Episódios de hoje…
“Darmok” (“Darmok”; TNG 5×2, 1991)
Onde assistir: DVD/Blu-ray*
“Vox Sola” (“Vox Sola”; ENT 1×22; 2002)
Onde assistir: Paramount+
“Dawn” (“Amanhecer”; ENT 2×13, 2003)
Onde assistir: Paramount+
“Metamorphosis” (“Metamorfose”; TOS 2×9, 1967)
Onde assistir: Oldflix e DVD/Blu-ray
*Apesar de TNG estar disponível na PlutoTV, este episódio específico não está no catálogo
O tradutor universal foi uma solução genial de Star Trek para que seres de diferentes planetas pudessem conversar sem que aquilo parecesse algo sem cabimento. Claro que a galáxia toda não fala inglês, então com o tradutor ligado é possível manter a suspensão da descrença e aceitar que todo mundo está se entendendo bem. Só que, em alguns casos, não tem tradutor que resolva, e a dificuldade de comunicação é o empecilho a ser superado durante a história. E o que deixa esses encontros culturais ainda mais interessantes é perceber que simplesmente verter as palavras para um novo idioma não basta: é preciso abrir a cabeça para entender o outro e seu ponto de vista para realmente compreender o sentido do que está sendo dito.
O exemplo que vem à mente dos fãs de A Nova Geração é “Darmok” (“Darmok”; TNG 5×2, 1991), fonte inesgotável de memes na internet por ser um dos mais icônicos episódios da série. A Enterprise está com a incumbência de tentar se comunicar com os tamarianos. Eles já sabem que não vai ser fácil, porque muitos haviam tentado antes e falhado. O interessante é que o tradutor universal consegue converter as palavras que eles dizem para sons conhecidos. Mas as palavras, juntas, formam frases incompreensíveis. “Darmok e Jalad em Tanagra”, diz o capitão Dathon à Enterprise, e ninguém sabe do que ele está falando. A comunicação é frustrante e, de repente, ambos os capitães são transportados para um planeta próximo. Riker tenta entender o que está acontecendo, mas suas tentativas de resgatar Picard são infrutíferas. O teletransporte está bloqueado por uma interferência e, ao tentar descer com uma nave auxiliar, os tamarianos atacam, forçando o recuo. Eles parecem fazer questão de deixar os dois capitães isolados.

Picard e Dathon, o capitão tamariano, no planeta El-Adrel IV, onde enfrentariam uma fera, em “Darmok”.
Picard primeiro acha que o tamariano está querendo fazer um tipo de duelo, e recusa a arma oferecida pelo suposto rival. À noite, vendo que o humano está com frio, Dathon oferece sua fogueira. “Temba, seus braços abertos”, ele diz. Aos poucos, Picard percebe que o tamariano está falando em forma de metáforas, citando exemplos, mesma conclusão à qual chegam Data e Troi, que estão usando as gravações das conversas entre as naves para decifrar esse idioma. O cerne do problema é o fato de os tamarianos serem autorreferentes: só quem conhece a mitologia desse povo é capaz de entender o que eles estão falando. A frustração dos tamarianos ao tentar falar com outros povos devia ser enorme. Ao mesmo tempo, é incrível que eles tivessem a expectativa de que pessoas de outros planetas captariam as referências da mitologia que só eles conhecem.
Picard e Dathon escutam o barulho de uma fera se aproximando. Na Enterprise, o tenente Worf também monitora o movimento. Picard então compreende que a ideia do tamariano era que eles dois trabalhassem juntos para combater a criatura, assim como os heróis Darmok e Jalad. Era assim que Dathon esperava estabelecer comunicações com os humanos. A equipe da Enterprise tenta desesperadamente tirar Picard do perigo e quase consegue teletransportá-lo através da interferência, mas isso o tira do combate, permitindo ao bichão a oportunidade de ferir Dathon.
Após a luta, Picard faz companhia ao tamariano ferido e usa a mitologia humana para tentar dialogar com ele. Ele recorda a epopeia de Gilgamesh, história contada pelos mesopotâmios e uma das mais antigas conhecidas. De forma análoga a Darmok e Jalad, Gilgamesh e Enquidu também enfrentaram perigos juntos e se tornaram amigos. Enfim, o humano e o tamariano começam a dialogar com mais sucesso.
