PIC 1×03: The End is the Beginning

Picard consegue uma nave e uma tripulação

Sinopse

Quartel-general da Frota Estelar, 2385, 14 anos atrás. Picard acaba de sair de uma reunião com o comando da Frota e encontra Raffi Musiker. Picard informa a Raffi que o comando não aceitou o novo plano de resgate dos romulanos após a destruição dos estaleiros de Marte pelos sintéticos. Picard tinha tentado uma última cartada: ou aceitavam o plano ou a demissão dele. Para sua surpresa, eles aceitaram a demissão.

No tempo presente, Picard conversa com Raffi, que se mostra profundamente ressentida com ele, recusa-se a participar de seu plano de procurar Bruce Maddox e a irmã de Dahj, mas promete lhe arranjar uma nave e um piloto, chamado Rios. Ela diz que possui provas concretas de que um oficial de alta patente da Frota Estelar tem conexões com romulanos e permitiu o ataque a Marte, para pôr fim ao plano de resgate. Picard não vê sentido em romulanos cancelarem o plano de resgate de seu próprio povo.

No Artefato, o “xB” (ex-borg) Hugh, diretor do Projeto de Recuperação, elogia Soji Asha por seu trabalho e a libera para uma visita à ex-borg romulana Ramdha. Soji alega querer conversar com Ramdha por ela ter sido especialista em mitologia romulana antiga, e seus estudos sobre os benefícios terapêuticos de uma estrutura mitológica comum podem ser úteis no tratamento de seus pacientes ex-borgs. Ramdha está confinada em uma ala do Artefato, junto com outros pacientes que, segundo Hugh, foram os únicos romulanos assimilados pela Coletividade Borg.

No Instituto Daystrom, a comodoro Oh, diretora de segurança da Frota Estelar, quer falar com a Dra. Agnes Jurati sobre seus contatos recentes com Picard.

Picard se teletransporta para uma pequena nave em órbita da Terra e é recepcionado por um holograma médico, que o leva até o capitão Chris Rios, ex-oficial da Frota Estelar. Rios diz que serviu a bordo do cruzador ibn Majid, mas que a nave desapareceu dos registros da Frota. Enquanto o médico holográfico retira um fragmento metálico do ombro de Rios, Picard diz que quer partir para sua missão o mais rápido possível. Mais tarde, Rios conversa a sós com o navegador holográfico (que, como o médico holográfico, é uma cópia dele). O holograma pergunta a Rios se ele não está empolgado em trabalhar ao lado do grande capitão Picard. Rios diz que já teve um capitão como ídolo, mas que a morte dele ainda o assombra.

De volta ao Château, Picard se prepara para partir, auxiliado por Laris e Zhaban, quando são atacados por agentes romulanos do Zhat Vash. No meio do ataque, Agnes chega ao Château. Eles matam todos os agressores, exceto um, que é interrogado por Picard. O romulano diz que Dahj não é o que parece e que sua irmã é a destruidora, o fim de tudo. Então, cospe um ácido verde que o desintegra.

No Artefato, Soji vai entrevistar Ramdha, que está jogando um tipo de tarô, com cartas triangulares. No tenso diálogo entre elas, Ramdha diz que reconhece Soji “do amanhã”. Soji diz que Ramdha estava a bordo da Shaenor, a última nave assimilada pelo Artefato, quando ele ainda fazia parte da Coletividade Borg, mas algo deu errado e houve o colapso da submatriz do cubo. Soji pergunta se Ramdha sabe o que houve. Hugh parece confuso: como Soji sabia de tudo isso? Ramdha ignora o que Soji diz e pergunta: qual irmã é você? A que vive ou a que morre? Então pega o disruptor de um dos guardas e tenta matar Soji, dizendo que ela é a Shen-Cheneb, a “destruidora”. Soji a desarma e Hugh controla a situação, mas todos os xBs romulanos encaram Soji com olhar de ódio.

De volta ao seu quarto, Soji entra em contato com a mãe e pergunta se Dahj está bem. A mãe diz que está tudo bem e, quando começa a falar, Soji cai num sono profundo. Mais tarde, é despertada por Narek, que veio ver como ela estava. Soji diz que não se lembrava de ter conhecimento sobre a nave Shaenor e nem de todas as informações que revelou na entrevista com Ramdha. Quando ela pergunta a Narek se ele acredita nisso, ele diz que está se apaixonando por ela e a abraça.

Quando Narek sai do quarto, encontra a irmã, Narissa, de volta ao seu aspecto romulano. Narissa quer saber se Soji revelou alguma coisa. Ele diz que não, e que Soji parece não ter a menor ideia do que realmente é.

