Guerra Klingon termina no altar do sacrifício à verossimilhança

Sinopse

Sob o comando da capitão Philippa Georgiou — na verdade a imperatriz Georgiou do universo do Espelho, fato conhecido por poucos a bordo — a Discovery se prepara para sua missão de reconhecimento a Qo’noS, o mundo natal klingon. É uma questão de vida ou morte, já que uma frota de naves inimigas está a caminho da Terra, e a Frota Estelar está com suas defesas em frangalhos.

Esse senso de emergência, contudo, não impede Michael Burnham e Saru de demonstrarem frustração de estar sob o comando de uma assassina sanguinária que apenas se faz passar pela nobre capitão federada. Os três trocam alfinetadas na ponte e, quando Michael ameaça desmascarar Georgiou, a capitão a chama para dar uma volta e a coloca na linha.

 
As duas vão até a detenção, onde Georgiou pretende interrogar a prisioneira L’Rell. O objetivo é descobrir o lugar mais adequado para que a Discovery possa saltar direto a uma das cavernas de Qo’noS, e dali um grupo de descida possa acessar os túneis vulcânicos subterrâneos onde pretendem soltar um drone de reconhecimento.

L’Rell obviamente não coopera, nem mesmo quando a capitão transforma o interrogatório em tortura. Para acabar com a violência, Michael sugere uma alternativa: buscar a ajuda de Ash Tyler, que tem as memórias de Voq e pode saber tanto sobre Qo’noS quanto L’Rell. Ash concorda em ajudar e sugere que o melhor acesso seria por um dos antigos santuários em homenagem a Molor, que foram abandonados pelos klingons seguidores de Kahless, o guerreiro que derrotou Molor e pela primeira vez unificou o Império. O território escolhido, em particular, foi cedido pelos klingons aos órions.

Georgiou decide comandar o grupo de descida, composto por Burnham, Tyler e Tilly — a única dos três a não saber de cara a verdadeira identidade da capitão. Ela não tarda a descobrir e fica encarregada de transportar o drone, numa maleta. A capitão vasculha os pertences de Lorca e encontra várias armas que eles podem vender clandestinamente em Qo’noS, obtendo darseks (a moeda local klingon) com que podem conseguir mais informações e descobrir onde exatamente é a entrada para o santuário.

O salto da Discovery é bem-sucedido, e o quarteto se transporta para a superfície. Vendem as armas, dentre elas pistolas nausicaanas, e então se dividem em dois grupos. Tyler e Burnham entram numa espécie de cassino, onde há klingons jogando, e Georgiou e Tilly vão a um bordel órion.

Tanto Tilly como Burnham estão completamente desconfortáveis com a situação. Tyler, beneficiado pelas memórias de Voq, logo se entrosa com outros klingons num jogo. Georgiou resolve deitar-se com um prostituto e uma prostituta órions. Ambos, cada qual a seu modo, conseguem a informação de que precisam. Mas Tilly, ainda no bordel, faz uma terrível descoberta. A maleta que ela carrega não contém um drone, mas sim uma hidrobomba. Ao contrário do que haviam sido informados, os vulcões de Qo’noS não estão extintos, e sim ativos. Nessas circunstâncias, a hidrobomba seria capaz de tornar o planeta inteiro inabitável — o plano secreto da Frota Estelar, em conluio com a imperatriz Georgiou, é promover um genocídio. Tilly consegue contar isso a Burnham pouco antes de ser nocauteada por Georgiou, que leva a bomba consigo.

 
De volta à Discovery, Burnham abre contato com a almirante Cornwell, confrontando-a. Defendendo os princípios da Frota Estelar, ela se recusa a seguir com o plano genocida e recebe o apoio de Saru e do resto da tripulação. Michael então apresenta uma alternativa e volta à superfície para encontrar Georgiou. A imperatriz já liberou a bomba no poço e conta com um controle remoto ligado à biometria dela para a detonação.

Burnham a encontra e pede o controle, entregando a Georgiou o documento da Frota Estelar que garante liberdade à imperatriz. Após algum convencimento, ela aceita transferir o controle sobre a bomba, e Michael quer que ele seja passado a L’Rell. Ela explica a situação à klingon e diz que ela, de posse do destino de seu planeta natal, deve assumir o poder em Qo’noS e encerrar a guerra com a Federação. Relutante a princípio, L’Rell concorda, e se apresenta ao Alto Conselho como nova Chanceler do Império Klingon. Os líderes das 24 casas reagem com gargalhadas, até entenderem o que é o controle remoto que ela tem nas mãos. E então o ataque iminente à Terra é interrompido. A guerra está terminada.