Depois da morte de Dathon e da volta à Enterprise, Picard tem nas mãos um livro com as histórias escritas por Homero. O aprofundamento do diálogo com os tamarianos iria requerer, talvez, um mergulho maior na nossa própria mitologia. Picard sempre ensina que a superação dos conflitos é possível e, em geral, o caminho a percorrer envolve, humildemente, estudar mais e mais.
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O tradutor universal ainda era bem “bugado” no século 22, época na qual se passa a série Enterprise. A alferes Hoshi Sato, responsável pelas comunicações, muitas vezes era forçada a superar suas inseguranças e realizar as traduções ela mesma, como vemos em “Vox Sola” (“Vox Sola”; ENT 1×22; 2002). Logo no início, Hoshi está apanhando do aparelho durante a visita dos kreetassianos, uma nova espécie humanoide que foi visitar a nave. Eles se sentiram extremamente ofendidos enquanto a equipe os mostrava a Enterprise e exigem sair imediatamente, mas ninguém entende por quê. A alferes não consegue decifrar o que eles estão dizendo e se sente impotente, questionando se deveria mesmo fazer parte da tripulação.
Enquanto esse pessoal estava saindo, uma espécie de gosma entra na Enterprise pela escotilha e, sem ninguém vê-la, começa a causar problemas técnicos pela nave. Ao inspecionar a área de carga, um tripulante acaba preso pelos tentáculos da gosma, e o mesmo acontece com todo mundo que tenta ir até lá para salvar os demais. O capitão Archer, o engenheiro Trip e outros oficiais se veem pendurados numa teia gosmenta e qualquer ação tomada para tentar ferir os tentáculos causa sofrimento à criatura e a eles também, deixando Reed, chefe de segurança, sem poder atacá-la para salvar seus colegas.

O capitão Archer fica preso junto com outros tripulantes na teia criada por uma criatura gosmenta em “Vox Sola”.
Mas Hoshi tem uma alternativa: por que não tentar se comunicar com a gosma? Não seria o único caso em que os tripulantes ficariam entre essas duas alternativas: o combate ou o diálogo. A alferes começa a estudar o comportamento da gosma e percebe que existem padrões matemáticos em suas vibrações, que poderiam se tornar uma forma de comunicação. Com a subcomandante T’Pol para ajudar, Hoshi trabalha para criar uma tradução rudimentar a tempo de salvar os colegas, que começavam a ficar inconscientes envoltos nos tentáculos.
À medida que Hoshi vai enviando as vibrações para se comunicar, a criatura vai devolvendo, e assim alimenta a matriz de tradução. Com isso, a alferes consegue informar que eles descobriram (com a ajuda dos kreetassianos, já mais calmos) de onde a gosma veio e que iriam devolvê-la ao seu planeta de origem. Mais “tranquila” após perceber que estava sendo compreendida, a criatura solta os tripulantes e permite ser transportada de volta.
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A falta do tradutor universal obriga o engenheiro Trip Tucker a se virar para se comunicar com um piloto alienígena em “Dawn” (“Amanhecer”; ENT 2×13, 2003). Os dois haviam caído com suas naves auxiliares em uma lua. Trip estava testando ajustes no piloto automático do transporte quando o arkoniano atirou e causou o acidente. As condições ambientais da lua onde eles caíram impedem que as naves voltem a funcionar, então ambos estão presos ali, com os comunicadores quebrados e sem tradutor. A desconfiança é mútua e a cooperação, a princípio, parece impossível. Eles não se entendem e qualquer momento em que um baixa a guarda convida o outro a atacar. A situação lembra muito o filme Inimigo Meu (1985) – até a aparência reptiliana do alienígena e seu traje remetem ao longa.
Trip faz um esforço maior para se comunicar com o arkoniano, tentando entender seu nome e relacionando as palavras que ele diz aos objetos em volta, ao menos para fazê-lo entender o mínimo de seu plano para tentar enviar uma mensagem à Enterprise. A ideia era usar os aparelhos comunicadores das duas naves auxiliares funcionando juntos e levar ambos ao alto de um morro, de onde a transmissão tinha mais chance de ser enviada com sucesso. O alienígena não topa de início, e os dois se pegam em socos até estarem exaustos. Só então, ao aceitar que não havia mais outra opção além da morte, o arkoniano cede e a cooperação entre eles se estabelece. Trip aguarda o resgate ao lado do reptiliano enquanto a temperatura na lua aumenta vertiginosamente com o nascer do sol. O calor ameaça a vida dos dois, mas principalmente do alienígena, incapaz de produzir suor para regular sua temperatura corporal.