No Château, Agnes Jurati diz a Picard que revelou tudo o que sabia à comodoro Oh e só sonegou uma informação: a de que tinha intenção de se unir a ele na jornada em busca de Maddox e da segunda androide, irmã de Dahj. Rios chama Picard pelo comunicador e o apressa, pois suas fontes lhe dizem que a coisa vai esquentar.

Picard e Agnes se teletransportam para a nave de Rios e, para surpresa de Picard, deparam com Raffi – que diz ter descoberto que Maddox está em Freecloud e quer apenas uma carona até lá. Chegando ao destino, ela vai se separar do grupo. Picard pergunta por que ela quer ir para Freecloud, mas ela se recusa e responder. Picard então dá a ordem a Rios para partirem: Engage! E a nave parte em velocidade de dobra.

Comentários

A primeira cena talvez explique uma parte do sonho de Picard com Data, no primeiro episódio. No sonho, ele aposta tudo no pôquer e perde para o androide. Aqui, no flashback de 14 anos antes, vemos que ele também blefou com a Frota Estelar e perdeu: eles aceitaram a sua demissão. Foi um erro de estratégia do qual ele certamente se arrepende.

Este episódio fecha uma trilogia que funciona como o primeiro ato da minissérie. Nos três primeiros capítulos, todos dirigidos por Hanelle Culpepper, temos o protagonista, Picard, decidindo voltar à ativa, preparando o terreno para a sua última aventura e, finalmente, fechando o ato com sua nave a sua tripulação: Engage! Este comando, ao som da trilha sonora de A Nova Geração, sem dúvida pôs um sorriso no rosto do fã.

O ritmo, por enquanto, tem sido mais lento que outras séries de Star Trek, mas não deixa de fazer sentido, tendo em vista um personagem nonagenário como protagonista – e um ator de quase 80 anos. Porém, o ritmo veio num crescendo, acompanhando a trajetória de Picard: primeiro aposentado em seu Château, com cenas longas e contemplativas; depois, chamado à ativa por Dahj, quando o ritmo acelera um pouco; e, por fim, a bordo da nave para iniciar sua jornada, com o adensamento das tramas paralelas, num ritmo bem mais ágil. Assim, é apropriado que a cena final seja com “engage”: parece que a própria série, além da nave, vai enfim “decolar”.

Este terceiro episódio é o mais dinâmico dos três, graças, em grande parte, à edição mais ágil. A sequência do interrogatório do agente romulano, por exemplo, intercalada com a conversa entre Soji e a “cartomante” romulana, é muito bem feita, trazendo dramaticidade ao assunto ali tratado: afinal, quem são as androides Dahj e Soji? Qual o real papel delas na trama?

O piloto Chris Rios é, possivelmente, o personagem que teve a melhor introdução até agora.  Há uma regra de ouro em roteiro de cinema (e é sempre bom lembrar que os produtores tratam a série como um filme de dez horas) que diz o seguinte: show, don’t tell (mostre, não conte). Em Picard, há algumas coisas que são contadas em diálogos, não mostradas em cena. Um exemplo: no início do episódio, Picard conta a Raffi sobre sua demissão da Frota Estelar. Talvez por terem o foco na personagem Raffi, os roteiristas preferiram não mostrar a cena de demissão, apenas contá-la. Mas esse momento decisivo na vida de Picard, em que ele se desliga da Frota, com certeza teria tido muito mais impacto se fosse dramatizado, se tivéssemos visto a cena.

Na apresentação de Rios, ao contrário, a produção, acertadamente, preferiu mostrar, não contar, os traços principais de sua personalidade. Ninguém contou nada para ninguém em um diálogo, nem em narração em off. Os espectadores viram, através da dramatização, como é o capitão Rios: com um fragmento de metal enfiado no ombro e um charuto na boca, ele joga aguardente no ferimento e dispensa os cuidados finais do médico holográfico. Ou seja, ele é durão e autossuficiente – um lobo solitário espacial. Mas também é leitor de obras filosóficas, como o livro jogado na poltrona onde Picard se senta. Tudo é mostrado, não contado, por isso funcionou muito bem e é uma das melhores cenas do episódio.

Rios e seus hologramas trouxeram um elemento característico de Star Trek que estava faltando em Picard: o humor. Os hologramas (que, pelo jeito, não foram banidos, como os sintéticos) parecem exercer o papel de “alteregos” de Rios, cada um com um sotaque diferente, refletindo facetas da personalidade do piloto. O próprio Rios tem sotaque espanhol, o médico holográfico tem sotaque inglês e o navegador holográfico, irlandês. A interação entre os hologramas e Rios já rendeu momentos divertidos neste episódio e promete ser o alívio cômico ao longo da série.

