Dax toda sua frustração por ter se deixado enganar pelo ex-subordinado.
Durante a história, Sisko se questiona diversas vezes, afirmando que todos devem estar pensando que a perseguição a Eddington não é nada mais que uma vingança pessoal. Os Maquis avançam mais ainda o sinal, e começam a atacar colônias dos cardassianos com armas biológicas. Eddington intensifica a provocação pessoal, comparando sua contenda com Sisko ao conflito de dois personagens de Os Miseráveis, clássico de Victor Hugo. O líder dos rebeldes se coloca na pele de Valjean, o herói da história, condenado a anos de prisão por ter roubado pão, e Sisko a Javert, o policial que fica obcecado por prendê-lo, mostrando que Eddington se acha um injustiçado.
Mas em vez de recusar a comparação com o vilão, Sisko abraça o papel, e decide bombardear uma colônia dos Maquis com uma substância que envenena a atmosfera, tornando o planeta inabitável para humanos. Eddington se surpreende com o ataque, que força uma evacuação às pressas dos colonos. Para o rebelde, Sisko está indo contra os valores humanitários da Frota Estelar. Para o capitão, Eddington é o traidor. Quem está certo? Sisko obtém a rendição de seu ex-subordinado e, mesmo após forçar a fuga dos habitantes da colônia, ele não parece nem um pouco arrependido. “Às vezes eu gosto quando o vilão vence”, conclui Dax.
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A líder da Voyager tem seu dia de vilã em “Tuvix” (“Tuvix”; VOY 2×24, 1996). Janeway não é de fugir de uma polêmica. Já no primeiro episódio da série, “Caretaker” (“O Guardião”; VOY 1×1, 1995), a nave acaba presa do outro lado da galáxia porque a capitão resolve explodir a estrutura que os havia trazido até ali – e poderia levá-los de volta –, para impedir que fosse tomada por uma força hostil. Todos os seus comandados precisam amargar uma longa viagem de volta, calculada em mais de 70 anos quando a série começa.
Mas ela ainda tinha mais a oferecer no campo da controvérsia. O cozinheiro e assessor de Janeway para temas do Quadrante Delta, Neelix, e o vulcano Tuvok descem a um planeta para pesquisar suas plantas. Sempre atrás de novas fontes de nutrientes para a tripulação, já que eles precisam conservar energia e não podem usar os replicadores para fazer todas as refeições, Neelix procura espécies vegetais e coleta, entre outras, uma variedade de orquídea.
As interações entre Neelix e Tuvok, com seus temperamentos opostos, são frequentes fontes de cenas cômicas em Voyager. O vulcano mais sisudo de todas as séries de Star Trek se mostra contrariado com a cantoria do talaxiano enquanto exploram o planeta.
Ao voltarem à nave com as amostras, Tuvok e Neelix se materializam no teletransporte como um só ser: nasce Tuvix. O novo personagem é interpretado por um terceiro ator, combinando características físicas dos outros dois: as pintas do talaxiano, as sobrancelhas levantadas e a orelha pontuda do vulcano e até o uniforme é uma soma dos dois tripulantes, com a farda dourada de Tuvok ganhando a estampa divertida do terninho de Neelix. O Doutor também encontra traços da orquídea na composição do corpo do novo Tuvix.
O mais surpreendente é a forma como as personalidades deles se entrelaçam, formando uma terceira: é a soma da lógica com a empatia e alegria. O novo membro da tripulação se relaciona melhor com os companheiros do que os dois separados, cozinha melhor do que Neelix e consegue seguir seus instintos para realizar tarefas de segurança com mais eficiência do que Tuvok. Tuvix mesmo teoriza a causa para o acidente de transporte, apontando a orquídea como possível causadora do problema. É como se fosse o contrário de A Mosca (1986): em vez de criar um monstro, como no filme, o acidente com teletransporte causa um tipo de evolução.
Depois de semanas de pesquisas, o Doutor finalmente encontra uma forma de separar Tuvix de volta em Tuvok e Neelix. Mas o que poderia ser um momento de alegria vira um dilema para Janeway: Tuvix se integrou muito bem à tripulação, tornou-se amigo de todos e, mais importante, não quer passar pelo procedimento. Ele argumenta que obrigá-lo a ser separado seria um assassinato. Janeway retruca: Neelix e Tuvok não podem falar em defesa própria agora, e ela tem a obrigação de defendê-los. Ele apela aos colegas, grita acusando a execução. É curioso perceber como a atitude dos tripulantes muda em relação a Tuvix assim que ficam sabendo que já existe a possibilidade de que Neelix e Tuvok voltem. A equipe na ponte de comando deixa de obedecer às suas ordens e aguarda que Chakotay as ratifique antes de cumpri-las. É como se a palavra dele já não valesse o mesmo de antes.
