Episódios de hoje…
“For the World Is Hollow and I Have Touched the Sky” (“O Mundo Finito”; TOS 3×10, 1968)
Onde assistir: DVD/Blu-ray
“The Apple” (“Fruto Proibido”; TOS 2×9, 1967)
Onde assistir: DVD/Blu-ray
“The Return of the Archons” (“A Hora Rubra”; TOS 1×22, 1967)
Onde assistir: DVD/Blu-ray
“When the Bough Breaks” (“O Rapto dos Inocentes”; TNG 1×17, 1988)
Onde assistir: PlutoTV*
“Samaritan Snare” (“A Cilada”; TNG 2×17, 1989)
Onde assistir: PlutoTV** Somente dublado
Quantas pessoas sabem como funcionam seus próprios celulares, ou mesmo os modelos de inteligência artificial que tomaram conta do cotidiano? E se, de repente, essas coisas deixassem de existir e tivéssemos que fazer nossas tarefas do dia a dia sem elas? Alguns episódios de Star Trek levaram essa alienação entre uma civilização e sua tecnologia a níveis extremos, dando uma prévia do que poderia ocorrer em caso de perda total do controle das ferramentas que usamos.
Na série original, o capitão Kirk e sua equipe descobrem uma nave com aparência de asteroide em rota de colisão com um planeta em “For the World Is Hollow and I Have Touched the Sky” (“O Mundo Finito”; TOS 3×10, 1968). Já dentro da nave, capturados pelos seus tripulantes – cujos trajes com jeito de mantinha xadrez da vovó já valem o episódio –, Kirk, McCoy e Spock são levados ao Oráculo, um computador tratado pelos nativos como uma entidade superpoderosa, que tudo decide. Eles também percebem que as pessoas de Yonada não sabem de nada mesmo – sequer que estão em uma nave, vivendo geração após geração no que pensam ser um planeta.

Guardas de Yonada seguram Kirk, McCoy e Spock enquanto a bela Natira consulta o Oráculo em “For the World Is Hollow and I Have Touched the Sky”.
Resta à tripulação da Enterprise desvendar os controles do Oráculo na marra e reprogramar sua trajetória para evitar a colisão com um planeta habitado por bilhões de pessoas, permitindo aos viajantes a chegada segura a uma terra prometida, conforme previsto originalmente pela civilização que criou a nave geracional.
Nessa história, entende-se que os inventores originais, da civilização fabrini, sabiam o que estavam fazendo, mas os milhares de anos a bordo da nave controlada pelo Oráculo transformaram os viajantes em pouco mais do que crianças obedientes, submetidas ao computador-controlador, que punia qualquer sinal de desobediência por meio de um implante capaz de torturar e até matar.
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Computadores todo-poderosos já haviam sido introduzidos em outros episódios da série original. Em “The Apple” (“Fruto Proibido”; TOS 2×9, 1967) e “The Return of the Archons” (“A Hora Rubra”; TOS 1×22, 1967), duas civilizações se encontram totalmente hipnotizadas por máquinas criadas muito tempo antes da chegada da equipe da Enterprise. Como em Yonada, a natureza real do computador acaba sendo ocultada dessas pessoas, que já perderam o contato com a programação inicial e acabam encarando as inteligências artificiais como deuses aos quais devem obediência cega.
Os loiríssimos habitantes do planeta visitado em “The Apple” lembram os Eloi do filme A Máquina do Tempo, de 1960, baseado no livro de H. G. Wells. No filme, um inventor no fim do século 19 cria uma máquina do tempo e, num futuro muito distante, conhece os Eloi, lindos habitantes da superfície, mas que servem de gado para um povo que vive no subterrâneo, os Morlocks. Os Eloi são todos jovens (claro, porque são consumidos como alimento) e completamente ignorantes. O viajante do tempo se choca quando, ao pedir para ver onde eles guardam os livros, percebe que estão todos se desintegrando. Ninguém lê, ninguém adquire conhecimento.
Em “The Apple”, os habitantes são as “crianças de Vaal”. No caso, Vaal é a superinteligência que os mantém em perpétuo estado de ignorância e que tenta capturar a Enterprise. Depois de muitas tentativas de escapar, a nave acaba mandando bala (ou melhor, tiros de feiser) em Vaal para libertar a nave. E os pobres nativos vão ter de aprender a viver com autonomia, com a ajuda de uma equipe da Frota que fica para trás para ajudá-los.

A tripulação da Enterprise olha a carranca na entrada do todo poderoso Vaal em “The Apple”.
Em “The Return of the Archons”, os habitantes de Beta III são todos obedientes a um tal Landru, que condiciona a todos para serem um tanto anestesiados. Só após a investigação do capitão Kirk é que fica revelada a natureza real de Landru. Ele não é um líder, e sim um computador criado pelo Landru original há milhares de anos. Kirk o derrota com um de seus poderosos discursos capazes de induzir suicídio em inteligências artificiais corrompidas. E lá se vai mais um grupo de alienígenas a ter de aprender a viver por si só, sem o “conforto” de seguir cegamente as ordens de uma máquina.