De volta à Enterprise, já com a tradução disponível, os dois finalmente trocam frases compreensíveis, mas eles já haviam se entendido mesmo sem tantas palavras.
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O primeiro episódio no qual o tradutor universal teve destaque foi “Metamorphosis” (“Metamorfose”; TOS 2×9, 1967) e aqui o aparelho teve de aumentar suas capacidades para permitir o diálogo com uma entidade que não usava palavras para se comunicar. Kirk, Spock, McCoy e uma comissária do corpo diplomático da Federação estão voltando à Enterprise numa nave auxiliar quando são capturados por uma nuvem brilhante, que os faz descer em um planeta aparentemente vazio – aliás, nuvens de glitter são um problema recorrente na Série Clássica. A diplomata que viaja com eles está doente e precisa voltar à nave imediatamente para tratamento.
Enquanto tentam entender como foram parar ali, os tripulantes são encontrados por um homem que se identifica como Cochrane – e, logo, eles iriam descobrir que ele era o próprio Zefram Cochrane, criador do motor de dobra espacial, que permitiu aos terráqueos viajar mais longe no espaço, fazer o primeiro contato com os vulcanos e formar a Federação. Mas, àquela altura, Cochrane já deveria estar morto há mais de cem anos. Ele conta que havia ficado perdido naquele planeta e, relutantemente, revela que uma criatura que ele chama de “companheiro” havia o ajudado, revertendo seu envelhecimento e o mantendo saudável por tantas décadas. O tal companheiro, com quem ele se comunica telepaticamente, era a nuvem brilhante que havia trazido a nave auxiliar ao planeta e também a impedia de levantar voo novamente.
Como precisam levar a diplomata de volta à Enterprise de imediato, Kirk e Spock querem que Cochrane convença a nuvem a deixá-los ir embora, mas sem sucesso. Ela havia trazido os oficiais da Frota Estelar até ali para resolver um problema de Cochrane: sua solidão. Kirk quer partir para a violência e pede que Spock desenvolva alguma arma para que eles consigam escapar daquela armadilha. A nuvem responde igualmente com violência, dando choques elétricos no vulcano e no capitão. Spock começa a notar a diferença de tratamento: a nuvem é gentil com Cochrane e agressiva em relação aos oficiais. Talvez o relacionamento entre eles seja mais complexo do que parece.
Então Kirk tem a ideia de se comunicar via tradutor universal e sugere a Spock que o modifique o suficiente para que eles consigam falar com a entidade – não era algo trivial traduzir um ser não corpóreo usando a invenção. Mas a voz da nuvem finalmente surge por meio do tradutor e, para a surpresa de todos, é uma voz feminina. Ela explica que a permanência deles ali é essencial para a vida de Cochrane, portanto ela não os vai deixar ir embora. O criador da dobra espacial fica revoltado ao finalmente (depois de 150 anos) entender que o envolvimento da nuvem com ele era quase que romântico. Ele se sente usado. Kirk, Spock e McCoy, já mais habituados ao contato com seres alienígenas, encaram o relacionamento com mais naturalidade: a criatura cuidou dele por tanto tempo e se apegou a ele de sua própria maneira. Isso deixa Cochrane mais assombrado ainda: será que os homens do futuro não têm moral, valores? Parece que a ideia de estar envolvido com algo não humano é repugnante para ele.
Kirk, com seu habitual xadrez verbal, convence a criatura de que o amor deles é impossível. Mesmo que Zefram fique ali por milhares de anos, eles nunca poderão se unir, porque a nuvem não é humana. A criatura dá a sua solução para o caso, tomando o corpo da diplomata doente para si. Ao vê-la como a bela comissária Hedford, Cochrane deixa de lado suas ressalvas ao relacionamento. A entidade restaura a saúde da diplomata e passa a coabitar seu corpo, mas agora elas estão presas àquele planeta. Zefram decide ficar com a companheira por ali mesmo, privando-se de conhecer a galáxia a bordo das naves que agora usam versões melhoradas de sua própria invenção, tudo para estar ao lado da criatura. Sua solidão havia acabado.
Escrita pela jornalista Débora Mismetti, Grandes Jornadas é uma coluna semanal publicada às sextas-feiras no Trek Brasilis, destacando tematicamente segmentos de Star Trek e convidando a uma revisita desses episódios por um ponto de vista diferente.
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