Todos os três, obviamente, são interpretados pelo mesmo ator, o chileno Santiago Cabrera, que mostra a mesma versatilidade de Brent Spiner no episódio “Brothers”, de A Nova Geração, em que ele faz três personagens, Data, Lore e Noonian Soong. A propósito, a inspiração para esses hologramas veio do comportamento do próprio Cabrera. Alex Kurtzman contou em entrevista que certo dia o ator apareceu no set de filmagem da série Salvation (CBS), em que trabalharam juntos, vestido e maquiado como um velho. Ninguém o reconheceu, até ele se revelar para os colegas. Então, Kurtzman tomou conhecimento que o ator era um camaleão, conseguia fazer vários personagens e sabia imitar 21 sotaques diferentes! E ali foi plantada a semente para os hologramas de Rios.

Por um lado, a tripulação que Picard reúne segue a tradição de Star Trek, em sua diversidade (duas mulheres e dois homens de origem e faixa etária diversas); por outro, tem uma diferença crucial: é uma tripulação de renegados, sem uniforme, em uma nave não registrada. É uma tripulação fora do sistema, embora todos sejam remanescentes da Frota Estelar. Outra diferença é que eles não se reuniram em uma missão com um objetivo comum. Cada tripulante ali tem sua própria agenda: Picard quer encontrar Maddox e Soji porque acha que tem uma dívida com Data, que sacrificou a vida por ele; Raffi está apenas pegando carona até Freecloud, por interesses não revelados; Agnes quer conhecer Soji por ela representar a concretização de um sonho da ciberneticista; e Rios está ali por dinheiro – ou algum outro tipo de pagamento, já que não existiria mais dinheiro no século 24 (embora o olhar de Rios vagando pelas estrelas, após conhecer Picard, insinue que talvez seu interesse vá além do pagamento, e os dois ex-oficiais da Frota tenham mais em comum do que se percebe à primeira vista).

Outra diferença, pelo menos em relação à tripulação da Enterprise de A Nova Geração, é que nem todos ali se dão bem. Raffi está ressentida com Picard, diz não querer trabalhar com ele nunca mais e demonstra um desdém desconfiado por Agnes. Isso promete gerar conflitos que não presenciamos anteriormente em A Nova Geração, em que a tripulação se deu relativamente bem desde o episódio piloto. Entretanto, como observou Picard num diálogo com Rios, todos ali, embora tenham se desiludido com as instituições do século 24, parecem ser Frota Estelar até a alma, e a expectativa é que os conflitos se resolvam ao longo da temporada.

Um ponto que gerou polêmica entre os fãs foi o fato de Raffi fumar snakeleaf  (“folha de cobra”. Segundo o produtor Chabon, é uma planta originária de Órion). O vício parece antigo, como insinua uma linha de diálogo entre ela e Picard, quando Raffi diz, referindo-se à paranoia provocada pela droga: “Algumas coisas nunca mudam”.

De fato, a atriz Michelle Hurd revelou em entrevista que sua personagem será retratada como uma dependente química. Segundo a atriz, a descrição da personagem diz que ela já teve problemas com a droga no passado, mas ganhou uma segunda chance na Frota Estelar, trabalhando ao lado de Jean-Luc Picard, alguém que lhe dava segurança e apoio. Porém, ela perdeu tudo nos últimos 14 anos – o cargo na Frota, o apoio de Picard, o certificado de segurança, e voltou a ser usuária da droga.

“Gostaria que os fãs olhassem para a personagem”, disse a atriz, “como alguém que está lutando contra o seu vício. Acho que é uma história realmente importante. É importante as pessoas verem que podem se perder, tropeçar, cair, mas também se levantar. E às vezes você precisa da ajuda das pessoas, às vezes tem de confiar em si mesmo, mas você ainda é valioso, ainda é importante para a comunidade, para o mundo, ainda tem algo a dizer, ainda há esperança. Você pode se curar, com a ajuda dos amigos, da família, mas também com a consciência de que você quer voltar a fazer parte da sociedade, com o conhecimento de que sua voz é importante.”

Não é a primeira vez que Star Trek trata do problema de drogas. Em Enterprise, por exemplo, a vulcana T’Pol vicia-se numa substância que ela injeta em seu corpo. O episódio “Symbiosis”, da primeira temporada de A Nova Geração, também aborda o assunto. Assim, dependência química é mais um tema social contemporâneo a ser abordado na série Picard.

