TOS 1×06: Mudd’s Women

Conto de fadas disfarçado de ficção científica vira clássico de Jornada

Sinopse

Data Estelar: 1329.1.

A USS Enterprise persegue uma nave desconhecida em um cinturão de asteroides para salvar sua tripulação antes que fosse destruída. As quatro pessoas a bordo são teleportadas: Harry Mudd e três belas mulheres, Ruth Bonaventure, Eve McHuron e Magda Kovas. Mudd transportava as três até Ophiuchus VI para que elas se casassem com colonos naquele planeta.

Os computadores da Enterprise revelam que Mudd foi acusado de várias infrações da lei. Em perseguição à nave de Mudd, a Enterprise queimou seus cristais de lítio, que alimentam os motores da nave, e Kirk ordena um curso para o mais próximo planeta de mineração de lítio. Este planeta é Rigel XII, e é habitado somente por três mineradores.

Mudd consegue contatar Ben Childress, chefe dos mineradores, e faz um acordo, em que promete entregar três lindas mulheres aos solitários trabalhadores de Rigel XII em troca dos cristais de lítio e a garantia de sua própria liberdade.

Chegando ao planeta, Eve tenta escapar, tendo se apaixonado por Kirk e não querendo se casar com um dos mineradores. Ben Childress a traz de volta, em meio a uma furiosa tempestade de poeira.

Eles descobrem que as mulheres estão usando uma droga ilegal chamada “pílula de Vênus” para que pareçam bonitas, e que sem a droga, as mulheres nada têm de especial. Quando a fraude é descoberta, Magda e Ruth já estão casadas com os mineradores. Eve, que percebe que Kirk já é casado, com sua carreira e sua nave, aceita ficar com Ben. O capitão pega os cristais necessários para a Enterprise e mantém Harry Mudd sob custódia, para responder por seus crimes.

Comentários

“Mudd’s Women” é um conto de fadas disfarçado de ficção científica. Aliás, essa característica – a inclusão de fatores inverossímeis em meio a um contexto aparentemente crível – é um dos traços de muitas das premissas elaboradas por Gene Roddenberry para Star Trek.

O criador da série às vezes usava de exageros dessa natureza para clarificar a “mensagem” do episódio, mesmo que isso significasse abandonar toda e qualquer possibilidade de que a história sobrevivesse a uma análise crítica mais aprofundada.

No caso de “Mudd’s Women”, essa característica se manifesta na forma das “transformações” sofridas pelo trio feminino de Mudd, que além de não serem convincentes, não apresentam justificativas satisfatórias, uma vez que fica claro que as “pílulas de Vênus” não têm nada a ver com a beleza das mulheres.

Esse elemento do roteiro foi trabalhado dessa maneira para ressaltar a mensagem do episódio, que é expressa claramente nas palavras de Kirk:

Kirk – “There’s only one kind of woman…”
(Há apenas um tipo de mulher…)

Mudd – “…or of man, for one thing…”
(…ou de homem, pra ser sincero…)

Kirk – “Either you believe yourself, or you don’t.”
(Ou você acredita em você, ou não.)

Esse diálogo mostra apenas a conclusão de uma discussão proposta sutilmente ao longo do episódio sobre o uso de drogas.

As “pílulas de Vênus” de Mudd não são diferentes das drogas atuais: são consumidas para trazer artificialmente uma sensação de bem-estar, para fazer alguém sentir-se mais e melhor do que realmente é.

Pensando dessa perspectiva, o episódio expõe um discurso contrário ao uso de drogas. Mas, mais do que isso, é interessante notar que o recurso utilizado para defender essa ideia não é o óbvio chavão de dizer que as drogas são maléficas porque debilitam o organismo, mas sim um argumento mais positivo e menos enfatizado: o simples fato de que as drogas não são necessárias para que alguém se sinta bem.

Com relação ao desenvolvimento dos personagens principais, não há grandes destaques. Vemos apenas uma breve menção à paixão de Kirk pela Enterprise, algo que aparece mais em “The Naked Time”.

Por outro lado, neste episódio surge um dos vilões mais carismáticos de Jornada nas Estrelas: Harry Mudd. O personagem foi tão bem recebido pelo público e pela produção que voltaria à série para um episódio da segunda temporada, “I, Mudd”.

Avaliação

Avaliação: 2.5 de 4.

Citações

“The fact my internal disposition differs from yours pleases me no end.”
(“O fato de que minha disposição interna difere da sua me agrada imensamente.”)
Spock

“Oh, the sound of the male ego – you travel half-way around the galaxy and it’s still the same song!”
(“Oh, o som do ego masculino – viaja-se por metade da galáxia e ouve-se a mesma canção!”)
Eve

Trivia

  • A premissa deste episódio foi concebida por Gene Roddenberry, mas a criação do personagem Harry Mudd coube ao escritor Stephen Kandel.

