SNW 4×08: Orders of Magnitude

Prelúdio de “Balance of Terror” traz à vida a astúcia de Kirk em conflito ético

Sinopse

Data estelar: 2179.3

A caminho da Farragut, James Kirk para na Enterprise para um tratamento com M’Benga, ainda relativo aos ferimentos causados no incidente Griffin. A nave está em órbita de uma lua que fica numa rota de comércio importante da Federação, próxima à Zona Neutra romulana, atendendo a um fraco pedido de socorro. Pike lidera um grupo de descida com Una, Uhura, Chapel e A’Sha e precisa entrar numa rede de cavernas que bloqueia comunicações.

Enquanto isso, o almirante Simon Reeger, herói da Guerra Klingon como capitão da USS Constitution, vem a bordo numa nave auxiliar. Ele diz que precisa falar com urgência com o capitão Pike, a respeito de um ataque não provocado a uma colônia federada que deixou 5 milhões de mortos. A nave era totalmente indetectável, mas Reeger bolou um método para rastreá-la e assume o comando da Enterprise para persegui-la. Na falta de Pike e Una a bordo, Reeger faz de James Kirk seu primeiro oficial. Uma boia é deixada para informar Pike do ocorrido quando ele voltar a ter alcance de comunicações, e a Enterprise parte atrás do rastro da nave inimiga.

Em conferência com Reeger, o almirante conta a Kirk sobre sua paixão por café não sintetizado. James manifesta sua admiração pelo oficial comandante por seus feitos na Guerra Klingon, inclusive o resgate de um posto médico contra quatro cruzadores D7. Reeger menciona que George Kirk, pai de James, era o primeiro oficial dele na Constitution na época, mas apresenta uma visão negativa do subordinado – embora seja um bom homem, ele não teria o que é preciso para comandar uma nave estelar. Reeger tem expectativas maiores de James.

No subsolo da lua, Pike e o grupo de descida descobrem que caíram numa armadilha e, após um conflito armado, são rendidos por piratas andorianos. O líder dos criminosos quer ajuda dos tripulantes para reconfigurar seus sistemas de comunicação para emular naves federadas. Pike faz uma contraproposta de comprar a carga deles pelo dobro do preço. Mas o andoriano não se interessa e, em vez disso, fere A’Sha com um cristal tóxico da caverna. Chapel só poderá tratar a cadete vulcana quando Pike concordar em cooperar.

A Enterprise rastreia a nave inimiga até Argus II e pretende segui-la de forma furtiva. Uma nave cargueira aparece na área, e Reeger ordena que se dispare contra ela para evitar que sejam reportados, mesmo sob enorme risco de que fosse destruída. James Kirk questiona esse curso de ação, mas La’An cumpre as ordens, e o cargueiro é desabilitado com sucesso. Nesse meio tempo, a trilha da nave inimiga termina em Argus II. Reeger presume que é a base de operações e decide lançar mão da Ordem Geral 24, que permite um ataque sumário contra toda a superfície do planeta, que abriga 5.000 habitantes, contrariando a sugestão de Spock de mandar um grupo de descida para investigar.

Kirk fica ainda mais chocado com a decisão do almirante e o confronta. Reeger então o dispensa. No gabinete do capitão, o primeiro oficial investiga as mortes na colônia federada e descobre que a família do almirante estava entre as baixas. Ele parece estar numa busca por vingança. Kirk então vai falar com M’Benga, que serviu com Reeger na Constitution durante a guerra. Ele quer que o doutor declare o almirante incapaz para o comando. M’Benga apenas aconselha que James proceda com cautela.

James volta à ponte, e a Enterprise está quase pronta para esterilizar a superfície, em 19 minutos. Reeger ordena que La’An supervisione os ajustes dos feisers para o ataque, mas Kirk se oferece para ir no lugar dela. Ele consulta Scotty sobre a possibilidade de sabotar os feisers, mas seria algo muito complicado, que submeteria quem tentasse a intensa radiação de nádions. Kirk então tenta enviar uma mensagem ao Comando da Frota Estelar alertando sobre o comportamento de Reeger e pedindo autoridade para destituí-lo. Mas ele é flagrado e detido. A caminho da detenção, James rende La’An e a tonteia. Ele vai até Sam e pede ajuda. Os dois descobrem que Reeger escondeu o sucesso de George quando serviram juntos na batalha que fez o almirante famoso e vem sabotando a carreira do pai deles desde então. La’An desperta e vai atrás de Kirk, supostamente na engenharia, mas encontra Sam, que disse ter sido coagido a ir para lá por James, que adulterou os sensores para que eles confundissem os irmãos.

