ENT 1×05: Unexpected

ent005-1Tucker fica grávido e rende momentos de humor em mais um ‘high-concept’. Leia agora a revisão do Trek Brasilis para “Unexpected”, de Jornada nas Estrelas: Enterprise.

Sinopse:

Vários sistemas da Enterprise começam a falhar, preocupando a tripulação. Após algumas investigações, T’Pol descobre que há algo logo atrás da nave, distorcendo o campo de dobra — o que poderia ser a causa para os defeitos. Na tentativa de descobrir do que se trata, Archer ordena que um torpedo provoque a ignição do plasma atrás da nave. O procedimento revela uma nave camuflada.

ent005-4Ao serem descobertos, os alienígenas respondem, esclarecendo que não tinham intenções hostis, e estavam apenas “pegando carona” no campo de dobra da Enterprise, uma vez que seu próprio motor de dobra estava defeituoso. Archer avisa que o procedimento está danificando sua nave, mas se oferece para ajudar. Ele envia seu engenheiro-chefe, Charles Tucker, para consertar o motor da nave alienígena.

Após um penoso período de descompressão que durou três horas, Tucker adentra o veículo alienígena — pertencente aos Xyrillianos. Ele se sente muito mal a princípio, mas após um breve descanso, já volta a estar apto para trabalhar no problema. Durante o período de aclimatação, ele é ajudado por Ah’Len, a engenheira-chefe da nave.

Os dois rapidamente se põem a trabalhar juntos e logo conseguem restaurar o sistema. Durante as duas horas em que seria necessário esperar que o núcleo voltasse a operar, a engenheira decide levar Tucker para conhecer uma de suas tecnologia — uma sala capaz de criar projeções holográficas incrívelmente precisas, realistas e sólidas. Ela primeiro demonstra o equipamento recriando seu próprio planeta. Depois, transporta os dois para um barco, onde eles praticam o que ela descreve como um jogo: os dois colocam as mãos em uma espécie de bacia cheia de cristais, e então são capazes de sondar os pensamentos um do outro.

ent005-7Durante a “partida”, os dois são chamados de volta à engenharia, onde são informados de que os reparos tiveram sucesso. Tucker se despede de sua mais nova amiga e volta à Enterprise. Mas logo algo estranho começa a acontecer — uma pequena pretuberância surge no pulso do engenheiro. Ao consultar o doutor Phlox, ele descobre com surpresa que aquilo na verdade é um mamilo, e que ele está grávido.

Archer e T’Pol são chamados a enfermaria para serem postos a par da situação. Tucker jura que não teve nenhum contato sexual com outros membros de sua espécie, apesar das críticas ásperas de T’Pol para com ele. Ele revela que participou desse “jogo”, e Phlox concluiu que esse poderia na verdade ser o método de procriação utilizado pelos Xyrillianos. Os quatro decidem manter a situação constrangedora de Tucker em segredo, pelo menos enquanto uma resolução não é atingida.

ent005-8Diante das circunstâncias, Archer decide procurar pela nave alienígena, para descobrir como ajudar seu engenheiro. Após mais de uma semana de buscas, a nave foi localizada — camuflada e acompanhando o traço de dobra de um cruzador de batalha Klingon. Ao que parece, o conserto de Tucker no motor Xyrilliano não durou muito, observa T’Pol.

Archer decide contatar os Klingons, para informá-los de que há uma nave acompanhando-os, mas que é inofensiva. Ele pede para ter permissão de contatar os alienígenas, mas é respondido a tiros. O capitão Klingon responde a um chamado da Enterprise, que tenta dissuadi-los da idéia de abordar a nave Xyrilliana, pilhá-la e matar todos a bordo. Archer não tem muito sucesso com sua argumentação, mas T’Pol intervém, informando aos Klingons de que foi seu capitão que devolveu Klaang a seu mundo, salvando o Império de uma guerra civil há um mês. Diante disso, os Klingons decidem ceder, e concordam em poupar os Xyrillianos em troca de sua tecnologia de holografia.

Os Klingons vão à nave alienígena acompanhados por Tucker. Enquanto o engenheiro resolve sua situação com Ah’Lem, eles recebem uma demonstração da tecnologia holográfica, tendo a chance de “revisitar” seu mundo natal, Qo’noS. Tucker devolve a criança à sua mãe e volta para a Enterprise. Mas, antes de partirem, os Klingons dão um aviso: eles não serão tão benevolentes em seu próximo encontro.

Comentários:

ent005-5“Unexpected” não é nenhuma obra-prima, mas é bem melhor do que os nossos piores pesadelos a respeito dele. Pelo tema — uma gravidez masculina –, poderia ter acontecido coisa muito pior.

