A sobrevivência da Série Clássica

A Série Clássica de Jornada nas Estrelas foi produzida entre 1966 e 1969 e foi diferente de qualquer outra a que a audiência estivesse acostumada, pois trazia temas que tratam sobre o ser humano, disfarçados de ficção científica. Vários tópicos importantes como a busca pela paz, o fim dos preconceitos raciais e a exploração do próprio ser interior foram abordados de forma inteligente, principalmente no primeiro ano da série.

Hoje em dia esses temas se tornaram mais corriqueiros e certamente a “Clássica” não é atualmente aquela série avançada de TV que foi nos anos 60. Mas o que tem ela de especial nos dias de hoje? Além do valor histórico, uma palavra responde a essa questão: charme. O que a série tem de sobra e que falta demais nas séries atuais de TV, inclusive nas séries e filmes atuais de Jornada nas Estrelas.

A série original tem sobrevivido muito bem nos últimos 36 anos[1] e, embora não atraia tantos novos fãs como outrora, ainda mantém uma legião fiel e bons índices de audiência. Nos EUA os VHS, LaserDiscs e DVDs das aventuras de Kirk sempre foram um sucesso de vendas. O design dessa série, por assim dizer, colabora com a sua sobrevivência. Os efeitos especiais são falsos[2], os uniformes parecem pijamas, os cenários do interior da Enterprise são de um colorido berrante parecendo (e eram) de plástico, a superfície dos planetas é mais falsa ainda etc. Mas não se deixem enganar; esses elementos não são pontos negativos, muito pelo contrário. Se todos eles fossem mais realistas, a série teria envelhecido e sucumbido. Melhor explicando, a Série Clássica não perde seu encanto porque não se parece com nada. Ela vive em um microcosmo próprio, não pertencendo ao futuro e nem ao passado. E o principal, é uma série muito divertida de se assistir. Isso vai colaborar muito para garantir uma eventual sobrevivência por muitos anos ainda, ao contrário das demais séries de Jornada.

A Nova Geração teve qualidade superior à Série Clássica em quase todos os aspectos, porém envelheceu precocemente nos últimos anos, principalmente as três primeiras temporadas, que ficaram muito com cara de produção anos 80. É verdade que a série original também tem a cara dos anos 60, mas esse foi um período cuja “face” mantém hoje melhor interesse do que a dos anos 80.

A Nova Geração foi um marco por mostrar que uma série de TV de ficção científica de alto orçamento podia fazer sucesso. Os filmes da Nova Geração para o cinema não fizeram jus ao potencial da série, principalmente o último, “Nemesis”, que é de qualidade inferior e fracassou nas bilheterias. Esse fator, infelizmente, pode também prejudicar muito a credibilidade da série[1].

Deep Space Nine, por muitos considerada como a melhor série de Jornada nas Estrelas de todos os tempos (posição que acompanho), talvez seja a série que, junto à Série Clássica, melhor sobreviva nas próximas décadas. Foi uma série que começou um tanto morna nos três primeiros anos, mas encontrou seu caminho certo no quarto e manteve uma qualidade incrível até o seu final no sétimo ano. Deep Space Nine conseguiu o feito de ser a única série de Jornada que conseguiu explorar todos os seus personagens sem preterições; cada membro do elenco teve seu momento de brilho em diversos episódios. Nesse aspecto superou a Série Clássica, em que a interação básica se dava apenas entre Kirk, Spock e McCoy, pois em DS9 a todos os sete integrantes do elenco foram dadas oportunidades para mostrar seu potencial.

Além disso, foi a que contou com o melhor time de atores, todos muito bons, com ressalvas para Terry Farrell, que era a integrante de menor talento. DS9 encontrou sua tábua de salvação na figura do Dominion, os vilões da série. Foi a primeira série de Jornada a trazer um aspecto inédito na franquia, qual seja, uma série de combates sucessivos contra um inimigo recorrente. É nesse aspecto que a série garantirá sua sobrevivência, pois trata-se de uma fórmula clássica de ficção científica já utilizada inúmeras vezes em outras séries de TV e filmes, mas que funcionou perfeitamente em DS9. Quem não mostra interesse por uma série entre mocinhos e bandidos poderosos alienígenas, onde as chances de vitória do lado do bem são remotas? Quem não se sente atraído por uma causa aparentemente perdida (o personagem Eddington que o diga)?