Em vez disso, ele foi até M’Benga e o confrontou sobre a relação de Reeger com George. La’An chega para aprisioná-lo, e James foge com o transporte da enfermaria — para o sistema de feisers da nave, que, sob intensa radiação, ele tenta sabotar.

Na lua, Uhura está preocupada com o estado de A’Sha, a quem ela mentora na Enterprise. Sentindo-se culpada, quando os andorianos voltam a falar, Uhura desobedece ordens e se oferece para fazer o que eles pedem. Ela usa seu conhecimento dos andorianos para fazer o líder pirata a jurar por sua ushaan que os deixará ir quando ela fizer o que pediram. Quando parece ter terminado, descobrimos que é um truque para atordoar os andorianos. Uhura captura um rifle de plasma e, após uma luta corpo a corpo, consegue derrubar seus captores e libertar o grupo de descida.

Na Enterprise, La’An ordena Scotty a transportar Kirk de lá e ele finalmente é detido – seriamente ferido pela exposição à radiação. De volta à ponte, a nave está pronta para esterilizar a superfície do planeta, matando 5.321 pessoas. O almirante parece cada vez mais nervoso e ordena o disparo. James então diz que sabotou os feisers e, se a ordem for cumprida, a Enterprise irá explodir. Reeger está cada vez mais descontrolado e ameaça matar James. Kirk então o confronta sobre a verdade da batalha de Zeta Reticuli, e como George foi o herói naquele dia, não ele. Reeger acredita que Kirk está blefando e decide ordenar o disparo mesmo assim. M’Benga então o declara incapaz para comandar. La’An o tonteia. A Ordem Geral 24 é cancelada e James revela que estava blefando mesmo.

Com Pike e o grupo de descida de volta à Enterprise, e os piratas apreendidos, Reeger lamenta que eles perderam a chance de destruir a nave invisível – o que certamente custará vidas adiante, quando o responsável por ela fizer outro ataque contra a Federação. Ele também diz que não sabe o que aconteceu, por que agiu daquela forma descontrolada. Ele deduz que James Kirk o drogou. Mas M’Benga assume a culpa. Reeger quer que Pike prenda o médico por agressão e motim. O capitão diz que a situação é complexa e deixará para a Frota Estelar resolver o que fazer.

Na enfermaria, A’Sha está recuperada e grata pelas ações de Uhura, mas mais convencida do que nunca de que seu lugar não é na Frota Estelar.

James Kirk não quer que M’Benga assuma a culpa por ele — foi quem Kirk quem drogou Reeger com cordrazina. Mas o médico está determinado a não deixar o almirante estragar a carreira de James como atrapalhou a de seu pai George. Chapel está arrasada pela escolha de M’Benga. James se despede de Sam, e os dois conversam sobre o pai, com uma nova perspectiva dele.

Uhura encontra Pike para conversar sobre A’Sha, frustrada, achando que fracassou em sua mentoria, mas Pike diz que ela fez tudo certo. É possível fazer tudo certo e as coisas não acontecerem como ambicionamos. Então o capitão a promove a tenente júnior.

Comentários

Num episódio dramático e envolvente, “Orders of Magnitude” oferece em doses calibradas exploração do cânone, referências internas, história convincente, desenvolvimento de personagem e injeções de cordrazina – exatamente o que o doutor prescreveu.

Temos aqui possivelmente o melhor trabalho com James Kirk na série, e Paul Wesley faz também sua entrega mais competente do personagem, em um conflito potente perante um herói de guerra da Frota Estelar com moralidade duvidosa, numa busca ensandecida por vingança. À altura do desafio, temos uma interpretação singular de Joe Morton, elevando o episódio que, por si só, já é bem estruturado para dar conta de várias coisas ao mesmo tempo.

Temos duas tramas correndo em paralelo, e o roteiro trabalha bem para balanceá-las ao longo do segmento, sem deixar dúvidas de qual é a preponderante. A principal delas, a bordo da Enterprise, mostra a inesperada visita do almirante Reeger, que de início causa admiração e entusiasmo por parte da tripulação. Mas as coisas começam a pegar um caminho sinuoso quando ele se mostra obstinado por destruir uma nave com um sistema de camuflagem avançado que promovera um ataque a uma colônia federada, matando 5 milhões de pessoas.

