DSC 2×09: Project Daedalus

Episódio traz o vilão da história e humaniza Airiam em sua jornada final

Sinopse

Escondida em órbita de um planeta não identificado, a USS Discovery recebe a visita de uma nave auxiliar. A bordo, a almirante Katrina Cornwell, em uma missão secreta. Mas, antes de mais nada, ela precisa interrogar Spock.

O tenente nega veementemente ter matado três pessoas na Base Estelar 5, e a análise computadorizada de seu depoimento confirma que ele diz a verdade. No entanto, Cornwell também tem imagens da câmera de segurança da base que mostram Spock cometendo os crimes. Ao discutir as evidências com Pike e Saru, ela também revela o principal motivo de sua visita. O Controle, sistema de análise de ameaças da Seção 31, não está mais aceitando suas entradas no sistema. Aparentemente ele foi sabotado pela almirante Patar, uma extremista lógica vulcana. A missão da Discovery: ir até a base que serve de Quartel-General da Seção 31, prender Patar e reinicializar o Controle, para que ele volte a funcionar normalmente.

 

Enquanto a Discovery está a caminho do QG da Seção 31 — instalado numa ex-colônia penal abandonada há um século —, a tripulação prossegue com seus afazeres. Stamets trabalha para consertar o motor de esporos; Spock e Burnham quebram a cabeça no mistério do Anjo Vermelho; e Airiam se reveza entre gerenciar suas memórias pessoais e ajudar Tilly a desencriptar os dados enviados supostamente por Tyler à Seção 31. Descobrimos que Airiam é uma humana ciberneticamente modificada, ou “meio robô”, como diz Tilly. Ela foi vítima de um grave acidente de nave auxiliar logo após sua lua-de-mel, e o marido não sobreviveu.

Entre Spock e Burnham, a relação segue estremecida. Eles parecem não se entender, e uma tentativa de dar foco às investigações por meio de uma partida de xadrez acaba de forma violenta, quando o vulcano extravasa sua raiva e detona o tabuleiro, depois de jogar meramente para contrariar as expectativas de sua irmã com sua falta de estratégia.

Na chegada ao QG da Seção 31, a base está cercada de minas — armas defensivas banidas pela Federação, mas usadas mesmo assim como forma de lidar com naves camufladas inimigas durante a Guerra Klingon. Numa comunicação, a almirante Patar ameaça Pike, Cornwell e a tripulação. A aproximação da Discovery é complicada pelo fato de que as minas parecem perseguir a nave — graças a informações enviadas por Airiam, que está contaminada por um vírus digital espúrio transmitido pela sonda do futuro. Ela também faz um misterioso download para sua memória, e a única a suspeitar de algo é Nhan.

As minas são superadas, em parte por uma sugestão de Burnham de usar uma estratégia de ações evasivas que contrariasse expectativas (ideia inspirada no jogo de xadrez malfadado com Spock). Um grupo de abordagem será levado a bordo. Pike solicita a Saru que coordene a equipe, mas o primeiro oficial requisita permanecer a bordo para seguir numa investigação que promete ser mais útil. O capitão então designa Burnham, que irá acompanhada de Nhan. Airiam se oferece para ir também.

Enquanto isso, na engenharia, Stamets recebe a ajuda de Spock nos reparos, e ambos conversam de forma franca sobre vários assuntos, desde a predileção do Anjo Vermelho pelo vulcano até a situação conjugal do cientista com o doutor Culber ressurrecto.

Na base da Seção 31, o grupo de descida trabalha para restaurar gravidade artificial e suporte de vida. Fazem então uma descoberta chocante: Patar está morta há duas semanas, congelada. Saru entende então por que não percebeu mudanças de assinatura de calor que indicassem variação de humor na almirante durante sua comunicação com Pike — ela era um holograma. Da mesma maneira, o vídeo que incrimina Spock é holográfico. Ambos são fabricações do Controle, Inteligência Artificial que aparentemente decidiu tomar o poder na Federação.