  • O posto de navegador neste episódio é ocupado pelo tenente John Farrell, vivido por Jim Goodwin. Ele conseguiu o trabalho por ser amigo do editor de histórias John D.F. Black.

  • Na primeira versão do roteiro, só Spock receberia as mulheres de Mudd na sala de transporte. Scotty e McCoy foram incluídos para mostrar de cara os efeitos delas nos humanos.

  • O figurino feminino foi concebido por William Ware Theiss. Ele defendia a tese de que a sensualidade de uma roupa é proporcional à chance de que ela acidentalmente revele algo que não devia.

  • Este é um dos dois episódios em que Uhura aparece com um vestido dourado, em vez de vermelho. O outro é “The Corbomite Maneuver”.

  • Nas primeiras versões da história, eram cinco as mulheres. Partiu do produtor associado Robert Justman a sugestão de reduzir o número a três, por simples contenção de gastos.

  • Majel Barrett faz a voz do computador. Roddenberry assim cumpria a promessa feita a ela de trazê-la de volta, após sua exclusão do elenco com a rejeição a “The Cage”. Esta foi sua primeira participação depois do primeiro piloto, mas o episódio acabou indo ao ar depois de sua primeira aparição como a enfermeira Chapel, em “The Naked Time”.

  • Maggie Thrett viveu Ruth, a morena de Mudd. Durante a produção ele fez mais que bagunçar os sensores do dr. McCoy. O escritor Harlan Ellison ficou, digamos… muito interessado nela.

  • A atriz Karen Steele interpretou Eve, a mais importante das mulheres de Mudd em termos de roteiro. Ela chegou a fazer vários filmes e séries entre as décadas de 1950 e 1970.

  • A polonesa Susan Denberg, que viveu Magda, a loira de cabelos curtos, posou nua para a Playboy logo após filmar este episódio. O ensaio saiu em agosto de 1966.

  • Roger C. Carmel, o intérprete de Mudd, ficou bem feliz com o episódio. Ele só lamentou a exclusão de uma cena em que tentava convencer Uhura a tomar as “pílulas de Vênus”.

  • Ben Childress, o líder dos mineiros, foi vivido por Gene Dynarski, que mais tarde apareceria, em outro papel, em “The Mark of Gideon”, ainda na Série Clássica, e em “11001001”, de A Nova Geração.

Ficha Técnica

História de Gene Roddenberry
Roteiro de Stephen Kandel
Dirigido por Harvey Hart

Exibido em 13 de outubro de 1966

Título em português: “As Mulheres de Mudd”

Elenco

William Shatner como James T. Kirk
Leonard Nimoy como Spock
DeForest Kelley como Leonard H. McCoy
James Doohan como Montgomery Scott
Nichelle Nichols como Uhura
George Takei como Hikaru Sulu

Elenco convidado

Roger C. Carmel como Harry Mudd
Karen Steele como Eve McHuron
Susan Denberg como Magda Kovas
Maggie Thrett como Ruth Bonaventure
Gene Dynarski como Ben Childress

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Enquete

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17 Comments on "TOS 1×06: Mudd’s Women"

  1. Só falta ele aparecer no filme! eheheheheh
    Esse foi um dos vilões que eu mais gostei em TOS, era chato como a $%$%[email protected]

  2. Roger C. Carmel pode ser visto em muitas outras séries de TV dos anos 60, como em Viagem ao Fundo do Mar, no episódio “A Revolta das Máquinas”, do segundo ano da série. Carmel morreu em 1976.

  3. Gosto muito dessas resenhas. Não tenho dúvida de que dão trabalho, mas seria legal se vocês dessem continuidade na análise das demais temporadas de todas as séries. Muitas vezes acabo de assistir a algum episódio, seja de que série for, e logo em seguida confiro o que o site tem a dizer a respeito. É interessante porque acontece, às vezes, de eu curtir muito um episódio e me deparar com uma opinião inteiramente diversa, com vocês malhando geral, ou vice-versa. Essa parte do site me interessa bem mais do que as infindáveis notícias e especulações acerca do novo filme ou ainda do que as manifestações cada vez mais esquisitas dos freqüentadores desse forum (não de todos, é claro). E quanto ao episódio em questão, adoro o Mudd. O clima de solidão dos mineiros e das mulheres, que se sujeitam a serem vendidas como mercadorias, por se sentirem desprezíveis, pra mim fala bem mais alto do que o eventual debate sobre drogas. Legal a leitura de vocês, de todo o modo. Isso amplia a minha capacidade de apreciar o filme. E que tal analisarem a 3ª temporada? Apesar de detestada por muitos, apresenta vários episódios bem legais, tem Klingons e Romulanos, cenários quase surreais (sabemos que por falta de verba, mas, na minha opinião, em muitos casos ficou interessante, como em ‘O Último Duelo’, cujos cenários me lembram Dali e em “Jóia Rara”, que apesar de não ser nenhuma jóia, tem um clima estranho, quase teatral, inclusive aparentando ter sido encenada em um palco de verdade). É realmente bom dar um tempo nessa história de JJ. Tá arriscado eu enjoar do filme antes de assistí-lo.
    Abraço a todos.