O mais incomodado pela escolha, que eventualmente envolverá matar cinco mil pessoas potencialmente inocentes com a execução da drástica Ordem Geral 24, é James Kirk, que (como sempre) estava apenas passando pela Enterprise (para tomar uma injeção de M’Benga e dar uma paquerada na La’An, pelo que se pôde apurar) e resolveu ficar mais um pouquinho. Com Pike e Una convenientemente empurrados para a trama B, Kirk é alçado ao posto de primeiro oficial interino do almirante, que assume o comando para executar seu plano radical de contenção militar do inimigo.

A história se mistura ao passado dos personagens, porque Reeger parece ter um causo mal explicado com George Kirk, pai de James e seu antigo primeiro oficial na USS Constitution durante a Guerra Klingon. É um bocado de mitologia da saga, colocado para bom uso aqui, numa trama que ressoa aos recém-chegados pela carga emocional e funciona num outro nível para os entendidos, que pegam as muitas referências deixadas como migalhas de pão pelo caminho. De novo, a exemplo da introdução de Boyce em “Off-Hour”, prequela feita direito.

Embora George seja apenas citado, ele vira efetivamente um personagem na história – a ponto de fazer a audiência querer conhecê-lo, uma vez que a única versão a aparecer em tela do pai de James é a do universo Kelvin. Igualmente rica é a forma como ele é trazido à vida, seja por meio dos confrontos entre James e Reeger, seja pela interação de Jim com Sam. Dan Jeannotte e Paul Wesley ficam sempre ótimos juntos, e essa é uma relação que faz muito mais sentido ser trabalhada e massageada do que a entre Jim Kirk e Spock (que muitas vezes é meio marretada em Strange New Worlds, por um senso equivocado de que a série tem a obrigação de construir a amizade vista na Série Clássica custe o que custar). Há alegria em constatar que Kirk e Spock aqui não interagem muito. Valoriza a presença de Sam e o aspecto familiar da trama.

Quanto à história em si, temos aqui um prelúdio de “Balance of Terror”. Nunca chegamos a saber qual era a nave inimiga com uma camuflagem avançada, mas seus métodos, promovendo ataques furtivos, são conhecidos dos fãs da Série Clássica, e uma carta estelar, revelando que tudo se passa próximo à Zona Neutra, deixam pouca margem para dúvidas. Os romulanos estão fazendo suas primeiras incursões para testar as defesas federadas, os movimentos iniciais que preparariam eventualmente uma invasão em larga escala, como aludido em “Balance of Terror” e efetivamente visto em uma realidade alternativa em “A Quality of Mercy”, da primeira temporada de Strange New Worlds.

Ao enriquecer essa narrativa, o episódio cumpre com seu dever como prequela, mas vai além disso: traz um dilema real para Kirk, que precisa se amotinar contra o descalibrado (mas possivelmente correto em algumas de suas premissas) Reeger – cuja atitude reprovável dificilmente poderia ser atribuída somente ao cafezinho batizado com cordrazina.

Para além do desafio ético de colocar a carreira em risco e desafiar um almirante condecorado pelo que é justo e correto, Kirk aqui precisa usar toda a astúcia pela qual acabaria reconhecido como um dos grandes capitães da Frota Estelar. A série de movimentos que ele faz para resolver a questão – desde despistar a segurança e fingir uma sabotagem do sistema de feisers até drogar o almirante com cordrazina, passando pelo feijão com arroz de distrair e desarmar La’An – valoriza demais o personagem, ainda mais porque muito da malandragem acontece fora de tela, e só descobrimos depois que já foi. Não por acaso, temos o melhor trabalho com Kirk na série aqui. Ele é tão inteligente que nem a gente percebe tudo que ele fez. Funciona.

E as consequências reverberam muito além do episódio. Quando Reeger promete que Kirk vai se lembrar de tudo isso quando a nave inimiga voltar a atacar, somos remetidos à angústia que ele sentiria dali a uns anos em “Balance of Terror”. Excelente.