A premissa é mais velha que a ficção científica, e mais um “high-concept”. O que aconteceria se um homem ficasse grávido? Há mil questões interessantes e filosóficas para abordar sobre o tema, mas o episódio opta por uma versão 100% light, sem entrar em grandes polêmicas ou defender grandes idéias. Trata-se, antes de mais nada, de um segmento leve.

Embora tenha vários momentos de humor (como não poderia deixar de ser), não é uma comédia no estrito sentido do termo. As sequências engraçadas aqui normalmente são fruto de um roteiro bastante afiado, mas não de desenvolvimentos do enredo. A coisa felizmente também não chega a cair para o lado pastelão (a graça não está na situação ridícula e esdrúxula de Tucker, e sim às reações dele e dos outros personagens a ela).

Por incrível que pareça, apesar dos muitos momentos de humor, o conteúdo dramático continua sendo a real força motriz do episódio, o que é bom, pois transparece muito mais realismo para a história. Pena que falte profundidade nesse sentido — mas também seria difícil explorar muito mais da condição de “grávido” de Tucker, com apenas 45 minutos e uma história para contar.

Além da verossimilhança do enredo em geral, a série volta a primar pelo realismo em se tratando de exploração espacial, como já havia feito em “Fight or Flight”. Dessa vez, não só a chegada de Tucker à nave Xyrilliana é feita por nave auxiliar, como também há um procedimento de descompressão (adaptação gradual para a atmosfera da nave) que dura três horas para nosso pobre engenheiro. Felizmente não somos obrigados a acompanhar o tempo todo, mas é maravilhoso ver o tipo de detalhe a que os produtores estão se prendendo em alguns momentos.

ent005-6O ambiente alienígena é exatamente o que deveria ser — alienígena. A forma com que foi filmado (com uma leve desaceleração das cenas) ajudou a realçar o caráter estranho e desconfortável da nave para Tucker. O efeito é sensacional, fruto de um belo trabalho de direção e fotografia aliado a uma produção de cenários primorosa.

Voltamos a ter um desbunde de efeitos especiais. Além das tomadas já tradicionais das naves no espaço, há também a sala de holografia dos Xyrillianos, o banho de Archer com a gravidade desligada, com água flutuando por todo o banheiro, e um dos cenários alienígenas mostra algumas espécies de enguias flutuando em um imenso tanque. Repare que, à exceção da sala de holografias (que é a menos impressionante das três), os outros momentos são totalmente desnecessários à trama. O objetivo é muito mais sutil, de estabelecer a “cara” da série.

Os Klingons dessa vez são mostrados de forma muito mais sanguinária do que na aparição anterior, em “Broken Bow”. Aliás, é um enorme prazer ver que os produtores dessa vez estão, ao menos minimamente, preocupados com continuidade. É muito bom o fato de T’Pol só conseguir acertar os ponteiros com os Klingons mencionando eventos que se passaram em “Broken Bow” — além de criar um elo maior entre os episódios, mostra que os personagens (e os roteiristas) não estão “esquecendo” o que lhes acontece de um segmento para outro.

A solução para o confronto com os Klingons é, portanto, bastante satisfatória, assim como a caracterização desses alienígenas. Embora eles não estejam tão implacavelmente malvados como na Série Original, finalmente pudemos ver que as relações entre Klingons e humanos não serão nada boas — o que favorece a manutenção da continuidade com o seriado original. Será interessante ver como os confrontos entre o Império e a Frota Estelar acontecerão no futuro.

ent005-9Mas torçamos para que esse futuro não esteja muito próximo. Se fosse exigido da Enterprise um combate direto com o cruzador Klingon, ela seria destruída como se fosse feita de isopor — o que é muito legal. Finalmente estamos do lado mais fraco, para variar um pouco. Outra coisa legal de se acompanhar é a futura evolução da Enterprise para compensar essa inferioridade. E por falar em evolução, os Klingons pelo visto não farão muita nos próximos cem anos… o cruzador é um modelo muito parecido (senão idêntico) ao D-7, modelo apresentado na série clássica! Será que John Eaves estava de folga ou não deu tempo de criar um modelo novo?

Um detalhe que não agradou (não pelo uso aqui, mas pelas perspectivas que abre) é a introdução, sem dúvida prematura, de uma espécie de holodeck, mesmo na forma de tecnologia alienígena. O fato de a tecnologia ser passada aos Klingons no fim do episódio, nos deixa com a incômoda perspectiva de ver histórias de holodeck no futuro… que já foram feitas à exaustão nas outras séries.

