Trama novelesca de Trelane colide com luto muito real do capitão Pike
Sinopse
Data estelar: 2654.9
Pike acorda na enfermaria com um curativo na cabeça. M’Benga diz que ele sofreu um terrível acidente de nave auxiliar e perdeu a memória das últimas duas semanas. Ele está com amnésia cósmica. Pior: Spock estava no acidente e agora está em coma, precisando de um transplante vivo de coração. O capitão acha tudo melodramático demais, e o médico diz que terá de afastá-lo do comando. Ele é direcionado para uma consulta com a doutora Eleanor Chivers, conselheira da nave. Tudo isso enquanto é observado por Trelane de um switcher de televisão. A entidade cósmica parece ter convertido a tripulação da Enterprise em personagens de uma telenovela.
Uhura vai à enfermaria e quer se oferecer para o transplante vivo para Spock, mas ela não é compatível. Chapel também indica que o teste de DNA de Uhura trouxe uma revelação bombástica, o que a faz preocupar Pike durante a consulta dele e revelar: o capitão na verdade é pai dela. Foi o que disse o exame de DNA.
Ninguém percebe a estranheza de tudo que está acontecendo, exceto Pike, que contesta a paternidade, o que a deixa arrasada. O absurdo é tão grande que o capitão se lembra de Trelane do encontro durante a comemoração do centenário da Federação. O ente finalmente se revela para o capitão e diz que está conduzindo um trabalho de escola. Ele acredita que as viagens espaciais obrigam os tripulantes a deixar de lado seus conflitos internos, então decidiu criar uma situação para remediar isso. Trelane insiste que Pike coopere. De volta à trama, o capitão tenta convencer Uhura de que ela está sob influência alienígena, mas ela se revolta com ele.
Enquanto isso, em uma nave cargueira, La’An faz um resgate de Sybok, o único doador compatível com Spock. Mas Sybok aqui é um irmão gêmeo. Na enfermaria, M’Benga recebe a notícia com alegria, mas está enfrentando ele mesmo problemas médicos, com tremores nas mãos. No bar, ele expõe a Una que está com loucura espacial. Ela o apoia, inclusive se for desejo dele sair da Frota Estelar. Ortegas ouve a conversa de longe e confronta M’Benga, admitindo que ela também tem loucura espacial, desde que escapara da nave gorn, e que ele conseguirá superar, assim como ela.
No espaço, Sybok tem outros planos: ele consegue pegar um feiser e render La’An. Mas está disposto a apostar seu coração num jogo de kal-toh. Se ela vencer, ele de bom grado cederá seu órgão para salvar Spock. O que era uma partida vira um jogo de sedução, em que Sybok convida La’An a compartilhar sua dor. Quando estão para se beijar, ela vence o jogo. Mas ele reergue o feiser e diz que não ajudará. Em vez disso, Sybok quer que La’An fuja com ele. Mas ela segue determinada em salvar Spock, e o irmão acaba cedendo.
Na Enterprise, a consulta de Pike termina, e a conselheira diz que o que ele está vivenciando – a ilusão de estar num melodrama – provavelmente tem relação com algo que aconteceu há duas semanas e o abalou. O capitão então encontra Uhura no bar e sugere que se reconciliem e façam a refeição que ela gostaria de fazer com o pai, que havia deixado a ela um livro de receitas antes de abandoná-la. Ainda aborrecida, ela prometeu pensar e, um tempo depois, vai aos aposentos de Pike. Quando ele abre o livro de receitas, ele estranha o conteúdo, fica chocado e sai abruptamente, sem falar nada.
No switcher, Trelane é supervisionado por uma professora Q, que acompanha tudo de perto, intrigada pelos resultados do experimento. Ele fica revoltado e diz que Pike não pode fazer isso, simplesmente sair de cena, antes de chamar o intervalo comercial.