Uma interpretação para o título do episódio, “The End is the Beginning” (“O Fim É o Princípio”) pode ser esta: o final do episódio é onde realmente começa a jornada de Picard e sua tripulação. Mas, ao que parece, não será nada épica. O tom da série prenuncia uma jornada muito mais pessoal, não só de Picard, mas de toda a tripulação. Tudo, claro, acompanhado de uma trama paralela de mistério e espionagem que tem seus próprios atrativos, como demonstraram as intensas especulações dos fãs em torno de todos os elementos apresentados neste e nos dois episódios anteriores: Soji teria em si tecnologia borg? Por que é considerada a “destruidora” pelos romulanos que querem matá-la? A mãe de Soji parece exercer algum tipo de controle sobre ela. Seria uma inteligência artificial? Seria Maddox? Essas e várias outras perguntas deixaram os fãs ansiosos pelo próximo capítulo – como deve ser num programa serializado. Até aqui, portanto, Picard tem dado conta do recado, com todos os elementos que fizeram de Star Trek um sucesso: ficção científica, comentário social, reflexão, mistério, ação, humor.

Avaliação

Citações

“I never dreamed that Star Fleet would give in to intolerance and fear.”
(Nunca sonhei que a Frota Estelar cederia à intolerância e ao medo.)
Picard para Raffi

“There is no more despised people in the galaxy than the xBs. People either see us as property to be exploited our as hazard to be warehoused. Our hosts, the Romulans, have a far more expansive vision. They see us as both.”
(Não existe povo mais desprezado na galáxia do que os xBs. Ou somos vistos como uma propriedade a explorar, ou um perigo a ser colocado de lado. Nossos anfitriões, os romulanos, têm uma visão mais ampla. Para eles, somos as duas coisas.)
Hugh para Soji

“Are you breaking any laws or are intending to?”
“I don’t know. I’m not in the habit of consulting lawyers before I do what needs to be done. You?”
“I’m not in the habit of consulting anybody about anything. Especially a lawyer.
(Está violando leis ou tem essa intenção?
Não sei. Não costumo consultar advogados antes de fazer o que deve ser feito. E você?
Não costumo consultar ninguém sobre nada. Ainda mais advogados.)
Rios e Picard

“Picard is a good man, captain Rios. He’s on the side of the angels. It’s been a long time since you helped out someone like him. A very long time.”
“Please spare me juvenile Sunday school morality.”
“Then spare me the angsty teenage moral relativism.”
(Picard é um bom homem, capitão Rios. Ele está do lado dos anjos. Faz tempo que não ajuda alguém como ele. Muito tempo.
Por favor, me poupe dessa moralidade religiosa juvenil.
E me poupe do relativismo moral de adolescente angustiado.)
Navegador Holográfico e Rios

“I tried my best to belong to this place. But I don’t think I ever truly felt at home here.”
“I suppose you always had one eye on the stars”.
(Fiz de tudo para me adaptar a este lugar. Mas acho que nunca me senti verdadeiramente em casa aqui.
Acho que vivia de olho nas estrelas.)
Picard e Laris

Trivia

  • O ator Santiago Cabrera, que aparece pela primeira vez nos créditos, faz sua estreia na série como o médico holográfico, Rios e o navegador holográfico. É a primeira vez que um personagem regular estreia como um holograma desde que Roberto Picardo apareceu pela primeira vez no episódio de estreia da série Voyager, Caretaker.
  • Santiago Cabrera revelou em entrevista o nome de sua nave: La Sirena. O nome, em espanhol, pode ser traduzido como “A Sereia”. Rios tem uma sereia tatuada no braço esquerdo.
  • Jonathan Del Arco repete seu personagem Hugh, que apareceu em dois episódios de A Nova Geração: “I, Borg” e “Descent: Parte II”.
  • Raffi diz que a supernova ameaçava bilhões de pessoas no Quadrante Beta. Isto parece confirmar que os territórios romulanos ficam nesse quadrante da galáxia.
  • Laris chama o romulano  que está sendo interrogado de “nortista teimoso” e o compara a Zhaban. Isto pode explicar as diferenças na aparência dos romulanos em Star Trek.
  • Quando a comodoro Oh vai visitar Agnes Jurati no Instituto Daystrom, Agnes está ouvindo a mesma faixa da ópera kasseeliana (a preferida do Dr. Culber) que toca em “Brother” de Star Trek: Discovery.

Ficha Técnica

Escrito por Michael Chabon & James Duff
Dirigido por Hanelle M. Culpepper
Exibido em 06/02/2020
Produção: 102b

Elenco

Patrick Stewart como Jean-Luc Picard
Alison Pill como Dra. Agnes Jurati
Isa Briones como Soji Asha
Michelle Hurd como Raffi Musiker
Santiago Cabrera como Cristóbal “Chris” Rios/Holograma Médico de Emergência/Holograma Navegador de Emergência
Harry Treadaway como Narek

Elenco convidado

Peyton List como Narissa
Jamie McShane como Zhaban
Tamlyn Tomita como comodoro Oh
Rebecca Wisocky como Ramdha
Orla Brady como Lari
Sumalee Montano como mãe de Soji
Graham Shiels como Tal Shiar
Son of Lee como guarda

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