Como chegamos aos deques inferiores

Title Card da Série Animada.

Após o fim da Série Clássica, a demanda por mais Jornada nas Estrelas cresceu depois do sucesso que as reprises tiveram em syndication, expandindo bem a sua base de fãs. Para atender isto, Gene Roddenberry viria a criar o que seria a primeira grande expansão da nascente franquia em ter seu próprio universo expandido — na falta de uma nova série para TV, a animação era um meio natural de isto ocorrer. Assim, 1973 teve a estreia na NBC de Jornada nas Estrelas: Série Animada, dando continuidade à premissa da série original, com a tripulação da Enterprise em sua missão de cinco anos.

Foi a série correta concebida no momento errado. Star Trek, cancelada no final dos 1960, teve sua primeira revitalização em uma época nada promissora para a animação americana, pois os desenhos de qualidade já haviam deixado as telas de cinema com os grandes estúdios fechando suas divisões específicas do gênero (como a Warner Bros. e MGM, entre outros) ou estando em períodos escassos de recursos e criatividade (Disney).

Estúdios focados em animação para TV estavam num bom momento, como a Hanna-Barbera e a Filmation, mas a maioria dos produtos finais eram, devido as suas limitações orçamentárias, de baixa qualidade artística e exclusivamente focados para crianças. Estas séries têm hoje forte apelo nostálgico, sem dúvida, mas em inúmeros casos não eram as melhores animações que já se produziram, sendo honesto.

Grupo avançado em animação com os cintos de atividade extra-veicular.

Desta forma, Jornada nas Estrelas: Série Animada, produzida pela Filmation, refletia as limitações que da época devido às restrições de orçamento, com animação extremamente limitada e repetitiva, pouca expressividade dos personagens, reutilização massiva das folhas de acetato utilizadas na animação, que eram lavadas e pintadas novamente, e diversas outras maneiras de redução de custos. Algumas destas até usadas de maneira criativa, como por exemplo a introdução dos cintos de atividade extra-veicular aos tripulantes, que geraria um campo de força em torno do personagem no lugar de se precisar os desenhar com trajes de atividade extra-veicular convencionais.

A Série Animada foi uma das primeiras séries desta época a seguir uma mentalidade de “feito para crianças, mas adultos podem gostar”, algo que viria a se tornar muito comum do final dos anos 1980 em diante. Decisões como a de procurar investir no que fosse possível para trazer o elenco original de volta como as vozes dos personagens ilustram esta mentalidade, e isto, aliado ao fato de que nos anos 1990 tivemos um notável aumento de qualidade técnica em produções para a TV, poderia ter sido o momento mais apropriado para uma primeira série animada da franquia.

Apesar de tudo, ela soube se valer das possibilidades naturais de animação, e tendo alguns bons autores de roteiros da Série Clássica, foi no final das contas um seriado interessante e com elementos que até hoje perduram no universo da franquia, apesar de seu status de não ser considerada canônica até 2006, quando essa situação mudou.

Elenco da Série Clássica em Futurama.

Mas o tempo passou e, descontado as vezes que Star Trek foi referenciado em série de animações diversas (“Where No Fan Has Gone Before” em Futurama, com o elenco clássico, e “Not All Dogs Go to Heaven” em Family Guy, com o elenco de A Nova Geração, são bons exemplos), Jornada teve que esperar várias décadas para tentar novamente as águas de uma produção animada. Algumas idéias foram consideradas e rascunhadas ao longo do tempo, até que em meados dos 2000, após o final de Enterprise, uma série animada intitulada Star Trek: Final Frontier, para o website Startrek.com foi planejada mas nunca executada. Ambientada em meados do século 26 no meio de uma nova guerra contra os romulanos, Final Frontier seria uma série de ação e aventura centrada em uma nova tripulação da Enterprise. Você pode até mesmo conferir farto material de pré-produção desta série neste website.

E finalmente, Star Trek: Lower Decks, a primeira série animada original da franquia, uma vez que a dos anos 1970 foi basicamente uma continuação da Clássica só que em desenho. Anunciada em meados de 2018, juntamente com Star Trek: Picard, contou com um longo período de gestação, algo comum no mundo da animação. A primeira temporada com dez episódios de meia hora estreia em 6 de agosto, com a produção na segunda temporada prosseguindo, mesmo com as restrições temporárias devido a pandemia do coronavírus. A distribuição ficou a cargo da CBS All Access nos EUA e da emissora CTV no Canadá, enquanto a ViacomCBS Global Distribution Group oferece para o restante do mundo, o que deixa a série de fora de grandes serviços globais de streaming (Netflix, Amazon) que já ofertaram Star Trek antes. Isto deixa o acesso a Lower Decks difícil no Brasil, uma vez que não houve até o momento nenhum anúncio de alguma emissora ou serviço local de streaming interessado.