Os episódios à parte da guerra com o Dominion também se mostraram muito bons, como por exemplo “Hard Time”, “Trials and Tribble-ations”, “Children of Time” e “Far Beyond the Stars”. Certamente não foi a Jornada nas Estrelas idealizada por Gene Roddenberry, mas foi uma excelente série e merece ser redescoberta no futuro.

Voyager foi a pior série de Jornada nas Estrelas e está fadada a ser considerada como um mal que quanto antes esquecido melhor. Interessante notar que quando Voyager surgiu, em 1995, quase a totalidade dos fãs acreditaram que seria uma das melhores séries de Jornada, ainda mais porque estreou durante uma fase fraca da Deep Space Nine em seu terceiro ano e pelo fato de que a maioria dos fãs preferiam uma série ambientada em uma nave espacial e não em uma estação espacial.

As coisas se inverteram rapidamente quando Voyager despencou de qualidade já na metade de seu primeiro ano e a DS9 melhorou muito em seu quarto ano. Talvez Voyager seja lembrada como o único precedente de série ruim, com baixa audiência e críticas negativas por todos os lados, que sobreviveu por sete longos anos. A explicação é fácil: era a série que comandava o novo canal da Paramount, a UPN. A audiência era muito baixa, mas conseguia ser suficiente para manter o canal vivo. Era melhor manter essa margem do que cancelar a série e arriscar perder o mínimo que tinham naquele momento e matar de vez o canal.

Enterprise já nasceu desgastada. Os produtores Berman e Braga jogaram sujo com os fãs dessa vez. Foi prometida uma série absolutamente diferente das demais, com eventos anteriores à Série Clássica, no século 22. A série já está na metade do segundo ano e se tem mostrado mostrou-se uma verdadeira decepção. Praticamente todos os episódios são cópias mal disfarçadas de segmentos das séries anteriores. A intenção de dar à série uma roupagem mais atual será a própria corda que a enforcará a curto prazo. Essa série vai envelhecer muito mais rapidamente do que as demais.

Muitos fãs até suspeitam suspeitaram que a enigmática Guerra Fria Temporal que a série menciona seja fosse na verdade um bote salva-vidas para os roteiristas. Se esgotarem Ao esgotar as idéias para o século 22, pode-se cogitaria introduzir elementos (e personagens) de outras séries de Jornada passadas no século 24. Ainda há tempo para Enterprise mudar e melhorar, pois há esperança de que, assim como A Nova Geração e DS9, essa série encontre seu rumo lá pelo terceiro ano. Mas com todo esse “esforço” (sarcasmo) que Berman e Braga estão fazendo, dificilmente podemos esperar uma melhora no futuro.

Jornada nas Estrelas precisa de um descanso urgente e por prazo indeterminado. Os fãs estão saturados (de tanta porcaria ultimamente). Ao meu ver a franquia tem dois períodos que representam o fim do que era bom e especial. O primeiro momento foi em 1991, com a despedida da Série Clássica no sexto filme, “A Terra Desconhecida”; o segundo foi em 1999, com o episódio final de Deep Space Nine, mais do que apropriadamente intitulado “What We Leave Behind” (“O Que Deixamos para Trás”). Não esqueci de A Nova Geração; ela se situa dentro dos períodos que mencionei e representa um dos pontos mais altos da franquia no tocante a qualidade.

A Série Clássica talvez sobreviva a essa era negra em Jornada nas Estrelas, pois, como foi dito acima, é uma série que se mantém por si mesma, com elementos e visual completamente diferentes das séries atuais e, portanto, menos suscetível de cansar o público. Além disso, parece ser a série de Jornada que sempre mantém um certo nível de respeito por parte do público geral. E devemos lembrar que Spock é um dos personagens de TV mais conhecidos no mundo todo e elemento da cultura pop.

Vamos torcer pela Série Clássica!

Notas adicionais de republicação:

[1] Artigo originalmente publicado no conteúdo clássico do Trek Brasilis em 2002.

[2] Artigo não contempla a remasterização da Série Clássica.

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