Na enfermaria, a cirurgia começa, e M’Benga tenta realizar a cirurgia mesmo com loucura espacial. Spock parece reagir bem ao procedimento, mas Sybok está morrendo.
No bar, Pike reencontra Chivers e a consulta sobre a natureza da realidade. Ele mostra o livro de receitas e indica que diz respeito não a Uhura, mas a Juliet, a filha que Pike teve com Marie Batel na vida que vivera em um instante em Vadia IX.
Até Trelane se surpreende com a entrada de Juliet na história. Quando o capitão retorna a seus aposentos, a filha dele está lá – ela diz que sempre o visita quando ele passa perto de Galor III, como há duas semanas. O capitão está angustiado, sem saber se ela está mesmo lá, mas querendo muito que seja verdade. Os dois têm um momento de muita ternura, em que ela diz que sempre o amará, antes de desaparecer. Pike se vê sozinho em seus aposentos.
Trelane e a professora Q ficam encantados pela história. Com pipoca, ela agradece por ter chamado a atenção para aquelas criaturas primitivas, mas complexas, e dá uma boa nota a ele. A influência alienígena termina, e muito do que os tripulantes viveram não foi real – não houve Sybok, não houve cirurgia –, mas a tripulação mantém suas lembranças e sabe de tudo pelo que passou durante a novela de Trelane.
Spock e La’An se despedem de seu relacionamento no que parece ser a última vez. Pike conversa com a conselheira e se permite um momento de fragilidade ao chorar e manifestar sua saudade de Juliet e da família que ele teve por uma vida – e por um instante.
Comentários
E lá vamos nós de novo. “Like Chronitons Through the Hourglass” é mais uma tentativa de Strange New Worlds de ser algo que não é, desta vez emulando o melodrama de telenovelas, como forma de empacotar um drama real e profundo de luto, quando Pike precisa confrontar o fato de que a família com quem viveu uma vida inteira, à moda de “The Inner Light”, não está mais lá com ele. O capitão sente saudades da esposa Marie e especialmente da filha Juliet – até porque é um movimento traumático e contrário à natureza da vida um pai perder precocemente um filho ou uma filha.
Trata-se de uma premissa muito potente, que emerge de forma muito concreta do personagem e poderia render bons frutos – não estivessem os roteiristas mais uma vez numa paixão narcísica do quanto podem distorcer a forma de contar histórias de Star Trek sem quebrá-lo. Sim, o formato é muito resiliente e tolerante a distorções – não por acaso já nos avizinhamos dos mil episódios e ainda há muito o que fazer. Mas o fato de o conceito ser elástico não torna a forma mais maluca de contar a história necessariamente a melhor. Aqui temos uma escolha verdadeiramente trágica. Uma potente história de luto que é prefaciada por meia hora de humor satírico de melodrama.
A paixão pela forma em detrimento do conteúdo mais uma vez se manifesta, e temos um episódio em que imperam filtros e foco suave nas cenas da “novela”, filmadas em tela cheia, em contraste com as cenas “reais”, com a estética usual da série e enquadramento mais horizontal, como em tela de cinema. A justificativa aqui é melhor que em outros momentos – afinal, Trelane (e a essa altura temos de aceitar que é ele mesmo, e os canonistas que lutem) está preparando sua telenovela como parte de um trabalho de escola (o que orna com a ideia de “criança” vista em “The Squire of Gothos”), e o personagem sempre vem como um Deus ex machina incontornável – licença que torna tudo possível.
As atuações exageradas, os zooms agressivos, as pausas dramáticas… tudo evoca a estética das telenovelas. Não as brasileiras (em geral dramaturgia mais bem apurada e atuada), mas especificamente as americanas, das quais as parentes mais próximas conhecidas por aqui são as mexicanas. Decerto, quem já viu uma novela mexicana enxergou paralelos com o que é feito aqui.