Archer, Tucker e Phlox vão muito bem no episódio. O capitão faz o feijão com arroz, mas Connor Trinneer vai mais uma vez muito bem, interpretando Tucker. Além de conseguir imprimir a naturalidade necessária para convencer interpretando uma situação inusitada como essa, seu personagem parece estar ganhando mais vida a cada episódio. Não só pela atuação, mas o roteiro também está ajudando. Por exemplo: aqui descobrimos que o engenheiro está há 12 anos na Frota, e que Archer salvou sua vida quatro anos atrás. Torçamos para que os roteiristas lembrem-se disso e não contrariem as informações mais tarde…

Em compensação, T’Pol acabou prejudicada. Embora a atuação de Jolene Blalock nada deva ao que é pedido dela, o roteiro está exagerando na ironia e na “emotividade” da Vulcana. Ela é capaz das ironias que Spock expressava, mas de forma exageradamente agressiva. Em “Unexpected” isso chega a descaracterizar a personagem. Está faltando sintonia fina para evitar a destruição de mais um Vulcano no Universo de Jornada.

Citações:

Phlox – “I am not quite sure congratulations are in order, commander, but… you’re pregnant.”
(“Não sei se parabéns são apropriados, comandante, mas… você está grávido.”)

T’Pol – “One of the first things a diplomat learns is not to stick his fingers where they don’t belong.”
(“Uma das primeiras coisas que um diplomata aprende é não enfiar seus dedos onde eles não pertencem.”)

Tucker – “I am a chief-engineer. I spent years earning that position. I never had any intention of becoming a working mother.”
(“Eu sou um engenheiro-chefe. Gastei anos conquistando essa posição. Eu nunca tive intenção de me tornar uma mãe que trabalha.”)

Archer – “I’d like you to start seeing the doctor every eight hours. As your delivery date gets closer, he should be able to figuring out what your post-natal responsabilities might be.”
(“Gostaria que começasse a ver o doutor a cada oito horas. Conforme a data do parto se aproximar, ele será capaz de descobrir quais podem ser as suas responsabilidades pós-natais.”)
Tucker – “Post-natal responsabilities…?”
(“Responsabilidades pós-natais…?”)
Phlox – “You may very well be putting those nipples to work before you know it.”
(“Você pode muito bem estar colocando esses mamilos para trabalhar antes que imagine.”)

Archer – “That business about the Klingon chanceler calling me a brother… is that true?”
(“Aquele negócio sobre o chanceler Klingon ter me chamado de irmão… é verdade?”)
T’Pol – “Klingons are known to exagerate. I saw nothing wrong with doing the same.”
(“Klingons são conhecidos por exagerar. Não vi nada errado em fazer o mesmo.”)

Trivia:

  • É a primeira menção de Enterprise a tecnologias holográficas avançadas, que mais tarde dariam origem ao holodeck.
  • Charlie Tucker passa pela primeira gravidez masculina e primeira gravidez interespecífica da história. Connor Trinneer descreveu esse episódio como “muito divertido”. “Eu fico grávido, mas não é como se eu tivesse sido engravidado”, diz. “É um acidente. Esse alienígena e eu colocamos as mãos nessas coisas granuladas e lemos as mentes um do outro e próxima coisa que sei é que eu tenho mamilos nascendo no meu braço.”
  • Julianne Christie já apareceu em Jornada, como o par romântico de Neelix (a Talaxiana Drexa), em “Homestead”, da sétima temporada de Voyager.

Ficha técnica:

Escrito por Rick Berman & Brannon Braga
Direção de Mike Vejar
Exibido em 17/10/2001
Produção: 005

Elenco:

Scott Bakula como Jonathan Archer
Jolene Blalock como T’Pol
John Billingsley como Phlox
Anthony Montgomery como Travis Mayweather
Connor Trinneer como Charlie ‘Trip’ Tucker III
Dominic Keating como Malcolm Reed
Linda Park como Hoshi Sato

Elenco convidado:

Julianne Christie como Ah’Len
Randy Oglesby como Trena’L
Christopher Darga como capitão Klingon
Regi Davis como primeiro-oficial Klingon
TL Kolman como alienígena
John Cragen como tripulante
Drew Howerton como Steward
Mike Baldridge como Dillard

10 Comments on "ENT 1×05: Unexpected"

  1. Esse negócio de passagem de tecnologia do futuro a outras raças nesse episódio não fez nada de mau a Enterprise, afinal, o que os klingons conseguiram foi só o Holodeck. Ao meu ver, a tecnologia só os ira deixar irritados. Ô holodeck do Chato.