Tilly finalmente descobre quais foram os dados transmitidos para a Seção 31: todas as informações que a Esfera encontrada pela Discovery tinha sobre inteligência artificial. Aparentemente o Controle quer esse conteúdo como maneira de evoluir e se tornar consciente — e assim levar ao ocaso da civilização, como na visão revelada a Spock pelo Anjo Vermelho. Mais que isso, a alferes também identifica o misterioso download de Airiam: é o conteúdo da Esfera. Para poder armazená-lo, ela deixou para trás, no computador de bordo da Discovery, todas as suas memórias pessoais.

Burnham e Nhan são avisadas que Airiam está comprometida, mas é tarde demais — ela já está transferindo os dados ao Controle. Uma luta se segue, Nhan é ferida gravemente e Burnham consegue isolar Airiam numa comporta de ar. Tilly tenta sensibilizar a humana-cibernética enviando-lhe memórias delas juntas, numa esperança de apelar aos bons sentimentos dela. Airiam responde, mas se diz totalmente comandada pelo Controle e pede que Michael a ejete para o espaço, antes que ela consiga voltar para dentro da estação e concluir sua nefasta missão.

Pike ordena que Burnham siga adiante e ejete Airiam, mas ela resiste. Não quer matar a amiga. O tempo está quase se esgotando, e na hora agá a ciber-humana é ejetada — não por Michael, mas por Nhan, que se recuperou. Burnham fica em choque com a morte, e Airiam tem como última visão sua memória da lua-de-mel, antes da falha completa de seus sistemas.

Comentários

Star Trek: Discovery é uma série que tem flertado com a ideia de ser um programa adulto, com altas doses de drama e violência, mas ao mesmo tempo tenta se manter enraizada nas origens da franquia como um programa familiar, leve, inspirador. Por vezes, parecem metas mutuamente exclusivas, e em poucos episódios a tensão entre esses dois aspectos fica tão clara quanto em “Project Daedalus”. Por um lado, os produtores querem dar um coice emocional com uma morte brutal de uma personagem que está na série desde o terceiro episódio do primeiro ano. Por outro lado, não é mais que a morte glorificada de um redshirt, daqueles que morriam aos montes, como moscas, a cada episódio de Série Clássica.

Isso porque a personagem Airiam, apesar de estar presente em quase todos os episódios da série, não fazia mais que dizer uma ou outra fala curta, ou mesmo servir apenas de figuração. Com seu visual intrigante robótico, ela sempre provocou os fãs a quererem saber mais a seu respeito. Nesse sentido, pode ser meio frustrante que o mesmo episódio que nos ensina basicamente tudo sobre ela seja o que a mata, ao final. Antes dele, não sabíamos sequer se ela de fato era humana, apesar de a produção, nos bastidores, ter algumas vezes confirmado essa informação. Aqui aprendemos que ela era recém-casada e sofreu um acidente de nave auxiliar que matou o marido e a feriu severamente. Sua sobrevivência dependeu basicamente de instalar seu cérebro em um corpo cibernético — uma pessoa “meio robô”, como definiu Tilly, ou “ciberneticamente modificada”, como preferia a própria personagem.

Também aprendemos neste episódio que ela tem senso de humor e fez muitas amizades na tripulação ao longo de toda a série. Infelizmente, nenhuma pista a respeito disso foi plantada ao longo dos episódios anteriores. A personagem até ganhou maior destaque na temporada (como todos os secundários) e claramente se tornou parte importante da trama ao ser infectada com o “vírus” que veio da sonda do futuro, mas nada que não fosse estritamente “profissional” foi mostrado dela em momentos anteriores. Que oportunidade perdida de realçar o impacto de sua morte, numa cena que, fora isso, foi espetacular em termos dramáticos. Se eu disser que não chorei com Tilly e com Michael, tocado também pelo heroísmo da própria Airiam e pela inevitabilidade da situação em si, é mentira. Mas poderia ter sido verdadeiramente devastador, se os momentos pessoais de Airiam tivessem sido salpicados ao longo da temporada. Não faltaram oportunidades. Isso me faz supor uma de duas possibilidades: ou houve uma falha no planejamento da temporada, ou os produtores deliberadamente não quiseram fazer isso, para não machucar demais o telespectador tornando a perda ainda mais dolorida.

