TB conversa com Alex Kurtzman, Michael Chabon, Akiva Goldsman e Kirsten Beyer

O quarteto que forma o núcleo da sala de roteiristas de Star Trek: Picard é provavelmente o mais premiado da história da franquia. De Pulitzer a Oscar, passando por grandes blockbusters e romances campeões de venda, os escritores Alex Kurtzman, Michael Chabon, Akiva Goldsman e Kirsten Beyer são os criadores da série que traz de volta Patrick Stewart ao papel que o consagrou. O Trek Brasilis teve a chance de bater um papo com eles em uma conferência por telefone, realizada na última sexta-feira (17). Ao longo da conversa, eles comentam o processo de criação da série, o que cada um deles traz a Jornada nas Estrelas e a importância de trazer Jean-Luc Picard às telas para mais uma aventura. E o TB não perdeu a chance de pedir a Kurtzman a introdução de um personagem brasileiro em alguma das novas séries de Star Trek. Confira o que eles disseram.

Gostaria que vocês explicassem a “linha do tempo” para o desenvolvimento da primeira temporada de Star Trek: Picard. Quando vocês definiram a história, como ela foi desenvolvida, quando começaram a escrever os roteiros… Podem me dar uma visão geral de como a série foi desenvolvida?

Chabon: Eu não me lembro (Risos). Bem, em fevereiro vai fazer dois anos desde que começamos, para valer, a pensar em fazer isso. E depois, um pequeno grupo…

Beyer: Sim, em agosto ou setembro [de 2018]…

Chabon: Sim, um pequeno grupo. Fizemos em segmentos, primeiro com discussões informais, que incluíram o Patrick, e então discussões mais formais com o grupo que está no telefone agora. E então passamos para uma sala de roteiristas mais convencional, que se expandiu para incluir mais roteiristas. Isso foi há um ano. E então começamos a produção em abril [de 2019].

Kurtzman: Sim, e ainda não acabou. Ainda estamos terminando esse processo de produção, nos últimos cinco episódios. Estamos nos movendo rápido.

Michael, soube que Patrick se comprometeu a fazer o papel especificamente com você. Foi numa dessas reuniões que ele aceitou participar. O que você falou para ele?

Chabon: Na verdade, eu só encontrei o Patrick quando ele assinou o contrato para a série. Esses caras o conheciam.

Beyer: Na verdade, na segunda vez nós trouxemos o documento de 35 páginas…

Chabon: Escrevi um documento para ele… E quando ele leu, estava a bordo, e foi quando o conheci. A presença dele foi inspiradora, foi quando o coração palpitou. (risos)

Adorei o pano de fundo da história com o qual vocês lidam, a crise dos refugiados e a Federação se fechando… Como vocês imaginaram isso? Tentaram fazer paralelos com a situação atual, com o Brexit, Trump e todas essas coisas?

Goldsman: Não acho que fomos tão específicos. Acho que fomos informados, como as narrativas geralmente são – e especialmente Star Trek, que se manteve culturalmente relevante – pelas nossas mentes. Geralmente contamos histórias sobre as coisas que estão perturbando nossas mentes, consciente ou inconscientemente. Mas a verdade é que somos, em primeiro lugar, determinados pelo personagem. Pegamos essa ideia de alguém que conhecemos bem, mas não neste ponto. Não víamos Jean-Luc Picard há quase vinte anos. Então tivemos a oportunidade de imaginar o decorrer de uma vida. O que acontece em vinte anos? Como nos diferenciamos, homens e mulheres, aos 94 anos, que é a idade do personagem, no crepúsculo da vida? Provavelmente você se lembraria de quando estava no seu auge. Pensamos nas feridas, nas perdas e nas esperanças dele. De um jeito engraçado, nós construímos o mundo quando fomos fazer a série, as circunstâncias, ao redor dos anseios dele. Picard ainda anseia. Deseja uma Federação que possa ser utópica, onde as pessoas estejam incluídas e todos possam ser tratados igualmente. Esses anseios também incluem poder reconhecer a perda de um amigo e prestar tributo a ele. Essas são as coisas que o motivam e motivam a história.