Enquanto Lower Decks (literalmente, “deques inferiores”, em português) era produzida, Jornada recebeu as primeiras novidades em animação desde a Série Animada na forma de dois segmentos da série de curtas Short Treks, boas experimentações para a franquia retomar a sua presença em animação, tanto tradicional como de computação gráfica. Além disto, uma segunda série animada se encontra em produção para a Nickelodeon, Star Trek: Prodigy, esta em particular sendo uma aventura focada para um público infanto-juvenil, com estreia em 2021.

Michael Burnham e seu pai em “The Girl Who Made the Stars”, curta em animação da série Short Treks.

Elenco de A Nova Geração em Family Guy.

Uma franquia do porte e estilo de Star Trek pode-se valer muito de animação para expandir sua mitologia e entregar temas, tramas e conceitos que poderiam não ter espaço nas produções principais. Star Wars faz muito bom uso disto, mas o que Lower Decks coloca na mesa é um conceito largamente inédito: uma comédia oficial de uma franquia deste porte. Isto não é algo como Galaxy Quest, The Orville ou Red Dwarf — estamos falando aqui de humor com os elementos de Star Trek mas utilizando tudo da verdadeira caixa de brinquedos oficial de mais de cinco décadas de cânone.

Liderando este esforço temos Mike McMahan, criador da série e seu showrunner. Trekker de longa data, foi o roteirista de “The Escape Artist”, da série de Short Treks, e a carreira de McMahan nos indica um pedigree ótimo para a pegada necessária a proposta de Lower Decks. Além de ter trabalhado em séries como South Park e Drawn Together, também foi produtor em Rick and Morty (onde já levou Prêmio Emmy por seu trabalho), e juntamente com Justin Roiland, um dos criadores desta última, Mike McMahan é também o co-criador de Solar Opposites, série de animação sci-fi que estreiou no Hulu em maio de 2020. Com uma premissa que lembra a sitcom 3rd Rock from the Sun, com uma família de aliens tentando se adaptar a vida suburbana na Terra e indecisos sobre se isto é ótimo ou péssimo, Solar Opposites também tem um ritmo caótico com piadas rápidas e abundância de humor observacional e referências.

Solar Opposites, outra série de co-criação de Mike McMahan.

Agora, é a vez dele demonstrar seu trabalho com esta mais nova série da franquia. Inspirada no episódio da sétima temporada de A Nova Geração do mesmo título, Lower Decks tem a intenção de nos mostrar o dia a dia de alferes em uma das naves de menor importância da Frota Estelar. A tripulação de ponte será o elenco secundário da trama, invertendo o que tipicamente ocorre em outras séries. A missão primária da USS Cerritos é servir de suporte pós-primeiro contato com mundos alienígenas. Ou seja, é a nave da Frota que vai até estes planetas para iniciar as partes mais corriqueiras da nascente relação entre a Federação e a civilização descoberta.

Referência a ferengis em Rick and Morty.

Involuntariamente, a premissa da série rendeu algo raro e que aprecio muito no universo de Jornada nas Estrelas, que é a Frota Estelar ter classes de naves para perfil bem específico de missão, o que escapa do genérico conceito de “exploração” das típicas classes vistas antes. A classe Defiant seria outro bom exemplo disto, de nave com objetivo operacional bem distinto.

Uma série de Star Trek não é nada sem bons personagens, e Lower Decks conta com um elenco com grande potencial para isto. Temos Tawny Newsome (Angela Ali em Space Force) como a alferes Beckett Mariner, irreverente e meio que adere a “Escola de Pensamento James Kirk para Liderança e Iniciativa”; Jack Quaid (Hughie Campbell em The Boys) como o alferes Brad Boimler, um oficial tão rígido e ambicioso quanto inseguro e atrapalhado; Noël Wells (Rachel Silva em Master of None) como a alferes D’Vana Tendi, uma entusiasmada oriana por estar na Frota Estelar, basicamente uma de nós se tivéssemos a chance de fazer parte daquele universo; e Eugene Cordero (Jamie em Steven Universe) como o alferes Sam Rutherford, um competente jovem engenheiro mas realista, se ele diz que precisa de duas horas para resolver um rolo, ele precisa mesmo das duas horas… talvez de três. Na ponte de comando está o elenco secundário, onde temos Dawnn Lewis (Patrice em Major Crimes) como a capitão Carol Freeman, Jerry O’Connell (Quinn Mallory em Slides) como o comandante Jack Ransom, Fred Tatasciore (Hulk em Hulk and the Agents of S.M.A.S.H.) como o bajoriano Tenente Shaxs, Gillian Vigman (Ida Abbott em Life Sentence), como a caitiana comandante T’Ana, médica-chefe, e Paul Scheer (Keith Shankar em Black Monday) como o tenente comandante Andy Billups, engenheiro-chefe da nave.