Por mais que Tuvix suplique, Janeway decide por colocar um fim à sua vida. Ela, inclusive, é obrigada a realizar a separação (um procedimento usando o transporte), já que o Doutor afirma que não pode tirar a vida de Tuvix sem seu consentimento, por conta de seu juramento hipocrático. Diferentemente de Sisko, Janeway sente o peso de seu “crime”. Afinal, seria possível chegar racionalmente à conclusão oposta e optar por manter a vida do híbrido. Para a sorte de Neelix e Tuvok, Janeway escolhe o assassinato. E muitos não a perdoaram até hoje.
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Até o mais filosófico e ponderado dos capitães, Picard, carrega um grande erro em seu currículo. Só que, no caso dele, vamos descobrir que o deslize foi crucial para que ele tivesse sua brilhante carreira na Frota Estelar. Em “Tapestry” (“Trama”; TNG 6×15, 1993), Picard começa a história à beira da morte, após levar um tiro no peito em uma missão. Já sabíamos desde “Samaritan Snare” (“A Cilada”; TNG 2×17, 1989) que o capitão havia levado uma facada na juventude, que resultou na necessidade de uma prótese cardíaca. De novo essa lesão volta a ser um problema agora, já que o tiro danificou uma peça do coração artificial.
Enquanto está na maca sendo tratado pela dra. Crusher, Picard tem uma visão de Q, o ser onipotente que o persegue pela galáxia. Ele tem uma oferta curiosa a fazer: Picard pode reviver os eventos que levaram à facada, dos quais ele se envergonha, da época em que ele ainda era um cadete. Q coloca Picard de volta na base estelar onde tudo aconteceu tantos anos antes. A facada havia sido dada originalmente por um nausicaano, alien mal-encarado com dentes de javali e cabelo de roqueiro dos anos 1980, por causa de um desentendimento após um jogo de dom-jot, um tipo de sinuca espacial.
Picard e seus amigos sabiam que os nausicaanos roubavam no jogo, então sabotaram a mesa de dom-jot para ganharem dos aliens. Eles ficaram furiosos e partiram para a briga. Ao defender um de seus colegas, Picard levou uma facada pelas costas, deu uma curiosa risada e caiu desmaiado.
Na nova versão, Picard, mais sério do que na sua real juventude, alerta os amigos sobre os nausicaanos e impede a briga. Os colegas ficam decepcionados com a falta de companheirismo e vão cada um para o seu lado. O coração de Picard segue intacto. Assim que ele evita a briga, Picard é jogado de volta ao presente na Enterprise, mas ele já não veste o uniforme vermelho de comandante, e sim o azul de ciências. Ele virou um simples subalterno. Picard fica preso numa espécie de A Felicidade Não se Compra (1946). No filme, um pai de família interpretado por James Stewart é salvo de cometer suicídio por um anjo, que o mostra como seria a vida em sua cidade se ele não existisse. Para Picard, o anjo (ou demônio) Q coloca diante dele uma realidade na qual sua carreira deixou de existir e o resto do universo continuou igual.
Desesperado ao se ver nessa situação, Picard procura o comandante Riker e a conselheira Troi para pedir uma promoção, já que ele sabe que é capaz de fazer mais do que ser um tenente júnior. A conselheira dá uma resposta devastadora: ele sempre teve objetivos muito grandiosos, mas nunca fez o que seria necessário para atingi-los, por isso nunca era promovido.
Enfrentar os nausicaanos numa briga de bar foi uma irresponsabilidade juvenil, mas esse mesmo ato também significou que o jovem Picard entendeu quão preciosa é a vida e, depois de sobreviver à facada, não hesitou em aproveitar as oportunidades que teve para se destacar. Picard, já retornado à sua vida normal por Q, percebe que as partes do passado das quais ele não se orgulhava o tornaram quem ele é.
Escrita pela jornalista Débora Mismetti, Grandes Jornadas é uma coluna semanal publicada às sextas-feiras no Trek Brasilis, destacando tematicamente segmentos de Star Trek e convidando a uma revisita desses episódios por um ponto de vista diferente.
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