Parte do problema é que o que nas produções que realmente adotam esse formato é estética aqui é sátira. Ou seja, tudo é ainda mais exagerado do que nas originais. Para efeito cômico, claro. Nesse nível, o episódio funciona. As piadas se encaixam bem e envelhecem pouco. Babs Olusanmokun em particular é excelente com sua atuação forçada. Só lembrar já faz rir. A direção de Anna Dokoza é perfeita nesse sentido também.
Ocorre que o episódio consiste em meia hora de sacanagem (o que começa a ficar até cansativo em certo ponto, porque os clichês começam a se repetir com muita frequência, e a história pouco avança), antes de pegar uma curva à direita e se transformar num drama real. Strange New Worlds querer endereçar o significado de Pike ter vivido uma vida inteira em um instante – o que implica tê-la vivido e perdido ao mesmo tempo – não só é desejável como está plenamente inserido na premissa da série, que se propõe a contar histórias episódicas com continuidade de personagens. Errado está tentar fazer isso depois de passar meia hora com uma avacalhação de telenovela. A mudança de tom é drástica, e isso tira muito da potência dramática do desfecho, em que pese a atuação excepcional de Anson Mount, mostrando a cada segundo (da comédia e do drama) por que é o astro principal da atração. Infelizmente, a produção o traiu nessa – não é fácil mergulhar nos potentes sentimentos do capitão após tantas distrações.
Ironicamente, a atuação mais centrada do episódio é a de Deidre Hall, que interpreta a conselheira Eleanor Chivers. Veterana de décadas na interminável novela americana Days of Our Lives, onde interpreta a psiquiatra Marlena Evans, aqui ela vem fazer exatamente o mesmo papel – e o faz com uma seriedade que expõe ao ridículo o esforço da produção de baratear o gênero do folhetim televisivo. Assim como “A Space Adventure Hour”, que apresentou uma versão ultra-ridícula da Série Clássica de Star Trek, “Like Chronitons Through the Hourglass” apresenta uma versão ultra-ridícula de Days of Our Lives, que pode ser lida como pura arrogância – além de acabar fazendo o tom do episódio errar o alvo pesadamente.
Mais uma vez, a serviço da premissa high-concept, os personagens – salvo Pike – são transformados em caricaturas de si mesmos. Ortegas e M’Benga manifestam suas inseguranças, Spock e La’An trazem algo das complicações de seu “relacionamento simples”, e Uhura mais uma vez manifesta seu trauma da perda dos pais. Mas o tratamento caricato e o contexto absurdo esvaziam esses momentos de significado. É tudo pelas risadas. E aí estamos falando dos personagens mais bem tratados. Una e Chapel fazem figuração de luxo, e o Scotty nem aparece.
Ethan Peck diverte fazendo a versão do “vilão canastrão de novela” personificado por Sybok, mas inevitável não ficar com a sensação de oportunidade perdida – é a segunda vez que o personagem, introduzido em Jornada nas Estrelas V: A Última Fronteira, ganha uma menção pesada, mas somos privados de vê-lo de fato em ação.
Os roteiristas optam, em vez disso, por gastar seus minutos na mitologia de Star Trek trazendo mais nuances à relação entre Trelane e o Contínuo Q, que é reforçada aqui, mas, novamente, apenas com referências tangenciais. O traje da professora Q lembra muito o usado por John de Lancie em “Encounter at Farpoint”, de A Nova Geração, como o juiz da Terra pós-apocalíptica do século 21. E Trelane quase apresenta seu nome (e viola de vez o cânone), antes de ser bruscamente interrompido por Pike (em mais um daqueles momentos em que os produtores dão uma piscada irônica para os fãs, dizendo “ah, se eu quisesse…”). Rhys Darby faz mais uma vez muito bem seu papel, embora com muito menos protagonismo do que em “Wedding Bell Blues”. Aqui o “espetáculo”, por assim dizer, está com a estética novelesca em si, e não com os personagens nela.
