À medida que Star Trek: Strange New Worlds caminha para o final de sua quarta temporada e a franquia como um todo atravessa a incerteza gerada pela fusão entre Paramount e Skydance, o produtor executivo e co-showrunner Henry Alonso Myers abriu o jogo sobre os bastidores da série e sobre o destino incerto de sua idéia de spin-off, Star Trek: Year One.
Durante um painel sobre efeitos visuais no evento Televerse 26, promovido pela Academia de Televisão em Los Angeles, Myers foi questionado pelo site TrekMovie sobre a diversidade de tons e gêneros apresentada na primeira metade da quarta temporada. A pergunta também abordou como essa variedade se encaixa na promessa feita pelo showrunner no início do ano, de que a segunda metade teria episódios mais “clássicos”, alinhados à tradição de Star Trek.
Segundo Myers, a série funciona como um filme diferente a cada semana, mas sem nunca deixar de ser fundamentalmente Star Trek.
O que realmente tentamos fazer foi arriscar e experimentar coisas que nunca foram feitas em Star Trek, assim como experimentar coisas que são profundamente Star Trek. Temos vários episódios futuros que são Star Trek clássico. E também temos alguns que, não quero dizer exceções, porque são Star Trek de verdade, são fundamentalmente Star Trek. Mas acho que uma das nossas funções é mostrar que Star Trek é capaz de muitas coisas. Porque não se trata apenas das pessoas que têm um carinho especial por Star Trek. Trata-se de mostrar às pessoas que nunca assistiram a Star Trek que isso também pode ser Star Trek.
O impasse de Year One
O tema que mais mobiliza a comunidade de fãs, no entanto, é o futuro da proposta de série derivada Star Trek: Year One, que acompanharia as primeiras viagens da USS Enterprise sob o comando de James T. Kirk (interpretado por Paul Wesley), anos antes dos eventos do segundo piloto da Série Original. Myers e o co-showrunner Akiva Goldsman já haviam se reunido formalmente com a nova direção da Paramount para apresentar o projeto, mas até o momento não obtiveram qualquer retorno, nem positivo, nem negativo.

O showrunner reforçou que a decisão está inteiramente nas mãos do estúdio. A dupla afirma estar pronta para tocar o projeto adiante assim que houver sinal verde, mas reconhece que a Paramount enfrenta hoje uma tarefa mais ampla, a de redefinir os rumos gerais da franquia dentro do novo cenário corporativo pós-fusão.
Não nos disseram nada sobre Year One. Não depende de nós. Depende da Paramount. Estamos à disposição e prontos para trabalhar conforme a decisão deles. Adoramos a série. Achamos ótima. Acho que eles têm, em muitos aspectos, uma tarefa maior e mais desafiadora, porque precisam pensar na direção geral de Star Trek para o mundo… Estamos à disposição. Adoramos Star Trek. Ficaríamos felizes em fazer tudo de novo. Está fora do nosso controle.
Há, contudo, um detalhe que mantém uma pequena porta aberta para o projeto. Parte importante da estrutura física utilizada em Strange New Worlds, incluindo elementos da ponte da Enterprise, figurinos e adereços dos personagens principais, continua sob controle da produção. Após os leilões realizados no Canadá, esse material foi apenas redistribuído para diferentes locais, em vez de ser completamente descartado.
A isso se soma outro elemento que chama atenção: o anúncio de que Thomas Jane e Kai Murakami interpretarão, respectivamente, o Dr. McCoy e Sulu no episódio final de Strange New Worlds. A introdução dos dois personagens, que posteriormente se tornariam figuras centrais da Série Clássica, aproxima a série ainda mais do período que Year One se propunha a explorar.
Nenhum desses elementos, porém, significa que Year One esteja atualmente nos planos da nova direção da franquia. O projeto não aparece entre as prioridades anunciadas até o momento, que se concentram, por enquanto, no longa-metragem escrito e dirigido por Jonathan Goldstein e John Francis Daley.