Da esquerda para a direita, Mariner, Tendi, Rutherford e Boimler.

A produção é da CBS Eye Animation Productions, e a animação está por conta do estúdo Titmouse, Inc., que em seu currículo, entre outros trabalhos, tem animação para a Walt Disney Animation com Big Mouth, no canal Disney Jr., para a DreamWorks Animation com The Epic Tales of Captain Underpants, e para a Warner Bros. em Teen Titans Go! To the Movies, além de estarem colaborando com o vindouro remake de Animaniacs! para o Hulu.

Eu gostei em particular do traço geral dos personagens, mas sou suspeito para falar pois aprecio muito este estilo, típico de muitas “comédias de animação para adultos” — não realista, com olhos saltados, feições longas e traços simples para os elementos do rosto. Uma compreensível fuga em particular deste estilo, contudo, é que os personagens humanoides têm cinco dedos nas mãos, ao contrário de algumas vezes em outras séries animadas. E obviamente que a produção optou também por não ir até o extremo de adotar o que nos últimos anos se convencionou a chamar Estilo CalArts (visto em séries como Steven Universe, Gravity Falls e Adventure Time, por exemplo), que seria algo irreal demais para a proposta. Em particular entre os aliens que já vimos, o estilo de arte da Dra. T’Ana, a médica caitiana, está com um traço que tende mais para o lado de cartoon do que para o traço original de caitianos visto em TAS, o que seguramente foi uma escolha para combinar com o estilo de humor que deve ocorrer aqui, com piadas gravitando em torno de comportamento de gatos.

Estilo dos uniformes de Lower Decks.

Um ponto de polêmica tem sido a escolha do estilo de uniforme, originários de versões não utilizadas em Jornada nas Estrelas: Generations, e considerando a época em que Lower Decks está inserida, como este não é semelhante nem ao vistos nos flashbacks de Picard, e nem é o tradicional do final de Deep Space Nine e filmes de A Nova Geração. Não é algo que me incomoda tanto considerando que uma mera racionalização marota qualquer explica a existência dessa linha alternativa de uniformes. Além disso, os uniformes vistos nos flashbacks de Picard e filmes de A Nova Geração não seriam visualmente adequados para uma animação, uma vez que criariam uma contínua área escura longa demais, do torço aos pés. Desta forma, é melhor que a túnica do uniforme tenha a cor da seção na parte debaixo, tal qual era nos uniformes originais do século 24 quando ele apareceu na televisão em 1987, o que deixa mais harmonioso enquanto desenho.

A Cerritos em pôster da série que remete a antigo cartaz de Jornada nas Estrelas: O Filme.

Sobre o aspecto em si da USS Cerritos (NCC-75567), o que chama a atenção imediatamente é a separação entre disco e engenharia, o que me lembrou as unidades da classe Oberth, com as naceles ainda mais em posição de serem um ponto de trânsito entre as seções da nave. Este aspecto é o que não me agradou tanto no desenho, mas em geral a nave está completamente alinhada com o estilo federado do final do século 24. O mesmo pode ser dito para o que já vimos do interior, com traço dos elementos internos e mostradores LCARS tradicionais da época. O número de registro sugere que ela teria sido comissionada por volta de 2375, durante a Guerra Dominion, um pouco antes da USS São Paulo, a que viria ser a substituta da Defiant.

O nome Cerritos soa engraçado sem ser inadequado, e a criação da classe California de naves foi uma das maneiras mais orgânicas que já vi em Star Trek de se estabelecer uma lógica atrás da decisão da Frota em nomear naves: a primeira unidade sendo California e as demais, cidades daquele estado, e até os shuttles embarcados tem nomes que remetem a locais na Califórnia (Yosemite). Me remeteu ao estilo que a Marinha dos EUA usou em algumas de suas classes de submarinos. É um tipo de cuidado que faltou para Discovery, por exemplo.