  4. Imudd é o precursor do Ipod!
    Engraçado como a SUTILEZA a INGENUIDADE e a RAZÃO podem gerar historinhas tão cativantes…
    Perdeu-se a elegância hoje em dia. Nenhum enlatado americano você vê uma “menção anti-drogas” como essa, SINCERA para dizer o mínimo.
    Ai vou chorar…
    PHUY!

  5. O Carmel teve um seriado em que era ator fixo, uma comédia chamada “AS SOGRAS”. Quando criança achava engraçado, mas nunca mais assisti para poder dar uma opiniao correta. Porém, tudo que era feito naquela época era legal.

  6. Jorge Rodrigues | 28 de novembro de 2008 at 7:51 am |

    BELÍSSIMA RESENHA. PARABÉNS.

    Mas gostaria de um esclarecimento, quanto a serem Cristais de Dilítio (aparentemente uma substância natural encontrada no universo ST) ou Cristais de Lítio, como os que vêm agora sendo utilizados para gerar energia frequenciada, em compostos sintéticos de Lítio, Tântalo e Oxigênio (LiTaO3).

    Outro importante aspecto – aliás, confesso que sempre me pareceu mais importante do que o debate sobre drogas, nesse episódio -, e que se articula com o crescente movimento feminista da época da produção, é a mulher-objeto que toma consciência de si mesma, se revolta contra sua condição de “produto” à venda, e assume opções sobre sua vida. É uma síntese da condição feminina bastante eloquente ao público vinculado a este debate.

    Destaco ainda o largo emprego, nesse episódio, do recurso – corrente em TOS, e já então muito antigo nos filmes e demais seriados – da lente vaselinada para um close menos nítido e mais glamuroso das atrizes, o que era uma espécie de “maquiagem por fotografia”. Essa técnica ainda existe (com filtros, não mais com lentes engorduradas) e nas 4 ou 3 últimas temporadas de TNG era também empregada para os closes da Dra. Crusher (primeiro) e depois também da Conselheira Troi, e de algumas atrizes convidadas. Em “Mulheres de Mudd” serve para acentuar o contraste entre os supostos efeitos das “Pílulas de Vênus” e o “estado normal” das mulheres-objeto.

    Por fim um aspecto ético importante do roteiro: Kirk fica exasperado com a negociação porque dividido entre obter os cristais à força ou deixar a Enterprise cair na atmosfera por falta de energia. A recusa a tomar cristais à força, de 3 mineiros isolados, é bastante interessante, e o debate ético é mais sólido do que o de Archer assaltando uma nave amistosa e condenado sua tripulação a um perigoso e lento retorno de 3 anos, para roubar uma bobina de dobra (detalhe para STXI: a Enterprise de Archer não podia, neste referido episódio da 3a temporada, entrar em dobra com apenas uma bobina geradora de campo em funcionamento).

  7. Interessante a relação encontrada neste episódio entre drogas, beleza e prazer feminino.

    Mas trazendo para a realidade dificilmente vemos tal relação.
    A droga em vez de melhorar o relacionamento como é mostrado neste episódio, piora, destrói familias, acaba com os relacionamentos, empobrece, altera o estado de consciência em alguns casos e leva o individuo a violar a integridade de seu próximo.
    Muito diferente do apresentado onde as esposas de preoucupavam e realizar seus desejos e o de seus maridos.
    Este é o meu parecer.
    Não consigo relacionar Mudd’s Women com a realidade das drogas consigo sim relacionar com os produtos de beleza que cada dia estão se aproximando das “Pílulas de Venus”.
    Basta dar uma assitida nos programas de grande audiência as transformações que os salões de beleza fazem nas mulheres.
    Para mim estes são as verdadeiras “Pílulas de Venus” de Mudd de nossos dias.

  8. Post 7, com as devidas correções ortográficas. “A presa é inmig da perfição”.

    Interessante a relação encontrada neste episódio entre drogas, beleza e prazer feminino.