O crossover que quase aconteceu
Outro mistério que rondava a temporada dizia respeito à personagem Pelia (Carol Kane), cujas falas ao longo das temporadas sugeriram, nas entrelinhas, uma ligação com o universo da série inglesa Doctor Who, insinuando que ela já teria sido companheira do Doutor. A especulação sobre um crossover entre as duas franquias ganhou força em 2024, quando BBC e Paramount trataram do assunto publicamente em um painel conjunto na San Diego Comic-Con.
Myers confirmou que as conversas entre as equipes de fato aconteceram e que a ideia foi levada a sério, chegando a ser discutida inclusive como um possível episódio derivado.
Sobre a questão de Doctor Who … Tivemos muitas conversas com eles sobre tentar fazer isso acontecer. Não era um episódio final de temporada. Acho que até chegamos a falar sobre a possibilidade de fazer um episódio derivado.
Segundo ele, o conceito original para o final da temporada era outro, dirigido por Akiva Goldsman, e acabou sendo substituído pelo episódio que efetivamente fechou o arco, “Tomorrow’s Enterprise“, dirigido por Chris Fisher.
Vale lembrar que Star Trek e Doctor Who já se encontraram oficialmente nos quadrinhos. Em 2012, a IDW Publishing lançou a minissérie Star Trek: The Next Generation/Doctor Who: Assimilation², que reuniu a tripulação da Enterprise-D e o Décimo Primeiro Doutor, interpretado por Matt Smith.
Os bastidores do episódio de marionetes
Myers também reservou elogios ao trabalho por trás do recente episódio com marionetes, um dos mais comentados da temporada. Segundo o showrunner, o resultado só foi possível graças à experiência prévia da diretora Jordan Canning, que já havia comandado episódios do reboot Fraggle Rock (do mesmo criador dos Muppets), o que permitiu à equipe adaptar os próprios cenários da série para acomodar os manipuladores das marionetes sem comprometer a naturalidade das cenas.

A primeira coisa foi a diretora, Jordan Canning. Nós tínhamos visitado o set antes da temporada com ela para basicamente descobrir como nossos cenários lidariam com os manipuladores de marionetes. A melhor versão de manipulação de marionetes é aquela que não parece que estão sendo manipuladas, como se fossem criaturas reais, pessoas reais, e que estão se esforçando muito para imitar e copiar a performance das pessoas que estão no nosso programa. Então, muito do nosso trabalho envolveu ajustes no cenário para alcançar esse resultado… Foi um trabalho feito com muito carinho por ela.
Ele destacou ainda o trabalho da Jim Henson Company, responsável pelos bonecos, ressaltando o cuidado técnico envolvido em construir versões dos personagens que preservassem sua identidade visual, evitando qualquer aparência de produção improvisada ou de baixo orçamento.
Deus abençoe a Henson. Eles são incríveis. Fazem um trabalho incrível, mas grande parte do que estávamos tentando fazer era construir versões dos nossos personagens que parecessem com os nossos personagens. Que não parecessem que estávamos simplesmente em uma versão barata e alternativa da série, esboçada às pressas. Queríamos que tivesse a essência de Star Trek. Foi um processo longo, com muita preparação e pós-produção, redesenhando os cenários, encontrando marionetistas que pudessem trabalhar na série e imitar ou ajudar a criar as performances. É como qualquer apresentação. É preciso muita preparação para que o dia da gravação transcorra naturalmente.
Com a segunda metade da quarta temporada em andamento e a quinta já anunciada como capítulo final, a série Strange New Worlds caminha para o encerramento de seu próprio ciclo, deixando em aberto o que virá depois.
O vídeo de bastidores a seguir mostra um pouco do trabalho dos profissionais que dão vida às marionetes utilizadas em Strange New Worlds.
A quarta temporada da série apresenta episódios inéditos todas as quintas pelo Paramount+
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