Episódios de hoje…
“The Cloud Minders” (“Os Guardiães das Nuvens”; TOS 3×19, 1969)
Onde assistir: DVD/Blu-ray
“Bar Association” (“O Sindicato”; DS9 4×16, 1996)
Onde assistir: PlutoTV*
“Lower Decks” (“Subalternos”; TNG 7×15, 1994)
Onde assistir: PlutoTV*
“Workforce” e “Workforce, Part II” (“Mão de Obra, Parte 1” e “Mão de Obra, Parte 2”; VOY 7×16 e 17, 2001)
Onde assistir: Paramount+
“Temporal Edict” (“Decreto Temporal”; LDS 1×3, 2020)
Onde assistir: Paramount+* Somente dublado
No futuro imaginado por Gene Roddenberry, a Terra supera as contradições de classe, a ganância e a pobreza após fazer seu primeiro contato com alienígenas e ter sua sociedade inteiramente transformada. Mesmo nessa fantasia, nem todo planeta é um paraíso, e até na Frota Estelar temos diferenças, ainda que não de cunho econômico, mas hierárquico. A arraia-miúda acaba ficando com o trabalho pesado, seja agora, seja no futuro. E, de vez em quando, a luta de classes faz uma participação especial em Star Trek e balança, ainda que timidamente, as estruturas.
A Série Clássica nos dá um exemplo bem evidente das diferenças sociais no episódio “The Cloud Minders” (“Os Guardiães das Nuvens”; TOS 3×19, 1969), que apresenta um planeta dividido entre os moradores da cidade de Stratos, onde a classe alta mora literalmente nas nuvens, e os trabalhadores responsáveis por minerar o “zenite”, em túneis e cavernas. A classe dominante, que se dedica inteiramente à arte, atribui a causa da condição desfavorecida dos mineiros a uma suposta baixa capacidade intelectual, justificando assim os seus privilégios.
O capitão Kirk visita o planeta atrás do tal “zenite”, que seria necessário para salvar uma colônia acometida por uma praga. Mas ao chegar lá, ele e Spock acabam sendo atacados pelos mineiros, que formaram um grupo terrorista para forçar os habitantes de Stratos a atender suas reivindicações e haviam confiscado o minério de que a tripulação da Enterprise necessitava. Os rebeldes exigem acesso à cidade das nuvens para viver ao sol em vez de suportar as cavernas escuras. Salvos pelo líder de Stratos, Kirk e Spock são levados à cidade nas nuvens, que é simplesmente maravilhosa. A filha do líder da cidade, jovem e belíssima, também encanta Spock. Seu pai, Plasus, a apresenta como “uma das mais incomparáveis obras de arte de Stratos”, quando ela entra usando uma longa saia e um pequeno bustiê. É nesses momentos que temos de lembrar que a série original foi feita nos anos 1960.

A bela Droxine e Spock na cidade de Stratos em “The Cloud Minders”.
Mas os dois tripulantes da Enterprise vão percebendo que a beleza de Stratos se fundamenta na brutalidade contra os mineiros, que são torturados e considerados como pessoas inferiores. “Os que recebem as recompensas são separados dos que suportam o esforço”, medita Spock, esfregando na cara do telespectador as desvantagens de uma desigualdade social tão extrema.
A suposta baixa capacidade mental dos trabalhadores era, na verdade, devida aos gases tóxicos aos quais estavam expostos nas minas, segundo explica o dr. McCoy, e esse efeito seria facilmente revertido com o simples uso de máscaras com filtros. Quem diria que no futuro faltariam equipamentos de proteção básicos? O efeito fica mais do que demonstrado quando Kirk prende o líder de Stratos numa caverna onde os gases estavam presentes. Ambos ficam hostis e descontrolados, e só voltam ao normal ao saírem de lá. Kirk consegue, assim, negociar o carregamento do minério e, munidos de proteção, os trabalhadores recobram suas faculdades mentais e ficam mais confiantes para seguir lutando por sua causa, para a infelicidade de Plasus.
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Ainda na linha das reivindicações trabalhistas, temos um clássico de Deep Space Nine, “Bar Association” (“O Sindicato”; DS9 4×16, 1996), que brinca com a ganância extremada dos ferengis para nos dar uma hora de televisão dedicada à formação de um sindicato. Coisas que só DS9 consegue fazer.
O conflito trabalhista ocorre no bar do ferengi Quark, que segue à risca as chamadas “leis da aquisição” de seu povo. Esses mandamentos estabelecem o acúmulo de riquezas como um imperativo moral na sociedade ferengi. Quark, portanto, é um patrão rígido e se dedica a explorar ao máximo seus funcionários, incluindo seu irmão, o atrapalhado Rom. Nessa história, Rom está sofrendo com dores de ouvido e acaba desmaiando no meio do bar. Quark não se comove e ainda retém o pagamento do irmão por vadiar no serviço. Quando finalmente vai ao médico, Rom escuta do dr. Bashir um conselho para que os funcionários do bar se unam para reivindicar melhores condições de trabalho. Rom rebate: operários ferengis não se sindicalizam, eles tentam passar a explorar os outros em vez de serem explorados. É o neoliberalismo bem ali no meio de uma estação espacial.
Mas a ideia vai tomando corpo e empolga até o engenheiro O’Brien, que aproveita para lembrar um antepassado sindicalista que havia liderado um grupo de mineiros na Terra, e sugere que Rom una os empregados do bar numa greve mesmo para forçar Quark a atender suas exigências. Depois de superar (ou quase) a oposição entre os próprios funcionários ferengis para montar o sindicato, afinal, isso é proibido no planeta de origem deles, Rom também precisa enfrentar o jogo duro de Brunt, um funcionário do governo de Ferenginar que chega à estação. Brunt, interpretado pelo polivalente Jeffrey Combs, ameaça denunciar a todos às autoridades de seu planeta natal e confiscar suas contas bancárias. Mas Rom lembra que são todos quebrados mesmo, então o sindicato se mantém firme no piquete.