E o contexto atual, e os paralelos que as pessoas irão, ou deveriam, tirar da história… Você acha que assim a série será relevante para o público?

Beyer: Com certeza. Star Trek consegue ser relevante sem paralelos tão diretos a eventos da atualidade. Percebe-se que é algo tão universal, quando falamos sobre a luta do personagem. E esta luta em particular de Picard tem a ver com identidade, não só a dele, mas em relação a outros indivíduos, mas também em busca do entendimento comum com o outro. Como se supera esse sentimento inato do ser humano, que vemos muito hoje, de considerar as pessoas como rivais.

E o que significa para vocês pessoalmente trazer de volta o personagem Picard, especialmente tendo em vista o que ele representa em termos de liderança e comportamento ético? O que sentem sobre isso?

Kurtzman: Bem, vimos a reação no palco quando Patrick anunciou que voltaria. Foi a confirmação do que já sabíamos ser verdade, que o público esperava ansiosamente que ele retornasse um dia. E tive o incrível privilégio de ficar atrás dele no palco naquele momento. Vi os rostos das pessoas nas fileiras, o choro aberto… Serviu para lembrar a tremenda responsabilidade que é trazê-lo de volta corretamente, de um jeito que honre o personagem e os fãs, porque ele significou muito para tantas pessoas. Isso também é parte de por que Patrick voltou. Ele resistiu voltar [a Star Trek] por muito tempo, não só porque não queria se repetir, mas também porque, eu acho, ele começou a entender, com o tempo, desde o fim de A Nova Geração, o impacto profundo do personagem sobre tantas pessoas. E quanta esperança ele trouxe a elas. E quando olhamos para o mundo hoje, vemos que a esperança é necessária, mais do que nunca. Picard representa um grande líder, um que é atencioso e não age por impulso, e que considera as implicações de suas escolhas, para todos, não só a sua geração, mas as futuras. Precisamos de líderes assim agora. E muito, então esperamos que Picard possa lembrar ao mundo o quão importante é ter um bom líder, e o que ele significa. Porque é fácil se esquecer disso, quando vemos tantas divisões ao nosso redor, o tempo todo. É fácil cair na vala comum de que “tudo é horrível”, mas Picard nos lembra de que o cinismo é apenas uma saída fácil. E que o otimismo é uma opção mais difícil, mas mais recompensadora, e é a que tem mais impacto no longo prazo. Pessoalmente, sinto uma grande emoção ao trazê-lo de volta. E espero que o mundo se recorde de por que ele é necessário, mais do que nunca.

Então, a nova série é bem diferente de A Nova Geração, é mais sombria. E também temos um esquema de produção diferente, moderno. Parece um filme. Como você diria que a série se comunica com o resto da franquia?

Goldsman: Quando você diz “moderno”… Bem, tentamos fazê-la moderna, com uma apresentação naturalista, mais cinematográfica. E com um protagonista idoso, o que não é comum, e considero isso moderno. Acho que os filmes que Alex e J. J. [Abrams] fizeram há alguns anos foram bem sexy, assim como a Série Clássica foi, e Discovery é sexy, assim como Voyager foi, e acho que nós somos e isso ótimo… Acho que somos todos versões sexy para a família. (risos) Mas, sabe, estamos tentando contar essa história hoje. E ter essa oportunidade… Isso não pode ser subestimado. O modelo episódico prevalente por tantos anos exigia um reset, e qualquer relacionamento com o público vinha com desconfiança. O público era tratado como algo imaginário que não sabia nem quando rir, por isso as risadas eram fornecidas por uma claque. Já nos distanciamos tanto disso, que hoje podemos dizer “Vamos fazer essa jornada, juntos. Vamos compreender esses personagens profundamente, assim como a trama.” Isso é moderno e temos sorte de contar uma história desse modo. Gerações anteriores não tiveram a chance de contar histórias de 8 horas ou 10 horas ou 15 horas. A gente gosta disso. (risos)

Seguindo nessa mesma linha sobre o conteúdo. Você, Alex, esteve envolvido nos filmes recentes, e agora nesse universo junto à CBS. Quanto mais séries tivermos no universo, podemos esperar crossovers, referências, participações especiais? Também estão envolvidos nos filmes vindouros?

