SNW 4×01: Valles Marineris

John Carter encontra Jurassic Park, e o Sistema Solar que lute

Sinopse

Data estelar: 2491.5.

Após seis meses de missões seguidas, Pike parece estar levando a tripulação ao limite – e aproveitando seu tempo ao máximo. Ele promete a Una uma missão avançada, e April vem a bordo para vê-lo. A Frota Estelar quer promover Pike a comodoro. Mas antes ele precisa conduzir a Enterprise em uma última missão – investigar uma supertempestade interestelar.

Enquanto Uhura recepciona uma nova cadete vulcana que é osso duro de roer, a nave se aproxima do estranho fenômeno espacial e detecta um sinal de socorro em seu interior. Enquanto Ortegas manobra para interceptar, lidando com os inconvenientes alertas instalados por Scotty no leme, a Enterprise é tragada para dentro e severamente danificada, limitada ao suporte de vida, sensores e impulso. A reativação dos motores de dobra depende da obtenção de mais irídio.

Pike ordena o disparo de um sinal de socorro, e Spock indica que os sensores, antes de pifarem, registraram um planeta classe M próximo com sinais de irídio. Una é despachada para visitá-lo via nave auxiliar, com La’An e Ortegas. Elas descobrem que o planeta é habitado por criaturas selvagens de grande porte – dinossauros.

No espaço, a Enterprise indefesa é capturada por outra nave com um estranho tipo de raio trator. Uma tentativa de comunicação resulta em uma notificação da comandante Cassell, da outra nave, que se diz estar se apropriando de todos os recursos a bordo. Ela desconhece a Federação ou a Frota Estelar, mas ameaça: se eles estiverem alinhados aos dol’drm, com quem estão em guerra, serão destruídos. Pike consegue convencer a comandante a vir com uma comitiva para ver as armas disponíveis a bordo.

Spock então faz uma descoberta bombástica com a recuperação dos sensores: a Enterprise está no Sistema Solar, mas 65 milhões de anos atrás. O planeta de onde a nave inimiga vem é Marte, e o planeta onde Una está é a Terra. Contemplando a possibilidade de que a civilização marciana seja pré-dobra, a Primeira Diretriz se aplica, o que obriga Pike a ser evasivo sobre o que sabe.

M’Benga convence os invasores a fazer um exame médico para evitar contaminação biológica. Com a presença de tantas espécies a bordo, Pike tenta convencer Cassell da filosofia da Federação, em que vários mundos trabalham juntos. Ele tenta persuadi-la de formar uma cooperação. Ela mostra o atual estado de Marte, habitável, mas com uma violenta marca de impacto – Valles Marineris, causada pela colisão de uma nave dol’drm que resultou na morte de 2 milhões de marcianos. Cassell alega que os dol’drm não são contatáveis, são insectoides que só devoram e destroem. Pike oferece o conhecimento da Frota Estelar para tentar contato com eles. Ela fica tentada com a possibilidade de interromper o conflito.

Spock diz que a Enterprise está presa no passado. A natureza do emaranhamento quântico que os trouxe até lá até permitiria que a nave voltasse a seu lugar de origem, mas a energia requerida seria equivalente à de uma supernova. Ao mesmo tempo, Cassell decide pegar uma célula de antimatéria da nave clandestinamente e partir. Pike tenta persuadi-la, e ela revela que descobriu que eles vieram do futuro – um futuro em que Marte é um deserto inabitável. Ela parte com o dispositivo que diz poder encerrar a guerra.

Na Terra, Una promove um arriscado ataque não letal para tontear um tiranossauro, abrindo caminho para buscar o irídio requerido pela Enterprise. Ele está em uma nave acidentada, também contendo dol’drm mortos. Una captura o irídio, e o trio retorna à Enterprise via nave auxiliar – mas não sem antes La’An espantar um dinossauro literalmente no soco.

Com o irídio, a Enterprise recupera sua mobilidade, bem a tempo de tentar impedir um ataque mortal dos marcianos contra o planeta dos dol’drm – um quinto planeta entre Marte e Júpiter. A nave chega a tempo de conter o míssil, mas, de última hora, Pike decide não interromper o ataque. O planeta dos dol’drm é destruído, e o capitão justifica sua escolha: no futuro, não há um quinto planeta e sim um cinturão de asteroides entre Marte e Júpiter. Isso é o que tinha de acontecer para o futuro se desenrolar como deveria.