Pode parecer bobo, mas claramente há a preocupação neste segundo ano de tornar Discovery menos sombria do que na primeira temporada. Repare a decisão de tornar o personagem que vai morrer “desagradável”, como Connolly (em Brother), para que a audiência não sofra sua perda. Ou mesmo de anunciar o retorno de um personagem assim que ele morre, como aconteceu com Culber na primeira temporada. Por conta desse padrão, acho possível que a decisão de empacotar “tudo da Airiam” num único episódio tenha sido proposital. E, nesse sentido, julgo a decisão equivocada. Choramos a morte de Airiam porque os atores envolvidos venderam muito bem a cena, mas não porque sentimos nós mesmos a perda. Entre os fãs, a reação geral foi: “era um personagem promissor, podiam ter desenvolvido melhor, e agora, no primeiro esforço nesse sentido, já abriram mão dela”. Ou seja, a perda sentida foi a do potencial da personagem, e não a da Airiam vista em tela.

Pelo menos o roteiro é competente em “vender” todas as emoções e continuamos a perceber um tratamento mais sofisticado do drama dos personagens. A essa altura, com três episódios de Alex Kurtzman como showrunner, já deu para sentir que o tom é diferente, menos orientado à trama frenética e mais cuidadoso com os reais protagonistas. Nesse sentido, o ponto alto do segmento é o tenso jogo de xadrez entre Burnham e Spock. A dinâmica dos irmãos continua fantástica, e a química entre Sonequa Martin-Green e Ethan Peck (calçando os sapatos enormes de Leonard Nimoy!) é inegável. E, das interações entre os personagens, a única que soou um pouco fora de lugar foi a conversa íntima entre Stamets e Spock na engenharia. Sério que Spock, recém-chegado e reservado como é, vai ficar fazendo fofoca de ter visto Culber deixar os aposentos de Stamets? Não, acho que não. Eu, se estivesse na ilha de edição, cortaria a cena antes de chegar nesse ponto, sem prejuízo da trama ou dos personagens.

Em compensação, o retorno da almirante Cornwell agradou bastante, assim como a cena que ela tem na ponte em que, num confronto com o capitão Pike, ela explica por que a Enterprise ficou fora da Guerra Klingon. Puro Star Trek ali.

E a ideia de fazer do Controle da Seção 31 o grande vilão parece interessante. Embora a trama da Inteligência Artificial assassina e apocalíptica seja um clichê da ficção científica, esta é uma avenida que Jornada nas Estrelas em particular jamais percorreu em toda a sua extensão, e o tema parece particularmente oportuno nos círculos de debates científico-tecnológicos atuais. Isso, é claro, não dispensa a contratação urgente de um consultor científico! (Saru, eu sei que ficou estabelecido que você enxerga ultravioleta em An Obol for Charon, mas assinatura de calor, meu filho, é infravermelho. Se a gente emitisse pencas de ultravioleta, todo mundo ao nosso redor ia acabar morrendo de câncer. Era ter um consultor lendo o roteiro antes, trocando uma palavrinha, e a vida seguia.)

Também falta um pouquinho mais de esmero nos roteiros para evitar perguntas constrangedoras. Por exemplo: há quem reclame que a galera desencanou da Nhan durante a grande luta com a Michael. Tem de estar super-atento para perceber, na tela da ponte, que o traje dela ficou “offline“, e a tripulação com isso pensou que ela já era. Uma fala ali não faria mal a ninguém explicitando isso. (O fato de ninguém mencionar, contudo, não é uma omissão acidental; tudo preparação para a grande surpresa na hora de abrir a comporta de ar.) Outro exemplo: ninguém pensa em transportar a Airiam de volta para a nave quando dá zebra? Na reunião antes da missão avançada, Pike pede a Detmer que se mantenha no alcance o máximo possível, o que nos permite inferir que, naquele momento, a nave estava fora de alcance. Mas custava uma falinha ali para explicitar isso? Mais uma vez, coisas pequenas, que se resolvem com uma linha de diálogo, mas que acabam omitidas e podem irritar os mais obcecados pelo detalhes (leia-se: nós, os fãs hardcore).