Kurtzman: Tudo é possível. Os filmes que fizemos foram na linha temporal Kelvin, que é diferente da linha temporal principal. Só para recapitular, quando o Spock passou por aquele buraco de minhoca, ele saiu numa nova linha do tempo. Então, aqueles filmes se passam num universo diferente. Este é o universo de Picard. A Paramount e a CBS acabaram de se fundir, pela primeira vez em muito tempo. Por um bom tempo havia um muro entre os filmes e a TV em termos de direitos. Isso mudou agora e tudo pode acontecer. Mas isso ocorreu, literalmente, há um mês. Ainda está difícil saber o que vai acontecer. Acabo voltando ao que disse várias vezes: não sou contra fazer filmes, mas agora conseguimos criar filmes na TV. Nossas séries são muito cinematográficas e grandiosas. Então, não se trata mais da escala. No passado, a TV era sempre pequena e os filmes eram sempre grandes; isso já era. A questão agora é, que história se pode contar em 2 horas e quais são melhores para 10 ou 15 horas em streaming. Acho que esta é a única razão agora para se fazer um filme, porque, cinematograficamente falando, não há mais diferenças. Temos sequências muito grandiosas nesta série, complicadas, que levaram meses para se produzir, exatamente como no cinema. Então, adoro esses desafios, considero que não tenho mais interesse em trabalhar para TV, mas sim neste novo meio que é desafiador. Às vezes é um grande quebra-cabeça para resolver. Posso lhe dizer que muitas pessoas, incluindo estas aqui na sala, contribuíram para essas séries. É um verdadeiro exército de mentes trabalhando para expandir o universo de Star Trek de uma maneira consistente, mas que também seja diferente de série para série. Temos muita liberdade para fazer isso, mas apenas porque confiamos muito uns nos outros. Trabalhamos em grupo, muito bem, todos juntos. Temos um sistema de “pesos e contrapesos” em vigor, pois alguém pode sentir paixão por algo, mas esse algo pode ofender um fã de um jeito que a pessoa não se dá conta, ou pode contradizer algo no cânone e a pessoa não perceber. Então, é importante que cada um de nós possa falar. Espero que, seja lá o que aconteça com os filmes, a abordagem seja parecida. Porque se uma pessoa chegar e disser: “Tenho meu jeito de fazer as coisas, e vou fazer do meu jeito”, acho que assim é uma maneira certa de fracassar.

Então, você gostaria de se envolver com os filmes…

Kurtzman: Eu o faria, sob as circunstâncias certas. Estou totalmente aberto a isso, acho que qualquer um estaria. Vamos esperar para ver o que acontece.

Voltando a Picard, vocês são a equipe de roteiristas mais bem-sucedida da história de Star Trek. Akiva tem um Oscar, Alex trabalhou em grandes blockbusters, um Pulitzer para Michael, vários best-sellers da lista do New York Times para Kristen… Quero saber como vocês trabalham em equipe. O que cada um traz para a mistura que faz o negócio funcionar? E qual o papel do Patrick junto aos roteiristas?