Além disso, a explosão era a oportunidade perfeita para colher a energia requerida para levar a Enterprise de volta para o futuro. De quebra, foi a detonação do planeta que produziu o asteroide que colidiria com a Terra e levaria à extinção dos dinossauros, abrindo caminho para a evolução da humanidade. E a perda de um planeta deslocou a órbita de Marte, transformando-o num deserto inabitável.

De volta ao século 23, Pike lamenta a perda de Cassell e dos marcianos, mas M’Benga revela que eles não morreram todos – parte de seu material genético é encontrada em outras civilizações pela galáxia, indicando que ao menos alguns deles sobreviveram e ocuparam outros sistemas planetários.

Em nova visita à Enterprise, April determina que os resultados da missão permanecerão em segredo diante do intrigante paradoxo de predestinação envolvido. Pike decide recusar a promoção para permanecer a bordo, indicando Una, que é elevada a comandante.

Comentários

Para quem estava preocupado que Strange New Worlds rescrevesse o cânone de Star Trek, “Valles Marineris” dobrou a aposta e reescreveu logo a história do Sistema Solar. A quarta temporada abre com um episódio ousado, em geral bem costurado narrativamente, que traz diversos elementos interessantes e um dilema pesadíssimo para Pike, vivido em poucos segundos. Tudo isso ensanduichado entre uma abertura e um fechamento com sabor de “vida a bordo da Enterprise”.

A série mais uma vez faz um salto temporal, desta vez de seis meses, em que o capitão tem submetido a tripulação a uma intensa rotina de missões, deixando-os exaustos e ansiosos por uma folga. O almirante April os despacha em uma última jornada, ao final da qual Pike deve refletir se aceita ou recusa uma promoção a comodoro. Os dez primeiros minutos servem para nos reaclimatar aos personagens, retratando seu atual momento a bordo.

Uhura, que um dia já foi a cadete inexperiente, desta vez é a mentora de uma nova tripulante, a cadete vulcana A’Sha, que oferece algum humor lacônico ao estilo de uma T’Lyn malcriada. Scotty e Ortegas parecem às turras um com a outra, ela querendo forçar a Enterprise a seus limites, ele querendo proteger a nave. Una quer mais oportunidades de missões avançadas e ganha mais do que pediu, terminando promovida a comandante – mais um passo na direção da capitania, um possível vislumbre de seu destino até o fim da série. La’An volta a reencontrar seu lado mais agressivo e, entre conversas e murros em dinossauros, preocupa-se de ver aflorar os genes aumentados de seu infame ancestral – também parece aqui preparação para eventos futuros.

Superada essa introdução, entramos na história em si, e a investigação de uma tempestade espacial que rapidamente conduz a uma viagem no tempo onde a trama se bifurca em duas. De um lado, Una, La’An e Ortegas vão explorar um planeta classe M que pode ter concentrações de irídio exigidas para religar os combalidos motores de dobra. Enquanto isso, no espaço, Pike precisa lidar com uma nave hostil que captura a Enterprise esperando obter tecnologias e armas para usar em uma guerra interplanetária.

Na visita ao Jurassic Park, temos sequências interessantes, embora incapazes de esconder as limitações orçamentárias, com a revelação de que na verdade Una e suas comandadas estão na Terra do passado remoto, mais precisamente há 65 milhões de anos atrás, época em que os dinossauros foram extintos. A aventura é divertida, e o maior destaque vai para a coordenação dos eventos nas duas tramas. Com isso, a revelação, feita na Enterprise, de que a nave está na verdade no Sistema Solar do passado e o encontro do grupo de descida com um belo tiranossauro ocorrem praticamente ao mesmo tempo, com uma história reforçando a outra.

A revelação seguinte é a de que os agressores da Enterprise são na verdade marcianos, e há zero esforço para esconder a inspiração da história: A Princesa de Marte, livro de Edgar Rice Burroughs a narrar as aventuras marcianas de John Carter. Os produtores, contudo, ficaram nos devendo uma boa olhada no planeta vermelho em seu passado mais exuberante. Temos de nos contentar com uma imagem na tela.

O trabalho de Pike é convencer a comandante marciana, Cassell, a buscar uma solução diplomática para seu confronto com os dol’drm, uma espécie insectoide aparentemente intratável que já causou estragos enormes em Marte (tendo provocado, com uma colisão de nave, a formação do cânion Valles Marineris) e ensaia fazê-los na Terra (Una descobre que o irídio que buscam está a bordo em uma dessas naves colonizadoras dos dol’drm).