A imagem de Landru projetada pelo supercomputador em “The Return of the Archons”.
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Os habitantes do planeta Aldea também tinham um computador-mestre, o Custodian ou Zelador. No episódio da Nova Geração “When the Bough Breaks” (“O Rapto dos Inocentes”; TNG 1×17, 1988), vamos aos poucos entendendo a extensão do controle que o Custodian exercia sobre os habitantes e o mal duplo que ele estava causando. Na história, o misterioso planeta Aldea é protegido por um escudo que o torna invisível e impenetrável. Os habitantes decidem se revelar ao capitão Picard por um motivo forte: todos eles estão estéreis e gostariam de ficar com algumas das crianças da Enterprise –e dariam acesso à sua tecnologia em troca pelos pimpolhos. Claro que Picard não aceita a troca, mas o pessoal de Aldea rouba as crianças e fecha o escudo planetário.
Em Aldea, cada um dos meninos raptados da Enterprise é entregue a uma família, e cada uma delas tem um propósito diferente: uma é de escultores, outra de músicos etc., tudo de acordo com os talentos já perscrutados pelo Custodian ao escanear as crianças com um raio sensor. O computador, no entanto, fica responsável até pela execução das artes: é só pensar numa forma que uma ferramenta já esculpe a madeira para a criança, e basta pensar numa melodia para que a música seja executada no instrumento. Lembra um tanto a nossa interação com as inteligências artificiais.
O filho da médica da nave, Wesley Crusher, o mais velho da turma dos sequestrados, fica curioso a respeito do supercomputador e começa a perguntar a Duana, liderança de Aldea, como ele funciona. A pergunta surpreende a dirigente: para ela, não importa como o Custodian funciona, só importa que ele os serve há centenas de anos.

Duana, líder de Aldea, e Wesley Crusher na sala do Custodian em “When the Bough Breaks”.
Enquanto tentam enrolar os nativos com tentativas de negociação, os tripulantes da Enterprise acabam desvendando o que causa a esterilidade nos habitantes de Aldea, que também têm um aspecto pálido, são sensíveis à luz e quase não comem. Todos esses sintomas seriam causados pela radiação solar excessiva, que teria penetrado pela atmosfera por conta da camada de ozônio debilitada pelo uso do escudo de defesa e da camuflagem quase mágica que envolve o planeta. Esse artifício tecnológico estava debilitando a defesa da atmosfera – e quem se lembra dos anos 1980 e 90 aqui na Terra sabe bem do temor que existia com os buracos na camada de ozônio. Para resolver o caso, só desligando tudo. Os aldeanos teriam que aprender de novo a controlar seu próprio computador para que ele deixasse de prejudicar o meio ambiente, tomando de volta as rédeas de seu desenvolvimento.
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Outro grupo de alienígenas bem mais sem-noção que os de Aldea são introduzidos no episódio “Samaritan Snare” (“A Cilada”; TNG 2×17, 1989). Os pakleds não têm domínio algum sobre sua própria tecnologia, mas não é por conta de terem se acomodado com a genialidade de seus antepassados: é porque tudo o que eles têm é roubado de outras civilizações.
Os rechonchudos e lacônicos alienígenas atraem a Enterprise com um inescapável pedido de ajuda (e quando é que socorrer uma nave já deu errado, certo?). Riker, em comando da Enterprise enquanto o capitão Picard foi a uma base estelar sorrateiramente fazer uma cirurgia, cai na armadilha direitinho e envia o engenheiro-chefe, Geordi La Forge, para consertar o calhambeque dos pakleds. Worf protesta, e poucas vezes ele teve tanta razão em suas queixas e reviradas de olhos. Seria prudente enviar alguém tão importante para realizar essa tarefa?

O engenheiro Geordi tenta consertar a nave dos pakleds em “Samaritan Snare”.
Enquanto Geordi está dando duro no conserto, a conselheira Troi sobe à ponte de comando para alertar Riker: os pakleds estão mentindo sobre suas dificuldades e têm intenções hostis. Leituras mais profundas da nave alienígena conduzidas pelo comandante Data revelam que ela é uma colcha de retalhos de tecnologia. Segundo Troi, os pakleds não têm paciência para aguardar o desenvolvimento intelectual de sua própria raça e pulam etapas surrupiando elementos de outros. Tudo isso com a conversinha mole deles: “Nós procuramos coisas. Coisas que nos fazem ir”.
Geordi começa a perceber que está sendo usado e de repente os pakleds roubam seu feiser e lhe dão um tiro para atordoá-lo, expondo o plano de sequestrá-lo. Agora, eles exigem que Geordi os arme até os dentes com torpedos. Espertamente, a equipe da Enterprise se aproveita da falta de conhecimento dos pakleds sobre os sistemas da própria nave para enganá-los com um ataque de mentira e trazer Geordi de volta, mostrando que ter e usar tecnologia não é o mesmo que desenvolvê-la, muito menos realmente compreendê-la.
Escrita pela jornalista Débora Mismetti, Grandes Jornadas é uma coluna semanal publicada às sextas-feiras no Trek Brasilis, destacando tematicamente segmentos de Star Trek e convidando a uma revisita desses episódios por um ponto de vista diferente.
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