 
De volta à Terra, a tripulação da Discovery é condecorada com a Medalha de Honra. Burnham recupera sua patente de comandante, e Tilly se gradua na Academia, passando a alferes, aprovada para o Programa de Treinamento de Comando. A nave então é enviada a Vulcano, onde ela deve pegar seu novo capitão. Sarek aproveita a carona. Mas, no meio do caminho, a Discovery recebe um pedido de socorro, prioridade um. É a USS Enterprise, comandada pelo capitão Christopher Pike…

Comentários

“Will You Take My Hand?” tem dois grandes desafios a cumprir, autoimpostos pelos roteiristas: encerrar o arco da Guerra Klingon e fazê-lo de forma a criar uma simetria com o piloto “The Vulcan Hello”. Então, se na abertura da série Michael havia cometido um motim para violar os princípios da Frota Estelar em nome da sobrevivência, aqui ela faz o exato oposto: comete um motim para proteger os princípios da Frota Estelar apesar do risco de aniquilação. Ninguém pode dizer que não se trata de uma opção artística interessante, mantendo Burnham como o ponto focal da história, relegando o conflito entre federados e klingons ao papel de pano de fundo. Mas infelizmente é também uma opção cheia de conveniências e, em muitos aspectos, inverossímil.

Do ponto de vista estético, é um desfecho com cara de Star Trek. Se no piloto uma guerra é iniciada com uma grande batalha, aqui, à moda de Roddenberry, os escritores Akiva Goldsman, Aaron Harberts e Gretchen Berg optam por dar encerramento ao conflito sem que seja disparado um único tiro. OK, como metáfora roddenberriana, a gente engole. Mas quão crível é esse desfecho? E quão grandioso, para justificar sua função de grande conclusão de uma temporada inteira de guerra? Não muito — e isso para ser gentil.

 
Entre as incongruências: como L’Rell, uma virtual desconhecida no Império Klingon, convence tão rapidamente os membros das Grandes Casas a recuarem no que parece ser uma vitória certa contra os históricos inimigos, a Federação? Quanto os klingons parecem ser propensos a serem chantageados? E com que facilidade a tripulação da Discovery consegue plantar a tal bomba em primeiro lugar? Mesmo considerando que a imperatriz Georgiou já fez isso no universo do Espelho, tudo parece fácil demais, rápido demais — sob encomenda para fechar uma história complicada de maneira atabalhoada e displicente.

É uma ironia que este episódio, com todos os seus problemas, seja o que mais se assemelha a Star Trek “clássico” em toda a primeira temporada. Ele tem uma missão avançada típica num planeta, com sua dose de “exploração de novos mundos” (no caso, uma olhada inédita na vida cotidiana em Qo’noS) e a típica “mensagem” trekker de pacifismo, solução pela inteligência em vez de pela força e celebração das diferenças. Trata-se de um tratamento totalmente adequado para um episódio de meio de temporada de qualquer das séries, mas fica a dever muito como conclusão de um arco de temporada serializada na primeira experiência de Jornada nas Estrelas como uma série “premium” de altos valores de produção da era do streaming.

Ou seja, tomado individualmente, é legalzinho; tomado no conjunto da obra, é frustrante.

O que salva aqui é o “coeficiente de diversão”, com Tilly em particular proporcionando momentos impagáveis. Mary Wiseman segue desfilando seu timing excelente de comédia, e dois exemplos aqui são a cena em que ela descobre que a Georgiou é a imperatriz, e ensaia fazer uma saudação do Império Terráqueo, e a cena em que ela é induzida a cheirar cinza de vulcão por um trambiqueiro órion, vivido pelo impagável Clint Howard (para os íntimos da Série Clássica, o bom e velho Balok de “The Corbomite Maneuver”).

 
Aliás, o episódio é permeado de homenagens e referências clássicas, algumas divertidas (como o pessoal fritando as criaturas de Ceti Alfa V como churrasquinho nas ruas de Qo’noS), outras de virar os olhos (como Georgiou falando em “Pão e Circo”, ou “Bread and Circuses”, título de um episódio clássico). Os mapas globais do mundo natal klingon também estão cheios de referências divertidas extraídas de toda a saga pregressa de Star Trek. A cena do discurso de Burnham na Terra também é reminiscente de outros desfechos com intenções grandiloquentes na franquia, alguns mais bem-sucedidos (como o final de Jornada nas Estrelas VI: A Terra Desconhecida), outros menos (como o fim de Além da Escuridão: Star Trek). E, claro, nada é mais emocionante para os fãs de velha data do que terminar com uma visão majestosa da Enterprise clássica (respeitosamente repaginada para a série) e em seguida os créditos finais, sob o clássico tema de encerramento dos episódios dos anos 1960. Eu, como boa manteiga derretida que sou, chorei feito um menino, acalentado pelo sentimento de “voltamos para casa”.