Rom, ao centro, Leeta e demais funcionários do bar de Quark em “Bar Association”.
A contradição entre os valores aprendidos a vida inteira sobre a importância da ganância e da máxima exploração, bases da cultura dos ferengis, e da justiça social representada pela Federação divide o coração de Rom, mas ele faz sua escolha. Depois de Brunt mandar dar uma surra em Quark, Rom consegue fazer um acordo com ele: todas as reivindicações dos funcionários deveriam ser atendidas, mas o sindicato precisaria ser desfeito depois disso, para que ao menos ficasse uma aparência de que o dono do bar conseguiu prevalecer. A vitória acaba sendo bem diminuta para quem chegou até a recitar a famosa frase do “Manifesto Comunista”: “Trabalhadores do mundo todo, uni-vos!”
Rom renuncia ao sindicato e também abre mão do modo de vida ferengi. Ele pede demissão do bar e se torna funcionário de manutenção da Deep Space 9, optando por um trabalho que talvez não pague tão bem, mas ao menos lhe dará satisfação pessoal e autonomia em relação ao seu irmão autoritário.
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Pior do que as mesquinharias de Quark contra seus funcionários é o esquema de “recrutamento” enfrentado pela equipe da capitão Janeway. No episódio duplo “Workforce” e “Workforce, Part II” (“Mão de Obra, Parte 1” e “Mão de Obra, Parte 2”; VOY 7×16 e 17, 2001), um planeta com falta de mão de obra simplesmente sequestra os tripulantes da Voyager, apaga suas memórias e os coloca para trabalhar nas suas usinas. É a versão extrema da alienação do trabalhador, que perde sua identidade e ganha uma totalmente nova, que acha normal estar ali, e acredita que sempre esteve. Os oficiais da Frota Estelar abraçam seu novo cotidiano indo às fábricas, tomando uns drinques no bar depois do trabalho, e Janeway arruma até um namorado.

A capitão, agora operária, Janeway procura sua estação de trabalho em “Workforce”.
Lembra um pouco a premissa da série Ruptura, que já tem duas temporadas disponíveis na AppleTV. Por lá, uma empresa chamada Lumon contrata funcionários que concordam em passar por um procedimento médico que divide a consciência deles em duas partes: uma que atua quando eles estão no trabalho, e outra para a vida lá fora. Ao descer no elevador que leva ao escritório, o “eu” trabalhador entra em ação. Ao sair do escritório, o “eu” da vida civil volta à tona. Assim, a parte que trabalha só conhece a vida dentro do escritório. Pior, eles nem entendem o que significa o trabalho que fazem: são tarefas aparentemente sem sentido a realizar no computador.
No caso do episódio duplo de Voyager, os tripulantes não concordaram com procedimento algum. Quando o comandante Chakotay, que não havia sido sequestrado, chega ao planeta para contactar seus companheiros, nenhum o reconhece. Todos passaram por uma alteração cirúrgica de suas memórias e realmente assumiram suas novas vidas como funcionários em Quarren. A operação parece não ter funcionado somente no vulcano Tuvok, que tem flashbacks de sua captura e acaba internado para tratamento de “síndrome de disforia”. Os tripulantes sequestrados estão tão seguros de que são mesmo habitantes de Quarren que resistem às tentativas de resgate.
Desmascarado o esquema, as autoridades do planeta atribuem o ocorrido a uma conspiração. O fato é que o sistema enfrentava uma falta de mão-de-obra e o recrutamento forçado foi tentado ali como forma de resolver essa crise.
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Mesmo nas naves da Frota Estelar o pessoal de menor patente também tem seus problemas com os superiores. A série animada Lower Decks se dedica a contar histórias pelo ponto de vista dos “soldados rasos” da nave Cerritos. No episódio “Temporal Edict” (“Decreto Temporal”, LDS 1×3, 2020), o embate entre os mais graduados e os iniciantes se dá quando a capitão Freeman descobre (porque o ansioso Boimler dá com a língua nos dentes) que o pessoalzinho está inflando suas estimativas de tempo para cumprir as tarefas para ganhar o chamado “buffer time”, uma gordurinha ali entre um trabalho e outro para ter tempo livre.