Chabon: Ele [Goldsman] traz o Oscar…

Goldsman: Michael traz o Pulitzer… (risos) E também uma garrafa de uísque, e bebemos o mais rápido possível. Quem ainda sobrar acordado trabalha. (risos)

Chabon: Voltando ao que falamos no início… Existe tanto respeito e confiança entre nós agora, nos adoramos e adoramos trabalhar juntos. Adotamos a filosofia de que “a melhor ideia vence”. Não há ego envolvido, a preocupação é sempre o que é melhor para Star Trek. Posso lhe dizer que cada um tem um senso único do que é uma história, e o que gostariam de ver numa história. Isso é muito valioso porque se todos na equipe se satisfazem com algo, então achamos que isso pode representar uma fatia significativa do publico que verá a série. Cada um de nós traz a sua experiência, mas também trazemos a sensação de estar apenas no início de um aprendizado, também. Tentamos equilibrar isso o tempo todo, para estarmos sempre abertos e não virarmos cínicos ou cansados, e não acharmos que só existe um jeito de fazer as coisas. Assim podemos nos surpreender com novas histórias e novas abordagens para histórias, e também contar com a experiência de cada um e confiar uns nos outros.

Goldsman: Existe um ditado que diz: “escreva sobre o que você conhece”. E quando você se torna um escritor profissional, isso às vezes se mistura com “escreva sobre o que você acha que eles gostam”. Mas estamos em circunstâncias especiais aqui, porque achamos que sabemos [o que as pessoas querem] e amamos isso. Estamos cuidando de nós mesmos e da nossa visão de Star Trek e achamos que temos ótimas chances disso dar certo. Mas não estamos escrevendo para tentar agradar uma pessoa imaginária, ou aos fãs dentro da gente, quer eles tenham 10 ou 13 anos… Não tem adultos nesta sala, isso aqui é só fingimento. (risos) Mesmo assim, somos crianças que viam Star Trek quando jovens e agora podemos fazer a coisa de verdade.

Michael, estou curioso em saber como Star Trek influenciou seus romances. Lembro de referências em alguns deles.

Chabon: Sim, você está certo. Não diria que Star Trek aparece em todos os meus livros, mas em vários, sim, nem que seja algo meio escondido ou algum termo que faça referência. Eu abordo tudo que escrevo, e isso inclui meu envolvimento com Star Trek, como um fã. No sentido de que escrevo para conhecer melhor algo que despertou meu amor pela leitura ou pela escrita. É o mesmo impulso de fandom que se refere a algo como Star Trek, Star Wars ou Buffy, a Caça-Vampiros, é o impulso que leva a querer fazer mais daquilo. É o que temos na forma de fan-fiction, cosplay, episódios feitos por fãs etc. Esse impulso, de fazer mais daquilo que se ama, está no coração do que me levou a fazer o que faço. Quis escrever porque amava ler. Star Trek chegou à minha vida nos meus 10 anos de idade, através de uma fã, uma babá que tive que era muito fã e me apresentou à Série Clássica, pois era a única que existia na época. Na verdade, foi pouco depois de surgir a Série Animada. Ela me despertou a coisa do fã, de querer me fantasiar e escrever fan-fiction e tudo o mais. Toda a ideia do que é ser fã foi incorporada em mim desde cedo, assim como o amor por Star Trek e pela escrita. Então, isso agora parece uma culminação para mim, em vários aspectos.

Falamos antes com Isa e Evan sobre seus personagens, e a história de Star Trek é cheia de personagens icônicos. O que vocês estavam procurando nos novos personagens? O que eles precisavam ter?

Beyer: Acho que o coração de todos os personagens icônicos é bem específico, é o desafio pessoal de cada um. Por exemplo, o personagem do Data: era um androide que queria ser humano. Ou o Spock, que vivia numa batalha entre dois lados, a natureza humana e a vulcana. Quando se fala de qualquer personagem, buscamos a coisa que os torna únicos e o conflito dentro deles, que se manterá ativo durante as circunstâncias que encontram.

Kurtzman: Gostaria de acrescentar também nisso um ator especial. Seja Leonard Nimoy ou Jeri Ryan ou Patrick Stewart, sempre se trata dessa coincidência perfeita entre o personagem e o ator. É realmente o que temos e o que torna emocionante de se assistir, ao trazer esses personagens à vida.

Alex, posso fazer um pequeno pedido? Podemos ter um personagem brasileiro numa série de Star Trek?

Kurtzman: Vamos pensar nisso, com certeza.

Obrigado!

Tradução de Ivanildo Pereira.

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