 
O episódio também faz um papel bacana em sedimentar o núcleo da tripulação da Discovery como uma família, à moda das outras séries. A essa altura, Burnham, Saru, Stamets e Tilly são nossos “amigos”. E a opção de deixar Tyler partir com L’Rell é a única que faz sentido dramático. Por mais que Tyler encontre aqui alguma medida de redenção, ele jamais poderia ser incorporado à tripulação — ele é para sempre um estranho entre dois mundos. Mas ao lado da autoproclamada líder do Império Klingon, abundam possibilidades dramáticas para o futuro do personagem.

No frigir dos ovos, talvez a melhor qualidade deste episódio é que, para o bem ou para o mal, ele fecha o arco da Guerra Klingon — uma proposta narrativa que, em retrospecto, não funcionou. E por uma razão muito simples: usada o tempo todo como pano de fundo, é uma guerra pela qual passamos sem efetivamente vivê-la. Os eventos que a começam e a encerram parecem arbitrários, e a maior parte dela se passou em lapsos temporais não mostrados em tela (seis meses entre a Batalha das Estrelas Binárias e a chegada de Burnham à Discovery, e depois nove meses no retorno da Discovery a seu universo de origem). É difícil se importar com o andamento e o desfecho de um conflito sobre o qual você só ouve falar, mas raramente vivencia em primeira mão.

Façamos um contraste com a experiência anterior de retratar uma guerra em Star Trek, com Deep Space Nine. Lá, vemos a gradual escalada das animosidades com o Dominion, e o movimento estratégico de diversas potências, até tudo culminar numa guerra aberta. E durante a guerra somos confrontados com todos os seus aspectos, em episódios tão tensos quanto brilhantes (vou citar “Call to Arms”, “In the Pale Moonlight” e “The Siege of AR-558” só como exemplos, mas há muitos outros), para terminar numa conclusão épica, à altura do arco. Em Discovery, tudo isso aconteceu à distância e em fast-forward, o que diminui brutalmente o valor emocional da experiência.

 
Mas nem tudo foi à toa. Se, em termos de enredo, a primeira temporada teve algumas dificuldades, seus personagens, humanos e tridimensionais, brilharam como raras vezes na franquia. É especialmente surpreendente por se tratar da primeira temporada, em que as coisas ainda precisam se assentar em seus lugares. Os personagens de Discovery, contudo, pareceram ter nascido “prontos”, graças a roteiros bem acabados nesse sentido e, sobretudo, um trabalho excepcional de todo seu elenco. OK, para dizer que não falei de flores, deixo uma crítica pontual à atuação de James Frain ao final de “Will You Take My Hand?”. Em seu último diálogo com Burnham na Terra, Sarek exibe o que, para um vulcano, pode ser classificado como nada menos que euforia histérica — um pouco demais para mim.

 
A melhor notícia, no entanto, é que agora estamos livres do complicado arco da Guerra Klingon e somos deixados apenas com os personagens complexos e cativantes criados por Bryan Fuller e Alex Kurtzman. “Will You Take My Hand?” termina quase com uma promessa — um vislumbre do que promete ser uma fascinante nova jornada na segunda temporada. Alerta escuro! Vamos em frente!

 
Avaliação

Citações

Burnham – On the eve of battle, on a cold and windless night, an old general turned to a young soldier. ‘Tomorrow,’ said the master, ‘you will know fear.’ The young soldier, who had not yet experienced the agony of war, looked at the general with quizzical eyes: ‘How will I know fear if I don’t know what it looks like?’ The general replied: ‘You will know fear because it speaks very fast and it speaks very loud. If that is how fear acts, recognizing it is easy.’ But as the young soldier considered the general’s advice, she asked the question gagging us now: ‘Once I know fear, how do I defeat it?'”
(“Às vésperas da batalha, numa noite fria e sem vento, um velho general se voltou a uma jovem soldado. ‘Amanhã’, disse o mestre, ‘você conhecerá o medo’. A jovem soldado, que não havia ainda experimentado a agonia da guerra, fitou o general com olhar intrigado: ‘Como eu conhecerei o medo se não sei como ele se parece?’ O general respondeu: ‘Você conhecerá o medo porque ele fala muito depressa e fala muito alto. Se é assim que o medo age, reconhecê-lo é fácil’. Mas conforme a jovem soldado considerou o conselho do general, ela fez a pergunta que nos engasga agora: ‘Uma vez que eu conheça o medo, como eu o venço?'”)