Na direção, Jonathan Frakes faz seu costumeiro ótimo trabalho. Gostei inclusive das decisões mais polêmicas, como incluir na sequência de luta entre Michael e Airiam não só uma cena em slow-motion que parece evocar algo saído de O Tigre e o Dragão como Michael aplicando um clássico golpe de Kirk-Fu! E, como sempre, Frakes sabe valorizar os momentos dos personagens, e extrair o máximo de emoção de cada um deles. Talvez menos empolgante tenha sido a viagem pelo campo minado, mas nada que comprometesse. E, como birra pessoal, acho que a câmera dá piruetas demais — mas é meio que uma assinatura da série a essa altura (tendo sido usada pela primeira vez em The Vulcan Hello, quando a câmera se aproxima da Shenzhou para revelar Michael na ponte), então vou ter de aprender a conviver com elas.

Por fim, vale mencionar que esta é a estreia de Michelle Paradise como roteirista da série, fato que se tornou mais importante após o anúncio de que ela será co-showrunner, ao lado de Kurtzman, no terceiro ano. Foi uma estreia promissora, sobretudo no trato dos personagens, mas ainda precisa comer bastante feijão com arroz para se alinhar ao que vimos de melhor na série até agora.

Avaliação

Citações

Cornwell – “You sat out the war because if we’d lost to the Klingons, we wanted the best of Starfleet to survive. And as this conversation makes clear, that was you… and all you represent.” (“Você ficou de fora da guerra porque se perdêssemos para os klingons, gostaríamos que o melhor da Frota Estelar sobrevivesse. E, como essa conversa deixa claro, isso era você… e tudo que você representa.”)

Trivias

  • É a terceira vez que Jonathan Frakes, veterano de Jornada e conhecido por interpretar o comandante William Riker de A Nova Geração, dirige um episódio de Discovery. Agora, ele e o produtor executivo Olatunde Osunsanmi dividem o primeiro lugar entre os que mais dirigiram para a série. O primeiro episódio que Frakes comandou em Star Trek foi “The Offspring”, em 12 de março de 1990, praticamente 29 anos exatos antes de “Project Daedalus”.
  • Aqui é o primeiro episódio da série escrito por Michelle Paradise, que será a co-showrunner de Discovery, ao lado de Alex Kurtzman, a partir da terceira temporada.
  • Em vez de uma cama, o quarto de Airiam apresenta um pod para que ela se recline nele, provavelmente uma maneira de fazer a manutenção diária de seus sistemas cibernéticos, similar à regeneração borg.
  • O quartel-general da Seção 31 fica nas coordenadas 7-4-marco-5.6, local de uma colônia penal abandonada no século 22.
  • Com duas menções neste episódio, é estabelecido que o jogo kadis-kot é jogado no Quadrante Alfa no século 23. O kadis-kot foi introduzido em Star Trek: Voyager e ficou popular entre a tripulação no século 24. Ele apareceu pela primeira vez em “Repentance”, de Voyager, e até então os fãs acreditavam que kadis-kot era oriundo do Quadrante Delta.
  • Aqui é definido em tela que a tenente comandante Nhan é de fato uma barzan, raça não-federada introduzida no cânone de Star Trek em “The Price”, de A Nova Geração.
  • Pela primeira vez numa cena sem suas próteses de maquiagem, a tenente comandante Airiam foi interpretada pela mesma atriz que a faz desde o primeiro episódio da segunda temporada de Discovery, Hannah Chessman. Durante a primeira temporada, era a atriz Sara Mitich que fazia a personagem, que aqui é enfim estabelecida como humana, mas com muitas melhorias cibernéticas.

Ficha técnica

Escrito por Michelle Paradise
Dirigido por Jonathan Frakes
Exibido em 14/03/2019
Produção: 209

Elenco

Sonequa Martin-Green como Michael Burnham
Doug Jones como Saru
Anthony Rapp como Paul Stamets
Mary Wiseman como Sylvia Tilly
Anson Mount como Christopher Pike

Elenco convidado

Jayne Brook como Katrina Cornwell
Ethan Peck como Spock
Rachael Ancheril como Nhan
Hannah Cheesman como tenente comandante Airiam
Emily Coutts como tenente Keyla Detmer
Patrick Kwok-Choon como tenente Gen Rhys
Oyin Oladejo como tenente Joann Owosekun
Ronnie Rowe Jr. como tenente R.A. Bryce
Julianne Grossman como o computador da Discovery
Arista Arhin como a jovem Michael Burnham
Alisen Down como uma psiquiatra da Frota
Tyler Hynes como Stephen
Tara Nicodemo como a almirante Patar

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