    Mas trazendo para a realidade dificilmente vemos tal relação.
    A droga em vez de melhorar o relacionamento como é mostrado neste episódio, piora, destrói familias, elimina os relacionamentos, empobrece, altera o estado de consciência em alguns casos e leva o individuo a violar a integridade de seu próximo.
    Muito diferente do apresentado onde as esposas de preocupavam e realizar seus desejos e o de seus maridos.
    Este é o meu parecer.
    Não consigo relacionar Mudd’s Women com a realidade das drogas, consigo sim, relacionar com os produtos de beleza que a cada dia estão se aproximando das “Pílulas de Venus”.
    Basta dar uma assistida nos programas de grande audiência e verificar as transformações que os salões de beleza fazem nas mulheres.
    Para mim estes são as verdadeiras “Pílulas de Venus” de Mudd em nossos dias.

  9. As Mulheres de Mudd.

    Mesmo fantasioso, este episódio mostra a época romântica e áurea dos bons tempos em que Star Trek foi concebido.

    Um episódio que ficou positivamente gravado na mente e no coração de minha esposa.

    E ela nem é trekker.

  10. Ele me lembra o saudoso Q da TNG

  11. Post 8: Continuando

    Não quero dizer que Salões de Beleza sejam uma droga, mas no futuro os seus produtos se aproximaram a uma “droga”.

    “Toma-se uma pilula e rejuveneça 05 anos”

    Alias no mercado já existem muitas pilulas que encontram-se disponiveis para auxilio no processo de embelezamento feminino.

  12. da matéria acima…

    <<>>

    Nessa época dos 60’s de Star Trek, as drogas já estavam rolando pesado e destruindo vidas.

    E vejo que nesse episódio, parte do assunto foi para esse lado mesmo.

    Acho também que tudo (de Beleza, Trabalho à Religião) que se torna obsessivo se torna uma droga.

    Até mesmo o capitão Kirk foi alertado por McCoy quanto à obsessão à capitania em Star Trek-The Movie.

    E por falar em obsessão, me lembro de uma reportagem no A&E (Mundo), a respeito de um cidadão obcecado por Star Trek.

    Sua vida girava em torno da “filosofia” criada para a série. Seu guru era o velho Gene.
    Para resolver seus problemas do cotidiano ou até mesmo de assuntos pessoais, ele se perguntava:
    -O que Gene faria?

    A sua obsessão tentou levar sua esposa para o mundo de Star Trek, mas ela no final não suportou o modo de vida de seu marido.
    Veio o divórcio.

    Nem Nero, nem Klingons, talvez seja essa obsessão de muitos “Trekkers” que o sucesso de Star Trek de 2009 terá como maior inimigo.

  13. Nessa época, 1966, as drogas ainda não estavam rolando soltas. Ainda era muita maconha, mas pouco LSD e cocaina.

    Sobre o episódio o que acho mais importante é o senso ético do nosso Capitão.

    Bela história…….

  14. Maria da Conceição G. Simões | 30 de novembro de 2008 at 2:45 pm |

    Mais um ponto para Trek Brasilis. Objetivo e claro. Parabéns.
    Observador, não se melindre, eu sou mulher e fui adolescente nos anos sessenta-setenta, hoje em dia os salões de beleza e a estética feminina viraram verdadeiras drogas em todos os sentidos. Desde a escravização das mulheres que precisam semanalmente freqüentar institutos de beleza até a paranóia da magreza matando tantas jovens. Quando assisti pela 1ª vez a esse episódio eu era muito jovem e não compreendi muito bem, mais tarde ele se revelou muito complexo pois temos várias interpretações dos valores humanos: vaidade, ambição, luxúria, etc. e também, solidão, companheirismo, amor. Eles conseguiram sintetizar em poucos minutos metade de um livro de problemas psicológicos.

  15. Uau…

    É não é que o que ela escreveu é isso mesmo?

  16. E que mulheres de Mudd, hein !! 😉
    O episódio é bem fraquinho mesmo, mais um “café com leite, sem açúcar”, mas para quem é fã (como eu) é sempre um prazer ver a Enterprise, Kirk e Cia. em mais uma aventura.
    Só um comentário, nos primeiros episódios de TOS (incluindo este), não temos ainda o Checov fazendo dupla com o Sulu. A cada episódio um timoneiro “chato”, quase um redshirt disfarçado com um uniforme dourado. Pergunta: quando o Checov enfim entra na série para ficar ?

  17. Deusdeth afirma:

    …Pergunta: quando o Checov enfim entra na série para ficar ?

    Se a pergunta foi sincera, a resposta é “Amok Time” (1º episódio da 2ª Temporada de TOS).=)

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