A história toda é imaginativa e é desenovelada no ritmo certo, de forma que cheguemos ao dilema de Pike praticamente junto com ele: quando os marcianos se apropriam de uma cápsula de antimatéria da Enterprise para aniquilar o mundo natal dos dol’drm, descobrimos que o Sistema Solar, há 65 milhões de anos, tinha um quinto planeta entre Marte e Júpiter, onde hoje está localizado um famoso cinturão de asteroides.

Em retrospecto, tudo é muito conveniente, e a coisa de demorarem a explorar a ideia de que há um planeta a mais no sistema lembra até a velha confusão com Ceti Alfa V e VI. Numa primeira passagem, contudo, funciona à perfeição, para que a audiência e Pike cheguem à mesma conclusão ao mesmo tempo: ele não pode impedir a destruição do planeta dos dol’drm, ou a evolução do Sistema Solar será inteiramente diferente, eliminando até mesmo a futura existência da humanidade.O diálogo final entre Pike e Cassell ilustra a controversa, mas em última análise, inevitável escolha: ele, como ela, faria tudo por seu povo, até mesmo desencadear uma catástrofe como a morte dos dol’drm. A coisa de eles serem insectoides e estarem literalmente parasitando planetas vizinhos parece tentar suavizar a magnitude da ação genocida, mas não o suficiente para que Pike não sofra pela decisão – algo que o roteiro deixa respirar nos minutos finais do episódio, em uma boa conversa com M’Benga.

Tanto a ideia de que já houve uma antiga civilização marciana como a de que o cinturão de asteroides foi resultado de um planeta destruído já fizeram parte do rol das especulações científicas aceitáveis. Hoje em dia, sabemos que Marte se tornou inabitável muito antes da extinção dos dinossauros, que o Valles Marineris não foi produzido por um impacto e que quase certamente nunca houve um planeta entre Marte e Júpiter. Mas, para além das referências literárias apaixonantes, o episódio flerta com um fato científico muito real: 4,5 bilhões de anos é muito tempo, e muita coisa pode ter acontecido no Sistema Solar antes que a humanidade surgisse para explorá-lo. Nesse sentido, ao levar a trama ao passado, Strange New Worlds faz uma provocante evocação dessa noção.

Ainda assim, é difícil não ter a sensação de que a ambição foi maior que os recursos disponíveis. Tivemos uma história que misturou civilização marciana antiga e dinossauros na Terra, mas não visitamos Marte e o passeio pela Terra do fim do Cretáceo foi bem modesto – a produção até tenta compensar com um sobrevoo panorâmico ao final do episódio, mas acaba mais reforçando o fato de que, com os atores em cena, não havia recursos para fazer algo na escala épica de um Jurassic Park.

Restrições orçamentárias são um elemento constante e histórico em Star Trek, e muitas vezes até potencializam histórias melhores, mas aqui eles contrastam com a gratuita e até enganosa abertura, filmada em locação, com Pike, La’An e M’Benga cavalgando por um planeta distante. Servindo apenas como um suntuoso “cold open”, ele serve praticamente nada à história, que poderia ter se beneficiado desses recursos aplicados em momentos mais relevantes.

Avaliação

Citações

“And what about us answering our own Mayday from a subspace buoy we deployed 65 million years ago? One sent here by a storm that we created after it sent us back in time.”
(E que tal a gente responder o nosso próprio pedido de socorro de uma boia subespacial que soltamos há 65 milhões de anos? Uma enviada para cá por uma tempestade que criamos depois que ela nos mandou de volta no tempo.)
“Chris, everything happened as it was meant to. That much is clear. So don’t overthink it.”
(Chris, tudo aconteceu como deveria. Pelo menos isso está claro. Então não fique encucado.)
Christopher Pike e Robert April