  2. Como sempre, Salvador, seu artigo é excelente e seus comentários são absolutamente sensatos, coerentes, imparciais. Mas como pode ser claramente visto, há muito mais qualidades que defeitos citados. Todos aqui já sabem a minha admiração por Enterprise, e seu artigo corrobora minha opinião. Trip é um dos personagens mais interessantes, e o verdadeiro sucessor ( ou se quiserem, precursor) dos conquistadores Kirk e Riker. Jolene, como T`Pol, mais adiante irá achar o ponto certo para demonstrar o conflito entre sentir as emoções e reprimí-las racionalmente, o que fará com absoluta perfeição em muitos momentos posteriores. Outra característica evidente neste episódio, e que se tornará marcante em vários episódios, é a sensualidade, que eu considerei explorada de forma muito elegante. Embora o tema não seja inédito, ele foi utilizado de uma maneira diferente, com muita inteligência, mostrando, logo no início da série, realmente a que viria. Este é um dos episódios que mais gosto.

  3. Eu gosto desse episódio porque ele tem várias linhas de histórias. Ou três momentos catalizadores do que vem a seguir.

    No começo parece um mera mãozinha na manutenção da nave Xyrilliana, algo até bobo, mas que passa uma extrema experiência de exploração num mundo bem diferente. Sò isso já valeria a pena.

    A seguir a parte cômica, da gravidez. O episódio poderia ter se perdido aí e nunca mais voltar aos Xyrillianos. Phlox poderia ter arranjado uma maneira de interromper a grávida ou o feto poderia ser transferido para uma incubadora. Ficaria mais Sci-Fi talvez. Ainda bem que não foram nesse sentido. A comédia foi um caminho mais acertado.

    Por fim, os Klingons. Quem iria pensar que a história chegaria num conflito bélico com eles e/ou o tratamento dado a abordagem sorrateira da nave Xyrilliana. E resultando numa barganha esperta que une os três momentos.

    São três degraus sempre ascendentes na narrativa do episódio. Produzindo um resultado excelente. Leve e audacioso.

  4. Post 3>
    Interromper a gravidez iria contra todo o princípio desta série e também de todo ST. É bem específica a preocupação com a vida, seja ela em que estágio esteja, do capitão Archer, como vemos em episódios posteriores (os defensores do aborto não devem gostar de ST). Portanto, está opção inexistia para o desenvolvimento da estória.

    Quanto ao desenvolvimento da tecnologia klingon, eu sempre me perguntei como eles podem se desenvolver com esta filosofia belicista e auto destrutiva. Mas não foi surpresa, pelo menos para mim, que eles tenham um desenvolvimento tão lento apesar de saber que a guerra sempre leva a um maior progresso científico. No caso esse atraso é mais de acordo com a filosofia de vida klingon do que sobre as condições sociais em que eles vivem.

    Agora, uma cena impagável, é quando os klingons ficam sabendo da gravidez do Trip. Foi demais …

  5. Também gosto muito deste episódio! E, discrdando um pouco do texto, gosto da reação da T`pol com a gravidez do Trip! Ri muito com essa cena!!

  6. Esse episódio mostra como foi grande a perda para os fãs de Enterprise, em particular, e para os fãs de Jornada, em geral, o cancelamento da série.

  7. Maria da Conceição G. Simões | 17 de janeiro de 2009 at 9:05 pm |

    Eu gostava dos episódios em que tentavam mostrar uma justificativo para o que ia acontecer no futuro (TOS) e esse episódio foi um dos melhores. Se não me engano houve um diálogo em um dos episódios em que foi comentado que as emoções dos humanos atrapalhavam o controle de T’Pol e que era desafiador para ela manter-se naquela nave.(Eu só tenho os DVDs de TOS por isso me é difícil lembrar todos os detalhes das outras séries).

  8. Pena a série ter sido interrompida prematuramente, ela foi bem regular, sendo poucos episódios que considerei ruins. Este foi um típico ST, acho que o roddenberry teria gostado muito e o Trip, aqui, estava se mostrando uns dos melhores personagens da série.

  9. Engraçado, a audiência de ENTERPRISE era baixa para Star Trek, mas não era baixa para um programa da TV americana, realemente acho que o programa foi cancelado no seu auge, e durante seu período de vida a Paramount nem buscou “capitalizar” ele com produtos tipo games… Bom, quanto ao episódio: ele não é o melhor da série, mas o tema do homem grávido poderia ter rendido um ep. bobo, mas não foi, foi bem escrito, com doses de humor certas, tudo muito bem feito em cima de um tema tão… “batido”…

  10. Episódio bom. Nada a acrescentar além do que salvador disse 🙂

Leave a comment

Your email address will not be published.


*