Mariner, Tendi, Rutherford e Boimler num intervalinho em “Temporal Edict”.
O que o trabalhador tem para vender, afinal, é seu tempo e seu esforço. O patrão sempre quer mais por menos, e o funcionário tenta espremer ali, entre um expediente e outro, tempo para simplesmente viver. Para a capitã, os juniores estão de vadiagem e essa postura deles faz a Cerritos não ser levada a sério pela Frota. Ela exige, então, o fim das gordurinhas. Todos precisam fazer o máximo de tarefas no mínimo de tempo.
O que ela não previu é que o estresse tomaria conta da nave e, no fim, tarefa alguma seria feita corretamente. A nave corre sérios riscos quando funções básicas como erguer os escudos deixam de funcionar. Freeman conclui, no fim, que o “Efeito Boimler” deve ser seguido: é preciso dar um tempinho de respiro e não seguir as regras ao pé da letra o tempo todo. É uma visão de bem-estar social bem alinhada com o que se espera de Trek, mas Boimler, o caxias da turma, fica desesperado ao ter seu nome ligado a um princípio que dita não seguir regras à risca.
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O episódio de A Nova Geração que inspirou o nome e o tema dessa série animada, “Lower Decks” (“Subalternos”; TNG 7×15, 1994) também inverte a perspectiva da narrativa. Em vez do ponto de vista da ponte de comando do capitão Picard, seguimos o desenrolar da história por meio de um grupo de jovens oficiais e de um garçom, uma rara aparição com destaque para um personagem civil trabalhador. Diferentemente dos comandantes, os alferes não têm a visão completa da missão que estão cumprindo e se veem obrigados a tentar adivinhar as motivações de seus chefes. O garçom Ben acaba fazendo o leva e traz de informações, já que tem acesso a todos, ao menos nos momentos de lazer.

O jogo de pôquer dos subalternos em “Lower Decks”.
O episódio vai pelo caminho dos dramas comuns de qualquer escritório, mostrando as dúvidas sobre quem será promovido, se o chefe não vai com a cara de alguém, as tentativas do jovem alferes Lavelle de impressionar o comandante Riker para ser contemplado com uma posição em operações, até que a coisa fica séria. A alferes Sito, por ser bajoriana, acaba sendo escolhida pelo capitão Picard para uma missão arriscada na fronteira com o espaço cardassiano. Ela se disfarça de guerrilheira capturada por um espião de Cardássia, a serviço da Federação.
A missão é supersecreta. A enfermeira Ogawa, agora promovida a tenente, sabe mais do que seus colegas alferes. O vulcano Taurik, também parte do grupo dos juniores, tem informações privilegiadas por ter ajudado o engenheiro-chefe, Geordi LaForge, a preparar a nave que levaria Sito e o espião de volta ao espaço cardassiano. Os demais percebem que agora os amigos estão sonegando informações e se ressentem. Mas é assim: conforme vão galgando posições, mesmo os colegas unidos precisam priorizar a missão em vez de compartilhar tudo à mesa do bar.
A missão de Sito tem um final trágico. O capitão Picard, que havia dado uma mega lição de moral na alferes para testar se ela estava à altura da tarefa, agora precisa anotar em seu diário a morte da jovem bajoriana. O episódio dá bem mais profundidade à perda do que era comum na série original, em que os “red shirts” morriam sem causar muita comoção. Mas dá aquela sensação dolorosa de ver que a subalterna foi usada numa missão que talvez não justificasse a perda de uma vida. A lupa aqui é colocada nesses oficiais invisíveis que carregam o piano e são postos em risco em nome dos planos maiores da Frota Estelar, ainda que não saibam direito que planos são esses.
Escrita pela jornalista Débora Mismetti, Grandes Jornadas é uma coluna semanal publicada às sextas-feiras no Trek Brasilis, destacando tematicamente segmentos de Star Trek e convidando a uma revisita desses episódios por um ponto de vista diferente.
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