Conceitos de design na 3ª temporada de Discovery


Por Letícia Meneses

No design da vida real a situação econômica geral da sociedade influencia no que é produzido, e podemos perceber isso na série. Na terceira temporada fomos apresentados à Queima, que mudou de forma drástica as relações em toda galáxia. Os recursos estavam escassos e a “economia” da Federação estava ruim, com isso os uniformes na cor cinza e sem detalhes contrastam com os enfeites dos recém-chegados, que vieram da “época de ouro” – afinal, tinham que economizar recursos. Isso se repete no design das instalações desse novo tempo, sem cores de contraste, traços retos e limpos, ambiente minimalista, bem diferente do cenário a que estamos acostumados para a série.

Essas características podem ser comparadas ao Movimento Modernista (início do século 20), que na arquitetura do Brasil tem como principal representante o plano piloto de Brasília e seus monumentos. Dentro do modernismo existiu o estilo da escola Bauhaus (europeu), que foi muito utilizado em habitações para a classe trabalhadora, que são conhecidas por seus tamanhos mínimos. Também é conhecida pelas frases “menos é mais” e “a forma segue a função”, sendo a segunda levada à risca na temporada, quando na primeira cena do primeiro episódio o cenário se modifica de acordo com o uso.

Podemos perceber que os espaços do QG da Frota são reduzidos, incluindo a sala em que o almirante negocia com Osyraa. Um cenário diferente das salas de conferência de outras séries, com plantas, cadeiras confortáveis e até banquetes, enquanto nessa temos apenas uma bandeja no centro da mesa que a princípio parece um adorno, mas ganha função quando a vilã dá uma beliscada na comida (e se arrepende). O estilo da órion pode ser considerado agressivo, com roupa que possui detalhes em metal, usando acessórios e até unhas grandes, nos lembrando dos métodos da Corrente Esmeralda.

Outro cenário de destaque é a casa do irmão de Book. Parece até ser dos dias atuais, com muito vidro, concreto, couro, madeira e natureza similar à da Terra do lado de fora. Mas o que chama atenção é o luxo. Osyraa estava destruindo aquele planeta com suas políticas extrativistas, enquanto o irmão de Book lucra com isso e não tem vergonha de mostrar.

Podemos associar essa decoração com o estilo orgânico e o “arts and crafts” (EUA), que usavam recursos naturais como elemento de luxo com objetos e texturas únicas, rejeitando elementos produzidos em massa, industrializados (substitua por replicado), valorizando a exclusividade de trabalhos manuais. Tem como principal representante a casa da cascata, que apesar da beleza, design exclusivo, descaracterizou uma cachoeira em prol do luxo. Casas como essa despertam desejos até os dias de hoje, porém legislações de muitos países são contra esse tipo de prática.

As grandes transformações na trazidas pela segunda revolução industrial (e a guerra) facilitaram a manipulação de recursos naturais como o aço e vidro, bem como sua produção em massa, e facilitaram a produção da época. A matéria programável apresentada nessa temporada pode ser controlada pelos humanos assim como o ferro, podendo ser comparada à uma nova revolução industrial, possivelmente desenvolvida após as guerras temporais, assim como outras grandes tecnologias que surgiram em períodos de conflito. A partir daí, podemos imaginar o que acontecerá com Michael: ter entrado na “fornalha” da matéria programável no núcleo do computador e não ter queimaduras aparentes poderia até mesmo pautar uma história secundária na próxima temporada.

Estamos no mundo contemporâneo, mas ainda temos influência desses estilos no nosso dia a dia, afinal, tendências duram mais que modas. Fazendo um paralelo com o mundo atual, onde Trump era contra o Acordo de Paris, e muitos países da Europa estão se voltando para o lado da ecologia e sustentabilidade, temos duas forças opostas onde uma visa o lucro, e outra com esforços para garantir uma vida digna para a geração atual e as próximas. E um lembrete: a Torre Eiffel, em Paris, foi planejada para representar o poder do ferro e em que ele pode se transformar. Será que teremos algo relacionado a isso com a matéria programável? Vale para reflexão, enquanto aguardamos a volta da série.

Letícia Meneses é arquiteta e urbanista, trabalha como autônoma em projetos arquitetônicos de pequeno porte no Piauí e curte Star Trek desde 2005.

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