McMahan já deixou claramente explícito em inúmeras ocasiões que aderência ao canon e continuidade pré-estabelecidas de Star Trek é algo totalmente prioritário para a equipe criativa da série. Não haveria razão para ser diferente, uma vez que Lower Decks irá utilizar toda a mitologia existente de Jornada a seu favor, com inúmeras chances para boas doses de fanservice da melhor qualidade, muita oportunidade para construção de mundo e aparições eventuais de inúmeros personagens das demais séries. Levando em conta a veia cômica da série, considero que John de Lancie como Q seria algo praticamente obrigatório.

Considerando isso, o potencial de Lower Decks de ser uma divertida indulgência para fãs de longa data é grande e certamente está na mente da equipe criativa esta questão, de oferecerem isto aos trekkers que estão predispostos a aceitarem a série por aquilo que ela procura entregar. Pessoalmente acho que ela não deverá ser uma “porta de entrada” em Star Trek tão boa quanto por exemplo, a animação em desenvolvimento pela Nickelodeon, pelo menos no que diz respeito a um público mais infanto-juvenil. Contudo, reações iniciais aos trailers por parte de crianças tem se mostrado positivas, ainda que mera evidência anedota, claro. E adultos que nunca tiveram interesse na franquia mas curtem boas séries animadas de comédias são um público que também poderá ser fisgado.

Notem do lado esquerdo deste depósito, temos estocado aqueles intensificadores de sinal de teleporte que já foram diversas vezes utilizados em episódios anteriores. A série certamente irá ter muitos detalhes como este.

Ainda sobre o aspecto canônico de Lower Decks, uma questão sobre a qual estou curioso é sobre como eles irão equilibrar a tendência a ocorrer non-sequitur e exageros em situações típicas de animação com o que se considera realismo do universo onde a série está inserida. Um exemplo do que estou me referindo seria que nós consideramos a existência de um teleporte algo realista no contexto de Star Trek. Contudo, uma piada onde em uma teleportagem vários personagens acabam misturados em um único corpo com todos eles vivos e apenas irritados pela situação seria algo típico do ambiente de uma série de comédia com viés sci-fi, mas seria aceitável de se considerar que algo assim teria ocorrido na mesma continuidade do “realismo” que consideramos existir no universo de Star Trek? Será algo interessante de conferir como irão lidar com estes pontos.

Ao contrário de Discovery e Picard, Lower Decks irá adotar um caminho episodístico para suas tramas, ou seja, cada episódio sendo uma história fechada em si, algo que a vindoura Star Trek: Strange New Worlds também deverá fazer. Claro que este estilo é melhor de se utilizar sem o extremo que foi na série original (algo compreensível a ela devido a sua época de produção), mas sim fazendo um equilíbrio entre as tramas isoladas e arcos maiores de temporada, algo que DS9 soube lidar muito bem.

Estabelecer com precisão o ano de 2380 como período inicial de Lower Decks foi uma decisão boa no sentido de que é perto o suficiente da época de A Nova Geração, Deep Space Nine e Voyager para termos aqueles elementos e personagens à mão, mas separado o bastante para não criar interferência com elementos de continuidade pré-estabelecida por estas séries. Claro, esta época específica também envolve certos elementos de Picard, mas não de maneira que possa gerar ruído uma com a outra (Picard versus Lower Decks).

Haley Gansert, editora em Lower Decks, já não perdeu tempo em fazer um cosplay honesto.

Agora, o que esperar do produto final? Pelo quase ineditismo da mídia e sua temática, é uma série que precisará ser encarada com os olhos corretos. Fãs que já apreciam esta categoria de “comédias animada para adultos” na categoria de Os Simpsons, Final Space, Archer, BoJack Horseman e tantas outras estão de certa forma em vantagem, enquanto trekkers que eventualmente não curtem esse gênero podem não se encontrar na melhor frequencia de onda logo de saída. Portanto, tem que se dar tempo ao tempo e procurar apreciar a série pelo que ela se propõe a entregar, sem comparações rígidas com a típica série da franquia até aqui.

Pois devemos considerar que Star Trek cresceu e atingiu um ponto aonde todas as suas obras não precisam tentar ser tudo para todos. Se ocorrer de você não curtir Lower Decks por não ser a sua praia, tudo bem quanto a isso, a franquia está com várias outras produções para se apreciar, e Lower Decks sempre pode encontrar o seu público com diferentes segmentos do fandom.

Seja como for, estamos no limiar de um momento único para o fã de Star Trek, que é ter a chance de conferir nada menos do que a terceira estréia de uma série de Jornada em menos de três anos, com tantas outras a caminho. Por enquanto, vamos agora acompanhar a tripulação da USS Cerritos ir aonde algumas pessoas já estiveram antes.

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