A despeito de entregar algumas risadas e ter uma premissa que realmente merecia ser perseguida no que diz respeito ao capitão Pike, o episódio acaba errando o alvo – o que não seria um problema tão grande, se esse não fosse um exercício tão recorrente nesta quarta temporada. O conjunto da obra depõe contra a produção mais do que este segmento por si só.
Avaliação




Citações
“And I would encourage you not to read too much into what happened. It was, by nature, contrived.”
(E eu não encorajaria você a ler muito no que aconteceu. Foi, por natureza, forçado.)
Spock, a La’An Noonien-Singh
Trivia
- O roteirista Bill Wolkoff volta para seu oitavo episódio, desta vez em parceirado com Dana Horgan, que vai também para seu oitavo episódio, que é o terceiro só nesta temporada, após “A Case of Chiaroscuro” e “Level-Five Transporter Accident”.
- Anna Dokoza faz sua estreia na direção de um episódio de Strange New Worlds. Seu trabalho mais notório é na série médica Chicago Med, onde trabalha na produção e dirigiu vários episódios.
- O título é uma referência à narração introdutória da novela Days of Our Lives: “Like sands through the hourglass, so are the Days of Our Lives.” (Como areia pela ampulheta, assim são os dias de nossas vidas.)
- Crônitons são partículas fictícias frequentemente mencionadas em Star Trek. Costumam estar associadas a fenômenos de deslocamento temporal.
- O episódio alterna sequências filmadas em tela cheia (16:9) e em formato de cinema (2,39:1), algo que já havia sido usado antes na série em “Those Old Scientists” e “A Space Adventure Hour”. Isso sem contar “What Is Starfleet?”, que é totalmente apresentado em 16:9.
- O episódio conta com uma cena pós-créditos, além de uma sequência de abertura da telenovela Days of Enterprise, criada por Trelane. É a segunda vez que uma cena pós-créditos em Star Trek traz uma propaganda de cereal, depois de “The Trouble with Edward”, de Short Treks.
- Com a introdução da personagem Eleanor Chivers, Strange New Worlds estabelece que naves estelares já levavam a bordo conselheiros pelo menos desde o século 23 – o que faz certo sentido, mas jamais foi visto antes. A função ganhou proeminência na franquia com a conselheira Deanna Troi, de A Nova Geração, que se passa no século 24.
- A atriz Deidre Hall é uma lenda das telenovelas americanas. Ela interpreta a psiquiatra Marlena Evans em Days of Our Lives desde 1976. Certa vez, ela foi sequestrada na interminável novela por um personagem interpretado por John de Lancie – por sinal, foi o papel dele em Days of Our Lives que chamou a atenção de Leonard Maizlish, advogado de Gene Roddenberry, que então o indicou para o papel de Q em A Nova Geração.
- Apesar de ser creditado, Martin Quinn (Montgomery Scott) não aparece neste episódio.
- Ethan Peck interpreta o ilusório Sybok, numa referência ao clássico clichê das telenovelas do “gêmeo malvado”. Caso famoso no Brasil foi o das irmãs Ruth e Raquel, da novela Mulheres de Areia (1993), da TV Globo. Ambas foram então interpretadas por Glória Pires.
Ficha Técnica
Escrito por Dana Horgan & Bill Wolkoff
Dirigido por Anna Dokoza
Exibido em 3 de setembro de 2026
Título em português: “Como Crônitons pelas Areias do Tempo”
Elenco
Anson Mount como Christopher Pike
Ethan Peck como Spock
Jess Bush como Christine Chapel
Christina Chong como La’An Noonien-Singh
Celia Rose Gooding como Nyota Uhura
Melissa Navia como Erica Ortegas
Babs Olusanmokun como Joseph M’Benga
Rebecca Romijn como Una Chin-Riley
Elenco convidado
Deidre Hall como Eleanor Chivers
Rhys Darby como Trelane
Diane L. Johnstone como inspetora
Alex Kapp como computador da Enterprise
Anna Mirodin como Juliet
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Edição de Maria Lucia Rácz
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