Avaliação

Citações

“If war has taught me anything is that the middle-ground is where most people die. Maybe you should go and think about that. Dismissed.”
(Se a guerra me ensinou alguma coisa, é que o meio-termo é onde morre mais gente. Talvez você deva sair e pensar nisso. Dispensado.)
Simon Reeger a James T. Kirk

“And when that ship attacks again – and it will – the blood, the terror, will be on your head.”
(E quando aquela nave atacar de novo – e ela vai – o sangue, o terror, estarão na sua cabeça.)
Simon Reeger a James T. Kirk

Trivia

  • Alan B. McElroy é um dos roteiristas mais longevos na terceira era televisiva de Star Trek. Ele se juntou a Discovery na segunda temporada e permaneceu até quinta, assinando cinco episódios daquela série. A partir do terceiro ano, ele se juntou a Strange New Worlds, e este foi seu quarto episódio na série, depois de “What Is Starfleet?”, “Terrarium” e “Valles Marineris”.
  • A diretora canadense Sharon Lewis volta para seu segundo episódio na série, depois de “What Is Starfleet?”, da quarta temporada.
  • Há razões para acreditar que este episódio se passa antes de “Like Chronitons through the Hourglass”, pois lá Trelane já se refere a Uhura como tenente, embora ela só seja promovida ao final deste episódio.
  • Este episódio serve como uma espécie de prelúdio para “Balance of Terror”, da Série Clássica, que mostra o primeiro movimento de naves com tecnologia avançada de camuflagem como a que seria vista com os romulanos naquele segmento. Nunca sabemos se de fato é uma nave romulana, mas há indícios disso, com uma carta estelar indicando estarem próximos da Zona Neutra.
  • Quando o almirante Simon Reeger menciona que Kirk voltará a enfrentar tal nave, ele está prenunciando o que de fato aconteceria em “Balance of Terror”. Kirk aparece especialmente angustiado naquele episódio, e agora sabemos por quê.
  • A Ordem Geral 24, mencionada aqui, também apareceu na Série Clássica nos episódios “A Taste of Armageddon”, da primeira temporada, e “Whom Gods Destroy”, da terceira temporada.
  • O sistema Argus foi referenciado em “Obsession”, da segunda temporada da Série Clássica.
  • M’Benga menciona o médico da Farragut, dr. Ayers. O mesmo nome foi usado na mesma função em uma HQ de Star Trek publicada pela DC em 1994, a edição 64 da segunda série baseada nos personagens clássicos.
  • A cordrazina, droga que é usada para influenciar o estado mental de Reeger, foi mencionada pela primeira vez em “The City on the Edge of Forever”, da primeira temporada da Série Clássica, e lá vimos bem o quanto uma overdose dela pode afetar, quando McCoy se injeta acidentalmente com uma ampola inteira.
  • Este é o primeiro episódio a mencionar em diálogos a USS Constitution, nave que se presume ter sido a primeira da mesma classe a que pertence a USS Enterprise.
  • Descobrimos que, durante a Guerra Klingon, M’Benga serviu com Reeger na Constitution, que tinha como primeiro oficial o pai de James e Sam Kirk, George.
  • É revelado que George teve aqui um desempenho formidável em batalha em Zeta Reticuli, em que se viu obrigado a assumir o comando. Algo parecido também aconteceu na linha do tempo da Kelvin, quando a USS Kelvin enfrentou a Narada, em Star Trek (2009). Mas lá, George morreu. Aqui, viveu para (não) contar a história.
  • Zera Reticuli é um sistema estelar real, a cerca de 40 anos-luz do Sol.
  • Entre as armas vistas com andorianos está um bat’leth klingon, mas o modelo mais tradicional, visto tipicamente no século 24, não a versão criada para Discovery.
  • A Ordem 104, Seção C, da Frota Estelar foi citada em “The Doomsday Machine” para afastar o comodoro Decker do comando da Enterprise.

Ficha Técnica

Escrito por Alan B. McElroy
Dirigido por Sharon Lewis

Exibido em 10 de setembro de 2026

Título em português: “Ordens de Magnitude”

Elenco

Anson Mount como Christopher Pike
Ethan Peck como Spock
Jess Bush como Christine Chapel
Christina Chong como La’An Noonien-Singh
Celia Rose Gooding como Nyota Uhura
Melissa Navia como Erica Ortegas
Babs Olusanmokun como Joseph M’Benga
Rebecca Romijn como Una Chin-Riley

Elenco convidado

Paul Wesley como James T. Kirk
Currie Graham como Turr
Dan Jeannotte como Sam Kirk
Joe Morton como Simon Reeger
Bianca Nugara como A’Sha
Ewa Wolniczek como Vanek

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Edição de Maria Lucia Rácz

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