Burnham – We are no longer on the eve of battle. Even so I come to ask myself the same question that the young soldier asked the general all those years ago: ‘How do I defeat fear?’ The general’s answer: ‘The only way to defeat fear is to tell it no.’ No, we will not take shortcuts on the path to righteousness. No, we will not break the rules that protect us from our basest instincts. No, we will not allow desperation to destroy moral authority. I am guilty of all these things. Some say that in life there are no second chances. Experience tells me that this is true, but we can only look forward. We have to be torchbearers, casting the light so we may see our path to lasting peace. We will continue exploring. Discovering new worlds and new civilizations. Yes, that is the United Federation of Planets.
(“Não estamos mais às vésperas da batalha. E ainda assim me vejo fazendo a mesma pergunta que a jovem soldado fez ao general muitos anos atrás: ‘Como eu venço o medo?’ A resposta do general: ‘O único modo de vencer o medo é dizer não a ele’. Não, não pegaremos atalhos no caminho da virtude. Não, não quebraremos as regras que nos protegem de nossos instintos primais. Não, não permitiremos que o desespero destrua a autoridade moral. Eu sou culpada de todas essas coisas. Alguns dizem que na vida não há segunda chance. A experiência me diz que isso é verdade, mas só podemos olhar adiante. Temos de ser portadores da chama, trazendo luz para que possamos ver nosso caminho rumo à paz duradoura. Continuaremos a explorar. Descobrir novos mundos e novas civilizações. Sim, esta é a Federação Unida de Planetas.”)

Trivia

  • Clint Howard é chamado aqui a mais uma vez aparecer como ator convidado em Jornada nas Estrelas. Além de seu papel como Balok em “The Corbomite Maneuver”, Howard interpretou o morador de rua Grady em “Past Tense, Part II”, de Deep Space Nine, e o ferengi Muk em “Acquisition”, de Enterprise.
  • As cenas de Paris foram filmadas em locação na Prefeitura de Vaughan, ao norte de Toronto, no Canadá.
  • Uma cena bônus do episódio, originalmente cortada, mas depois exibida na convenção americana Wondercon, em 23 de março de 2018, revelou que a imperatriz Georgiou foi recrutada por Leland, um membro da Seção 31. A organização secreta de inteligência foi vista antes em Deep Space Nine e em Enterprise. Leland é vivido por Alan van Sprang, que, a exemplo de Michelle Yeoh, deve aparecer na segunda temporada da série.
  • Este episódio mostra pela primeira vez na franquia alguém urinando e sugere que a redundância de órgãos klingons se estende aos genitais. Isso reforça o comentário de Lorca para L’Rell em “Choose Your Pain” de que humanos não têm o número certo de membros para copular com klingons.
  • Episódio marca a primeira aparição da Enterprise clássica desde 2005, quando ela apareceu no episódio final de Enterprise, “These Are the Voyages”.
  • A nova/velha Enterprise causou certa controvérsia entre os fãs quando o responsável pelo redesenho, John Eaves, declarou publicamente que ela foi alterada em cerca de 25% com relação ao desenho original por razões legais. Mais tarde ele foi obrigado a apagar os comentários das redes sociais e a CBS veio publicamente dizer que as mudanças foram feitas por questões estéticas, e não legais.
  • O episódio mostra a Doca Espacial vista nos filmes clássicos de Jornada nas Estrelas em construção, na órbita da Terra.
  • Este episódio marca a primeira vez que vemos a Terra em Discovery.
  • “Will You Take My Hand?” também mostra trills pela primeira vez em Discovery. Sua presença em Qo’noS sugere que os trills têm boas relações com os klingons, como foi aludido pela história de Curzon e Jadzia Dax em Deep Space Nine.
  • O episódio “canoniza” informações sobre como se deu a morte dos pais de Burnham que haviam sido originalmente apresentadas no romance Desperate Hours, de David Mack.

Ficha técnica

História de Akiva Goldsman & Gretchen J. Berg & Aaron Harberts
Roteiro de Gretchen J. Berg & Aaron Harberts
Dirigido por Akiva Goldsman
Exibido em 11/02/2018
Produção: 115

Elenco:

Sonequa Martin-Green como Michael Burnham
Doug Jones como Saru
Anthony Rapp como Paul Stamets
Mary Wiseman como Sylvia Tilly

Elenco convidado:

Michelle Yeoh como Philippa Georgiou
Mia Kirshner como Amanda Grayson
Jayne Brook como Katrina Cornwell
Mary Chieffo como L’Rell
James Frain como Sarek
Clint Howard como um órion
Alan van Sprang como Leland (cena bônus)
Michael Ayres como oficial de transporte
Matthew Binkley como Shavo
Emily Coutts como Keyla Detmer
Riley Gilchrist como almirante Shukar
Anthony Grant como Er’Toom
Julianne Grossman como computador da Discovery
Harry Judge como almirante Gorch
Morgan Kohan como negociador de armas
Patrick Kwok-Choon como Rhys
Crystal Leger como jogador klingon 2
Clare McConnell como Dennas
Damon Runyan como Ujilli
Sara Mitich como Airiam
Oyin Oladejo como Joann Owosekun
Ronnie Rowe Jr. como Bryce
David Benjamin Tomlinson como jogador klingon 1
Bree Wasylenko como Shava

TB ao VIVO: