Uma resenha SEM SPOILERS de “Remembrance”, primeiro episódio de Star Trek: Picard

É difícil descrever, para um fã que cresceu assistindo e venerando os episódios de A Nova Geração, a emoção que representa ver a volta de Jean-Luc Picard às telas. E os produtores de Star Trek: Picard sabem muito bem disso. Não faltam momentos e referências que rapidamente nos indicam a volta àquele universo, como se fosse mesmo o episódio seguinte a Nêmesis (2002). Vocês hão de concordar com essa avaliação nos primeiros 30 segundos, tenho certeza.

Uma das promessas da nova série é ser diferente não só de A Nova Geração, mas também de Discovery, a primeira das produções desta terceira era televisiva de Jornada nas Estrelas. E ambos os objetivos são atingidos. Em termos de ritmo, Picard se mostra mais próximo de A Nova Geração; em termos de apuro cinematográfico, está mais alinhada com Discovery. E de luz própria ela tem o fato de que nunca vimos uma série tão orientada a personagem, pelo menos em sua abertura.

O principal exercício de “Remembrance”, como o próprio nome já parece sugerir, é lembrar o que se passou com Jean-Luc desde a última vez o que o vimos. Isso é feito de maneira inteligente, por meio de diálogos que revelam não só a história pregressa, mas também o estado de espírito do velho almirante aposentado. É onde Patrick Stewart se sobressai, trazendo muitas emoções ao espectador, sobretudo se ele tiver um vínculo prévio com o personagem (todos nós temos, eu sei!).

A trama caminhará nessa toada, entre passado e presente, ao longo de todo o episódio, impulsionada por um mistério. Dahj entra na vida de Picard, e sua chegada acaba fazendo com que ele mergulhe numa investigação, movida por sonhos e traumas, que vai se revelando cada vez mais interessante e profundamente enraizada nos temas e eventos de A Nova Geração. Embora tenha sido feito todo um esforço para dizer que esta não é uma continuação da antiga série, é difícil não perceber desta maneira, e não apenas pela presença de velhos personagens, mas na forma como a história é desenvolvida.

Interessante também como, com meia hora de episódio, os roteiristas puxam o tapete do espectador, e todas as ideias que estavam se formando na cabeça dele precisam ser reformuladas (aconteceu comigo, pelo menos; estou curioso para saber se será assim com outros fãs). Em mais dez minutos, Picard reencontra o fio da meada, e somos deixados com uma nova provocação, a ser detalhada apenas no episódio seguinte.

Desde a gestação de Discovery, os produtores têm prometido temporadas de Star Trek que se assemelham mais a um livro, em que cada segmento é um capítulo, do que a uma série convencional, em que cada episódio, mesmo concatenado com uma trama maior, tem um começo, meio e fim. Em Picard, eles conseguiram pela primeira vez produzir essa sensação em mim. A serialização é muito óbvia, e o ritmo respeita isso, sem precisar enxertar um “episódio dentro do capítulo”. Para esta série em particular, funciona. Como é fortemente orientada a personagem, acompanhando Picard a cada passo, não precisamos realmente de um desfecho a cada 45 minutos. (Será interessante ver como esse equilíbrio entre narrativa serializada e episódica será tratado em cada uma das novas séries, já que Lower Decks promete ser mais old-school nesse sentido, e Discovery se manteve num meio-termo em suas duas primeiras temporadas.)

O episódio de abertura desfaz muitos dos mistérios deixados pelo curta “Children of Mars”, mostrando um pouco do que parece ser a estrutura narrativa da série em si: ela fecha questões e abre outras, vivendo mais do processo de investigar as questões que ela apresenta do que de reviravoltas inesperadas e espalhafatosas.

Do ponto de vista estético, a série faz escolhas interessantes: abraça de forma integral o que foi visto em A Nova Geração (você não verá retcons visuais, como tivemos em Discovery), e temos até algumas amostras de gráficos LCARS e imagens da série antiga, bem como a já divulgada aparição da própria Enterprise-D. Claro que alguns elementos de Discovery aparecem, mas sempre de forma sutil e justificável (adoro, por exemplo, que as naves auxiliares vistas em Disco tenham virado, 150 anos depois, transportes comuns para civis, como ônibus escolares, algo que vimos em “Children of Mars”).

Em cima do que vimos em A Nova Geração, a série extrapola o que viria depois dela, em termos de interfaces, uniformes e tecnologias. Isso ajuda a trazer os valores de produção para o padrão do século 21, sem desvirtuar o passado conhecido do século 24. Mas pode se preparar para passar um bom tempo na Terra, onde o cenário “Frota Estelar” não é o padrão usual.

A fotografia, claro, abandona o estilo prático e apressado da série dos anos 1980 e 1990. Temos aqui um visual verdadeiramente cinematográfico, com enquadramentos mais criativos e cuidado extremo com a luz, demonstrando a sensibilidade da diretora Hanelle Culpepper. O resultado visual final é um híbrido interessante entre A Nova Geração e Discovery. A música de Jeff Russo assume um tom melancólico e misterioso, que combina muito bem com a trama, ajudando a criar a ambientação do episódio.

Acredito que a volta de Jean-Luc Picard não irá decepcionar os fãs. Em termos de tom e de apresentação, os produtores acertaram em cheio. A trama em si, dada a natureza serializada, teremos de esperar mais alguns episódios para avaliar. Mas acho difícil que alguém assista a este primeiro episódio e não fique ansioso pelo segundo.

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