Trivia

  • A sequência de abertura da quarta temporada traz algumas novas paisagens, como um planeta de férias e um mundo em preto e branco, além de uma perseguição de uma nave gorn à Enterprise.
  • Para o quarto ano, Anson Mount acumula, além de estrela da série, a função de produtor – aconteceu também com Sonequa Martin-Green na quarta temporada de Discovery e é um mecanismo para pagar mais aos astros dentro da estrutura orçamentária do programa, que vem acompanhado de envolvimento adicional deles nos bastidores.
  • O argumento deste episódio foi desenvolvido pelo showrunner Henry Alonso Myers em parceria com Alan McElroy, que se juntou a Discovery na segunda temporada daquela série e permaneceu com ela até o fim, passando à equipe de Strange New Worlds, na terceira temporada, quando assinou dois episódios (depois de oito em Discovery). Este é o seu terceiro nesta série.
  • O roteiro em si coube a Myers em parceria com seu colega showrunner Akiva Goldsman, cocriador de Strange New Worlds. Este é o nono episódio de Myers, terceiro em parceria com Goldsman (que só escreveu mais um episódio na série, o piloto “Strange New Worlds”).
  • O responsável pela direção é Chris Fisher, diretor produtor da série. Na função, ele assume os episódios em geral mais importantes e complexos, com aberturas e fechamentos de temporadas.
  • A nave auxiliar usada na missão à Terra do passado é a Curie, homenagem à grande cientista polonesa-francesa Marie Curie, descobridora da radioatividade e a primeira mulher a ganhar um Prêmio Nobel, além de ser a única a ganhar dois deles em duas áreas científicas diferentes, um em Física e um em Química.
  • Pelia faz menção a uma viagem numa cabine telefônica no passado – mais uma referência a Doctor Who em Star Trek, depois de termos visto brevemente a TARDIS em “The Sehlat Who Ate its Tail”, da terceira temporada.
  • Em entrevista ao Trek Brasilis, a atriz Rebecca Romijn comentou como foi atuar num episódio com dinossauros. “Esse foi um dos mais estranhos para mim. E na verdade nós usamos um boneco de Jurassic Park. E isso foi incrível, atuar com aquele boneco em particular, e ver o marionetista controlar o boneco para que ele fizesse expressões faciais, e a forma como se movia e tudo mais. Eu virei um membro da audiência. Quer dizer, estava quase me tirando da cena, até certo ponto, porque era incrível ver o marionetista fazer seu trabalho.”
  • O livro A Princesa de Marte (1912) e a ideia de uma antiga civilização marciana é uma óbvia inspiração para o episódio. Escrito por Edgar Rice Burroughs, o criador do Tarzan, ele é o primeiro em uma série denominada Barsoon (nome que os marcianos da série dão a Marte). O filme John Carter, da Disney, foi inspirado na obra de Burroughs.
  • Pike faz uma citação ao livro, uma fala de John Carter que representa o espírito de exploração. “I have ever been prone to seek adventure and to investigate and experiment where wiser men would have left well enough alone.” (“Eu sempre fui mais inclinado a buscar aventura e investigar e experimentar onde homens mais sábios teriam deixado tudo para lá”, numa tradução livre.)
  • O episódio “Distant Origin”, da terceira temporada de Voyager, explora a ideia de que alguns dinossauros teriam sido levados da Terra antes de sua extinção e teriam evoluído para uma espécie inteligente. Essa possibilidade fica ainda mais intrigante com as revelações feitas aqui, em que antigos marcianos também se espalharam pela galáxia há milhões de anos.
  • Embora já tenha sido cientificamente considerada no passado a hipótese de que o cinturão de asteroides entre Marte e Júpiter surgiu da destruição de um antigo planeta, hoje é consenso de que isso nunca aconteceu. Mas claro que há muitos mistérios ainda a serem desvendados do passado do Sistema Solar.
  • Da mesma maneira, a ciência moderna sugere que Marte é um mundo desolado há muito mais tempo que 65 milhões de anos. O Valles Marineris também é bem mais antigo e não foi produto de um impacto.

Ficha Técnica

História de Henry Alonso Myers & Alan B. McElroy
Roteiro de Akiva Goldsman & Henry Alonso Myers
Dirigido por Chris Fisher

Exibido em 23 de julho de 2026

Título em português: “Valles Marineris”

Elenco

Anson Mount como Christopher Pike
Ethan Peck como Spock
Jess Bush como Christine Chapel
Christina Chong como La’An Noonien-Singh
Celia Rose Gooding como Nyota Uhura
Melissa Navia como Erica Ortegas
Babs Olusanmokun como Joseph M’Benga
Martin Quinn como Montgomery Scott
Rebecca Romijn como Una Chin-Riley

Elenco convidado

Saffron Burrows como Cassell
Adrian Holmes como Robert April
Dan Jeannotte como Sam Kirk
Carol Kane como Pelia
Dane Gulston como guarda marciano 1
Alex Kapp como computador da Enterprise
Bianca Nugara como A’Sha
Colby Dean Turner como guarda marciano 2

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Edição de Maria Lucia Rácz

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